A ARTE DE ESTUDAR

 

transcrito de FROTA-PESSOA, Oswaldo, GEVERTZ, R. e SILVA, A.G.  Como Ensinar Ciências.  São Paulo: Edição Nacional, 1982.  p. 86-89.

 

            Trata-se de uma orientação para a difícil arte de estudar

 

I. Idéias inertes e aprendizagem funcional

 

            1.1.Para que estudamos? Para atingir três objetivos:

a)      passar em provas e exames, conseguir diplomas;

b)      adquirir conhecimento;

c)      aprender a usar o conhecimento.

            O erro de muitos estudantes é dar maior valor a “a”, depois a “b” e nem mesmo que “c” também é importante. Combata esse erro para poder melhorar seu modo de estudar.

 

            1.2.Só se aprende a utilizar o conhecimento aprendendo a pensar, isto é, a resolver com eficiência os problemas da vida e da profissão. O curioso é que, concentrando seus esforços no objetivo “c”, acima, os outros dois serão atingidos melhor do que se você se concentrasse diretamente neles.

 

            1.3.Isto é assim porque há dois tipos de aprendizagem:

a)      a aprendizagem apenas aparente, constituída de idéias inertes, que não se relacionam com outras e não se tornam instrumentos de trabalho mental;

b)      a aprendizagem funcional, constituída de idéias que usamos no momento adequado para resolver problemas novos e penetrar no desconhecido; (preste atenção neste item, pois um Químico não é o profissional que sabe Química, mas sim o profissional capaz de resolver problemas que envolvem Química).

 

            1.4.Os cursos estritamente expositivos, em que o professor diz como são as coisas e os alunos tomam notas (para depois estudar somente em vésperas de prova) produzem um excesso de idéias inertes. Só adquirimos aprendizagem funcional quando buscamos o conhecimento necessário para resolver um problema que nos interessa, isto é, quando a aprendizagem já é funcional no momento de ser adquirida.

 

            1.5.Portanto, para obter aprendizagem real, de nada adianta procurar simplesmente reter na memória fatos e princípios; é preciso enfrentar problemas, pensar neles com a própria cabeça, testar hipóteses e buscar o conhecimento necessário na literatura, junto ao professor ou na própria natureza. Se você se exercitar na arte de utilizar o conhecimento (objetivo “c” do item 1.1) estará, ao mesmo tempo, adquirindo conhecimento (objetivo “b”) de forma funcional, e com isto ficará também preparado para as provas, melhor do que aquele que “estudou para a prova” (objetivo “a”).

 

 

II. Como se PREPARAR para um novo curso

 

            2.1.Ao começar um novo curso, a primeira coisa a fazer é, ficar interessado no assunto a estudar. A segunda é munir-se de fontes de informação (os livros mais adequados). A terceira é pensar como você pode obter o máximo de experiência direta em seu campo de estudo (parte prática).

 

            2.2.Tome conhecimento do programa a ser desenvolvido no semestre (ou ano). Pense sobre o tipo de coisa que você deverá aprender. Faça um inventário geral do que você já sabe e do que ainda não sabe sobre o assunto. Pergunte-se: “que problemas essa matéria me ajudaria a resolver?” Por exemplo, se o curso é de Zoologia, você se perguntará: para que dissecar bichos, ver como são seus órgãos, classifica-los em ordens e famílias, descobrir como vivem? Talvez lhe ocorra que isto venha a contribuir para você resolver intrigantes questões: por que há tantos animais sobre a Terra? são eles descendentes dos mesmos antepassados? Com este tipo de indagação você aumentará seu interesse pelo assunto.

 

            2.3.Informe-se sobre livros que cubram a matéria do curso,além do adotado como livro texto pelo professor. Decida-se por um livro que, se bem estudado, lhe dê base sólida sobre a maior parte do programa. Não se amedronte se o livro for em inglês, alemão ou espanhol; ele o ajudará também a aprender essas línguas.

 

            Indague sobre métodos de estudo prático. Por exemplo na Pedagogia: que tal dar você próprio algumas aulas? Qualquer estudo prático que você resolva fazer por si mesmo aumentará extraordinariamente seu interesse pelo assunto e lhe dará enorme superioridade ao enfrentar as matérias regulares do curso.

 

 

III. Como se preparar para cada aula

 

            3.1.Como agir em relação a cada aula? Procure saber o que vai ser tratado na aula seguinte e estude no livro a matéria antes dela ser esplanada pelo professor. Esta é, talvez, a regra mais preciosa, embora seja difícil de seguir porque exige autodisciplina. Fazendo isso você aproveitará a aula muito mais, porque já pensou, por si mesmo, nos problemas que o professor abordará (também formulará as dúvidas a serem questionadas ao professor).

 

            3.2.Como estudar no livro? Localize nele o assunto. Folheie o capítulo lendo os subtítulos e uma frase aqui e outra lá, para formar uma idéia geral sobre o assunto (e sobre como ele está organizado no livro). Pare e pense. Que sabe você a respeito? Que dúvidas tem? Que ignora totalmente? Anote no caderno os tópicos que você menos conhece. Pense no tipo de informação que você precisa adquirir para dominar o assunto.

 

            3.3.Ataque agora o primeiro tópico do livro. Vá julgando o que lê, assim: “isso eu já sabia; isso eu não sabia”. Avalie a importância de cada fato novo para você. Veja em que contribui ele para esclarecer os assuntos que você assinalou no caderno porque os ignorava. Terminado o tópico, recapitule-o mentalmente. Que fatos novos você aprendeu? Resuma, no caderno, a idéia principal do tópico, a essência do assunto. Passe ao tópico seguinte, agindo da mesma maneira. Terminada a leitura, relacione o aprendido com os assuntos estudados anteriormente, inclusive em outras disciplinas.

 

            3.4.Você está percebendo que o importante ao estudar no livro é pensar sobre os assuntos, com sua própria cabeça, de modo que você vá acrescendo ao que pensou as novidades do livro. É difícil de explicar como se faz, mas com um pouco de prática, não é difícil fazê-lo. É assim que os cientistas estudam para resolver os problemas que os interessam. No começo siga à risca as instruções dos itens “3.1” a “3.3” até você se habituar ao método. Depois você pode simplificar o processo.

 

            3.5.Antes de começar o estudo para a aula seguinte, recapitule mentalmente o que você aprendeu na aula anterior. Procure esclarecer no livro algum assunto que tenha ficado obscuro.

IV. COMO AGIR NAS AULAS

 

4.1.Assistir à aula depois de ter estudado o assunto é muito mais agradável e proveitoso. Enquanto o professor fala, vá pensando: “isto eu já sabia; isto é novidade para mim. Que contribuição traz este novo fato ou idéia à questão principal desse assunto?”. Pense junto com o mestre.

 

            4.2.Se você não se sente seguro, anote um ou outro ponto mais importante no caderno, para se lembrar de pensar melhor sobre eles depois. Mas limite as notas a um mínimo (com exceção do que é ditado ou recomendado pelo professor, e não está disponível nos livros a que você tem acesso). Alguém disse (exagerando) que uma aula de exposição é o meio pelo qual se transfere matéria do caderno de notas do professor, para o caderno de notas do aluno, sem que ela passe pela cabeça de nenhum dos dois.

 

            4.3.E as aulas práticas? Ao iniciar algum exercício, pergunte-se: “que devo descobrir? Que devo ver como é?”. Trabalhe sempre como alguém que vai descobrir algo importante, não quem executa uma rotina.

 

            4.4.Em todo seu trabalho, teórico ou prático, mantenha uma atitude inquisitiva. Você é um pesquisador em potencial. Só se aprende a pesquisar (resolver problemas), pesquisando. Adotando essa atitude, seu estudo será uma aventura intelectual.

 

            4.5.É fatal que você encontre cursos que tornem o estudo mais produtivo do que outros. Mas você não é mais criança. Compete a você aprender direito, em qualquer hipótese. Se o curso for bom, isso será mais fácil. Se o curso for ruim, não use isso como desculpa. Você tem o interesse e a obrigação de aprender, em qualquer dos casos.

 

            4.6.Dos 150 milhões de brasileiros, que fração teve, como você, a excepcional oportunidade de estudar? Você não tem o direito de ser medíocre.

 

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