Vários
foram os suportes culturais usados, ao longo dos milênios, para preservar
a memória da humanidade, porém, a característica, somente
o livro a conseguiu.
Retrocedendo na História, voltemos à Idade Média. É
precisamente aí que vamos achar os primeiros livros ornamentados que
eram necessários ao culto divino. Objetos litúrgicos e livros
deveriam ser ricamente ornamentados. Continuando o nosso percurso na História,
deparamo-nos no outono da Idade Média, com um homem diferente do passado
- sequioso de ver, não a realidade da vida, mas os seus sonhos. Neste
momento, acontece pela primeira vez na História, um novo fato, o longo
relacionamento entre o homem e o livro; uma nova concepção do
mundo surge, dando largas à possibilidade de evasão que vai influir
na evolução da humanidade até aos nossos dias. É
ainda neste momento que se verifica o cruzamento entre as diversas artes, bem
como a decadência de algumas delas em favor de outras. É o caso
da arquitetura, que entra aqui em declínio, passando a pintura a assumir
o primeiro lugar, entre todas as artes, dada a possibilidade que esta tem em
propor uma nova visão. Mais que nunca estavam criadas as condições
para os mestres; principalmente franceses e flamengos, vingarem o livro iluminado,
que logo adquiriu grande esplendor.
Possuíam estes livros, magníficos frontispícios e letras
rebuscadas, e ainda, no seu interior, pinturas alusivas a animais, frutas e
cenas campestres, evocando um mundo de sonhos...
Divide-se a iluminura em Portugal em dois capítulos: "Iluminura
Medieval - séc. XII - XV" e "Iluminura Manuelina - séc.
XVI". A razão desta divisão deu-se à evolução
da iluminura nos grandes centros europeus, como a Flandres e a Itália,
que atingiram o ponto máximo da sua produção no século
XV, para, logo em seguida, sofrerem vertiginosa decadência.
Voltando ao eixo do tempo, encontramo-nos agora no século XVI, que foi
a idade de ouro para a iluminura em Portugal. As excelentes condições
econômicas e políticas propiciaram o apogeu da iluminura. D. Manuel
tornou-se rei de Portugal, e precisava de se de afirmar perante uma corte que
nunca o imaginou rei. Os descobrimentos deram origem a um estado intercontinental
com todo o aparato característico: uma corte cosmopolita, faustosa e
exótica, numa sociedade de iletrados, pois o livro era privilégio
da ordem e de senhores importantes. Apesar da imprensa já produzir belas
e significativas edições, D. Manuel preferia sempre os manuscritos
iluminados, que lhe davam prestígio e singularidade.
Dinheiro e vontade de produzir iluminuras atraem grandes artistas, não
só portugueses como estrangeiros, principalmente originários da
Flandres. O rei não tinha limites! As iluminuras, que antes ficavam praticamente
por conta do clero, passam agora a obras laicas, como as da chancelaria, da
heráldica, crônicas de reis, cartas de foral, até às
cartas geográficas. E assim se perpetuam as memórias dos feitos
portugueses. Acaba aqui a nossa viagem àquele tempo. Voltemos à
contemporaneidade! Num piscar de olhos vemos: a fotografia, o celulóide
e num breve espaço de tempo, o computador. Tempo, espaço e projeção,
apontam o novo interesse do mundo ao convergirem para o futuro. Imagens em três
dimensões, robótica, automação da produção
e serviços, truques cinematográficos e interatividade virtual
são parte do nosso cotidiano. Amanhã veremos todo o conhecimento
de um cientista num micro-chip. E logo fará parte do passado!
Voltando aos manuscritos iluminados com as suas letras góticas, escritas
por vezes, a ouro ou prata, com figuras e cenas encontradas algures no passado,
não só ficamos a saber por onde passamos, como também nos
levam a pensar em sonhar os sonhos distantes vividos, que ainda são nossos
sonhos !...
Fernando Figueirinhas