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MO�A DIREITA Eu apenas pego a noite em meus bra�os acaricio acaricio at� ela virar madrugada e a fa�o ficar perdida na vida. E � assim que eu saio com ela e ela me apresenta todos os seus cabar�s todas as suas filhas prostitutas todos os seus sonhos de sarjeta. Mas � assim mesmo que deve ser eu casar com a noite para que as pessoas parem de dizer que ela n�o � mo�a direita. MADRUGADA Enquanto as luzes v�o ficando sonolentas e a escurid�o procura esconder os pecados os sonhos exalam pelas janelas encontram-se sobre as casas e formam arco-�ris. Os gatos aparecem de relance para mostrar que existam fantasmas. O vento suave incomoda os pap�is deixados na rua e a noite assustada corre com medo de ser assaltada. O PALHA�O E O POETA Um palha�o e um poeta encostados na tarde observam o desenrolar dos acontecimentos. A alegria e a poesia nunca foram irm�s mas o palha�o e o poeta s�o irm�os insepar�veis e jogam purrinha com os fatos. O poeta � melanc�lico e os homens t�m pressa fazemos parte do poema somos parte da gra�a. O palha�o e o poeta comem na mesma mesa os nossos mist�rios enfileirados o mimetismo das mentiras. Saber que os santos n�o existem � uma felicidade imensa saber que somos t�o s�s como o palha�o e o poeta e este punhado de estrelas de molho no c�u. ENVELHECER J� tenho cansa�o do caf� do vinho dos livros j� tenho medo do sol de um menino minhas m�os j� n�o t�m o mesmo carinho a mesma facilidade. Uma pregui�a da manteiga do p�o do corpo do ch�o nem mais uma d�vida um sorriso � coisa rara. Tenho medo do amor deste licor de jabuticaba com gosto de transparente. Tenho cansa�o das flores meu �dio eu cultivo calado realmente n�o falo. N�o procuro a minha felicidade nem tampouco a dos outros. Observo essas baratas subindo pelas paredes cuido da minha sa�de do medo de morrer. SAUDADE H� v�rios dias ela vem me seguindoxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx minimizando a gra�a das coisas cortando minha alma feito gilete. A saudade faz isso e ela vem me matando com seus privil�gios de dor diferente. A saudade armada de todos os momentos passados de todas as pessoas amadas mutila o meu ser. CASAS ANTIGAS Essas casas antigas de cara sisuda e misteriosa olham de banda para cima com medo dos arranha-c�us. Mas um medo escondido de quem se v� amea�ado e se sente impotente. � o orgulho das velhas coisas das coisas velhas que as mant�m firmes no ch�o. Estas casas antigas que enquanto existirem guardar�o entre suas paredes o mofo dos segredos inimagin�veis que o tempo n�o ousou revelar. LEMBRAN�A A lembran�a dos tempos de crian�a de crian�a feliz das turmas de rua. Esta lembran�a grande e profunda corre nas veias dos dias de hoje e brota de tempo em tempo numa hemorragia oportuna para n�o se pensar no presente. A lembran�a palha�a faz cambalhotas engra�adas para que a idade avan�ada possa sorrir conformada. PRONUNCIAMENTO O ditador gosta de falar pela TV diz o que fez vai fazer e gostaria de ter feito os melhoramentos de seu governo e que gra�as a Deus sua gest�o � pr�spera. O ditador gosta de falar pela TV mesmo sabendo que nas casas as televis�es s�o desligadas quando ele aparece no v�deo. VONTADE DE SER POETA Tenho um sentimento e uma vontade imensa de escrever um poema que n�o seja certo pelo menos seja belo. Mas eu n�o conhe�o as palavras meus olhos vazios passeiam sobre o papel. Ah, se eu fosse poeta! CHICO SANFONEIRO Na minha rua Chico toca sanfona todas as tardes depois das cinco. O c�u � vermelho junto �s montanhas h� nuvens finas e longas � quando brota um estrela prematura. Chico toca sanfona de dentro de seu palet� rasgado de avental as mulheres ouvem de sorrisos as crian�as ouvem os homens chegam do trabalho e ouvem. Pequenos insetos dan�am ao redor das cabe�as � festa � Chico quem toca e todos suspiram Chico toca t�o bem! As tardes foram feitas para ele tocar D�VIDA DA VIDA O poeta escreve E n�o compreende as tropas estacionadas na fronteira O poeta apenas escreve Ele tem uma barata presa dentro da boca E teme que ela um dia voe E espalhe pelos ralos da casa As palavras que ele n�o encontrou no dicion�rio. O poeta tem poucos amores E um cora��o do tamanho Da corrup��o dos pal�cios N�o foi ontem que ele disse uma verdade N�o ser� amanh� que ele dir� "eu te amo" H� um ego�smo nos olhos do poeta Ele instiga o �dio dos que o admiram Ele vive lambendo o rabo da tarde Cortando as unhas depois do banho. CANTO DE PAREDES Canto de paredes lugar esquecido das salas e dos quartos pato feio da arquitetura onde as aranhas constr�em suas teias. Canto de paredes espa�o perdido no ambiente diedro intrometido na vida dos c�modos. Lugar ideal para um beijo. BALCONISTA A balconista me olha me sorri quando eu passo na frente da loja mas � um sorriso diferente do que � dado ao fregu�s � um sorriso sem pre�o sem a obriga��o imposta pelo dono da loja. Ela vende de quase tudo mas nada � dela a n�o ser as horas perdidas a n�o ser o mirrado sal�rio com que ela compra o seu sonho di�rio. Apesar de tudo ela ainda sorri verdadeiro sorri para mim para quem evita comprar. DEVER O poema tem a obriga��o de colocar fogo no mundo de decretar greve geral de fazer mais barulho que a marcha do pelot�o. O poema tem a obriga��o de quebrar todos os dentes da boca do Poder LUA SURDA Lua que escorrega pelo c�u cai dentro da boca da cidade e se deixa engolir por essa cole��o de sonhos que fabricamos debaixo das chamin�s. V� que temos m�os que temos p�s e n�degas e que plantamos arco-�ris nos nossos jardins de ervas daninhas. Saiba que somos de barro e o que nos faz assim diferentes � esse sopro de vida que se chama poesia. Te digo que recebemos sal�rios que pagamos contas assistimos a telejornais e ficamos m�rbidos com cartas de suicidas. Lua, � essa a nossa hist�ria por isso te pe�o vomite diariamente estrelas e n�o deixe nossa noite ficar escura. DOR DO POETA Essas palavras tornariam-se l�grimas caso tivessem consci�ncia da dor do poeta. Dissolveriam o papel e ent�o n�o ficaria o poema. ESFOR�O PARA O MAL Neste quadro que pinto esqueci as cores das tintas n�o necessito de cores o arco-�ris eu tenho no sangue que n�o � meu que n�o � teu n�o � de ningu�m. Apenas por pouco te empresto meu amor mas ao amanhecer eu me escondo num sono profundo numa leitura de superficie. N�o tenho sofrido n�o tenho sido feliz. Conto os anos e tenho vontade de fumar e �s vezes conto os cigarros. Eu como p�o e nicotina n�o gosto das outras pessoas. Um abutre voa dentro de mim e n�o me deixa ser pouco me quer destrutivo. Tamb�m como carni�a. PRINC�PIO DA NOITE Como n�o reconhecer o princ�pio da noite se at� os gr�bulos j� se agitam para a cama e o rodap� das paredes j� sente a presen�a das sombras noturnas? Mas o que mais indica esta retra��o de sentidos � a dist�ncia da mulher amada. N�o tenho a certeza se o que acontece � respeito ao arco-�ris dos dentes ou a cumplicidade do vento no levantar das saias. A espiral o amor � todo em espiral na geometria dos meus cadernos amassados. N�o escrevo mentiras n�o queimo pap�is mas respeito os falsos sentidos e me perco nessa floresta de Sherwood. Tamb�m Robin Hood teria um chicote na m�o se n�o fosse o mocinho do filme. BAL�ES Como s�o belas estas noites de julho com sua estrelas brilhando no c�u. S�o mesmo estrelas ou bal�es que se esqueceram de cair? |
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