Indagações? Comuns; Olhares? Vários; Perspectivas? Diversas    

Indagações? Comuns; Olhares? Vários;
Perspectivas? Diversas

Beatriz Corso Magdalena
Bióloga, pesquisadora do LEC/UFRGS

Iris Elisabeth Tempel Costa

Psicóloga, pesquisadora do LEC/UFRGS

 

"Um único ponto quase certo no naufrágio
(das antigas certezas absolutas):

o ponto de interrogação" 1

     Está se iniciando o primeiro ano letivo do novo milênio. Longe de ser banal, este fato deve nos levar, com mais determinação e responsabilidade, a confrontar nossos "dizeres" com nossos "fazeres", nossas metas com os resultados alcançados, a escola que idealizamos com a escola que temos.
      Ano após ano, temos recomeçado, como Sísifo, nosso trabalho junto a turmas de novos alunos esperando que tenham experiências férteis, significativas e, acima de tudo, bem sucedidas.  Ano após ano, temos iniciado o ano letivo, um pouco pesarosos por termos que abandonar o tempo de "ócio" que nos cabe, mas eivados de sonhos, metas e boas intenções que se traduzem em diretrizes, planos, estratégias e nos Projetos Político-Pedagógicos de nossas escolas.
      Muito projetamos, mas em que medida, realmente, rompemos com o estado atual do nosso fazer pedagógico? O que temos feito em função do que sabemos ou pensamos saber? Em que medida nossos projetos supõem rupturas com o presente e promessas para o futuro? Temos nós a intenção de sair de um estado conhecido, apesar do risco de passar por períodos de insegurança, instabilidade e incerteza, para buscar um estado ainda desconhecido, porque acreditamos ser melhor que o atual?

      Nas escolas, a cada momento que passa, fica mais evidente o conflito entre a fragmentação das disciplinas "ministradas" em sala de aula e a integração com os problemas do nosso viver. É cada vez mais evidente a contraposição entre a visão disciplinar, unicausal e linear da escola e a realidade que, para ser entendida, exige uma visão interdisciplinar, policausal e em rede.
      No espaço escolar atual, os alunos ainda são obrigados a trabalhar com retalhos de problemas selecionados pelos professores, pelos livros "didáticos", ou definidos pelas grades de conteúdos. Neste processo, em que a busca de relações e as soluções já estão pré-definidas, espera-se que os alunos compreendam e solucionem problemas apresentados de forma parcial e, muitas vezes, fora de seu contexto. Este tipo de "problematização", ao contrário do esperado, empobrece a realidade, subtrai dados e induz os alunos a pensar de forma simplificada, a descartar ou deixar de conhecer as prováveis múltiplas causas ou elementos que se articulam, interagem e trazem complexidade ao objeto em estudo e, consequentemente, diminui a possibilidade de conhecê-lo em todas as suas facetas.
      Para exemplificar, tomemos o problema da fome mundial como objeto de estudo apenas pelos pontos de vista da produção e distribuição, não equilibradas, de alimentos. Esta fragmentação do problema, pode suscitar uma análise superficial, simplificada e dissociada da complexidade da realidade, que pode nos induzir a pensar que basta uma distribuição melhor dos alimentos para que o problema da fome mundial seja resolvido. Na verdade, estaríamos longe da essência do problema, profundamente enraizada nas relações e interesses multidimensionais entre nações e, mais que isto, entre homens.
      Estudos compartimentalizados, como o exemplificado acima, têm sido constante em sala de aula e têm originado resultados cruéis, pois impossibilitam que crianças, jovens e adultos em formação reconheçam a essência dos problemas, geralmente, ligada à redes de relações de causas e efeitos combinados, que extrapolam os limites dos diferentes campos do conhecimento. Por estas características de fragmentar para analisar, sem reunir para sintetizar, as escolas estão facilitando processos de formação de cegos à complexidade que os problemas, cada vez mais globais, apresentam. São alunos que sabem muito, mas compreendem pouco. Montaigne, em seu tempo, já dizia com propriedade que não adianta ter a cabeça cheia e sim ter a cabeça feita. Trocando em miúdos, podemos dizer que não adianta vencer todos os conteúdos das diferentes disciplinas se nossos alunos e nós mesmos não soubermos organizá-los em um todo coerente e articulado, capaz de servir de suporte à reflexões e tomadas de decisões.
      Esta afirmação é sustentada por Morin2, quando coloca que, em uma sociedade da informação, um ensino que visa "cabeça cheia" atrofia o pensamento, reduzindo as possibilidades de reflexão e compreensão e eliminando as possibilidades de julgamentos críticos e articulados, próprios de um cidadão consciente, autônomo e competente.
      Favorecer a autonomia e desenvolver competências pressupõe criar um ambiente desafiador e aberto ao questionamento, um ambiente que instiga a curiosidade dos alunos, que mobiliza seus conhecimentos, desnuda suas lacunas e estimula-os a eliminá-las.3

Que critérios usamos para selecionar as estratégias, as atividades e os recursos (meios) para atingir o que almejamos (fim) para nossos alunos?

 

     A conquista de muitas metas curriculares exigem a proposição coordenada entre os professores, pois estão vinculadas à objetivos que não têm relação com a parcela singular de determinada área, disciplina ou conteúdo e, no entanto, são os que perseguem os resultados mais decisivos da educação - formar o aluno para que desenvolva a capacidade de expressão, a competência para encontrar informações apropriadas para resolver problemas, a atitude investigativa, a comunicação escrita de pensamentos próprios, a capacidade de saber fundamentar uma atitude crítica, de aprender a colaborar e cooperar.4 

     Para selecionar e ponderar o valor educativo das atividades, que pensamos propor aos nossos alunos, Raths5 sugere alguns critérios. Segundo ele, tem maior valor educativo as atividades que:
1- Permitem ao aluno tomar decisões quanto ao modo de desenvolvê-la ou em que fonte buscar as informações;
2- Colocam o aluno em um papel ativo: pesquisar, expor, observar, entrevistar, participar em simulações tem maior valor educativo do que escutar, preencher fichas, ou participar em discussões rotineiras com o professor;
3- Estimulam os alunos a se comprometer na pesquisa de idéias, na aplicação de processos intelectuais ou em problemas pessoais e sociais; 4- Envolvem o aluno com a realidade;
5- Envolvem alunos com diferentes interesses e níveis de capacidade. Atividades como imaginar, comparar, classificar ou resumir não impõem normas únicas de rendimento nos resultados possíveis;
6- Estimulam os alunos a examinar idéias ou aplicação de processos intelectuais à novas situações, contextos ou materiais;
7- Desafiem os estudantes a examinar temas ou aspectos nos quais as pessoas não costumam se deter normalmente e que são ignorados pela mídia;
8- Obrigam a aceitação de um certo risco de sucesso, fracasso ou crítica, que podem supor sair de caminhos muito percorridos e aprovados socialmente;
9- Exigem dos alunos que escrevam de novo, revisem e aperfeiçoem seus esforços iniciais, em vez de aparecer como meras "tarefas a completar", sem lugar para a crítica nem o aperfeiçoamento progressivo, efetuando-as de uma vez por todas;
10- Comprometem os alunos na aplicação e domínio de regras significativas, normas ou disciplinas, controlando o que fizeram, submetendo-o à análise de estilo e sintaxe;
11- Oportunizam aos estudantes planejar com outros e participar em seu desenvolvimento e resultados;
12- Permitem a acolhida de interesses dos alunos para que se comprometam pessoalmente.
E nisto, o que tem a ver a Internet?

      A possibilidade de desenvolver atividades significativas, que instigam os alunos a lançar e resolver problemas, recolhendo dados, informações, elaborando enquetes, trabalhos de campo para, depois, reunir, organizar, comparar e interpretar estes dados, confrontar a realidade próxima e a distante, amplia-se enormemente se usarmos adequadamente todos os recursos que nos são oferecidos por este meio de comunicação que é a Internet.

      Desde o Ensino Fundamental, a Internet pode ter lugar de destaque. A problematização individual e coletiva deveria estar presente já nesta fase, pois se o professor toma para si a tarefa de escolher os caminhos e as questões que devem ser feitas está favorecendo a morte antecipada da curiosidade e de outros possíveis meios de alcance da resposta.
      Uma indagação individual que encontra eco no pensamento de outras pessoas, uma dúvida de alguém que pode ser também nossa e de muitos outros, quando socializada, pode criar uma sinergia na busca de respostas. Mas, por sermos todos diferentes, ela pode se expressar sob  formas e caminhos próprios. Um exemplo bem original apareceu em um chat de professores. Um deles ao se identificar apenas com seu nome, gerou 3 indagações:
Olá! És a T. de Santa Maria?
É a T.  M..?
Oi T. És a gaúcha?
      Estas 3 questões buscavam a mesma resposta, mas partiram de diferentes pontos de referência: a cidade, o sobrenome e o estado, que o nome T. evocou em cada um dos interlocutores, baseados em conjuntos diferentes de relações.

      Se transpusermos situações desta natureza para a sala de aula, sem dúvida poderemos ter inúmeros exemplos de situações como estas: caminhos diferenciados para chegar ao mesmo objetivo.

      Infelizmente, ao invés de estimularmos a originalidade, é comum, acontecer que respostas de alunos são consideradas erradas, pelo professor, quando suas linhas de raciocínio envolvem outros elementos ou dados da porção de realidade em estudo. Com o corte de uma discussão acerca desses caminhos diferenciados, a linearidade não se rompe e os fatos, fenômenos, noções e conceitos não se ampliam, escondendo suas múltiplas possibilidades relacionais. Perdemos a oportunidade de nos aproximar mais do real.
      Morin enfatiza a idéia de que dados coletados em diferentes espaços tornam os problemas mais amplos e com maiores possibilidades de serem resolvidos e compreendidos. É a idéia de trabalhar as situações problemas na versão local e global. Lembra, também, que visões mais integradas são ainda mais viáveis quando a solidariedade entre as pessoas de diferentes culturas acontece. Ao contrário da situação posta anteriormente, aumenta a probabilidade de compreendermos mais profundamente o nosso entorno.

      Nesta perspectiva, a Internet aparece como excelente recurso propiciador destes encontros solidários, mediante planejamentos de projetos compartilhados (em que a colaboração e a cooperação são componentes característicos ), em listas, chat, fóruns.
      Um exemplo destes encontros e que redundou em substancial alargamento do conceito praia pode ser encontrado durante o planejamento conjunto de um projeto colaborativo com este tema, por um grupo de participantes da lista Multiplicadores:
"(..)Chegou a colaboração da S. (...) Ela sugere pau de arara como uma das opções de locomoção para a praia. Esta sugestão só poderia vir do norte, não é mesmo?" I

"(..) Onde moro temos lagoas, bicas e algumas cachoeiras. O item nº. 9 do formúlario possibilitou-me rever conceitos, que não são novos, sobre o significado da palavra praia. Segundo o dicinonário brasileiro de Língua Portuguesa: praia= região banhada pelo mar (água salgada), trecho do leito dos rios (curso de água que deságua no mar, num lago ou noutro rio) que  forma série de ilhotas quando as águas baixam muito. A reflexão que faço é que na região que eu moro a maioria das pessoas quando vão para a praia (aprox 65km²)  estão referindo-se ao mar. Por aqui é muito díficil alguém dizer que vai a praia referindo-se a um rio, lagoa ou cachoeira." E

"Li o chat que vcs participaram onde surgiu a idéia de se fazer um projeto abordando praias. Achei a idéia magnífica, pois é um tema riquíssimo, que pode ser amplamente discutido. Principalmente em se tratando de um país banhado quase que totalmente pelo oceano Atlântico. Podemos levantar várias questões, que terão respostas diferenciadas de acordo com cada região. Eu que sou formada em Geografia adoro discutir esses problemas que envolvem a parte geográfica, e principalmente a social, como no caso desse projeto. Analisei o questionário e até discuti algumas questões com minha companheira E. Realmente estamos acostumadas a pensar em praia somente com água salgada e areia e nem sempre precisa ser dessa forma. O item 9 nos proporcionou pensar melhor sobre esse assunto. Ainda não me ocorreu nenhuma idéia para acrescentar ao questionário, mas quem sabe no fim de semana...após uma praia...(que pode ser de lago, rio....)"P
"Sou B do NTE .... Gostaria de participar deste projeto. Aqui as praias são de água doce e artificiais, acredito que teremos uma realidade diferenciada de outros lugares o que poderá ser interessante".

"( &) o tema é abrangente possibilitando contribuições riquíssimas, maximizando o conceito de praia. Inclusive os meus conterrâneos de B. têm subsídios para falar sobre praias de rio onde por incrível que pareça, dá até para praticar o Surf." S.

E como são estes Projetos Colaborativos, onde pessoas e/ou diferentes grupos vão se agregando pelo interesse que o tema suscita?

      Normalmente são projetos escolares, que nascem de curiosidades ou temas que interessam a um grupo de alunos e necessitam de informações diversificadas, inclusive de espaços distantes daquele em que estão os projetistas. Estes temas, em função da sua abrangência e da quantidade de dados que acabam gerando, levam os alunos a ter que estabelecer relações entre informações de diferentes áreas, favorecendo a interdisciplinaridade. Neste caso, com a Internet, alunos e professores podem buscar a colaboração e a cooperação de outros grupos de alunos, da comunidade, de especialistas, enfim daqueles que poderiam ser parceiros na coleta de dados, na sua organização e análise.

      A experiência tem mostrado que a possibilidade de termos adesão colaborativa parece maior quando a busca de uma resposta, via Internet, implica em pedido de informações específicas. Aos poucos podemos tornar a troca cada vez mais complexa e os projetos colaborativos, mais cooperativos, onde os grupos e/ou pessoas operam em conjunto. Assim, por exemplo, buscar um determinado dado ou informação de como acontece algo em diferentes locais: que horas o sol nasce em determinado dia e que horas se põe; o que comem no café da manhã; a temperatura na sala de aula e na rua em determinadas horas de dias definidos; onde vão nas férias... Estas informações, uma vez organizadas e tabuladas, possibilitam descobrir tipos de alimentação, clima, temperaturas típicas de diferentes regiões, traçar mapas do movimento da terra ao redor do sol, discutir questões sócio-econômicas que regem as férias, locais preferidos de lazer, etc...

      A Internet, além disto, permite trocas sincrônicas e assincrônicas que facilitam constantes análises e combinações de como o projeto pode   se desenvolver. Estas trocas incentivariam a análise e o redimensionamento do projeto e dos dados coletados pelos parceiros, o que garantiria a participação de todos como sujeitos ativos.

Parece muito complicado? Será que vale a pena? O que podemos aprender? Que conteúdos podem brotar de uma atividade desta natureza?

      Para responder estas e outras questões, um pequeno grupo  reuniu-se, em um chat, para elaborar um Projeto Colaborativo que está em busca de parceiros.

     E então?
 

      Garantimos que vai valer a pena!!! Afinal, precisamos vivenciar desafios para poder desafiar nossos alunos. Em troca das colaborações recebidas, vamos socializar todo o material recebido,  bem como as análises feitas.



 

1 Salah Stétié em Morin, E. (2000). A cabeça bem feita: repensar a a reforma , reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
2 Morin, E. (2000). A cabeça bem feita: repensar a a reforma , reformar o pensamento. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil.
3 Perrenoud, P. (2000). Construir as Competências Desde a Escola. Porto Alegre:Artmed.
4 Sacristán, Gimeno J. (2000) O Currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: Artmed
5 Raths, J em Sacristán, Gimeno J. (2000) O Currículo: uma reflexão sobre a prática. Porto Alegre: Artmed p. 307

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