ATUALIDADES

"Coisas do Brasil" 

        A Petrobrás, uma das maiores empresas de energia do mundo, é um dos poucos símbolos que ainda conseguem galvanizar um certo sentimento de identificação nacional entre os bra-sileiros. A eventual privatização da Petrobrás, por isso mesmo, seria um evento que transcenderia a mera esfera econômica, para adquirir um estatuto estratégico. Para utilizar uma analogia militar, equivaleria a derrubar o último bastião da nacionalidade, no país mais importante da América Latina. O caminho, então, estaria muito mais desimpedido para a completa recolonização do hemisfério. Ora, o imperialismo americano colocou em prática uma estratégia de recolonização em grande escala. Essa estratégia inclui um movimento de pinça, composto por um grande componente geopolítico – a ocupação militar da Amazônia, por meio do Plano Colômbia –, e por um grande componente econômico – a criação da Alca (Associação de Livre Comércio das Américas), tema de uma reunião de todos os países do hemisfério, exceto Cuba, convocada para o dia 20 de abril, em Quebec. 

    A ocupação da Amazônia, a pretexto de combater o narcotráfico, foi precedida de uma vasta campanha pela “internacionalização” da região, o suposto “pulmão do mundo” que precisa ser “salvo” pela civilização branca, de preferência protestante, contra a ação predatória dos “bárbaros” latino-americanos. E a Alca surge como uma resposta dos Estados Unidos à incompetência das nações do hemisfério, que jamais conseguiram organizar de maneira eficiente o seu parque produtivo. Claro que tudo seria muito mais fácil, não fosse a existência de alguns movimentos que teimam em resistir, e não fosse a permanência de alguns poucos símbolos nacionais importantes, como é o caso da Petrobrás. A destruição da Petrobrás como símbolo torna-se tão importante, nesse quadro, como a sua privatização. Isto é, o seu valor     psicossocial rivaliza com os lucros que a empresa pode gerar. 

    Daí que seria muito útil, a qualquer um interessado na privatização da Petrobrás, que a empresa fosse desmoralizada como símbolo. Facilitaria o processo de privatização e quebraria uma imensa barreira à estratégia de recolonização americana. Essa constatação torna inevitável a pergunta: será que a espantosa série de “acidentes” envolvendo a Petrobrás é realmente “acidental”? Se a resposta for positiva, paramos por aqui. Concluiríamos, então, que não apenas Deus não é brasileiro, como é favorável à privatização da empresa. Talvez ele até seja protestante, loiro e de olho azul. Mas, se a resposta for negativa, então teríamos de refletir sobre quem poderia estar provocando esses acidentes. Não há, é claro, como fazer uma afirmação taxativa, mas a história fornece algumas indicações precisas. : Em 1953, Mohamed Mossadegh, presidente do Irã, nacionalizou o petróleo de seu país, então explorado por companhias britânicas e americanas. Foi derrubado por um golpe articulado pela CIA (servi-ço secreto dos Es-tados Unidos), que empossou o ditador fantoche Reza Pahlevi, responsável por uma das ditaduras mais sangrentas do planeta. Caiu em 1979, sob o impacto da revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini. Em 1954, o então presidente da Guatemala, Jacobo Arbenz, nacionalizou uma empresa americana exportadora de bananas, a United Fruit. Foi derrubado por um golpe articulado pela CIA, gerando uma guerra civil que, em quatro décadas, matou pelo menos 50.000 pessoas. Depois da Revolução Cubana, em 1959, a CIA multiplicou suas ações em toda a América Latina, apoiada na odiosa Doutrina de Segurança Nacional, criada em 1962 pelo “democrata” John Kennedy, que transformou os exércitos nacionais em inimigos de seus próprios povos (como se viu, no Brasil, com a instauração da ditadura militar, em 1964). 

    Durante o escândalo Irã-Contras (1987), comprovou-se que a CIA utilizou o narcotráfico como meio de obter verbas para, clandestinamente, comprar armas do Irã e cedê-las à guerrilha de direita (os “contras”), que lutava para derrubar o governo sandinista da Nicarágua. Mais recentemente, em 1996, a França quase rompeu relações diplomáticas com os Estados Unidos, ao constatar que a Casa Branca utiliza um sistema internacional de espionagem eletrônica, o Echelon, mediante o qual conseguiu “furar” e vencer uma licitação internacional para criar o Sivam (Sistema de Vigilância da Amazônia). A licitação foi vencida pela empresa americana Raytheon, que tirou uma empresa francesa do páreo. O governo americano foi levado a admitir, formalmente, a existência do sistema Echelon de espionagem. Como perguntar não ofende, vamos colocar de novo a questão: será que a espantosa série de “acidentes” envolvendo a Petrobrás é realmente “acidental”? Quando o presidente do Senado qualifica de “velha prostituta” um ex-presidente do Senado, e quando este acusa o outro de “ladrão” e responde que prostitutas abraçaram a sua profissão por não terem tido a chance de saquear o Tesouro público, e quando nada acontece – quando nem sequer a mídia reage, com indignação, a espetáculo tão grotesco–, então resta pouco a dizer, exceto, talvez, concordar com ambos, e lamentar que a mídia tenha descido a tal grau de conivência com a banalização do mal. A “nova onda” funk gerou dois tipos antagônicos de reação, ambos equivocados. O primeiro é moralista; condena o uso de “palavras obscenas” e “gestos lascivos”, como faz, por exemplo, a edição 1.693 da revista Veja, de 28 de março (páginas 83 a 86). Com esses argumentos, teríamos de crucificar uma ampla linhagem de autores “malditos”, passando por Gregório de Matos, Bocage e um certo Carlos Drummond de Andrade, para citar só os de língua portuguesa. No outro extremo, estão aqueles que acham que “tudo pode”, e identificam no funk uma manifestação “popular”; confundem o popular com o vulgar, com o popularesco. É o raciocínio que, no limite, diria que Ratinho é popular, ao passo que Karl Marx é de “elite”. 

    O problema do funk não é o funk. A moda vai passar, como já passou a onda da “boquinha da garrafa” e outras bobagens semelhantes. O problema é que cada uma dessas novas “ondas” contribui para depreciar um pouco mais a relação do ser humano com seu próprio corpo, para banalizar a relação sexual, para industrializar o erotismo e criar comportamentos de massa que são, de fato, a negação da sexualidade naquilo que ela tem de mais singular e individual. É a operação inversa à da alta cultura ou mesmo da cultura popular e folclórica: em vez de criar novas possibilidades para o espírito, cria comportamentos condicionados; no lugar do pluralismo, o sempre igual, a rotina, o mesmo: gestos, ritmos, versos padronizados, produzidos em série para um público condicionado a não pensar. Como não há limite para o desejo sexual e para as pulsões, é apenas razoável supor que a próxima “onda” vá ser ainda mais explícita, mais violenta, mais agressiva do que a atual (como o funk é mais explícito que a garrafa, e esta mais do que a lambada e assim por diante). Mas este é, precisamente, o fundamento da sociedade de consumo: o gozo está sempre além, é preciso sempre mais. 

    César entendia isso muito bem, ao oferecer como espetáculo a entrega dos cristãos aos leões. A televisão, em nossa época, substituiu o circo romano; a carne que se mostra é a do sexo, das cachorras e dos tigrões. O sangue fica para o suposto “jornalismo verdade” das chacinas em favelas e cenários urbanos. E a classe média, lobotomizada entre dois pólos – sexo e violência, Eros e Tânatos –, entrega-se, impotente, à razão cínica do salve-se-quem-puder. A crítica moralista do funk só serve para ocultar a indústria da carne e do sangue, tanto quanto a sua aceitação populista e demagógica. 

José Arbex Jr. é jornalista.

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