I - História do ROCK
- Introdução
1. Definições
" Quem escreve sobre rock quase sempre é alguém que não
sabe escrever, escrevendo sobre quem não sabe tocar, para muita
gente que não sabe ler..." 1 - Frank Zappa .
" Para se conhecer em profundidade o que tem sido este
século não se pode ignorar o que é o rock" 2 - Yoko Ono
" O rock, que era assunto de homens, foi rapidamente
contestado, na sua supremacia viril, pelas mulheres: elas
expressaram nele sua visão de mundo, a sua percepção das
coisas"3
"O rock atingiu as famílias, fez de crianças ajuizadas
indivíduos com blusões negros, beatniks, hippies e punks. Os
pais não mereciam isso..."4 .
"O rock-and-roll é a marcha marcial de todos os
delinqüentes juvenis na face da terra" 5 - Frank Sinatra
"Como é que o rock-and-roll pode fazer alguém rebelde
contra os seus pais ?" 6 - Elvis Presley
"Eu nunca li um livro em toda a minha vida" 7. - Fred Durst,
do grupo Limp Bizkit.
"Pois se o surgimento deste corte de cabelo (estilo punk)
deu-se como uma agressão contra o sistema, sua utilização pela
mídia associando-o a um novo estilo de vida nos anúncios de
roupas, refrigerantes, cigarros, acabou deformando seu sentido
original. Decorrido algum tempo, este corte de cabelo, em um
salão da moda (...) custa uma quantia não inferior a duzentos
dólares"8
"Quando a geração hippie manifestava-se contra a Guerra do
Vietnã (...), quase ninguém seria capaz de imaginar que todo
aquele desgaste seria, num futuro distante, praticamente
infrutífero" 9
"Recusa da rotina e da morte banal, o rock é uma forma de
sonhar com o corpo"10
2. Características Gerais
O rock é um fenômeno cultural de massa, superou a literatura e
o cinema, é de fácil acesso e está presente em todo o mundo:
não é só inglês ou norte-americano; canta em zulu com Johny
Clegg e Savuka (África do Sul); em português com Raul e Renato
Russo; em árabe com Cheb Khaleb; renova-se na Jamaica, gerando o
reaggae de Jimmy Cliff; choca a Alemanha com Nina Hagen; ganha um
som sintético com Jean Michel Jarre, na França; canta em
japonês e até em russo.
Freqüentemente, a música rock tem a sua imagem associada à
contestação política da juventude. De fato, o rock embalou a
Marcha pelos Direitos Civis, ao som de James Brown, nos EUA dos
60, liderada por Martin Luther King; Bob Dilan se transforma em
guia da contestação contra a Guerra do Vietnã, a violência e
o conservadorismo.
O reaggae acompanhou as revoltas da população negra e
miserável da periferia de Kingston, na Jamaica; o som punk
acompanhou os desempregados do bairro de Nothing Hill, em
Londres, nos anos 70.
O rock foi o canto de guerra dos jovens de Soweto na África do
Sul. Levantou fundos contra a fome no continente africano ( o
Live-Aid) e contra o apartheid no Estádio de Wembley,
Inglaterra. Foi a música desafio nos últimos anos da URSS.
The Clash elogiou a revolução sandinista na Nicarágua, contra
o poder aparentemente insuperável dos EUA na América Latina.
Com o U2, os conflitos religiosos, coisa que parece exclusividade
dos islâmicos, são mais uma vez denunciados mundialmente e
envergonham a civilizada Grã-Bretanha cristã. Já nos anos 20,
o blues (raíz do rock) de Billie Holiday atacava os linchamentos
executados pelo Ku Klux Klam na letra de "Strange
Fruit".
Por vários cantos deste planeta, o rock encorajou os jovens
contra o mundo decadente dos adultos. Como afirmara Andy Warhol,
o rock é uma atitude, isto é, música, vestuário e estilo de
vida não devem estar separados para definir o rock.
Porém, a tendência despolitizada quase sempre dominou no mundo
do rock: o conteúdo das canções dos anos 50, 60, 70 e 80,
permanece fiel, no essencial, à evocação do da vida quotidiana
dos adolescentes e do amor: separação, desespero, alegria,
inveja, encontro, beleza, dinheiro, sexo. Estes eram os temas do
blues e do rock-and-roll das origens. Estes temas predominam até
hoje.
O rock também é, desde as suas origens, um produto de consumo,
um forte atrativo no mercado cultural. Teve o apoio da contínua
evolução tecnológica: inicia-se com os discos de 78 rotações
e chega ao CD atual. Nos anos 50 teve o imprescindível apoio do
rádio, o que levaria às atuais rádios FM. A TV e o cinema
levaram o rock a uma audiência de massa. Surgiram também o
apoio do vídeo, das revistas especializadas e canais musicais de
TV, como a rede mundial da MTV (EUA)
Finalmente devemos destacar as principais fases e estilos daquilo
que estamos chamando de rock. O blues do delta do Mississipi
(anos 30 e 40) lança o ritmo, os acordes e os temas que darão
origem ao rock-and-roll dos anos 50. Nos anos 60, o rock é
renovado pela música popular inglesa e pelo roqueiros da
contracultura norte-americana. Os anos 70 dão espaço aos
mega-conjuntos do do rock progressivo e mais tarde do heavy
metal.
Nossa viagem musical passa pelo final dos anos 70 (punk e new
wave) e anos 80, com os sobreviventes do "progressivo",
a música de variedades e o rock do Terceiro Mundo, inclusive do
Brasil.
Notas:
1. Citado por Corrêa, Tupa Gomes;
Rock, nos passos da moda: mídia, consumo X mercado, Campinas, Papirus, 1989,
página 11.
2. Id, Ibidem, página 11.
3. Paraire, Philippe; 50 Anos de Música Rock, Editora Pergaminho, Lisboa, 1992.
4. Id, Ibidem, página 9.
5. Citado por Chacon, Paulo; O que é Rock, Ed Círculo do Livro, 1992; página
90
6. Id. Ibid, página 92
7. Frase citada na revista Showbizz, janeiro de 2000.
8. Correa, op. cit., página 76.
9. Id. Ibidem, página 74
10. Paraire, op.cit, prefácio de José Artur
II - História do Rock - Origens
"A História do rock deve começar, o mais tardar, nos anos 30, estudando
o blues rural e não principiar com "Rock Around The Clock" de Bill
Halley" 1.
1. Origens em Branco e Preto
Para muitos críticos musicais, o rock nasce da fusão do blues e da música country,
no início dos anos 50, no sul dos EUA. Bill Halley e Elvis Presley seriam o
Avó e o Pai do rock. Forma racista de reconstituir as origens deste estilo musical.
Foi necessário o talento e a autoridade dos grandes grupos e roqueiros ingleses
dos anos 60 para que as verdadeiras raízes viessem à tona. Rolling Stones, Eric
Clapton e Jimmy Page proclamaram em vários de seus shows a sua admiração, inspiração
e dívida para com estes cantores negros norte-americanos, anteriores a Bill
Halley: Little Richard, Chuck Berry, Fats Domino e Bo Diddley.
A pesada atmosfera de conflitos raciais dos anos 50 EUA levou a mídia branca
daquele país a menosprezar, quando não proibir abertamente a música popular
negra. Quando finalmente a musica negra consegue seu próprio mercado ( os "race
records" ), então os empresários brancos divulgam-na em listas separadas
de sucesso (o top ten da época): uma tabela para os artistas brancos mais ouvidos;
outra tabela para negros.
Se os rebolados de Elvis já causavam polêmica, a ponto das TVs dos EUA ficarem
proibidas de divulgar imagens de seus quadris para baixo, o que dizer dos espetáculos
de Little Richard, marcados por um ritmo tresloucado, irreverente, roupas exóticas
em ambiente de verdadeiro transe coletivo ?.
Rádios e apresentadores viam-se constantemente ameaçados: "Você vai tocar
esta música de crioulos ? Não vê que crianças podem estar ouvindo?"2. Para muitos, o rock original rebaixava
os brancos ao nível dos negros e representava um som primitivo de "macacos"
E o que afinal tocavam estes gênios negros dos anos 50 ? Uma derivação do blues,
retirando deste os componentes essenciais do que seria o rock-and-roll.
2. O Blues
O blues é um estilo musical afro-americano, caracterizado por modulações expressivas
da voz e do som instrumental. Tecnicamente, podemos afirmar que este efeito
se consegue pela "bemolização (diminuição de meio-tom) da terceira e da
sétima notas musicais da escala européia, usada na música erudita" .
Esta modulação (chamada blue note) foi um adequação do repertório musical europeu
realizada pelos escravos negros do sul dos EUA, ao final do século XIX. Seus
temas são quase sempre tristes e se referem a desilusões amorosas e à difícil
condição de vida do negro.
A harmonia, o ritmo, a composição, concepção do espetáculo e os temas são elementos
comuns entre o rock-and-roll e o blues.
A estrutura harmônica do rock copia o blues: "Cinco notas para o solo e
três acordes para o acompanhamento, O sucesso mundial do blues e do rock é causado
por esta surpreendente simplicidade harmônica, que está a milhas de distância
da música tradicional do Ocidente branco"3 .
O ritmo do rock, seguindo os passos do blues, é muito simples e repetitivo,
fazendo do rock uma música eminentemente de percussão. Na composição percebe-se
no blues e no rock uma de sua marcas principais: a relação entre voz e instrumento
é de identidade, há uma busca de fusão entre o som humano e o instrumental.
Assim, os solos de guitarra "respondem" às questões do cantor, ou
até reproduzem as notas do canto.
Os temas amorosos ou críticos também são comuns aos dois estilos musicais.
As semelhanças entre rock e blues se acentuam se comparados à tradição européia
da música erudita. Esta exige um conhecimento infinitamente superior na técnica.
É uma música que se destina a uma escuta atenta, meditativa, na forma de concerto.
Possui espaço social próprio (teatro. ópera, universidades, igrejas) construídos
para oferecer efeitos determinados.
Ligada historicamente ao poder político da Europa, entre o Absolutismo e o Imperialismo,
a música erudita, destinada à "distração das classes dominantes, permanece
conformista na sua apresentação e no seu conteúdo"
O blues foi criado por filhos de escravos, agricultores miseráveis e até por
prisioneiros. Apresenta-se, como o rock, com gíria do quotidiano, frases pornográficas
e, muitas vezes, evocam o uso do álcool e outras drogas (Lucy in the Sky and
Diamonds, dos Beatles; "Brown Sugar" dos Stones).
Os roqueiros, em geral, têm uma cultura musical muito pobre e são quase sempre
autodidatas, dominante entre os bluesmen. O público dos blues e do rock está
em pé, come, bebe, fala, dança e, às vezes, é desordeiro, enquanto o músico
desenvolve seu som.
3. História do Blues
O blues também tem sua história. Surge do encontro de tradições africanas e
européias no Delta do Mississipi, final do século XIX:
"Fundindo o seu grito primal com as canções de trabalho, os acordes dos
hinos religiosos e a estrutura das baladas, o negro chegou ao blues" 4.
O grito primal era um espécie de reconhecimento do ambiente em meio às plantações
de algodão e refletia a necessidade de comunicação do escravo. A proibição do
uso de instrumentos explica em parte o fortalecimento da tradição oral.
As canções de trabalho (work songs) refletem uma concepção diferente de música:
para o negro oriundo da África Ocidental, "a música não é uma manifestação
isolada de arte e sempre foi usada como uma função estritamente comunitária"
5.
Nesta parte do continente africano, música e linguagem nunca foram rigidamente
divididas. Haviam vários tipos de canções:
- canções de jovens para conquistar moçaas;
- canções de mães para acalmar filhos;
- canções de guerreiros para criar coraggem;
- canções de sacerdotes para influir sobbre a natureza;
- canções de comemoração pela troca de ddentes.
- canções de trabalhadores para cadenciaar e suavizar sua tarefas.
4. As work - songs
Desta tradição africana surgem work-songs nas plantations de algodão do sul
dos EUA, algumas em forma de pergunta e reposta, o que animaria mais tarde o
blues e o rock. Veja o exemplo abaixo:
"Líder: I wonder what's the mater
Trabalhadores: Oh-o, Lawd
Líder: I wonder what's the mater,
with my long time here
(Eu me pergunto o que há de errado
Oh-o, Senhor
Eu me pergunto o que há de errado
Com minha longa pena aqui)
Em sua adaptação no continente americano, os escravos se identificaram com o
povo oprimido de Israel em busca da libertação. Da conversão ao cristianismo
surgiram a gospel songs, hinos costurados com trechos da Bíblia e work songs,
reforçando a recriação musical negra que daria origem ao Blues.
5. Baladas e Métrica
Finalmente as baladas anglo-saxãs, também absorvidas no contato das duas civilizações,
com sua métrica rigorosa deu o formato final do Blues.
Sua estrutura básica é a de três versos de doze compassos, em que o segundo
geralmente repete o primeiro:
"You may bury my body down by the high way side
"You may bury my body down by the high way side
So my old evil espirit can get a Greyhound bus and ride"
(Pode enterrar meu corpo à margem da auto estrada
Pode enterrar meu corpo à margem da auto estrada
Para que meu velho espírito mau possa pegar um ônibus Greyhound e se mandar)
7
Conclusão
Assim, herdeiro de tradições africanas e européias, o blues do Delta do Mississipi,
entre o final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, constitui-se
e dali se difunde seguindo as rotas de migração negra em busca de trabalho ou
em fuga das perseguições racistas ( obs: entre 1900 e 1920, ocorreram 1900 linchamentos
naquela região)
Na esteira da recuperação econômica pós-crise de 1929, os negros se deslocam
para grandes centros urbanos, principalmente Chicago, em busca de vagas na indústria
de armas e de carros.
Após a Segunda Guerra, surge um próspero mercado de música negra que ainda demoraria
para conquistar as "rádios brancas" ( surgem as bandas "covers",
termo que inicialmente significava a adaptação de letras e músicas negras por
bandas brancas).
O blues foi, portanto, uma ponte entre as work-songs do século XIX e o rock
dos anos 50 do século XX, legando para a posteridade elementos da cultura africana,
remodelados pela convivência européia em solo americano, o que se estenderia
para todo o mundo ocidental, seja pela força das redes de produção e comercialização,
seja pela imediata identificação corporal e atitudinal com a juventude.
E para aqueles que preferem 'queimar' a etapa blues e, em seguida, chamar Little
Richard de R&B, finalizamos com a conclusão eloqüente de nosso autor guia:
"No coração das metrópoles ocidentais, é um pouco dos bailes do Mississipi
e das danças rituais dos velhos reinos africanos que se toca todas as noites.
O homem negro encontrou aí a sua vingança: todo o mundo dos brancos dança com
base na música dos escravos" .
Notas
1. Paraire, Philippe. 50 Anos de Música
Rock.Ed Pergaminho, Lisboa, 1992, página 25.
2. Muggiati, Roberto. O que é Jazz, Ed Brasiliense, São Paulo, página 21
3. Paraire, P., op.cit, página 20
4. Id, Ibid, página 19.
5. Muggiati,R., op. cit. , página 20
6. Id, Ibid, op. cit. , página 15
7. Paraire, P., op. cit.,página 22.
III - História do Rock - Anos 50
"O rock'n'roll tinha pelo menos
atingido um objetivo que a Guerra de Secessão não havia logrado alcançar: a
coabitação dos brancos e dos negros num local público" 1.
"Em 1960 já não havia rock'n'roll.
Viveu apenas 5 anos" 2
1. Fase 1: a explosão rock (1954-58)
Produzido originalmente em pequenos estúdios do Sul dos EUA, o rock alcança
um sucesso rápido e inesperado, muito além da capacidade da sociedade americana
absorver ou aceitar o seu impacto.
Seu sucesso é explicado pela imediata simpatia que o ritmo provoca numa geração
de adolescentes, brancos e negros. Mas também, é explicado pelo rápido golpe
comercial dos grandes estúdios do Leste e Oeste dos EUA (RCA, Capitol, Mercury).
O puritanismo sexual e o conformismo do vestuário são atacados sob o aplausos
de jovens que já procuram manter distância dos rígidos valores tradicionais
dos pioneiros norte-americanos do século XVIII. Trabalho, preparação para o
casamento, acúmulo de capital, patriotismo são substituídos pela descontração,
sensualidade, irreverência e liberdade de se divertir.
O convívio racial em festas, salões de dança e shows foi sem dúvida uma vitória
moral do rock dos anos 50, já que havia quase um século que os adultos se recusavam
a um tal convívio na sociedade.
Entretanto, a quebra de tabus morais e raciais provocam nos setores conservadores
uma reação: escândalos criados encerram carreiras, já desgastadas pelo sucesso
relâmpago, e versões adocidacas do rock (Platters) são cuidadosamente promovidas
para ocupar o espaço de figuras desafiantes como L. Richard e C. Berry. Afinal
o mercado não pode parar.
2. Fase 2: a reação conservadora
A reação moralista atinge a carreira de Chuck Berry, acusado de raptar uma jovem
fã que lhe acompanhava em seu carro (Ela era branca); atinge Jerry Lee Lewis,
envolvido em um escândalo por ter se casado com sua prima adolescente.
Little Richard não resiste à vida de astro e se refugia numa fase mística.
Elvis, habilmente conduzido pelos seus empresários, ensaia uma "recuperação"
providencial: afasta-se temporariamente para cumprir o serviço militar e volta
com a imagem de patriota, devotado aos velhos valores puritanos. Abandona os
requebros e ataca de "It's now or Never" e de "Love me tender"
!
E para completar, acasos do destino retiram de cena cantores originais como
Eddie Cochran.
Paralelamente, as rádios divulgam versões palatáveis do rock, como "Let's
Twist Again"(Trini Lopez), "Only You" (Platters) e a música dos
Everly Brothers.
Nos anos de 1954 a 1958, o rock eclodiu com um feliz encontro entre os ritmos
do blues e a revolta dos adolescentes. Já nos anos de 1958 a 1962 o ímpeto subversivo
do rock recua, mas as vendas aumentam.
" A idade, o azar, os imperativos comerciais, o racismo e o puritanismo
triunfaram na primeira vaga do rock. Com o recuo histórico, compreendemos melhor
o extraordinário trabalho destes cantores do Sul, brancos ou negros. A sua revolução
falhada, surgida talvez demasiado cedo no mundo empedernido por costumes que
vêem de longe, aparece como um ensaio das agitações da década seguinte"
3
Notas
1. Paraire, Philippe. 50 Anos de Música Rock.Ed
Pergaminho, Lisboa, 1992, página 49.
2. Id, Ibiden, página 50.
3. Id, Ibidem, página 51
IV - História do Rock - Anos 60
1. Jovens no pós - Segunda Guerra
Na Europa e EUA dos primeiros anos da década de 60, os jovens que então estavam
se aproximando dos dezoito anos de idade não tinham lá muitos motivos para se
orgulhar da civilização ocidental: duas grandes Guerras haviam se passado antes
de seu nascimento e vários conflitos regionais eclodiram ou ainda se arrastavam,
com seu cortejo de inválidos e mortos, no decorrer de sua pouca existência,
sempre com a presença desastrosa de seus países:
- EUA nas Guerras da Coréia (1950-1953) e do Vietnã (1956-1975);
- França nas Guerras da Indochina (1945--1954) e da Argélia (1962);
- Inglaterra contra o movimento de desobbediência civil de Mahatama Gandhi,
vitorioso em 1947.
2. No coração do capitalismo
Internamente, os países centrais do capitalismo não pareciam empolgar a juventude.
Nas grandes cidades industriais da Inglaterra os rapazes desempregados se aglomeravam
em grandes conjuntos habitacionais de áreas suburbanas.
Nos EUA o racismo dos adultos procurava separar jovens brancos e negros, unidos
pelo som do rock desde os anos 50.
Mesmo para os filhos daquela feliz classe média que passou todo o período pós-Segunda
guerra acumulando bens para oferecer-lhes um futuro seguro, as perspectivas
de realização pessoal não eram nada animadoras, pois não parecia haver muito
sentido seguir os passos dos pais, o que significava, a seus olhos, restringir
a existência ao mundo individualista de um emprego estável, casamento e ideais
patrióticos.
3. Alternativas
Do mundo socialista poucas informações confiáveis atravessavam a espessa cortina
da Guerra Fria. Algumas eram nada alentadoras: invasão soviética em países socialistas
que procuravam trilhar seu próprio caminho, como na Hungria (1956) e na Checoslováquia
(1968).
Qual seria o caminho para o ser (jovem) humano viver suas potencialidades ?
Várias propostas se apresentaram sedutoras, amontoando-se diante dos meninos
do mundo:
- comunidades alternativas, onde comparttilhar era a senha de convivência, como
os Hippies da Costa Oeste dos EUA;
- militância política para derrubar o raacismo (Black Panthers; Martin Luther
King)
- ou para derrotar o próprio país, agentte agressor internacional (pacifismo);
- reencontro com a natureza popular e foolclórica de sua nação;
- busca de experiências místicas e psicoodélicas.
As novas experiências juvenis, algumas desconcertantes, outras autodestrutivas,
outras ainda extremamente subversivas e combativas, tinham em comum a rejeição
da cultura tradicional, daí serem rotuladas de contracultura.
4 - Rock: linguagem de protesto
E para incorporar um novo padrão de comportamento, nada melhor do que ressuscitar
e reelaborar o bom e velho rock dos anos 50, que havia sido desprezado pelas
fórmulas inodoras do rock da virada da década, do tipo Platers (Only You !!)
No plano formal, a reedição do rock, agora em um estilo verdadeiramente original,
veio da Inglaterra com os meninos de Liverpol. Novos arranjos, utilização do
canto coral, visual descontraído e irreverente, assim os Beatles retomam a trilha
do rock. Surge um grupo mais ofensivo ( Rolling Stones), no plano das letras
(Streetfightman) e do desempenho de palco (I can't get now).
5. Renovação também nos EUA
Os EUA, que então haviam perdido a liderança mundial do rock para a Inglaterra,
reagem com um música de protesto de Bob Dilan (Master of War); com cânticos
inspirados no Power Flower dos The Mamas And The Papa's (California Dreaming);
com o requinte técnico dos solos de guitarra do inigualável Jimi Hendrix; com
o grito depressivo, no bom estilo blues, de Janis Joplin (Cry Baby); e com a
poesia psicodélica do The Doors (Summer's Almost Gone), entre tantos outros.
6. O Império Contra ataca
Mas, novamente as energias do mercado e do comportamento conservador vencem
a avalanche da contracultura.
Os Beatles desaparecem devido ao embate das forças desagregadoras do bom-mocismo
de Paul e do engajamento de John.
Os Rolling Stones continuam até hoje lotando estádios (e comprando mansões)
ao som de antigas letras que nada dizem de novo e a nada mais se referem.
Jimi sucumbiu diante da interminável seqüência de seus shows, que o levava a
consumir ora estimulantes, ora soporíferos. Morreu sufocado pelo vômito.
Janis se foi em uma noite de overdose de cocaína e solidão, sua companheira
insistente.
Jim Morrison (The Doors) também se desfez em sucessivos coquetéis que só lhe
trouxeram a porta da morte precoce.
Fatos mortais para a história do rock, concentrados entre 1970 e 1971.
Entram os anos 70 e o Grande Império (EUA) afia as suas garras: continua no
Vietnã até 1975; entra no Chile em 1973 para colocar o detestável Pinochet no
lugar do único líder comunista que chegara ao poder pelo voto; apoia o governo
racista da África do Sul e a longa ditadura militar do Brasil.
Algo valeu a pena ??!!.
V - História do Rock - Anos 70 e 80
1. Os anos de 1970 a 1977
O início dos anos 70 marcaram, no seu conjunto, um nítido recuo da criatividade
perante a reação ideológica e comercial organizada pelas gravadoras e distribuidoras
nos EUA e Europa. A longa série de mortes acidentais, ou quase, contribuiu profundamente
para este recuo geral.
Mesmo grupos como Pink Floid, cujo sucesso de vendas estoura nos anos 70, vivem
uma queda qualitativa (Sid Barret, o "gênio" do grupo, conhece a loucura
e é internado em 1971).
Este período viu portanto morrer o que tinha sido a essência do rock dos anos
60, a renovação do espírito inicial do rock'n'roll pela procura experimental
de novos sons e a definição, na luta, de uma cultura alternativa da juventude.
Até 1977, ano do grito selvagem do movimento punk (mais uma vez a renovação
vem da Inglaterra) , o rock vai explorar receitas, usar a rotina até a exaustão,
confinando-se mesmo na música de variedades.
O peso da indústria fonográfica se faz sentir com muito mais vigor e mais profissionalizada,
se compararmos às décadas anteriores. Vejamos: publicidade agressiva; investimentos
volumosos; concertos giantescos, shows iluminados por computador, são ingredientes
comuns das grandes bandas. Estádios inteiros enchem-se rapidamente, os grupos
ficam por vezes até um ano na estrada.
Qualquer tournee é anunciada com meses de antecedência, alimentam-se do crescimento
do poder aquisitivo da classe média dos EUA e Inglaterra. A divulgação associa
rádios, jornais, TVs e cartazes. Lentamente o aspecto visual vai se sobrepondo
à dimensão musical.
Roling Stones dào o exemplo: a partir dos anos 70 têm sua própria gravadora,
seu próprio aviào, dezenas de caminhòes de som, um estúdio móvel de gravação
e... mansões, muitas mansões, colecionadas por Mick Jagger que, no entanto,
continua escancarando sua pequena boca prá gritar "I can't get now",
prá delírio do público.
Muitos outros supergrupos ultrapassam de longe os recordes de venda de Elvis
e Beatles: Supertramp, Kiss, Eagles, Elton John, Led Zeppelin, Deep Purple...
Contudo, não se deve penalizar todos os artistas do período. A maior parte deles
foram tragados por um sucesso imprevisto e procuraram sinceramente caminhos
musicais inovadores.
A rotina se sobrepos, seja pelo peso da indústria fonográfica, da força da publicidade,
ou das repetições estafantes de tournees mundiais e ou até mesmo de um público
jovem menos crítico e demasiado sensível à propaganda.
No geral, a procura artística acabou cedendo lugar à procura do lucro sistemático.
O rock virou uma instituição.
2. Anos de 1977 a 1990
A crise econômica causada pelo aumento brutal dos preços do petróleo bruto após
o conflito árabe-israelense de 1973 atinge violentamente as nações ocidentais.
Os EUA ragem de acordo com seu poder econômico.
A Grã-Bretanha é atingida fortemente: falências e queda da produção na industria
têxtil, automobilística, na frota mercantil, metalurgia e no setor do carvão.
Os preços sobem, os salários ficam estagnados, cresce o desemprego, a violência
e aviad cotidiana dos britânicos se ainda mais abalada pelos conflitos entre
governo e IRA. A paixão inglesa pelo futebol se transforma em refúgio para multidões.
Mas a juventude classe média nào vê alternativas: diariamente assiste na TV
as estatísticas decrescentes de emprego. Pequenos trabalhos ocasionais, bolsas
escolares não sào suficientes prá espantar o medo do futuro. Noutros tempos
teria havido o rock para estimular a consciência e a chama da revolta. Mas agora
os jovens nem sempre se identificam com roqueiros trintões e multimilionários.
De fato a indústria fonográfica está meio desligada das realidades do povo que
vive nos conjuntos habitacionais sombrios dos subúrbios de Londres.
É neste ambiente suburbano que surge o punk.
Não houve uma corrente se pensamento punk, nem se pode falar de uma filosofia
punk. Aos olhos do movimento punk, o mundo é um conjunto simplificado de injustiças
sociais: há ricos e pobres, fortes e fracos; pais e filhos. Assim, através de
seu "look"pobre, sapato de trabalhador, casaco preto, o punk devolve
a sociedade um imagem caricatural daquilo que ela mesma produziu, sem esquecer,
é claro, um tom de zombaria e agressão visual. Recusam a educação escolar e
a familiar. O desejo secreto do punk é envergonhar a sociedade através de sua
aparência e seu comportamento. O culto do feio passa a ser norma.
Essa juventude pouco politizada, inculta, pré-delinquente e desocupada à força
terá capacidade de produzir uma autêntica revolução musical na história do rock.
No início os punks recusavam o termo "punk rock", tal era o ódio que
sentiam pelo rock.
As melodias punk nào se regem pela estutura harmônica dos três acordes que o
rock dosa nos 50 foi buscar no blues de décadas anteriores. O rítmo das canções
punk é particularmente característico: ao contrário do rock clássico herdado
do blues (tempo forte no primeiro) e do reagge (tempo forte, em contratempo,
no segundo), o punk rock acentua todos os tempos,o que equivale a abolir todos
os tempos.
Por ignorância ou voluntariamente, o guitarrista e o barterista punk maltratam
os seus instrumentos, batendo-lhes sem parar. Sid Vicious inventa o "pogo",
a dança punk que consiste em saltar no ar em cada tempo, como um manequim com
molas. Três anos de moda punk destruíram o domínio único do rok clássico.
Nenhum dos grupos históricos de 1977 sobreviveu. O extremismo dos pioneiros
do punk causou estragos nas suas fileiras,mas marcou profundamente a história
do rock.
A new wave sucedeu ao punk rock. Ela é a sua versão aceitável: nada de niilismo,
de violência. Nada que possa chocar um sistema. A nova moda impôs-se no início
doa nos 80. A new wave é marcada por uma técnica incomparavelmente mais elaborada
do que a dos punks. As melodias são verdadeiramente cantadas, a maior parte
das vezes de forma monótona e aguda ( a marca do punk continua a ser audível).
Muitas estrelas do rock dos anos 80 tiveram, numa fase ou outra de suas carreiras,
ligadas ao punk.Vejamos: Robert Smith do The Cure tocou com os Sex Pistols;
Jim Kerr do Simple Mind estava no seu início próximo dos punks; Sting popularizou
os cabelos curtos e descolorados na sua fase The Police; Edge do U2 tem uma
execução de guitarra influenciada pelo despojamento do punk.
Apesar da new wave ser proveniente da moda punk, já não há mais revolta nas
suas letras: a aprtir dela a boa consciência e o humanismo (ecologia, pacifismo,
direitos do homem) substituem o "no future" dos punks.
VI - História do Rock Brasileiro -
Anos 60
1. Definição
Num sentido estrito, a expressão Jovem Guarda designou programa da TV Record,
de São Paulo SP, estreado em setembro de 1965 e findo em 1969, comandado por
Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia; mas tem sido comumente empregada
para definir gênero musical também conhecido como iê-iê-iê, seja, a versão brasileira
do rock internacional.
2. Antecedentes
A Jovem Guarda foi, entretanto, cristalização de uma tendência bem anterior:
a informação do rock'n'roll norte-americano da década de 1950 já criara no Brasil
um mercado de consumidores e aficionados, permitindo que, desde 1957, os primeiros
cantores e compositores brasileiros do gênero tentassem reproduzir o ritmo com
letras em português ou cantando no original. Entre os maiores expoentes desse
período estavam os irmãos Tony e Celly Campelo, Sérgio Murilo, Ed Wilson e,
em fase pouco posterior, Ronnie Cord e os grupos The Jordans, The Jet Blacks
e The Clevers.
3. O Grupo
O trio central - Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia - entrou em cena
justamente quando começava a se acentuar a queda de popularidade dos primeiros
artistas brasileiros do rock'n'roll.
Em 1961, Celly Campelo decidiu afastar-se da vida artística, enquanto as atenções
se voltavam para a bossa nova e, nos meios de comunicação, sobreviviam poucos
espaços.
Em discos, os sucessos rareavam: Marcianita, com Sérgio Murilo, Diana, com Carlos
Gonzaga. Roberto Carlos optou, então, por algum tempo, pela bossa nova, mas
Erasmo Carlos e Wanderléia decidiram insistir, tentando divulgar um tipo de
musica que, nessa época, já tinha muito de bolero e samba-canção, misturado
ao ritmo do rock'n'roll.
No Rio de Janeiro RJ, Ed Wilson, Cleide Alves, Renato e seus Blue Caps também
esperavam sua oportunidade.
Foi o repentino sucesso de um compositor e intérprete radicado em São Paulo
que abriu a brecha para o que seria a Jovem Guarda: em 1963, Ronnie Cord conseguiu
bons índices de venda e popularidade com o rock Rua Augusta (de Hervê Cordovil),
chamando a atenção do publico e dos homens de media para as figuras de Roberto
Carlos e Erasmo Carlos, principalmente, autores de Parei na contramão.
Em seguida, É proibido fumar e Festa de arromba (da mesma dupla) confirmaram
a existência do mercado.
Foi dessa música - onde os dois celebram textualmente seus companheiros de vida
artística e preferência musical - que surgiu a idéia de um programa de televisão,
concretizado pela TV Record paulista, na época grande investidora em musica
popular.
Inicialmente o programa deveria chamar-se Festa de Arromba e ocuparia uma hora
ociosa, a tarde de domingo, vaga desde a proibição de transmissão dos jogos
de futebol.
4. O Programa da Record
Com o nome definitivo de Jovem Guarda, o programa foi ao ar pela primeira vez
em setembro de 1965, reunindo Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia, os
cantores Eduardo Araújo, Sérgio Murilo, Agnaldo Rayol, Reynaldo Rayol, Martinha,
Cleide Alves, Meyre Pavão, Rosemary e os grupos The Jordans, The Jet Blacks,
Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis e Golden Boys.
Rapidamente, a Jovem Guarda tornou-se uma das grandes atrações da emissora,
reunindo grandes platéias de adolescentes no Teatro Record, mas foi a partir
de 1966, com o grande sucesso de Roberto Carlos e Erasmo Carlos Quero que vá
tudo pro inferno, que o programa tomou proporções nacionais e passou a ser sinônimo
de movimento ou tendência musical.
Outros artistas se juntaram ao grupo inicial: Ronnie Von, Vanusa, De Kalafe,
Deny e Dino, Leno e Lilian, Antônio Marcos, Os Vips, Os Brasões, The Pops, entre
outros. Seguindo o exemplo da Apple, promotora dos Beatles, a agência de publicidade
Magaldi, Maia & Prosperi passou a coordenar industrialmente a imagem do
trio central da Jovem Guarda, criando as marcas Calhambeque, Tremendão e Ternurinha
para uma série de produtos que ia de bonecas a calças e blusas.
Vários compositores de outras áreas começaram então a se interessar pelos ritmos
da Jovem Guarda, como Jorge Ben, que passou a freqüentar o programa, e os baianos
Gilberto Gil e Caetano Veloso, que, aconselhados pela cantora Maria Bethânia,
incorporaram ao seu trabalho elementos do iê-iê-iê, como as guitarras que acompanhavam
Domingo no parque e Alegria, alegria, no III FMPB, da TV Record, em 1967.
5. A Queda
Segundo Erasmo Carlos, foi justamente a Tropicália - movimento que Gil e Caetano
fundaram nesse período - uma das principais causas do esvaziamento da Jovem
Guarda. "A Tropicália - diz ele - era uma Jovem Guarda com consciência
das coisas, e nos deixou num branco total".
Mas, antes de se extinguir totalmente no inicio de 1969, diluída pela superexposição
ao consumo, a Jovem Guarda deixou sua contribuição, alimentando vários programas
semelhantes na televisão, como a Festa do Bolinha, de Jair de Taumaturgo, na
TV-Rio carioca, e publicações especializadas, como a revista Reis do iê-iê-iê,
sucessora do que a Revista do rock tinha sido para o rock'n'roll brasileiro
na década de 1950.
6. Influências
Além de projetar nacionalmente alguns de seus ídolos, o movimento foi em grande
parte responsável pela posterior assimilação de instrumentos eletrônicos na
musica brasileira de todas as tendências e pela fusão de informações estrangeiras
e dados nacionais que caracterizou a produção musical na década de 1970.
No inicio da década seguinte, Léo Jaime, os Titãs, a Blitz e outros interpretes
e grupos roqueiros retomaram a musicalidade simples e direta da Jovem Guarda,
constituindo a Nova Jovem Guarda. Em 1995, remanescentes da Jovem Guarda se
reuniram para comemorar os 30 anos do movimento, gravando uma caixa de cinco
CDs para a Polygram, onde recriam os antigos sucessos, e fazendo uma serie de
shows com êxito nacional: Wanderléia, Erasmo Carlos, Ronnie Von, Bobby de Carlo,
Os Vips, Os Incríveis, Martinha, Leno e Lilian, Golden Boys e outros.
VII - História do Rock Brasileiro - Anos 70
a) - A Influência do Tropicalismo
(1970 - 1975)
1. Inovações de Caetano e Gil
O tropicalismo trouxe para a música brasileira a mistura de estilos : samba,
MPB e Rock. No final de outubro de 1967, as rádios do país começaram a tocar
com uma certa insistência a canção "Alegria, Alegria", síntese e símbolo
da originalidade tropicalista. Abandona-va, assim, um certo tradicionalismo
musical que então rejeitava influências externas e abominava a guitara elétrica
na MPB.
Caetano Veloso e Gilberto Gil, junto com um time de rockeiros, arranjadores,
poetas e artistas plásticos, fizeram com que ninguém mais estranhasse ao se
afirmar que a MPB é pop.. Os tradicionalistas odiavam esta afirmação. Além disto,
aqueles que atacavam a Jovem Guarda usando como argumento a falta de "bagagem
cultural", não podiam dizer o mesmo do tropicalismo. Entre a turma tropicalista
havia muitos músicos eruditos.
O pessoal da Tropicália também ganhou programa de TV, o "Divino Maravilhoso",
que tinha como palavra de ordem o ecletismo. Acontecia de tudo neste programa,
às vezes, performances consideradas modernas demais até mesmo para os dias de
hoje, como por exemplo Caetano jogando livros de poesia na platéia. O publico
que frequentava o programa naquele momento já podia ser rotulado como underground
brazuca. Sem duvida, a Tropicália foi o berço do hippie tupiniquim.
Os tropicalistas ainda viriam a sofrer a censura do AI-5, pricipalmente Gil
e Caetano, que tiveram de viverem no exílio (em Londres) até 1972, quando retornaram.
2. Rita e Raul
Em 1972, a voz feminina de Rita Lee deixa o trio que vinha revolucionando e
marcando a música tropicalista, ao lado de Gil e Caetano. Para muitos, foi o
fim dos "verdadeiros" Mutantes. Mas Rita Lee não para por ai e em
1973 forma o conjunto Tutti Frutti, que de certo modo, era na realidade mais
um grupo de apoio à Rita Lee de 1974 a 1978. Foi de sua autoria o hino da juventude
rebelde brasileira dos anos 70 - "Ovelha Negra".
Mas os cinco primeiros anos da década de 70 não foram só Tropicálismo. Um retrato
dessa diversidade era Raul Seixas que não pertencia ao grupo tropicalista. Começou
com sua banda "Raulzito e os Panteras" (ou "Raulzito e os the
Panthers"). Mas seu talento sobrou e a carreira solo foi inevitável. Seu
sucesso foi tanto que seu trabalho arrebatou uma legião de fãs que presta devoção
ao seu trabalho até hoje. Raul Seixas inovou ao associar elementos da cultura
nordestina, como o xaxado, o forró e etc., com o rock'n'roll clássico. A imagem
de Raul Seixas gerou então o modelo do roqueiro tupiniquim.
A identificação entre homem e música foi tamanha que Raul chegou a declarar
frases que marcaram, como "Eu sou o próprio rock".
3. Secos e Molhados e Novos Baianos
Outro grupo que recebia influencia do Tropicálismo, e também marcou época, foi
o trio vocal Secos e Molhados, formado por Ney Matogrosso, Gérson Conrad e João
Ricardo. Despontaram em 1973, tinham um visual andrógeno. A maquiagem agressiva,
a expressão sensual do corpo e a surpreendente voz de Ney chamavam a atenção
do público. O trio teve vida curta.
Os Tropicálistas praticamente "caçados" pelo governo (AI-5), , mas
logo apareceu uma turma para manter a bandeira Tropicálista hasteada.
Era um pessoal que vivia em comunidade, era macrobiótico e gostava de rock,
para eles, tudo se resumia em paz e amor: os Novos Baianos ( Paulinho Boca de
Cantor e Baby Consuelo ; Moraes Moreira; Galvão, o letrista da banda). Em 1972,
o grupo aumenta com a entrada de Pepeu Gomes (guitarra)
b) A Explosão da DISCO e o Rock Progressivo
1975 - 1979
1. No fim da ditadura, a "abertura"
No final da década de 70, o Brasil não era o melhor país do mundo para se viver
de música. O fim da Tropicália e dos grandes festivais gerou certa apatia no
cenário rock brasileiro. Ainda estava em plena atividade a linha dura da ditadura
militar, contrária ao projeto conservador da "abertura" política,
com a retomada da repressão, tortura e censura.
Os poucos que insistiam na música como estilo de vida, tiveram que encontrar
novas fórmulas para fugir da repressão da censura. Haviam, em tese, três alternativas:
sair do país, optar por um visual exótico ou ainda o humor e a dança. Para todos
do rock, esta época foi difícil, pois nenhuma rádio brasileira tocava rock nacional
(o termo, na verdade nem existia); a TV só se interessava por MPB e as gravadoras
morriam de medo da palavra "banda".
2. Influencia do rock progressivo
Havia ainda o pessoal que se espelhava em grupos de sucesso dos EUA e Europa,
tais como: Pink Floyd, Yes, Genesis, King Crimson ou Jethro Tull. O problema
é que a maioria dos grupos nacionais não contava com o apoio das gravadoras,
como os grupos lá de fora.
Entre eles, destaca-se o grupo Vímana, quase desconhecida hoje em dia, mas com
grande influência posterior, formado por Ritchie, Lulu Santos e Lobão. Como
outras bandas da época o Vímana, gravou apenas um disco e depois desapareceu.
E como a ecologia estava em alta no final da década de 70, institui-se o rock
rural, e nenhum exemplo supera do trio Sá, Rodrix e Guarabyra.
3. A moda disco
A partir de 1975, muitos passaram a preferir o calor de uma pista de dança superlotada
no centro de alguma grande cidade. A disco (ou discoteca) surgiu em meados dos
anos 70, nos guetos gays de New York. Mas a batida só caiu no gosto do grande
público em 1977, por obra e graça de John Travolta, astro do filme "Os
Embalos de Sábado à Noite" ("Saturday Night Fever").
Neste ritmo surgiram As Frenéticas, que em 78 viraram mania nacional. Combinavam
com perfeição os ideais do gênero:visual arrojado,extravagante,animação e batidas
fortes.
Mas um grupo que seguiu a contramão desta tendência foi o Joelho de Porco, com
um visual divertidíssimo (maquiagem pesada beirando o gótico) e muita paródia,
metalinguagem e colagens. Faziam o público ir ao delírio.
E a década não para por ai. Também surgiram Tim Maia, enquanto Luiz Melodia
e Guilherme Arantes, que brilhavam com temas de novelas.
Mas o fato é que o final dos anos 70 foi palco para muitas bandas que surgiram
e desapareceram rapidamente.
VIII - História do Rock Brasileiro - Anos
80
a) - A Influência punk e new wave - 1980
- 1984
1. Punks
A década de 80 começa com o povo ainda comemorando com os acontecimentos do
final da década anterior, o fim do AI-5 e a anistia cria uma expectativa de
mudanças políticas. A censura não era mais tão feroz como na década anterior.
Assim, começaram a surgir no underground, bandas sonhando expor ao público suas
idéias contestadoras. Bandas como Sex Pistols e The Clash eram as novas referencias
. Ali começou a surgir o movimento punk, com um rock rápido, cru e agressivo.
Um exemplo de banda punk brasileira é Os Inocentes, que diga-se passagem, foi
uma das mais importantes para o movimento. Clemente Tadeu comentou o seguinte
sobre o movimento punk:
- "Nós estamos aqui para revolucionnar a música popular brasileira, para
pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores
do Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer".
O punk brasileiro mostrou sua real força em 1982, no Sesc-Pompéia em São Paulo,
no festival "O Começo do Fim do Mundo" , que reuniu mais de vinte
bandas punk. Entretanto não foi só o movimento punk que mostrou a cara neste
inicio de década. Vários grupos surgiram (e desapareceram) dentro das universidades:
eram jovens que gostavam de rock e MPB, juntavam-se e formavam bandas... é dai
que saiu gente como: Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno, Itamar Asumpção
& Banda Isca de Polícia, Língua de Trapo.
2. New Wave
E longe do punk de São Paulo, vinha a New Wave do Rio, com bandas como Gang
90 & Absurdetes, com grande influência de grupos como: Blondie, Devo e B-52's.
O grupo era o que mais prometia no então rock nacional, com o som correto (new
wave), o visual ideal (moderno) e um líder antenado com o mundo (Júlio Barroso).
Entretanto, a banda teve um fim inesperado com a morte precoce de Júlio Barroso,
em 7 de julho de 1984, após cair da janela de seu apartamento, no 11º andar.
Quem também marcou este início foi a banda Blitz, que com o sucesso avassalador
que fizeram, funcionaram como isca, atraindo as gravadoras para o fértil campo
do rock nacional. A Blitz chegou a tocar no Festival Internacional da Juventude,
em Moscou.
O Rio tinha dois palcos para as novas bandas: A Rádio Fluminense e o Circo Voador
(Blitz, Barão Vermelho e Kid Abelha foram algumas das varias bandas vieram da
rádio e tocaram no circo). O Circo Voador guarda muitas das curiosidades do
rock nacional. Numa delas o protagonista foi Lulu Santos. Em 1983, o cantor
foi impedido de entrar pelo porteiro. Para acalmar a ira do cantor, que jurou
nunca mais tocar lá, a entrada dos artistas ganhou por alguns anos a placa "Portão
Lulu Santos".
Radio Táxi foi outra banda que se deu bem na época. Seu disco de estréia foi
um dos mais vendidos em 1982, graças às apresentações nos programas de auditório
(que não foram poucas...).
Mas sem duvida, a banda da primeira geração que conseguiu grande popularidade
e que está até hoje nas paradas, é o Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, hoje
só Kid Abelha e sem seu membro fundador, Leoni. Com sua música pop de boa qualidade,
não foi difícil conquistar fãs de todas idades em todo país.
Mais uma banda que estourou nesta época foi Os Paralamas do Sucesso, que contraria
todas tendências de new wave, aplicando ao seu rock elementos da cultura afro-americana
como o reggae e o ska. Eles foram, junto com o Kid Abelha e os Abóboras Selvagens,
a banda mais executada no ano de 1984.
Pode-se imaginar que nesta época só existia rock/pop alegre, praiano. Mas isto
não é verdade e a prova é o Barão Vermelho, com seu rock sério, compromissado,
de ótima qualidade e com um pé no blues, além de mostrar o primeiro grande poeta
do rock dos anos 80: Agenor de Miranda Araújo Neto, ou Caju, ou simplesmente
Cazuza.
b) - A Fase mais eufórica do pop
rock nacional - 1985-1987
1. Rock in Rio
Com certeza quem viveu, jamais esquecerá o ano de 1985. Nunca o rock pulsou
de forma tão intensa no país, e mesmo no mundo. Jovens de todo o país se reuniram
para um celebração musical: o Rock in Rio. O festival, iniciado no dia 11 de
janeiro, era um reflexo do otimismo que havia tomado conta do Brasil. Foram
dez dias de shows, com quatorze atrações internacionais. Foi o maior evento
que o país já havia presenciado (para ver detalhes clique aqui). O festival
colocou o Brasil no mapa das grandes turnês mundiais. E aqui dentro, serviu
de lição para que os roqueiros nunca mais fossem discriminados. E abriu-se aí,
um novo espaço: rádio e TV deram mais espaço ao gênero e as gravadoras redescobriram
as bandas.
2. RPM. Ultraje e Ira
O primeiro grande sucesso, fruto desta reviravolta fonográfica, foi o RPM, que
estoura com "Louras Geladas" e "Olhar 43", e conquista as
rádios e TVs tupiniquins. Seu primeiro compacto vendeu 100 mil cópias. A sofisticação
era uma das marcas da banda. O golpe de misericórdia para o sucesso máximo foi
o lançamento do álbum "Radio Pirata ao Vivo", que antes mesmo de chegar
nas prateleiras das lojas, já havia vendido mais de 500 mil cópias.
Não foi só o RPM que lucrou com os resíduos do Rock in Rio. O Ultraje a Rigor,
em 85 gravou seu primeiro LP e de cara foi super bem aceito pelo público. Tinha
uma fórmula imbatível: rock básico e bem-humorado, com letras politicamente
ativas. Em 1987, eles conseguem um feito: no dia 19 de março, param o trânsito
da Av. Paulista com um show-surpresa. Motivo: a gravação do clipe de "Eu
Gosto é de Mulher" para o programa "Fantástico", da TV Globo.
Também de São Paulo vinha outra banda que conquistaria o seu público na época
: o Ira!, com suas letras que não passavam desapercebidas devido à sua contundência
e som inspirado na década de 60. Contava ainda de quebra com o melhor guitarrista
do Brasil: Edgard Scandurra. O auge do sucesso veio com a musica "Flores
em Você", que não por acaso foi tema da novela da 21hs da Rede Globo, "O
Outro".
3. Lobão. Legião, Titãs
Outro grupo estourou, mas teve duração bem mais curta, foi o Metrô, que conquistou
todo país com seu rock romântico. Conseguiu emplacar vários hits nas rádios,
mas o principal foi: "Beat Acelerado". Não só o Metrô teve seu auge
nesta época. Léo Jaime também teve seu grande momento de fama entre 85 e 86.
Quem, como Léo, viveu sua melhor fase neste período, foi Lobão, que apesar de
todo sucesso, teve um ano de 1987 bastante complicado, pois fora preso 4 vezes.
Fora do eixo Rio-São Paulo, as Gravadoras começaram a descobrir talentos como
o rock pesado do grupo baiano Camisa de Vênus, a música "Eu Não Matei Joana
D'Arc" foi executada em todo país. Outra banda fora deste eixo, e com certeza
uma das mais importantes foi o Legião Urbana, que é idolatrada em todo o país
até hoje. O vocalista e letrista da banda, Renato Russo, com seu carisma inquestionável,
se mostra um grande poeta, e ocupa o altar dos maiores poetas do rock nacional
ao lado de Cazuza.
Quem também aproveitou bem esta época para explodir foram os Titãs, com músicas
de todos os gêneros (brega, new wave, funk, reggae e rock) conquistou fãs em
todo o Brasil. Mas a explosão ocorreu em 1986, com o LP "Cabeça Dinossauro".
Os Titãs foram uma das poucas bandas que sobreviveram ao tempo, e fazem sucesso
até hoje.