ABUSO SEXUAL NA INFÂNCIA
(trabalho apresentado como tema livre no XV Congresso
Brasileiro de Medicina Legal, em Salvador - Bahia, setembro de 1998)
No nosso trabalho estudamos conjuntamente os casos de abuso sexual e de agressão sexual.
Desta forma, selecionamos os casos de meninas de até 12 anos incompletos, que foram encaminhadas ao IMLLR para exame de conjunção carnal, no ano de 1997.
Dos 841 exames de conjunção carnal realizados no IMLLR em 1997, 188 foram de crianças até 12 anos de idade (22,3%).
DAS CRIANÇAS
Em 186 casos em que este dado estava correto, a classificação por idade mostrou que os casos examinados aumentam em proporção direta com o aumento da idade das menores. A média de idade foi de 7 anos.
| Idade |
|
|
|
|
8
|
4%
|
|
|
12
|
6%
|
|
|
21
|
11%
|
|
|
11
|
6%
|
|
|
10
|
5%
|
|
|
15
|
8%
|
|
|
13
|
7%
|
|
|
14
|
8%
|
|
|
22
|
12%
|
|
|
29
|
16%
|
|
|
31
|
17%
|
| TOTAL |
186
|
100%
|
DAS CARACTERÍSTICAS SOCIO-ECONÔMICAS DAS FAMÍLIAS
Em todos os casos registrados as crianças pertenciam a famílias carentes ou de baixa renda.
| LOCAL |
|
|
| ENTORNO |
7
|
5%
|
| PLANO PILOTO |
12
|
9%
|
| CIDADES SATÉLITES |
114
|
86%
|
| TOTAL |
133
|
100%
|
As crianças foram encaminhadas para exame geralmente com história de possível estupro ou atentado violento ao pudor (prática de atos libidinosos):
| Histórico |
|
|
| Estupro |
66
|
35%
|
| Estupro Presumido |
4
|
2%
|
| Atos Libidinosos |
118
|
63%
|
| Total |
188
|
100%
|
| Conjunção Carnal Confirmada |
|
|
| Sem Elementos |
14
|
7%
|
| Não |
164
|
87%
|
| Sim |
10
|
5%
|
| Total |
188
|
100%
|
|
|
||
|
|
|
|
|
2
|
Mais de 10 Dias | CONHECIDO |
|
4
|
Recente | NÃO CONSTA |
|
5
|
Recente | DESCONHECIDO |
|
7
|
Recente | CONHECIDOS MENORES |
|
10
|
Recente | CONHECIDO |
|
11
|
Mais de 10 Dias | PADRASTO |
|
11
|
Mais de 10 Dias | NAMORADO |
|
11
|
Mais de 10 Dias | PADRASTO |
|
11
|
Mais de 10 Dias | PADRASTO |
|
11
|
Mais de 10 Dias | NÃO SABE INFORMAR |
Apesar das histórias ricas em detalhes da maioria dos casos,
relatando atos libidinosos diversos, apenas em 6% deles foram identificados
vestígios. Em muitos casos o fato havia ocorrido há longa
data, em um único episódio ou de forma continuada. Em outros
casos os atos libidinosos perpetrados contra as crianças não
eram suficientes para deixar vestígios, ou deixavam apenas vestígios
fugazes.
| Atos Libidinosos |
|
|
| Não |
176
|
94%
|
| Sim |
12
|
6%
|
| Total |
188
|
100%
|
| Violência Física |
|
|
| Não |
172
|
91%
|
| Sim |
9
|
5%
|
| Não consta |
7
|
4%
|
| TOTAL |
188
|
100%
|
| Hora do Fato |
|
|
| das 06 às 17:59 hs |
72
|
62%
|
| das 18 às 05:59 hs |
44
|
38%
|
| Total |
116
|
100%
|
| Local do Fato |
|
|
| Residência |
105
|
79%
|
| Via Pública |
12
|
9%
|
| Outros (locais fechados) |
16
|
12%
|
| Total |
133
|
100%
|
| Agressor |
|
|
| Parentes |
71
|
47%
|
| Conhecidos |
58
|
38%
|
| Desconhecidos |
15
|
10%
|
| Outros |
7
|
5%
|
| T O T A L |
151
|
100%
|
Discriminação dos agressores:
| AGRESSOR |
|
| CONHECIDO |
29
|
| PAI |
21
|
| VIZINHO |
20
|
| PADRASTO |
19
|
| DESCONHECIDO |
15
|
| TIO |
14
|
| PRIMO |
8
|
| BABÁ (SEXO FEMININO) |
5
|
| AVÔ |
4
|
| NAMORADO |
4
|
| NÃO SABE INFORMAR |
4
|
| IRMÃO |
3
|
| SEM AUTORIA |
3
|
| PARENTE POR AFINIDADE |
2
|
| TOTAL |
151
|
CONCLUSÃO
Nossos achados são semelhantes àqueles relatados na literatura internacional.
Estima-se, nos Estados Unidos, que 16% das vítimas de estupro ( uma em seis ) estejam abaixo de 12 anos. Esta estimativa inclui apenas os casos registrados em 12 estados, estando portanto impreciso. Quando a vítima tem menos de 12 anos, a probabilidade do agressor ser uma pessoa da família é de 46% ( nos nossos casos foi de 47% ) e de ser o próprio pai é de 20% ( 26%, somando-se pais e padrastos, nos nossos casos). Em apenas 4% dos casos o agressor era um desconhecido ( 10% entre nós ) (9).
Fleming, fazendo um estudo retrospectivo em uma comunidade australiana, encontrou uma taxa de 20% de mulheres que haviam experimentado alguma forma de abuso sexual. Em 10% destes casos o abuso envolveu conjunção carnal ou coito anal (isto é, 2% da população). A média de idade do primeiro episódio de abuso sexual foi 10 anos ( na nossa casuística foi de 7 anos ), e em 71% ocorreu abaixo dos 12 anos. Os agressores foram, em 98% dos casos do sexo masculino ( 97% nos nossos casos ) e geralmente conhecidos das crianças; 41% eram parentes. Somente 10% dos casos foram comunicados à polícia, ao médico ou outra organização de ajuda à infância (6).
Keane e colaboradores, na Inglaterra, em trabalho retrospectivo feito com pacientes que haviam procurado atendimento genito-urinário de rotina, encontraram história de abuso sexual em 34,7%, sendo que em 1/3 dos casos o fato ocorreu antes dos 16 anos. O abuso sem penetração foi o mais comum nesta faixa etária. Estes casos aconteciam mais nas famílias em que os pais estavam separados. Os agressores de menores são geralmente conhecidos da família. Metade dos casos apresentava alguma disfunção sexual como seqüela do abuso (7).
Achados físicos anormais decorrentes de abuso sexual são raros (4) . Encontramos em 12 casos (6%) sinais de atos libidinosos e em 10 casos (5%) sinais da ocorrência de conjunção carnal. Adams e Knudson afirmam que exames ginecológicos normais ou não específicos são comumente encontrados em adolescentes que tenham sofrido abuso sexual, a menos que o abuso seja recente (8).
A exposição ao abuso sexual na infância foi associada com uma série de fatores familiares e da infância, incluindo situação social desfavorável, instabilidade familiar, fraqueza nos relacionamentos interfamiliares e dificuldade no ajustamento familiar, o que também está associado ao aumento da vulnerabilidade sexual na adolescência (5).
Lema, estudando esta problemática no Malawi acha que com o alarme da AIDS e o aumento da desintegração da família tradicional, existe um alto potencial para o aumento, não só para a prevalência do abuso sexual de menores no Malawi, mas também a variedade e severidade de seqüelas (3).
Finalmente é preciso estar atento para o exame das crianças
com suspeita de abuso ou agressão sexual, pois os sinais e sintomas
podem ser de outra etiologia. Kellogg, Parra e Menard chamam a atenção
para os cuidados que se deve ter no exame de crianças com suspeita
de abuso sexual. Eles selecionaram 157 casos que haviam sido encaminhados
para a clínica de abuso sexual devido a queixas de sintomas anogenitais
ou sinais sugestivos ao exame clínico. De 184 queixas, o mais comum
foi a presença de lesão ou sangramento anogenital (29,3%),
seguido por irritação ou vermelhidão (21,7%), anatomia
anogenital anormal (20,7%), corrimento vaginal (18,4%), lesões (6,5%)
e outros sinais ou sintomas (3,3%). Usando um procedimento standartizado,
concluíram que em 25 pacientes (15%) os achados eram sugestivos,
prováveis ou definitivos para abuso sexual. Muitas pacientes apresentavam
outras condições clínicas, como eritema anogenital,
aumento da vascularização do hímen ou vestíbulo
em meninas pré-púberes, adesões labiais ou vaginites
com cultura negativa (1).
BIBLIOGRAFIA
1. Arch Pediatr Adolesc Med 1998 Jul;152(7):634-641
2. Pediatr Clin North Am 1998 Apr;45(2):391-402
3. East Afr Med J 1997 Nov;74(11):743-746
4. Del Med J 1997 Aug;69(8):415-429
5. Child Abuse Negl 1997 Aug;21(8):789-803
6. Med J Aust 1997 Jan 20;166(2):65-68
7. Int J STD AIDS 1996 Nov;7(7):480-484
8. Arch Pediatr Adolesc Med 1996 Aug;150(8):850-857
9. Bureau of Justice Statistics
Caroline Wolf Harlow, Ph.D.