Por
estas pedras já passaram juízes, padres, meretrizes, namorados,
escravos, artistas, famintos, senhores importantes e toda a sorte de políticos.
Enfim, a saga da humanidade!
Tanta gente que se foi, e agora seus passos jazem nas pedras dispersas das ruas
e calçadas, e pela História perdida no tempo. Passos, pensamentos
e sentimentos secretos, que hoje pétricos, aguardam silenciosamente o
despertar do sono perpétuo!... Pedras geometricamente dispostas, ou aleatoriamente
dispersas, esquecidas ou não, suportam a continuidade dos tempos. Alguém
se lembrou de levá-las para casa, para ver o que tinham! E como tanto
tinham para falar! Agora, arrumadas e enaltecidas, assumem, externamente, novas
formas - pórticos, sacadas e esculturas que esculpem rostos desconhecidos
de um passado longínquo, marcando sua presença com um sereno sorriso;
dando conforto aos que ali vivem e a todos que por ali passam. Consoante o dia,
servem de cenário a cultos à Virgem Maria, a Deus e aos santos,
e também, a empolgadas conversas banhadas a vinho, a declamações
poéticas, a demagogia política e discursos vazios. E, até
quando nada mais há, servem de reflexão sobre a vida! Em meio
a tanta magia, acontece o lúdico encontro histórico entre o mundo
dos mortos e dos vivos, onde as palavras e pensamentos dos vivos desafiam a
morte consolidada nas pedras inertes; por pouco tempo! Amanhã, mais pedras
se juntam às que ouvimos; novas histórias aguardam pacientemente
o barulho dos passos por vir. E o que sobra de tudo isto? Apenas um amor infinito;
de tudo o que foi daquilo que é, de tudo o que será! E se Deus
não houver? Então, nada mais resta, somente as pedras mortas,
sem vida e aquelas que logo serão, que no silêncio para sempre
permanecem! Apenas pedras.
Nada mais somos que não tivéssemos sido! Permanece o Amor infinito
daquele que prevalece...
Fernando Figueirinhas