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PSICOPEDAGOGIA SISTÊMICA NA INSTITUIÇÃO PARA CRIANÇAS COM DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM
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Por Elisabeth Polity
- Primeira parte
Não podemos ainda esquecer da força sistêmica. O sistema tem uma força brutal. Se colocarmos uma criança mais frágil num sistema onde ela vai ser engolida, isso não pode ser bom em hipótese alguma, ela não tem recursos para lidar com este sistema, ela não pode fazer frente à força desse sistema

Como você está vendo o trabalho Psicopedagógico atualmente?

A psicopedagogia está ganhando um espaço muito grande, muito forte e muito bom. Contamos com bons cursos de especialização, consistentes, abarcando uma base teórica ampla. Esses cursos também contemplam a formação clínica, com prática e supervisão. Assim, o profissional adquire condições de desenvolver um trabalho de excelência.
Ao mesmo tempo, noto nas escolas, nas empresas e nas clínicas um espaço aberto para o psicopedagogo. Tenho conhecimento de empresas, que operam na área de RH, solicitando psicopedagogos para o corpo de profissionais.
A psicopedagogia vem se consolidando como área de conhecimento, como área de atuação, trabalhando interdisciplinarmente e fazendo as pessoas compreenderem que aprender não é algo necessariamente ligado ao ensino sistematizado, à escola. “Aprender é algo que se faz o tempo todo, durante toda a vida. Depois que deixamos de fazer as coisas por reflexos, tudo o que fazemos demanda aprendizagem. Aprendemos nas empresas, aprendemos nas instituições, aprendemos nas escolas, aprendemos com as famílias e nas famílias”, o que amplia muito o campo do psicopedagogo.

O psicopedagogo nas empresas já é uma realidade?

Tenho notícias de que isso é uma realidade. O profissional integrando equipes multidisciplinares, dentro de empresas, na área de relações humanas, trabalhando com as questões relacionais, com as questões da organização que aprende, com a visão compartilhada. Para as culturas orientais, aprender significa estudar e praticar constantemente. Creio ser este o espírito das organizações que pretendem atingir grandes mudanças .
Atualmente estou lendo um livro muito interessante chamado “A Quinta Disciplina”, que foi escrito por um Administrador (Senge, P.M., Ed. Best Seller, 1999), e tem por base o pensamento sistêmico. Ele afirma a questão da necessidade da aprendizagem das e nas relações: um profissional não pode só conhecer ou dominar o seu campo de trabalho. Ele precisa conhecer como se processam as relações, ter um razoável domínio pessoal, ter uma visão compartilhada e promover a aprendizagem em equipe. Creio que são requisitos plenamente tangíveis para um psicopedagogo, tendo em vista a pluralidade de sua formação.

Você tem duas publicações na área da psicopedagogia, do que elas tratam?

O primeiro livro é a minha monografia, apresentada como exigência para a conclusão do curso de especialização em Psicopedagogia, para a PUC-SP. Foi publicada pela Editora Lemos e chama-se “Ensinando a Ensinar”. Ele traz um pouco da minha experiência adquirida em uma escola, que atende crianças com dificuldades de aprendizagem. Foi um trabalho desenvolvido com uma equipe de professores, com o objetivo de estimular as reflexões sobre o trabalho com estes alunos. É um livro com suporte teórico voltado para a psicanálise. No primeiro capítulo, falo um pouco sobre o “autorizar-se a ensinar”, utilizando o conceito bioniano (W.Bion) de autoridade interna. Em outro capítulo do livro volto-me “a quem se ensina ?”; qual o objetivo de entender melhor este aluno com qual vou trabalhar, através do olhar da psicologia genética e da psicanálise.
No terceiro capítulo, proponho uma Psicopedagogia sistêmica, com o intuito de observar que os processos educacionais, que envolvem os sujeitos dentro de uma escola, estão inter-relacionados e se influenciam mutuamente. Ao perceber a escola como sistema, deixamos de colocar o foco no aluno com dificuldade e o redestribuimos por todos os subsistemas envolvidos.

No segundo livro “Psicopedagogia: um Enfoque Sistêmico - Terapia Familiar nas Dificuldades de Aprendizagem” da editora Empório do Livro, fui a organizadora. Escrevo com outras quatro psicopedagogas e terapeutas familiares.
Pretendemos falar um pouco sobre a dificuldade de aprendizagem iluminada pelas teorias da Terapia Familiar Sistêmica. As autoras propõe uma articulação entre a teoria sistêmica que embasa a terapia familiar e os pressupostos teóricos da Psicopedagogia.
No primeiro capítulo é dada uma noção geral do que é a Teoria Sistêmica, Cibernética de Primeira Ordem, Cibernética de Segunda Ordem, trazendo um aporte teórico para o leitor que não é da área. Nos outros capítulos, por intermédio de atendimentos clínicos, vamos tentando estabelecer relações entre o atendimento familiar e o psicopedagógico. A preocupação das autoras é a de estar mostrando a importância da família, da escola, do contexto social, das redes mais amplas, para o entendimento da dificuldade de aprendizagem.

Qual a vantagem do Enfoque Sistêmico no olhar psicopedagógico?

Penso que para melhor compreendermos as questões da aprendizagem, elas devem ser consideradas sistemicamente. O que vem a ser isso? A escola, a família do aluno, ele próprio, os professores, são todos integrantes de um sistema que formam uma unidade e tendem para a manutenção de um equilíbrio. Ao olharmos esses subsistemas de forma circular estaremos nos responsabilizando, e a todos os envolvidos, nos processos de aprendizagem e nas possíveis rupturas que possam aí surgir.
Dentro da minha experiência, trabalhando com alunos com a queixa de dificuldade de aprendizagem, pude perceber que embora essa possa ser uma condição ligada a múltiplos fatores internos do sujeito, ela está sobremaneira sustentada pelo meio familiar, escolar, social, no qual o sujeito está inserido.
A circularidade, enquanto propriedade dos sistemas, evita que sejamos presos pela cômoda possibilidade de eleger uma única causa para o problema.

E quanto à Instituição, o que o olhar Sistêmico propicia?

Tão importante quanto ter um modelo é perceber que ele não passa de uma metáfora. Assim, quando se fala em olhar sistêmico na Instituição isso é apenas um recurso que nos auxilia a ordenação de uma realidade complexa, possibilitando definições operacionais, lógicas e pragmáticas.
O que este modelo nos permite é perceber como as questões do aprender e do saber operam de uma forma relacional e circular. Tanto quem aprende como quem ensina, estão ambos implicados e mutuamente responsáveis pelos/nos resultados. Colocar tanto o ensinante quanto o aprendente, quanto às famílias de ambos, assim como os terapeutas envolvidos neste processo, a escola, o próprio contexto social, implicados e co - responsáveis pela mesma situação. Desta forma tiramos o foco da criança, deixamos de olha-la como bode expiatório, e redistribuímos o sintoma (no caso, as dificuldades de aprendizagem), por todos os envolvidos.

Na Escola Winnicott, como funciona isso na prática?

Em nosso trabalho, pretendemos por na prática esses ensinamentos, dentre outros expedientes, através da formação de redes de apoio.
Trabalhamos a pessoa do professor, a família deste professor (não no sentido de trazer a família deste profissional para dentro da escola, mas sim, quais os mandatos, valores e crenças, quais os mitos que permeiam a família do professor, inclusive o que o levou a escolher essa profissão, que sentido na sua história de vida faz com que apareçam dificuldades com determinados alunos e facilidades com outros).
Trabalhamos com os terapeutas que atendem nossos alunos. Trabalhamos com as famílias dos alunos, através de palestras, encontros, orientações.
Enquanto direção e coordenação, estamos igualmente implicados nesta situação de aprendizagem, inseridos que estamos no mesmo sistema.
O trabalho em rede permite uma melhor apreensão do contexto, clarificando a natureza do problema e as respostas que devem ser fornecidas.

O que se propõe e se espera do profissional em uma escola com crianças com dificuldade de aprendizagem, a formação deverá ser diferenciada?
Acredito que sim. Temos aqui no Colégio Winnicott reuniões semanais, com 2 horas de duração, onde são desenvolvidos trabalhos teóricos e práticos.
O aporte teórico visa trazer informação para os professores, uma vez que temos da 5ª série do ensino fundamental ao 3º ano do ensino médio, professores especialistas de áreas (as classes de 1ª. à 4ª série são comandadas por psicopedagogos).
Estes professores normalmente não detém um conhecimento da área da psicopedagogia, criando uma necessidade de trazer até eles, textos de psicanálise, lingüística, filosofia, pedagogia, teoria sistêmica, entre outros.
Damos ainda, especial atenção à formação da pessoa desses profissionais, desenvolvendo dinâmicas psicodramáticas, que visam favorecer seu auto-conhecimento.
A maior parte de nossos profissionais faz ou fez terapia. Considero que é uma das condições básicas para se trabalhar com alunos, sobretudo aqueles que apresentam dificuldade no aprendizado.

Quais são os problemas mais comuns encontrados na população de crianças com problemas de aprendizagem?

Quando fiz minha tese de mestrado “As dificuldades de Aprendizagem à Luz das Relações Familiares: um ensaio sistêmico” ocorreu-me fazer uma pesquisa, no colégio, acerca das ” dificuldades” que mais apareciam como queixa inicial.
À primeira vista, os problemas emocionais emergiram como maioria. Depois, com um olhar mais detalhado e mais atento, pude perceber que as dificuldades se sobrepõe. Na verdade, você nunca tem uma única causa, mas um conjunto de situações que favorecem o aparecimento e a manutenção do sintoma (aqui entendido como dificuldade de aprendizagem). Na maioria das vezes, há um entrelaçamento de vários fatores (por exemplo: neurológicos, genéticos, cognitivos, familiares, sociais, escolares, etc..) que precisam ser compreendidos sistemicamente.
Esse movimento me permitiu observar o papel fundamental dos sistemas envolvidos, em especial o da família, que foi o alvo de minha pesquisa e poder concluir que seja qual for a etiologia da dificuldade de aprendizagem o apoio do sistema familiar é decisivo para a condução do processo.
Um exemplo que cito na minha dissertação: o estudo de uma criança com síndrome de X Frágil (alteração cromossômica caracterizada pela mutação do cromossoma X do par sexual XY. Atinge pessoas do sexo masculino e caracteriza entre outros por sintomas como: dificuldade para entender conceitos abstratos, depressão ou hiperatividade, traços de autismo, lentidão de raciocínio). No caso a que me refiro, a criança vem de uma família funcional, onde o pai e mãe tem muita clareza para lidar com a situação, propiciando desta forma, que a criança desenvolva seu potencial. Apesar das dificuldades próprias do quadro, outras variáveis favoráveis estavam presentes e se faziam notar, oferecendo um bom desenvolvimento para a aquisição da aprendizagem.
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