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MO�A DIREITA

Eu apenas pego a noite em meus bra�os
acaricio
acaricio
at� ela virar madrugada
e a fa�o ficar perdida na vida.

E � assim que eu saio com ela
e ela me apresenta
todos os seus cabar�s
todas as suas filhas prostitutas
todos os seus sonhos de sarjeta.

Mas � assim mesmo que deve ser
eu casar com a noite
para que as pessoas parem de dizer
que ela n�o � mo�a direita.


MADRUGADA

Enquanto as luzes v�o ficando sonolentas
e a escurid�o procura esconder os pecados
os sonhos exalam pelas janelas
encontram-se sobre as casas
e formam arco-�ris.
Os gatos aparecem de relance
para mostrar que existam fantasmas.
O vento suave incomoda os pap�is
deixados na rua
e a noite assustada
corre com medo de ser assaltada.


O PALHA�O E O POETA

Um palha�o e um poeta
encostados na tarde
observam o desenrolar dos acontecimentos.

A alegria e a poesia nunca foram irm�s
mas o palha�o
e o poeta
s�o irm�os insepar�veis
e jogam purrinha com os fatos.

O poeta � melanc�lico
e os homens t�m pressa
fazemos parte do poema
somos parte da gra�a.

O palha�o e o poeta
comem na mesma mesa
os nossos mist�rios enfileirados
o mimetismo das mentiras.

Saber que os santos n�o existem
� uma felicidade imensa
saber que somos t�o s�s
como o palha�o e o poeta
e este punhado de estrelas
de molho no c�u.


ENVELHECER

J� tenho cansa�o do caf� do vinho dos livros
j� tenho medo do sol
de um menino
minhas m�os j� n�o t�m o mesmo carinho
a mesma facilidade.
Uma pregui�a
da manteiga do p�o do corpo do ch�o
nem mais uma d�vida
um sorriso � coisa rara.
Tenho medo do amor
deste licor de jabuticaba
com gosto de transparente.
Tenho cansa�o das flores
meu �dio eu cultivo calado
realmente n�o falo.
N�o procuro a minha felicidade
nem tampouco a dos outros.
Observo essas baratas subindo pelas paredes
cuido da minha sa�de
do medo de morrer.


SAUDADE

H� v�rios dias ela vem me seguindoxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxxx
minimizando a gra�a das coisas
cortando minha alma feito gilete.
A saudade faz isso
e ela vem me matando
com seus privil�gios
de dor diferente.

A saudade armada
de todos os momentos passados
de todas as pessoas amadas
mutila o meu ser.


CASAS ANTIGAS

Essas casas antigas
de cara sisuda e misteriosa
olham de banda para cima
com medo dos arranha-c�us.
Mas um medo escondido
de quem se v� amea�ado
e se sente impotente.

� o orgulho das velhas coisas
das coisas velhas
que as mant�m firmes no ch�o.

Estas casas antigas
que enquanto existirem
guardar�o entre suas paredes
o mofo dos segredos inimagin�veis
que o tempo n�o ousou revelar.


LEMBRAN�A

A lembran�a
dos tempos de crian�a
de crian�a feliz
das turmas de rua.

Esta lembran�a
grande e profunda
corre nas veias dos dias de hoje
e brota de tempo em tempo
numa hemorragia oportuna
para n�o se pensar no presente.

A lembran�a palha�a
faz cambalhotas engra�adas
para que a idade avan�ada
possa sorrir conformada.


PRONUNCIAMENTO

O ditador gosta de falar pela TV
diz o que fez
vai fazer
e gostaria de ter feito
os melhoramentos de seu governo
e que gra�as a Deus
sua gest�o � pr�spera.

O ditador gosta de falar pela TV
mesmo sabendo que nas casas
as televis�es s�o desligadas
quando ele aparece no v�deo.


VONTADE DE SER POETA

Tenho um sentimento
e uma vontade imensa
de escrever um poema
que n�o seja certo
pelo menos seja belo.
Mas eu n�o conhe�o as palavras
meus olhos vazios
passeiam sobre o papel.
Ah, se eu fosse poeta!


CHICO SANFONEIRO

Na minha rua
Chico toca sanfona
todas as tardes depois das cinco.
O c�u � vermelho junto �s montanhas
h� nuvens finas e longas
� quando brota um estrela prematura.

Chico toca sanfona
de dentro de seu palet� rasgado
de avental as mulheres ouvem
de sorrisos as crian�as ouvem
os homens chegam do trabalho e ouvem.
Pequenos insetos dan�am
ao redor das cabe�as
� festa
� Chico quem toca
e todos suspiram
Chico toca t�o bem!
As tardes foram feitas
para ele tocar


D�VIDA DA VIDA

O poeta escreve
E n�o compreende
as tropas estacionadas na fronteira
O poeta apenas escreve
Ele tem uma barata presa dentro da boca
E teme que ela um dia voe
E espalhe pelos ralos da casa
As palavras que ele n�o encontrou no dicion�rio.

O poeta tem poucos amores
E um cora��o do tamanho
Da corrup��o dos pal�cios
N�o foi ontem que ele disse uma verdade
N�o ser� amanh� que ele dir�
"eu te amo"
H� um ego�smo nos olhos do poeta
Ele instiga o �dio dos que o admiram
Ele vive lambendo o rabo da tarde
Cortando as unhas depois do banho.


CANTO DE PAREDES

Canto de paredes
lugar esquecido das salas e dos quartos
pato feio da arquitetura
onde as aranhas constr�em suas teias.

Canto de paredes
espa�o perdido no ambiente
diedro intrometido na vida dos c�modos.

Lugar ideal para um beijo.


BALCONISTA

A balconista
me olha
me sorri
quando eu passo na frente da loja
mas � um sorriso diferente do que � dado ao fregu�s
� um sorriso sem pre�o
sem a obriga��o imposta pelo dono da loja.
Ela vende de quase tudo
mas nada � dela
a n�o ser as horas perdidas
a n�o ser o mirrado sal�rio
com que ela compra o seu sonho di�rio.
Apesar de tudo
ela ainda sorri verdadeiro
sorri para mim
para quem evita comprar.


DEVER

O poema tem a obriga��o
de colocar fogo no mundo
de decretar greve geral
de fazer mais barulho
que a marcha do pelot�o.

O poema tem a obriga��o
de quebrar todos os dentes
da boca do Poder


LUA SURDA

Lua que escorrega pelo c�u
cai dentro da boca da cidade
e se deixa engolir
por essa cole��o de sonhos
que fabricamos debaixo das chamin�s.

V� que temos m�os
que temos p�s e n�degas
e que plantamos arco-�ris
nos nossos jardins de ervas daninhas.

Saiba que somos de barro
e o que nos faz assim diferentes
� esse sopro de vida
que se chama poesia.

Te digo que recebemos sal�rios
que pagamos contas
assistimos a telejornais
e ficamos m�rbidos
com cartas de suicidas.

Lua,
� essa a nossa hist�ria
por isso te pe�o
vomite diariamente estrelas
e n�o deixe
nossa noite ficar escura.


DOR DO POETA

Essas palavras
tornariam-se l�grimas
caso tivessem consci�ncia
da dor do poeta.
Dissolveriam o papel
e ent�o
n�o ficaria o poema.


ESFOR�O PARA O MAL

Neste quadro que pinto
esqueci as cores das tintas
n�o necessito de cores
o arco-�ris eu tenho no sangue
que n�o � meu
que n�o � teu
n�o � de ningu�m.
Apenas por pouco te empresto meu amor
mas ao amanhecer eu me escondo
num sono profundo
numa leitura de superficie.
N�o tenho sofrido
n�o tenho sido feliz.
Conto os anos e tenho vontade de fumar
e �s vezes conto os cigarros.
Eu como p�o e nicotina
n�o gosto das outras pessoas.
Um abutre voa dentro de mim
e n�o me deixa ser pouco
me quer destrutivo.
Tamb�m como carni�a.


PRINC�PIO DA NOITE

Como n�o reconhecer o princ�pio da noite
se at� os gr�bulos j� se agitam para a cama
e o rodap� das paredes
j� sente a presen�a das sombras noturnas?

Mas o que mais indica esta retra��o de sentidos
� a dist�ncia da mulher amada.

N�o tenho a certeza se o que acontece
� respeito ao arco-�ris dos dentes
ou a cumplicidade do vento
no levantar das saias.

A espiral
o amor � todo em espiral
na geometria dos meus cadernos amassados.

N�o escrevo mentiras
n�o queimo pap�is
mas respeito os falsos sentidos
e me perco nessa floresta de Sherwood.
Tamb�m Robin Hood teria um chicote na m�o
se n�o fosse o mocinho do filme.


BAL�ES

Como s�o belas estas noites de julho
com sua estrelas brilhando no c�u.
S�o mesmo estrelas
ou bal�es
que se esqueceram de cair?


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