B U R E A U    D O S    S E G R E D O S    P Ú B L I C O S


 

 

 

Erotismo, Misticismo e Revolução

(Um estudo crítico sobre Kenneth Rexroth)

 

 

3. Sociedade e Revolução

“Falar de revolução pode soar irrisório. (...) Mas todas as alternativas são ainda mais irrisórias, pois implica aceitar a ordem estabelecida de uma maneira ou outra.”

Internacional Situacionista, nº6, agosto 1961.


Rexroth cresceu nos últimos anos do velho movimento revolucionário. A primeira guerra mundial não só evidenciou a quebra da antiga ordem social, como também revelou a superficialidade do movimento revolucionário que lutava contra ela, pois quase todas as supostas organizações internacionais da esquerda e contra a guerra se solidarizaram com seus respectivos Estados. O final da guerra trouxe consigo uma onda de levantes na Europa, mas todos eles foram prontamente sufocados ou neutralizados. A única exceção aparente, a revolução russa de 1917, resultou ser definitivamente o fiasco maior de todos. Os bolcheviques tomaram o poder, reprimiram as forças libertarias que haviam feito a revolução e impuseram uma nova variante do velho sistema: o capitalismo burocrático de Estado. A burocracia “comunista” se converteu na nova classe dirigente; o Estado se erigiu no único capitalista soberano.

O bolchevismo não tem nada de comunismo, e nem sequer de socialismo no sentido que tinham estas palavras antes de 1918. É uma forma muito primitiva de capitalismo de Estado. É um método para forçar a um país semicolonial e atrasado a passar pelo período de acumulação de capital que a maioria das nações capitalistas passaram durante os primeiros anos do século XIX.

A contra-revolução bolchevique não foi um desastre apenas para a Rússia; seu exemplo iria corromper e finalmente destruir por completo todo o movimento revolucionário internacional durante as décadas seguintes. O poder bolchevique e o prestígio dos supostos líderes da única revolução “triunfante” lhes permitiram dominar, manipular e sabotar o resto dos movimentos radicais em todos os países, “até que não restasse nem uma única pessoa que não estivesse submetida ao Kremlin, desde o sicário estalinista até o psicopata antibolchevique”. “Milhares de pessoas se tornaram reacionárias, se refugiaram na religião ou em toda classe de loucura porque pensavam que revolução socialista e bolchevismo significavam a mesma coisa.”

Nesta época, na Europa ocidental e na América, o sistema havia chegado a diversos compromissos com os partidos socialistas reformados e os sindicatos (New Deal, frentes populares, Estado de Bem Estar...)

Os movimentos sindicais e socialistas do Ocidente tem funcionado, na realidade, não apenas como reguladores que permitem sair o vapor quando a pressão é demasiado alta, como o que agora se denomina “válvulas de segurança” — embora no fundo representem este último — mas também como peças essenciais da engrenagem capitalista; em outras palavras, sua atuação se assemelha mais à de um carburador que assegura que a quantidade exata de gasolina e ar estará adequada para cada nova exigência do motor.

Em alguns países onde isto não funcionou direito, as crises sociais foram sufocadas pela a imposição do fascismo (uma mistura de capitalismo de Estado totalitário com o capitalismo monopolístico tradicional). Os autênticos elementos radicais, que não foram enganados pelo bolchevismo, reformismo ou fascismo, foram isolados ou simplesmente eliminados. A última e mais notável manifestação do antigo movimento, a revolução anarquista espanhola de 1936-1937, foi destruída pelos três ao mesmo tempo.

Este foi o final para a geração da esperança na revolução. A consciência da Humanidade teve que voltar a aprender novos métodos de compromisso. Os julgamentos de Moscou, as execuções nas ruas pelo Kuomintang, a traição na Espanha, o pacto entre Hitler e Stalin, o extermínio de nações inteiras, Hiroshima, Argel — nenhum protesto pode evitar que o monstro cerrasse suas garras. Com o passar dos anos se ouvem menos e menos protestos. Os porta-vozes, os intelectuais de todo mundo estão vendidos ao poder e guardam silencio.

Toda uma geração de escritores, artistas e intelectuais quedou traumatizada, mutilada mental e moralmente, afundada no desânimo e no compromisso.

Quantos deixaram de escrever aos trinta anos?
Quantos começaram a trabalhar para o Time?
Quantos morreram de lobotomia dentro do partido comunista?
Quantos se perderam nos pavilhões psiquiátricos das províncias?
Quantos decidiram por conselho de seu psicanalista que fazer carreira no mundo dos negócios era melhor ao fim e ao cabo?
Quantos se tornaram alcoólicos sem qualquer esperança?

Rexroth representou uma das poucas exceções. Nos anos 20, foi um membro ativo de uma das organizações mais exemplares do antigo movimento, a anarco-sindicalista IWW. Nos anos 30, levou adiante um trabalho similar mas de maneira independente. Quando deixaram de existir movimentos revolucionários importantes, se preparou para um grande entrincheiramento: estabeleceu contatos com pessoas que se haviam mantido radicais e íntegras, lhes propôs reavaliar os antigos pontos de vista e continuar falando em público e atuando onde fosse possível. Ele já havia percebido o jogo dissimulado dos bolcheviques em 1921, quando Trotsky e Lenin esmagaram a revolta libertária do soviete de Kronstadt; mesmo se opondo claramente a todas as formas de “comunismo”, não reagiu apoiando o capitalismo ocidental, como fizeram muitos outros membros de sua geração.

Estou muito mais inteirado
dos horrores do estalinismo
do que tu, belicoso ex-trostkista.
Mas não conseguirás nada
dizendo-me que eu deveria
fazer as pazes com a besta que me devora
apenas porque um leão maior
está comendo outra pessoa
no outro lado da arena.

A propósito dos limites da política reformista, Rexroth nos conta que, viajando de carona através de Montana com sua mulher Andrée, foram recolhidos por um homem endinheirado com uma opinião curiosamente cínica sobre os políticos. Rexroth lhe pergunta então se não acredita que poderia haver algumas exceções de homens honrados, tais como Robert La Follette e Burton Wheeler (senadores progressistas de Wisconsin e Montana). O homem lhe responde descrevendo a barreira de proteção situada no fundo de um campo de basebol: “A barreira se encarrega de parar as bolas que o ‘catcher’ não pega e as que são mal lançadas, de maneira que não possam ferir aos espectadores das primeiras filas. Esta é a função de homens como La Follette e Wheeler, e creia-me jovem, mesmo que você os considere exceções eles não o são.” No dia seguinte descobriram que seu companheiro de viagem havia sido o senador Wheeler.

O fracasso do bolchevismo e do socialismo reformista ao tratar de levar a cabo um verdadeiro e radical cambio social reforçou o anarquismo de Rexroth. Ficou mais evidente que nunca que o capitalismo não poderia ser eliminado com programas estatais, e que qualquer burocracia, não importa quão radical possa ser, tendia de forma natural a perpetuar seu poder. O capitalismo e o Estado não são mais que aspectos entrelaçados do mesmo sistema:

Força de trabalho no mercado,
fogo potente no campo de batalha,
é a mesma coisa, são simplesmente duas
caras do mesmo monstro.

O Estado é, basicamente, uma fraude. O fato de, em certas ocasiões, prover a seus cidadãos de uns poucos serviços sociais encobre sua função essencial de protetor da economia de mercado. Sem esta economia, muitos dos conflitos de interesses, que tem sido criados de maneira artificial e que agora são pretexto para a existência do Estado, perderiam sua razão de ser. “O Estado não te faz pagar impostos para prover-te com serviços. Te onera com impostos para destruir-te. Os serviços que te presta são algo que confiscaram dos homens e das suas relações com os demais para legitimar seu poder policial e militar”. Rexroth evoca a Herbert Read(11) quando diz: “Pode ser que o anarquismo pareça pouco sensato, mas seguramente ele pareceria muito mais sensato a qualquer pessoa de outra civilização que o moderno Estado-nação capitalista; ademais, é evidente que é o único que poderia funcionar. De agora em diante qualquer forma de Estado está condenada ao fracasso, e ao fracasso mais estrepitoso.”

Durante a Segunda Guerra mundial Rexroth fez seu serviço de objetor de consciência como ajudante em um hospital psiquiátrico. Não foi um defensor do pacifismo ao extremo, mas parece haver se posicionado absolutamente contra todas as guerras que tiveram lugar entre os modernos Estados-nações. Sempre as considerou pior que qualquer dos males que pretendiam remediar. Durante a guerra formou o grupo pacifista Randolph Bourne Council (em memória do autor libertário que escreveu sobre o tema “A guerra é a saúde do Estado”) e trabalhou ajudando aos americanos de origem japonesa que estavam sendo hostilizados e enviados aos campos de concentração. Idealizou alguns estratagemas que salvaram muitos do encarceramento.

Depois da guerra, Rexroth e um pequeno grupo de amigos organizaram o San Francisco Anarchist Circle (rebatizado depois como Círculo Libertário).

Cada semana tínhamos uma reunião educativa dedicada a um tema diferente: os coletivos agrários andaluzes, os conselhos operários na Alemanha revolucionaria, as comunidades utopistas nos Estados Unidos, a revolta de Kronstadt, Nestor Makhno e sua sociedade e exército anarquistas durante a revolução russa, a I.W.W., o anarquismo associativo na América; ou mesmo falávamos de personagens como Babeuf, Bakunin, Kropotkin, Alexander Berkman, Emma Goldman, Voltairine de Cleyre e o movimento anarco-feminista. (...) O lugar estava sempre repleto e quando o tema da tarde era “Sexo e Anarquismo”, não cabia nem um alfinete. (...) Cada aspecto particular da história ou da teoria do anarquismo era apresentado por uma pessoa competente e logo submetido a discussão pelo público assistente. (...) Nosso objetivo consistia em voltar a fundar o movimento radical depois de sua destruição pelos bolcheviques e analisar de novo todos seus princípios básicos; em outras palavras, pretendíamos submeter a uma crítica rigorosa todas as ideologias desde Marx a Malatesta.

Aparentemente o Círculo Libertário, cuja atividade mais intensa se deu entre 1946 e no começo dos anos 50, teve influencia tanto cultural como política. Foi sem dúvida o primeiro foco importante da efervescência do posguerra, e mui prontamente se referiam a ele como o Renascimento de San Francisco. Alguns de seus participantes fundaram a emissora de radio independente KPFA, também fundaram grupos de teatro experimental e numerosas revistas; outros membros constituíram parte daqueles poetas e artistas que exerceram uma influencia considerável em toda a zona, chamada Bay Area, durante os anos 50 e 60.

Rexroth se encontrava no coração de tudo isso. Além de seu papel fundamental dentro do Círculo Libertário, organizava debates, conferencias e leituras semanais em sua própria casa, arremetia contra o poder estabelecido em numerosos artigos, entrevistas e emissões na radio KPFA e divulgava as novas tendências dissidentes. Num momento em que a maioria dos comentaristas declaravam por toda parte que o tempo de experimentação e desobediência se havia acabado, ele se empenhava em ver novos sinais de esperança. Em seu precursor artigo de 1957 “Disengagement: The Art of the Beat Generation” escreveu: “A geração dos jovens está em um estado de rebelião tão absoluto que seus próprios pais não podiam sequer reconhecê-los. (...) Assim como os raios X e a radioatividade, a rebelião moderna é invisível. Só se percebem seus efeitos em um nível material dentro da sociedade e então se lhe chamam delinqüência.”

Rexroth e outros poetas do Renascimento de San Francisco tem sido considerados, um tanto quanto ligeiramente, como pertencentes à “geração beat”, mas como ele mesmo frisou de maneira enérgica em muitos artigos, nem ele nem a maioria de seus companheiros teriam muito a ver com o estereótipo dos beatniks criado pelos meios de comunicação. Suas críticas ao sentimentalismo, egocentrismo e às necessidades da Kerouac foram particularmente cáusticas. (Vergonhosamente, a maior parte da torrente de memórias, biografias e historias da “era beat” apenas são mencionadas quando recheadas por comentários malévolos e rumores desrespeitosos. Por outro lado, quando o mundo acadêmico se digna reconhecer sua existência é para etiquetar-lhe desdenhosamente como “o padrinho dos beatniks”.)

A aparição do movimento pelos direitos civis foi algo com o que Rexroth mais se conectou. Em um artigo, escrito em 1960, elogia a espontaneidade e a ação pessoal direta dos primeiros manifestantes e lhes previne contra as tentativas de intromissão e institucionalização dos "organizadores" burocráticos:

Se questionam as brutais tendências reacionárias da América, não no que se refere a sua base política — esquerda contra direita —, mas por causa de sua evidente violência moral e falta de honradez. (...) Os programas políticos estão desfasados, (...) o poder ou um programa não é o que importa, o que importa agora é uma realização imediata de conteúdo humano, aqui, ali, em todas as partes, em cada fato e em cada relação na sociedade. (...) Isto implica uma ação moral e pessoal. Eu diria, se me apurais, que implica uma revolução espiritual. (...) O boicote aos ônibus em Montgomery (...) demonstrou algo que sempre havia soado como puro sentimentalismo. É melhor, mais valente, muito mais efetivo e mais agradável atuar com amor que com ódio. Uma vitoria conquistada assim nunca será posta sob julgamento. (...) Mais ainda, cada vitoria moral converte ou neutraliza alguma parte das forças contrarias.

Esta ação dieta e espontânea foi um bom começo para clarificar um ambiente de anos de compromissos e confusões. (O esquema “esquerda contra direita”, por exemplo, foi durante muito tempo uma suposta oposição entre dois erros quase impossíveis de distinguir). Mas o rechaço de Rexroth a todos os programas em bloco é, obviamente, demasiado simplista. No período que se seguiu à destruição do antigo movimento revolucionário, este tipo de atitude era compreensível: as pessoas desconfiavam com razão da submissão cega a programas e organizações doutrinarias; era necessário reexaminar as perspectivas desde o principio e permanecer abertos às distintas possibilidades. Durante este período, a estratégia de Rexroth de fomentar o diálogo e as comunidades criativas sem preocupar-se demasiado por ter uma teoria coerente resultou ser mui proveitosa. Nenhuma outra pessoa jogou um papel tão importante para sentar as bases do Renascimento de San Francisco dos anos 50, movimento que se converteria por sua vez em uma das principais referencias de partida para a contestação mais generalizada dos anos 60. Não obstante, esta nova manifestação iria plantear questões táticas e teóricas que Rexroth, empenhado em manter seu ecletismo empírico, não saberia abordar de uma forma coerente.

Em 1960 aceitou uma oferta do San Francisco Examiner (periódico pertencente ao império Hearst) para escrever uma coluna semanal. Aparentemente a política que seguiu foi a de aceitaria praticamente qualquer encargo agradável desde que pudesse seguir mantendo sua total independência; os editores tinham que aceitar seus artigos sem mudar nem um ponto e nem uma vírgula, tal como ele os havia escrito, caso contrário, não havia artigo.

Segundo ele, os periódicos e revistas lhe deixavam mais a vontade que os diários políticos partidários e as publicações universitárias: “O que lhes interessa são os artigos vivos, atrativos, desde que sejam razoáveis, quanto mais controvérsia provoquem, melhor.” De momento, nada que objetar, mas que ocorre se aquilo que alguém quer dizer não entra dentro do "razoável"? Mesmo que lhe dêem carta branca, todos sabemos que ha modos sutis de pressão que produzem autocensura. Existe sempre a ameaça implícita de que não te renovem o contrato (como, com efeito, ocorreu em 1967 quando escreveu um artigo muito controvertido sobre a polícia americana).

Rexroth não fez um mal trabalho levando em conta a posição tão ambígua em que se encontrava. O estilo de seus artigos está ligeiramente adaptado a um tipo de audiência mais popular, mas é quase tão direto como nos anteriores, e sua variedade de temas é mais ampla. Ao fazer uma resenha de um libro sobre a baia de San Francisco nos diz: “Podeis conhecer a fundo as novelas de Henry James ou a arte da fuga, mas se não sentires este mundo como se fosse sua casa que está sob vossos pés e diante de vossos narizes, é porque ainda não estas realmente civilizados”. Nesse sentido, é muito provável que suas colunas do periódico contribuíram para “civilizar” a milhares de leitores. Em todo caso, o que se nos oferecem é uma grande informação sobre a vida da área da bahia nessa época, uma vez que incluem muitos temas que não havia analisado de maneira tão detalhada em seus outros escritos, temas que vão desde as artes teatrais até a política, passando pela arquitetura e o urbanismo local.

Qualquer que seja o tema que trate, Rexroth sempre intenta fomentar as qualidades de uma comunidade vital e variada. Como regra geral incentiva a participação, experimentação e autonomia locais, se bem que quando é necessário um plano coerente ele recomende que se centralize a coordenação. Acerca de uma representação livre de teatro no parque nos comenta: “Esperamos que isto não seja apenas um começo e que dentro em pouco tenhamos todo tipo de atividades teatrais e musicais nos parques. Não me ocorre muitas maneiras de tonificar uma comunidade desalentada. Cedo ou tarde muitos dos espectadores passarão à ação”. Resulta gracioso ver de que modo tão convincente se dirige a distintos grupos em seu próprio linguajar, desafiando aqueles que se dizem cristãos para que imitem Jesus e se aproximem dos pobres, dos marginalizados, dos desesperados, não para convertê-los ao cristianismo mas para ajuda-los; ou dizendo aos comerciantes de Chinatown que ganhariam muito mais dinheiro se transformassem a avenida Grant em um calçadão, que voltassem a representar ópera chinesa e oferecessem objetos orientais mais autênticos, em vez de ninharias para turistas.

Como se poderia supor, estas propostas não estão isentas de ironia. Dentro de um limite, nos poderiam parecer mais desejáveis e inclusive mais "práticas" que as que ocorrem atualmente, mas Rexroth sabe que isso definitivamente não é suficiente. Algumas propostas encontrariam muita oposição por parte de interesses econômicos e políticos; outras não redundariam em uma melhora, pois a transformação de uma zona apenas ocorre às custas de outra. “A crua realidade é que os autênticos problemas: econômicos, ecológicos, sociais, morais, éticos, religiosos ou sexuais, não podem ser resolvidos com os mecanismos desta sociedade nem com os de nenhuma outra sociedade existente.”

De qualquer maneira, a maior parte destes artigos não são mais que simples reações pessoais diante dos acontecimentos do dia a dia, contendo apenas vagas mostras de uma crítica social mais amplas. Quando foi despedido do San Francisco Examiner, Rexroth empenhou-se a escrever uma série de artigos mensais de maior conteúdo político para o Bay Guardian de San Francisco (1967-1972) e para a revista cultural San Francisco (1967-1975). Em suas colunas, cada vez mais pessimistas, denuncia a corrupção e conivência de políticos, governantes, empresários e meios de comunicação, e deplora a destruição sem sentido de todo vestígio de comunidade humana e ecologia. Muitas de suas denúncias estão justificadas de sobra, mas lhes falta uma análise coerente e profunda da situação que sirva para determinar perspectivas radicais. Como soe ocorrer, a revelação de um escândalo produz um efeito de desalento nas pessoas, que repercute nelas mesmas, uma vez que este é o único terreno onde alguém pode considerar-se protegido da loucura geral.

Rexroth já havia percebido os sinais de uma nova revolução em um momento em que a maioria dos comentaristas não se havia dado conta de nada. Sem embargo, ele a via acima de tudo em termos culturais e espirituais. Quando surgiram as lutas mais abertas e violentas, se evadiu do tema valorizando-as como meros sintomas de virulência social e se reafirmou em sua anterior estratégia de uma sutil subversão moral e artística. Isto pode ser apreciado em seus comentários sobre a única grande revolta pela qual mostrou certo entusiasmo, a de maio de 68 na França.

Provavelmente o mais significativo da explosão na França é a revelação da quebra moral dos poderes estabelecidos. Nem o general De Gaulle nem os líderes do partido comunista tinham a mais ligeira idéia do que estava acontecendo. O General não podia aportar nenhuma explicação, salvo a sublime ocorrência de que o partido comunista era o responsável por tudo. Os comunistas, que haviam compreendido o suficiente para ficarem verdadeiramente assustados, denunciaram de uma maneira selvagem e insultante a revolta dos operários que estavam em greve e toda a juventude. (...) Quaisquer que fossem as consequencias de tudo isso na França, o rechaço deste grande e caduco sistema de falsos valores, que tem regido a era do comércio e a indústria, não cessará.

Até aluí Rexroth está certo. O problema é que não avança muito no tema. É típico dele que reconheça que maio de 68 foi uma reação contra um sistema de falsos valores, mas apenas o analisa como uma tentativa de substituir a organização social do sistema. Nunca estuda sua origem, nem suas metas, táticas inovadoras ou tendências contraditórias, aspectos todos eles de muito mais importância que a "revelação" de uma quebra moral há muito tão óbvia. Rexroth criticou de forma correta a Nova Esquerda por sua falta de estratégia coerente, mas não parece que ele tenha apresentado nenhuma outra estratégia que fosse mais além do que animar vagamente à “ação moral individual” ou impulsar a ação coletiva em determinados temas. Depois do desaparecimento do Círculo Libertário, nem ele nem nenhum de seus amigos deu mostras de haver avançado na crítica social que vinham realizando. Tampouco parece que tenham voltado a expor de uma maneira explícita e continuada o que ainda restava de suas antigas idéias libertárias. Por tratar-se de pessoas que tinham, merecidamente em muitos aspectos, certa influência, o fato de que não abordaram os novos temas teóricos e estratégicos contribuiu à ingenuidade política da contracultura dos anos 60. Diante da falta de uma perspectiva libertaria coerente, as antigas ideologias ressurgiriam de forma natural para ocupar o espaço vazio. Facções militantes da Nova Esquerda degeneraram prontamente na confusão mais chata e delirante da velha esquerda, diante disso, a maior parte das outras facções reagiu com desagrado assumindo posturas mais reformistas ou apolíticas.

Diante do debate político da Nova Esquerda ao final dos anos 60, Rexroth coloca mais ênfase nos aspectos culturais do movimento. The Alternative Society (1970) reflete esta inclinação. Embora contenha artigos sobre diversos temas sociais, quase a metade do livro é dedicado ao novo auge da poesia e da canção; sua sociedade alternativa viria a ser a contracultura dos jovens, ou pelo menos, suas tendências mais profundas: a “subcultura da separação”. “É um erro falar de canção ou de poesia de protesto. O protesto implica uma possibilidade de retificação, se produz dentro de uma cultura. Com a grande lista de horrores que temos acumulado, o protesto se converteu em alienação e a alienação em uma total separação”. Não se trata tanto de uma separação geográfica (apesar de que pode incluir a formação de comunas ou outros tipos de comunidades alternativas) como de uma reordenação primordial do sistema de valores, uma reformulação que se mantêm, embora não de forma muito visível, enquanto que as superficiais modas hippies desaparecem da mesma forma que vieram.

Em sua luta por alcançar uma nova comunidade com metas sensatas na vida e uma moral baseada na honradez, e enquanto se desvanecem suas loucuras juvenis e modas passageiras, os jovens que se separam desta sociedade desordenada e nociva coincidem com seus predecessores — menonitas, irmãos moravos, amish, huteritas, quakers — que se retiraram da loucura e do horror das guerras religiosas e do colapso da sociedade medieval.

Em sua obra Comunalismo: Das Origens ao Século XX (1974), Rexroth analisa estas sociedades e outras mais antigas, desde os primeiros cristãos, passando pelas seitas heréticas e os movimentos milenaristas da Idade Media, até as comunidades seculares utópicas dos dois últimos séculos.

A maior parte dos grupos que estuda são religiosos; apenas os do final incluem comunidades laicas. Nesse aspecto, o livro de Rexroth representa uma rica exposição sobre a dialética social das religiões que, como todos sabemos, tem contribuído em geral para reforçar a ordem estabelecida, mas que quando são levadas até suas implicações mais radicais, tendem a miná-la. Inclusive tendências tão inofensivas como a vida monástica laica podem representar uma potencial ameaça: “O monasticismo organizado foi uma maneira de colocar em quarentena a vida cristã; por este motivo a Igreja sempre insistiu em que os monges fossem celibatários. (...) O monasticismo laico, ou seja, comunidades de famílias que partilham tudo e que vivem uma vida seguindo o modelo dos apóstolos, se converte inevitavelmente em um modelo de contracultura”. Esta ameaça resulta mais evidente nas relações entre os Irmãos do Livre Espírito e as revoltas milenaristas, e no surgimento de grupos anarcosindicalistas de inspiração religiosa como os Diggers na revolução inglesa.

Sem embargo, todas estas comunidades alternativas, inclusive as seculares com consciência mais radical, mantiveram uma relação ambígua com a sociedade dominante. Até certo ponto, serviram de refúgio contra essa sociedade e tem sido um exemplo de valores e possibilidades diferentes. Mas ao coexistir com ela irão enredar-se, sem poder evita-los, em compromissos e confusões, e normalmente, acabariam logo desagregando-se por causa de suas próprias contradições. O livro de Rexroth mostra um conjunto interessante de êxitos, fracassos, excentricidades e loucuras destes grupos, mas faz uma análise demasiadamente empírica e estreito de finalidades. Quando fala de comunidades alternativas, o faz quase sempre em termos de sua organização interna e sobrevivência individual (considera aos huteritas, por exemplo, como “a mais bem sucedida”, uma vez que são os únicos que tem mantido uma vida comunal completa durante séculos), e não menciona a pouca importância que tem para o movimento contestatário moderno. Pode ser, como ele conclui, que os líderes carismáticos, as crenças religiosas e o trabalho duro tenham sido fatores de vital importância para a sobrevivência de pequenos grupos utópicos em um mundo de escassez e hostilidade, mas estes tem pouco a ver com o projeto de uma sociedade global que deixe para traz a época da escassez.

Sobre a probabilidade ou não do surgimento de semelhante sociedade, Rexroth acha que chegamos a um ponto onde não apenas ela é possível, como também necessária.

As únicas alternativas são a utopia ou o caos. (...) Os sintomas da queda eminente da civilização se vêem por toda parte e são bem mais agudos que os que se perceberam nos últimos anos do império romano. Sem embargo, nem todos estes sintomas sã necessariamente patológicos. O mundo contemporâneo se vê afetado por duas tendências opostas: uma que tende a sua destruição social, e outra que anuncia o nascimento de uma nova sociedade.

Mas quando Rexroth intenta analisar a natureza deste conflito cai, por vezes, em confusão e chega a conclusões que não são lógicas:

Os sinais mais evidentes da revolução ocorrem nas áreas mais livres, ou seja, nas relações sociais entre as pessoas, longe da burocracia sindicalista ou estatal. Para lançar um ataque contra o Estado e o sistema econômico se necessita poder, e é o Estado, que na realidade é a força policial do sistema econômico, é ele que detêm até o momento todo o poder efetivo. As manifestações ou os coquetéis molotov não servem de nada diante da bomba atômica. Por este motivo, as mudanças importantes estão tendo lugar no que os jovens chamam “estilo de vida”.

Sua forma de falar aqui sobre o "poder" é bastante confusa. Certo é que, em geral, resulta inútil lutar contra o Estado em seu próprio terreno, mas isto não significa que a única alternativa que reste seja a de limitar-se a mudar nossa forma de vida e nossas relações com os demais. Onde estava todo o poder do Estado em maio de 68, em Portugal em 1974, na Polônia em 1980, ou no leste da Europa em 1989? Qual foi o papel da bomba atômica em tudo isso? Em todos esses casos, o sistema sobreviveu devido não tanto à repressão física como à cooptação, utilizando táticas divisórias, reconduzindo os movimentos de oposição e manipulando-os para alcançar compromissos reformistas.

Nesse momento assistimos a uma sublevação instintiva contra a desumanização por todo o mundo. O marxismo propunha eliminar a alienação do homem no trabalho, em suas relações pessoais e dentro de si mesmo através de uma mudança no sistema econômico. O sistema econômico mudou, mas a alienação do ser humano só fez aumentar. Dê o nome que quiser, capitalismo ou socialismo, no que diz respeito às satisfações humanas e ao significado da vida, é a mesma coisa no Oriente e no Ocidente. Portanto, a revolução atual não teria como primeiro objetivo a mudança das estruturas econômicas e políticas mas o ataque à alienação do homem como tal.

O sistema econômico foi modificado de várias maneiras, mas nunca foi completamente substituído em lugar algum conforme imaginado por Marx (como Rexroth nos faz notar em alguns de seus trabalhos, o “marxismo” tem pouco a ver com Marx como o cristianismo com Cristo). O fracasso do capitalismo de Estado “comunista” e a incompetência do socialismo reformista, tão evidente a tanto tempo, tem demonstrado quão obsoleto é o esquerdismo estatal, mas não o fracasso do projeto original de Marx e dos anarquistas, que pretendiam a abolição do Estado e do capitalismo. A sublevação atual se dirige, com razão, contra qualquer forma de alienação em vez de limitar-se às estreitas batalhas políticas e econômicas da velha esquerda, mas dificilmente poderá alcançar êxito em um ataque contra a alienação "como tal" sem eliminar cedo ou tarde suas bases econômicas.

Rexroth vê sua sociedade alternativa como uma “nova sociedade dentro da antiga casca”, mas em nenhum momento se imagina como pode romper essa casca e suplantá-la. Parece ter tão apenas uma vaga esperança de que um certo número de pessoas, colocando em prática uma autêntica comunidade dentro dos resquícios do velho sistema, fosse capaz de manter viva a chama. Mesmo com isso oferecendo poucas oportunidades de evitar uma catástrofe nuclear ou ecológica, ele crê que este é o modo mais satisfatório de viver.

Se a sociedade alternativa chegasse a ser uma sociedade de bodhisattvas ecológicos chegaríamos ao confronto final. Ajuda mutua e respeito pela vida, consciência plena do lugar que cada um ocupa na comunidade de criaturas, estas são as bases para uma sociedade alternativa. (...) Não há probabilidade de que ganhem, já é demasiado tarde; mas ao menos poderiam edificar um reino frente ao Apocalipse, uma sociedade guarnecida de gente moral e responsável que se confronte a extinção com uma consciência limpa e com vidas tão prazerosamente vividas quanto possível.

Rexroth estava falando às pessoas das ameaças ecológicas décadas antes que muitos começassem a dar-lhe ouvidos, e cada dia que passa é mais evidente que estava certo acerca da gravidade do tema. Um equilíbrio ecológico mundial que seja viável é um assunto delicado; uma vez que a deterioração atinge certo ponto, pode resultar impossível inverter essa tendência. Sabe-se muito bem que neste exato momento, se estão produzindo uma série de abusos ecológicos que, se não corrigidos com rapidez, será irremediável. Inclusive aqueles que se detenham agora podem continuar causando efeitos retardados nos anos vindouros. Por conseguinte, a maioria destes abusos não tem absolutamente sido refreados e parece que a coisa não vai mudar enquanto existir um sistema em que os grandes grupos de poder possam obter proveitosos benefícios a curto prazo.

Em minha opinião, a situação é desesperadora. A raça humana está provocando uma crise ecológica irremediável e caminha em direção à sua extinção, para uma morte da espécie em menos de um século. E isso sem contar com a bomba atômica. (...) Mas supondo que exista ainda uma possibilidade de mudar, "uma luz no final do túnel" para essa sociedade, isso só poderá ocorrer por contagio, infiltrando no tecido social umas cápsulas invisíveis que inoculem e estendam por todo ele uma enfermidade chamada “saúde”.

Isso nos devolve a poesia e a música que seriam, segundo Rexroth, alguns dos meios mais eficazes de “contagiar” semelhante enfermidade.

A canção underground, nos diz, remonta aos cantos goliárdicos medievais: cantos que celebram o vinho e o amor e satirizam a ordem existente (popularizados por Carl Orff em Carmina Burana e gravados mais recentemente em versões originais). Na França, seu rastro vai desde o misticismo sexual dos trovadores e o submundo boêmio de François Villon, passando pelos poetas malditos e os cafés cantantes do século XIX, até George Brassens e outros cantadores posteriores à segunda guerra mundial, que originaram o “renascimento mais expressivo da canção nos tempos modernos” e que tem “substituindo o apetite de posse pela sensibilidade lírica”. “Brassens", comenta, "fala conscientemente aos condenados irrecuperáveis. Ele sabia que nem ele nem seus seguidores, cada vez mais numerosos, poderiam ser nem seriam nunca assimilados pelo sistema, e também sabia o porque. Ele nos fala em todas suas canções seja qual for o tema de que tratem. Com ele a contracultura alcançou maturidade”.

Na América, Rexroth descreve uma evolução paralela desde as baladas tradicionais, música folk e blues até as canções contraculturais dos anos sessenta. Ele diferencia a autêntica música folclórica — “a expressão natural de uma comunidade orgânica” — da canção de protesto pseudo folclórica, a qual considera, em sua maior parte, ruim e ridícula, ou pior ainda: uma expressão de Mentira Social. É verdade que alguns de seus próprios poemas contem formulações radicais, mas também é certo que, ao mesmo tempo, rechaça sempre a idéia de que a arte deveria estar subordinada às exigências “progressistas”. Ele acha que as letras que comunicam uma visão pessoal autêntica são, finalmente, mais subversivas que a propaganda explícita. “A poesia pode provocar uma resposta mais intensa, mais profunda e mais ampla diante da vida. Não pretendo dizer com isso que seremos homens melhores — isso depende de cada um — mas, o fato da poesia fazer parte de nossa vida fará com que tenhamos uma resposta muito mais universal diante os problemas, das coisas, dos objetos, diante da vida em geral e, definitivamente, poderemos por em jogo nossos mais íntimos recursos”. Rexroth supõe ademais que esta profunda resposta à vida irá unida a um rechaço à alienação e ao condicionamento e que tudo isso minará a ordem estabelecida:

A contracultura, entendida como cultura, ou seja, como forma de vida, é algo que não se pode apreender nem delimitar, corre pelas veias de nossa sociedade e não é possível retirá-la. Seus efeitos são corrosivos e contínuos. (...) As canções de Joni Mitchell (...) implicam e apresentam um esquema de relações humanas que não são assimiláveis pelo sistema, (...) nelas vemos um tipo de amor que não pode existir nesta sociedade. Suas canções se estendem como a radioatividade. Fomentam, na medida do possível, a subversão em derredor.

Oxalá fosse assim tão simples! É difícil medir o alcance de uma obra artística, mas duvido muito que qualquer canção, seja de Brassens ou Mitchell, ou de qualquer outro, possa ser imune, até este ponto, à assimilação. Quando muito, pode ser que desempenhe um pequeno papel na manutenção de um sopro de humanidade entre toda essa pressão desumanizadora que nos rodeia. Os comentários de Rexroth aos poemas de William Blake marcam seu papel positivo ao mesmo tempo em que nos revelam suas limitações: “É a arte de prover o coração com imagens de sua própria alienação. Se o indivíduo ou a sociedade podem projetar os dilemas os quais a razão é incapaz de confrontar, estes poderão ser controlados, embora não possam ser dominados. Esta foi a função de Blake. Ele viu a futura civilização mercantil e preparou um refúgio, uma fortaleza ou um porto simbólicos”.

Por outro lado, é preciso fazer uma distinção entre contracultura como “uma forma de vida” e a mera novidade artística. Na medida em que a contracultura dos anos sessenta consistia em experimentos audazes de diferentes modos de vida e consciência, poderíamos dizer que era bastante “corrosiva”. Mas, apresentar suas expressões artísticas como seu fator central seria um erro. Pode ser que alguns poucos poemas e algumas canções tenham exercido grande influencia, mas, em sua maioria, foram pálidos reflexos tardios das aventuras que realmente estavam ocorrendo.

As teses de Rexroth são mais aplicáveis aos países “comunistas”. Como ele mesmo assinalou, o fato de uma simples visita de Allen Ginsberg a Praga, ou de Joan Baez a Berlin, foi capaz de provocar pânico entre os burocratas. Mas isso ocorreria porque quase qualquer tipo de oposição ameaçaria o monopólio ideológico do qual dependia o poder das burocracias estalinistas. Nos sistemas ocidentais, mais flexíveis, se podem realizar obras artísticas verdadeiramente exageradas e, ainda assim, o sistema as assimilará como parte do espetáculo sem nenhum problema. Seu extremismo serve ao sistema para apoiar a pretensão de que há total liberdade de expressão (desde que a arte permaneça dentro do espetáculo e não passe para a ação).

Mas aqui chega à redução ao absurdo as teses de Rexroth:

Em geral, meus gostos pessoais vão desde cantadores que tratam de ir ao fundo das coisas, que falam de uma transformação fundamental da sensibilidade nas relações humanas e portanto na linguagem. Por exemplo, Dylan em seus melhores momentos, Donovan, Leonard Cohen, Joni Mitchell (...), há muita gente como eles por todo mundo, na França talvez mais do que em qualquer outra parte. Muitas das atividades lúdicas que tiveram lugar dia e noite no Odeon de Paris, durante a revolução de maio de 68, não tinham nada a ver diretamente com as revoltas, passageiras depois de tudo, nas ruas, com os males do sistema ou as traições da esquerda política. A gente cantava canções que iam à raiz dos males apresentando um novo modelo de ser humano.

Embora a música e a poesia tenham realmente efeitos subversivos, os argumentos de Rexroth caem de plano se, quando surge uma rara oportunidade na qual tudo passa a ser questionado e as pessoas tem uma pequena oportunidade de mudar a historia, a ele não ocorre nada mais do que continuar cantando. Houve muito mais poesia no ato de tomar o Odeon do que em todas as canções que se puderam cantar ali. Em uma situação como a de maio de 68, na qual milhões de pessoas sai de sua habitual existência sonâmbula e passam a provar o que é a vida real, o importante não é “apresentar” modelos alternativos de relações humanas, mas leva-los a cabo.

Toda organização da sociedade moderna vai contra isso. Não somente em restrições econômicas e políticas, mas também uma extensa e sutil contaminação cultural, que converte as pessoas em adictos de um consumismo passivo, funcionam contra toda realização humana. Nossa vida está dominada por uma constante invasão de espetáculos: noticias, anúncios, estrelas de cinema, aventuras de segunda mão, inclusive imagens de revoluções. Os situacionistas tem demonstrado que esto não é um traço superficial da vida moderna mas que reflete um estado qualitativamente novo da alienação capitalista. “O espetáculo não é uma coleção de imagens, mas uma relação social entre as pessoas, mediatizada pelas imagens” (Guy Debord, A Sociedade do Espetáculo).(12)

Neste novo contexto o papel da arte se converte em algo mais ambíguo. Qualquer que seja sua criatividade ou seus aparentes aspectos radicais, a arte passa a fazer parte do espetáculo e tende a reforçar a passividade do espectador.

A relação entre os autores e os espectadores é apenas uma transposição da relação entre dirigentes e executantes. (...) A relação entre o espetáculo e o espectador é, em si mesma, reflexo e reforço da ordem capitalista. A ambigüidade de toda “arte revolucionaria” reside no fato de que o aspecto revolucionário de qualquer representação tem sempre um contrapeso de elementos reacionário que estão presentes em todo espetáculo. [Debord e Canjuers].

Na realidade Rexroth não analisa esta questão, e isso debilita em grande medida seus argumentos a favor de uma arte subversiva. Basicamente, ele ainda aceita as funções tradicionais da arte, desejando que estas funções fossem levadas a cabo de uma maneira melhor e mais extensa, e que a arte fosse mais autêntica e relevante. Insiste na necessidade de que a arte consista em uma comunicação vital, mas esta comunicação é, como sempre foi, uma atividade especial feita apenas por algumas pessoas, de acordo com certas formas e em determinadas circunstancias.

Até mesmo essas tendências vanguardistas, que procuram suprimir o que a arte tem de representação, provocando a participação da audiência (por exemplo os happenings), o fazem dentro de limitações tais de espaço, tempo e conteúdo, que convertem esta participação em uma farsa. Como concluíram os situacionistas, a verdadeira realização da arte implica ir mais além de seus limites e levar a criatividade e a aventura dentro da crítica e a liberação de todas as manifestações da vida; e acima de tudo, implica tratar de subverter os condicionantes da submissão que impedem que as pessoas criem suas próprias aventuras. Isso não quer dizer que todas as obras literárias e artísticas sejam irrelevantes ou reacionárias, mas é pouco provável que as melhores delas sejam tão intrinsecamente subversivas como Rexroth parece esperar.

Sem embargo, se a estratégia de Rexroth sobre a sutil subversão cultural é, em alguns aspectos, duvidosa, é muito correta quando trata de fomentar a comunidade e a criatividade aqui e agora, quando insiste em que “as satisfações humanas e o significado da vida” não devem ser postergadas a um futuro hipotético. Os meios podem não ser idênticos aos fins, mas ao menos, devem ser coerentes com eles. Os valores que Rexroth encarna são fundamentais para qualquer autêntica liberação social, precisamente porque nos proporcionam satisfação por si mesmos e dão sentido a nossa vida. Como ele mesmo expressa em um de seus poemas mais comovedores, escrito en 1952 para as exéquias de um velho amigo:

(...) Acreditávamos
que veríamos com nossos próprios olhos
um mundo novo
onde o homem já não seria
lobo do homem, mas onde
em vez disso, todos, homens e mulheres,
seriam irmãos e amantes.
Não o vimos. Nenhum de nós o verá.
Está muito mais distante do que acreditávamos.
(...) Não importa.
Juntos fomos camaradas.
A vida foi bela para nós. É
bom ser valente. Não há nada
melhor. A comida é mais saborosa. O vinho
é mais reluzente. As garotas são mais
bonitas. O céu é mais azul. (...)
Se aqueles belos dias jamais voltarão,
é algo que não sabemos. Não importa.
O melhor foi nossa vida. Fomos
os homens mais felizes de nossa época.

Adeus, meu velho e querido conselheiro.


 [NOTAS]

11. Herbert Read (1893-1968). Poeta, filósofo e crítico de arte nascido na Inglaterra.

12. Este livro e outros textos dos situacionistas podem ser encontrados na página web http://altediciones.com/ash/


Fim do capítulo 3 de “Erotismo, Misticismo e Revolução” de Ken Knabb. Versão original em inglês: The Relevance of Rexroth (1990).

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Em tradução livre por Railton Sousa Guedes - Coletivo Periferia
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