Passeata dos Cem Mil (1968)

No dia 26 de junho de 1968, 100cem mil pessoas saíram as ruas contra a ditadura, veja algumas manchetes do dia seguinte

"Por seis horas, mais de 100 mil cariocas protestaram contra o Governo, apoiando o movimento dos estudantes que, conforme o previsto, foi sem incidentes, com dezenas discursos de universitários, operários, professores e padres, que definiram "o compromisso histórico da Igreja com o povo".

Com perfeito dispositivo de segurança, os estudantes garantiram a realização da passeata, sem depredações, chegando a prender e soltar um policial que incitava a que fosse apedrejado o prédio do Conselho de Segurança Nacional. A concentração começou às 10 horas, com os primeiros grupos de padres e estudantes, sem qualquer policiamento ostensivo.

Entre os primeiros oradores estava o representante da Igreja, ressaltando que "Calar os moços é violentar nossas consciências". Presentes cerca de 150 padres, inclusive o bispo-auxiliar do Rio de Janeiro, Dom Castro Pinto, que acompanhou a passeata, durante os 32 minutos de travessia da Av. Rio Branco. Na Candelária, falou Wladimir Palmeira, lembrando o assassinato do secundarista Edson Luís, "que um dia será vingado".

A manifestação seguiu para o Palácio Tiradentes onde houve novos discursos, inclusive de um representante dos favelados, o mais aplaudido, ao afirmar que agora eles também "estavam na luta". No local foi queimada uma bandeira dos Estados Unidos, um policial tentou prender Wladimir Palmeira, mas não ocorreram incidentes. Ficou decidido dar o prazo de uma semana ao Governo, para atender às reivindicações, entre elas a de liberdade para todos os presos políticos. Marcaram também para hoje, encontro de toda a liderança estudantil, com o objetivo de analisar os resultados.

Informou a Secretaria de Segurança que ninguém foi detido, mas o DOPS prendeu cinco estudantes que distribuíram panfletos. A Polícia Federal pediu ao CONTEL que proibisse a exibição de filmes e transmissão de reportagens em rádio e televisão que "mostrem tumultos em que se envolveram os estudantes", e o governador Negrão de Lima, cercado por 100 soldados da PM, acompanhou, através de informações, todo o movimento, declarando-se satisfeito com os rumos da manifestação. (...)"

"A Guanabara ofereceu ontem ao Governo edificante exemplo de maturidade política. Estudantes, professores, intelectuais, artistas, jornalistas, clero, pais e populares realizaram na mais absoluta ordem sua manifestação. O governador Negrão de Lima autorizou. Recolheu aos quartéis a Polícia Militar e o DOPS. Entregou a segurança da Cidade aos próprios manifestantes. Não houve incidentes. A ordem, a propriedade privada, os próprios federais e estaduais, a vida das pessoas foram assegurados. A primeira conclusão a retirar-se dos fatos é a de que a repressão policial contra atividades políticas legítimas é que gera os conflitos.

Dir-se-á que houve discursos radicais. Mas esses discursos não incitaram à desordem. Além disso, proferi-los é direito garantido pela liberdade de pensamento. O importante não é constatá-los, mas saber se incitaram ou não ao tumulto. Ontem, não incitaram. Não tiveram sequer o respaldo de faixas com os nomes de Guevara, Mao Tsé-tung e Ho Chi Min, comuns nas manifestações estudantis em todo o mundo.

Elas foram substituídas por algo mais expressivo, para a inteligência política do Governo: o veemente entusiasmo dos que, não tendo descido às ruas, aplaudiram do alto dos edifícios os manifestantes, emprestando-lhes decidida solidariedade.

Essa solidariedade significa voto de repulsa popular, não só à repressão policial dos últimos dias, como rejeição da consciência nacional ao confinamento do País num sistema institucional restritivo de suas liberdades, mesmo quando para mostrar essa restrição não apela para a violência ostensiva."
Correio da Manhã, 27 de junho de 1968

 

"Em gigantesca manifestação popular que se caracterizou pela ausência de distúrbios, no qual os únicos policiais presentes foram os guardas de trânsito, perto de cem mil pessoas realizaram ontem a anunciada passeata durante a qual o povo, fazendo causa comum com os estudantes, verberou a omissão do governo nos problemas do ensino. Antes da passeata, foram presos quatro estudantes sob acusação de conduzirem material subversivo, e o ministro da Justiça, à noite criticou os responsáveis pela queima de uma bandeira americana. Enquanto isso em Porto Alegre, as manifestações de rua acusavam um saldo de seis estudantes feridos e hoje, em Fortaleza, anuncia-se a realização de manifestação semelhante à do Rio."

"Uma multidão calculada em 100 mil pessoas realizou ontem, durante mais de sete horas a anunciada passeata de estudantes, padres, artistas e mães pela liberdade dos estudantes detidos pela Polícia, pelo ensino superior gratuito e contra as Fundações.

O movimento, que não registrou qualquer distúrbio, começou com uma concentração na Cinelândia, às 10,30 horas, ganhou o Largo da Candelária às 15 horas onde se deteve por 45 minutos para um comício, e rumou pela rua Uruguaiana até a estátua de Tiradentes na Praça Quinze, onde foi encerrado, às 17 horas.

Eram mais de 10 horas quando começaram a chegar à Cinelândia os primeiros participantes da passeata, trazendo faixas e cartazes. As escadarias do Teatro Municipal começaram a encher-se de conhecidas figuras dos meios religiosos, artisticos e estudantis, entre êles Paulo Autran, Djanira, Eneida etc.

Aos gritos de "liberdade, liberdade" os estudantes deram início aos discursos inflamados, clamando por mais verbas para as universidades, ensino gratuito, contra a tentativa de transformação das universidades em fundações e em protesto contra a prisão dos líderes estudantis.

Poucos minutos antes do meio-dia chegou ao local o estudante Wladimir Palmeira que salientou em breve discurso "a derrota do govêrno na realização da passeata para a qual não foi pedida autorização, mas que custou o sangue e muita pancada nos estudantes".

Volta e meia, enquanto falavam os oradores estudantis faziam-se apelos contra tentativas de distúrbios, constatando-se mesmo a presença de grupos de estudantes prontos a sufocar qualquer início de quebra-quebra. A preocupação de não danificar automóveis, vitrines e não dar pretexto a intervenções policiais foi uma constante em todo o movimento.

Às 13 horas, começaram a falar os sacerdotes e artistas, já com a presença de Dom José de Castro Pinto, que disse estar "muito emocionado com o espírito de união do povo".

Poucos minutos antes das 14 horas, teve início a passeata em direção à Candelária.

Por todo o trajeto, enquanto as moças pintavam inscrições com "spray"nas paredes, toneladas de papel picado brotavam do alto dos edifícios, emprestando à manifestação um colorido festivo. Correspondentes estrangeiros comentavam a facilidade com que o povo debate os seus problemas mais sérios e profundos.

Por volta das 15 horas, os manifestantes chegaram à Candelária, cuja praça ficou literalmente tomada. Em silêncio, a multidão ouviu os discursos dos líderes e rumou, 45 minutos depois, para a rua Uruguaiana, por onde desceu até a rua Sete de Setembro, até a Praça 15, ocupando as cercanias do Palácio Tiradentes.

Novamente se ouviram discursos, inclusive de um favelado, e por fim o estudante Vladimir Palmeira, admitindo não existir qualquer estudante prêso, deu por encerrada a manifestação, saindo sob proteção de um esquema de segurança até a rua da Assembléia, onde embarcou num carro particular. Em poucos minutos a multidão dispersou. Estava terminada a passeata."
O Jornal, 27 de junho de 1968

 

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