I - História do ROCK - Introdução

1. Definições

" Quem escreve sobre rock quase sempre é alguém que não sabe escrever, escrevendo sobre quem não sabe tocar, para muita gente que não sabe ler..."
1 - Frank Zappa .

" Para se conhecer em profundidade o que tem sido este século não se pode ignorar o que é o rock"
2 - Yoko Ono

" O rock, que era assunto de homens, foi rapidamente contestado, na sua supremacia viril, pelas mulheres: elas expressaram nele sua visão de mundo, a sua percepção das coisas"
3

"O rock atingiu as famílias, fez de crianças ajuizadas indivíduos com blusões negros, beatniks, hippies e punks. Os pais não mereciam isso..."
4 .


"O rock-and-roll é a marcha marcial de todos os delinqüentes juvenis na face da terra"
5 - Frank Sinatra

"Como é que o rock-and-roll pode fazer alguém rebelde contra os seus pais ?"
6 - Elvis Presley

"Eu nunca li um livro em toda a minha vida"
7. - Fred Durst, do grupo Limp Bizkit.

"Pois se o surgimento deste corte de cabelo (estilo punk) deu-se como uma agressão contra o sistema, sua utilização pela mídia associando-o a um novo estilo de vida nos anúncios de roupas, refrigerantes, cigarros, acabou deformando seu sentido original. Decorrido algum tempo, este corte de cabelo, em um salão da moda (...) custa uma quantia não inferior a duzentos dólares"
8

"Quando a geração hippie manifestava-se contra a Guerra do Vietnã (...), quase ninguém seria capaz de imaginar que todo aquele desgaste seria, num futuro distante, praticamente infrutífero"
9

"Recusa da rotina e da morte banal, o rock é uma forma de sonhar com o corpo"
10


2. Características Gerais

O rock é um fenômeno cultural de massa, superou a literatura e o cinema, é de fácil acesso e está presente em todo o mundo: não é só inglês ou norte-americano; canta em zulu com Johny Clegg e Savuka (África do Sul); em português com Raul e Renato Russo; em árabe com Cheb Khaleb; renova-se na Jamaica, gerando o reaggae de Jimmy Cliff; choca a Alemanha com Nina Hagen; ganha um som sintético com Jean Michel Jarre, na França; canta em japonês e até em russo.

Freqüentemente, a música rock tem a sua imagem associada à contestação política da juventude. De fato, o rock embalou a Marcha pelos Direitos Civis, ao som de James Brown, nos EUA dos 60, liderada por Martin Luther King; Bob Dilan se transforma em guia da contestação contra a Guerra do Vietnã, a violência e o conservadorismo.

O reaggae acompanhou as revoltas da população negra e miserável da periferia de Kingston, na Jamaica; o som punk acompanhou os desempregados do bairro de Nothing Hill, em Londres, nos anos 70.

O rock foi o canto de guerra dos jovens de Soweto na África do Sul. Levantou fundos contra a fome no continente africano ( o Live-Aid) e contra o apartheid no Estádio de Wembley, Inglaterra. Foi a música desafio nos últimos anos da URSS.

The Clash elogiou a revolução sandinista na Nicarágua, contra o poder aparentemente insuperável dos EUA na América Latina. Com o U2, os conflitos religiosos, coisa que parece exclusividade dos islâmicos, são mais uma vez denunciados mundialmente e envergonham a civilizada Grã-Bretanha cristã. Já nos anos 20, o blues (raíz do rock) de Billie Holiday atacava os linchamentos executados pelo Ku Klux Klam na letra de "Strange Fruit".
Por vários cantos deste planeta, o rock encorajou os jovens contra o mundo decadente dos adultos. Como afirmara Andy Warhol, o rock é uma atitude, isto é, música, vestuário e estilo de vida não devem estar separados para definir o rock.

Porém, a tendência despolitizada quase sempre dominou no mundo do rock: o conteúdo das canções dos anos 50, 60, 70 e 80, permanece fiel, no essencial, à evocação do da vida quotidiana dos adolescentes e do amor: separação, desespero, alegria, inveja, encontro, beleza, dinheiro, sexo. Estes eram os temas do blues e do rock-and-roll das origens. Estes temas predominam até hoje.

O rock também é, desde as suas origens, um produto de consumo, um forte atrativo no mercado cultural. Teve o apoio da contínua evolução tecnológica: inicia-se com os discos de 78 rotações e chega ao CD atual. Nos anos 50 teve o imprescindível apoio do rádio, o que levaria às atuais rádios FM. A TV e o cinema levaram o rock a uma audiência de massa. Surgiram também o apoio do vídeo, das revistas especializadas e canais musicais de TV, como a rede mundial da MTV (EUA)

Finalmente devemos destacar as principais fases e estilos daquilo que estamos chamando de rock. O blues do delta do Mississipi (anos 30 e 40) lança o ritmo, os acordes e os temas que darão origem ao rock-and-roll dos anos 50. Nos anos 60, o rock é renovado pela música popular inglesa e pelo roqueiros da contracultura norte-americana. Os anos 70 dão espaço aos mega-conjuntos do do rock progressivo e mais tarde do heavy metal.
Nossa viagem musical passa pelo final dos anos 70 (punk e new wave) e anos 80, com os sobreviventes do "progressivo", a música de variedades e o rock do Terceiro Mundo, inclusive do Brasil.

Notas:

1. Citado por Corrêa, Tupa Gomes; Rock, nos passos da moda: mídia, consumo X mercado, Campinas, Papirus, 1989, página 11.
2. Id, Ibidem, página 11.
3. Paraire, Philippe; 50 Anos de Música Rock, Editora Pergaminho, Lisboa, 1992.
4. Id, Ibidem, página 9.
5. Citado por Chacon, Paulo; O que é Rock, Ed Círculo do Livro, 1992; página 90
6. Id. Ibid, página 92
7. Frase citada na revista Showbizz, janeiro de 2000.
8. Correa, op. cit., página 76.
9. Id. Ibidem, página 74
10. Paraire, op.cit, prefácio de José Artur


II - História do Rock - Origens


"A História do rock deve começar, o mais tardar, nos anos 30, estudando o blues rural e não principiar com "Rock Around The Clock" de Bill Halley"
1.

1. Origens em Branco e Preto

Para muitos críticos musicais, o rock nasce da fusão do blues e da música country, no início dos anos 50, no sul dos EUA. Bill Halley e Elvis Presley seriam o Avó e o Pai do rock. Forma racista de reconstituir as origens deste estilo musical.
Foi necessário o talento e a autoridade dos grandes grupos e roqueiros ingleses dos anos 60 para que as verdadeiras raízes viessem à tona. Rolling Stones, Eric Clapton e Jimmy Page proclamaram em vários de seus shows a sua admiração, inspiração e dívida para com estes cantores negros norte-americanos, anteriores a Bill Halley: Little Richard, Chuck Berry, Fats Domino e Bo Diddley.
A pesada atmosfera de conflitos raciais dos anos 50 EUA levou a mídia branca daquele país a menosprezar, quando não proibir abertamente a música popular negra. Quando finalmente a musica negra consegue seu próprio mercado ( os "race records" ), então os empresários brancos divulgam-na em listas separadas de sucesso (o top ten da época): uma tabela para os artistas brancos mais ouvidos; outra tabela para negros.
Se os rebolados de Elvis já causavam polêmica, a ponto das TVs dos EUA ficarem proibidas de divulgar imagens de seus quadris para baixo, o que dizer dos espetáculos de Little Richard, marcados por um ritmo tresloucado, irreverente, roupas exóticas em ambiente de verdadeiro transe coletivo ?.


Rádios e apresentadores viam-se constantemente ameaçados: "Você vai tocar esta música de crioulos ? Não vê que crianças podem estar ouvindo?"
2. Para muitos, o rock original rebaixava os brancos ao nível dos negros e representava um som primitivo de "macacos"
E o que afinal tocavam estes gênios negros dos anos 50 ? Uma derivação do blues, retirando deste os componentes essenciais do que seria o rock-and-roll.

2. O Blues

O blues é um estilo musical afro-americano, caracterizado por modulações expressivas da voz e do som instrumental. Tecnicamente, podemos afirmar que este efeito se consegue pela "bemolização (diminuição de meio-tom) da terceira e da sétima notas musicais da escala européia, usada na música erudita" .
Esta modulação (chamada blue note) foi um adequação do repertório musical europeu realizada pelos escravos negros do sul dos EUA, ao final do século XIX. Seus temas são quase sempre tristes e se referem a desilusões amorosas e à difícil condição de vida do negro.
A harmonia, o ritmo, a composição, concepção do espetáculo e os temas são elementos comuns entre o rock-and-roll e o blues.
A estrutura harmônica do rock copia o blues: "Cinco notas para o solo e três acordes para o acompanhamento, O sucesso mundial do blues e do rock é causado por esta surpreendente simplicidade harmônica, que está a milhas de distância da música tradicional do Ocidente branco"
3 .
O ritmo do rock, seguindo os passos do blues, é muito simples e repetitivo, fazendo do rock uma música eminentemente de percussão. Na composição percebe-se no blues e no rock uma de sua marcas principais: a relação entre voz e instrumento é de identidade, há uma busca de fusão entre o som humano e o instrumental.
Assim, os solos de guitarra "respondem" às questões do cantor, ou até reproduzem as notas do canto.
Os temas amorosos ou críticos também são comuns aos dois estilos musicais.
As semelhanças entre rock e blues se acentuam se comparados à tradição européia da música erudita. Esta exige um conhecimento infinitamente superior na técnica. É uma música que se destina a uma escuta atenta, meditativa, na forma de concerto.
Possui espaço social próprio (teatro. ópera, universidades, igrejas) construídos para oferecer efeitos determinados.
Ligada historicamente ao poder político da Europa, entre o Absolutismo e o Imperialismo, a música erudita, destinada à "distração das classes dominantes, permanece conformista na sua apresentação e no seu conteúdo"
O blues foi criado por filhos de escravos, agricultores miseráveis e até por prisioneiros. Apresenta-se, como o rock, com gíria do quotidiano, frases pornográficas e, muitas vezes, evocam o uso do álcool e outras drogas (Lucy in the Sky and Diamonds, dos Beatles; "Brown Sugar" dos Stones).
Os roqueiros, em geral, têm uma cultura musical muito pobre e são quase sempre autodidatas, dominante entre os bluesmen. O público dos blues e do rock está em pé, come, bebe, fala, dança e, às vezes, é desordeiro, enquanto o músico desenvolve seu som.

3. História do Blues

O blues também tem sua história. Surge do encontro de tradições africanas e européias no Delta do Mississipi, final do século XIX:

"Fundindo o seu grito primal com as canções de trabalho, os acordes dos hinos religiosos e a estrutura das baladas, o negro chegou ao blues"
4.

O grito primal era um espécie de reconhecimento do ambiente em meio às plantações de algodão e refletia a necessidade de comunicação do escravo. A proibição do uso de instrumentos explica em parte o fortalecimento da tradição oral.

As canções de trabalho (work songs) refletem uma concepção diferente de música: para o negro oriundo da África Ocidental, "a música não é uma manifestação isolada de arte e sempre foi usada como uma função estritamente comunitária"
5.

Nesta parte do continente africano, música e linguagem nunca foram rigidamente divididas. Haviam vários tipos de canções:

- canções de jovens para conquistar moçaas;
- canções de mães para acalmar filhos; - canções de chefes para impor ordem na comunidade;
- canções de guerreiros para criar coraggem;
- canções de sacerdotes para influir sobbre a natureza;
- canções de comemoração pela troca de ddentes.

- canções de trabalhadores para cadenciaar e suavizar sua tarefas.

4. As work - songs

Desta tradição africana surgem work-songs nas plantations de algodão do sul dos EUA, algumas em forma de pergunta e reposta, o que animaria mais tarde o blues e o rock. Veja o exemplo abaixo:

"Líder: I wonder what's the mater
Trabalhadores: Oh-o, Lawd
Líder: I wonder what's the mater,
with my long time here

(Eu me pergunto o que há de errado
Oh-o, Senhor
Eu me pergunto o que há de errado
Com minha longa pena aqui)
6

Em sua adaptação no continente americano, os escravos se identificaram com o povo oprimido de Israel em busca da libertação. Da conversão ao cristianismo surgiram a gospel songs, hinos costurados com trechos da Bíblia e work songs, reforçando a recriação musical negra que daria origem ao Blues.

5. Baladas e Métrica

Finalmente as baladas anglo-saxãs, também absorvidas no contato das duas civilizações, com sua métrica rigorosa deu o formato final do Blues.

Sua estrutura básica é a de três versos de doze compassos, em que o segundo geralmente repete o primeiro:

"You may bury my body down by the high way side
"You may bury my body down by the high way side
So my old evil espirit can get a Greyhound bus and ride"

(Pode enterrar meu corpo à margem da auto estrada
Pode enterrar meu corpo à margem da auto estrada
Para que meu velho espírito mau possa pegar um ônibus Greyhound e se mandar)
7


Conclusão

Assim, herdeiro de tradições africanas e européias, o blues do Delta do Mississipi, entre o final do século XIX e as duas primeiras décadas do século XX, constitui-se e dali se difunde seguindo as rotas de migração negra em busca de trabalho ou em fuga das perseguições racistas ( obs: entre 1900 e 1920, ocorreram 1900 linchamentos naquela região)

Na esteira da recuperação econômica pós-crise de 1929, os negros se deslocam para grandes centros urbanos, principalmente Chicago, em busca de vagas na indústria de armas e de carros.

Após a Segunda Guerra, surge um próspero mercado de música negra que ainda demoraria para conquistar as "rádios brancas" ( surgem as bandas "covers", termo que inicialmente significava a adaptação de letras e músicas negras por bandas brancas).
O blues foi, portanto, uma ponte entre as work-songs do século XIX e o rock dos anos 50 do século XX, legando para a posteridade elementos da cultura africana, remodelados pela convivência européia em solo americano, o que se estenderia para todo o mundo ocidental, seja pela força das redes de produção e comercialização, seja pela imediata identificação corporal e atitudinal com a juventude.
E para aqueles que preferem 'queimar' a etapa blues e, em seguida, chamar Little Richard de R&B, finalizamos com a conclusão eloqüente de nosso autor guia:

"No coração das metrópoles ocidentais, é um pouco dos bailes do Mississipi e das danças rituais dos velhos reinos africanos que se toca todas as noites. O homem negro encontrou aí a sua vingança: todo o mundo dos brancos dança com base na música dos escravos" .

Notas

1. Paraire, Philippe. 50 Anos de Música Rock.Ed Pergaminho, Lisboa, 1992, página 25.
2. Muggiati, Roberto. O que é Jazz, Ed Brasiliense, São Paulo, página 21
3. Paraire, P., op.cit, página 20
4. Id, Ibid, página 19.
5. Muggiati,R., op. cit. , página 20
6. Id, Ibid, op. cit. , página 15
7. Paraire, P., op. cit.,página 22.

III - História do Rock - Anos 50

"O rock'n'roll tinha pelo menos atingido um objetivo que a Guerra de Secessão não havia logrado alcançar: a coabitação dos brancos e dos negros num local público" 1.

"Em 1960 já não havia rock'n'roll.
Viveu apenas 5 anos"
2

1. Fase 1: a explosão rock (1954-58)

Produzido originalmente em pequenos estúdios do Sul dos EUA, o rock alcança um sucesso rápido e inesperado, muito além da capacidade da sociedade americana absorver ou aceitar o seu impacto.
Seu sucesso é explicado pela imediata simpatia que o ritmo provoca numa geração de adolescentes, brancos e negros. Mas também, é explicado pelo rápido golpe comercial dos grandes estúdios do Leste e Oeste dos EUA (RCA, Capitol, Mercury).
O puritanismo sexual e o conformismo do vestuário são atacados sob o aplausos de jovens que já procuram manter distância dos rígidos valores tradicionais dos pioneiros norte-americanos do século XVIII. Trabalho, preparação para o casamento, acúmulo de capital, patriotismo são substituídos pela descontração, sensualidade, irreverência e liberdade de se divertir.
O convívio racial em festas, salões de dança e shows foi sem dúvida uma vitória moral do rock dos anos 50, já que havia quase um século que os adultos se recusavam a um tal convívio na sociedade.
Entretanto, a quebra de tabus morais e raciais provocam nos setores conservadores uma reação: escândalos criados encerram carreiras, já desgastadas pelo sucesso relâmpago, e versões adocidacas do rock (Platters) são cuidadosamente promovidas para ocupar o espaço de figuras desafiantes como L. Richard e C. Berry. Afinal o mercado não pode parar.


2. Fase 2: a reação conservadora

A reação moralista atinge a carreira de Chuck Berry, acusado de raptar uma jovem fã que lhe acompanhava em seu carro (Ela era branca); atinge Jerry Lee Lewis, envolvido em um escândalo por ter se casado com sua prima adolescente.
Little Richard não resiste à vida de astro e se refugia numa fase mística.
Elvis, habilmente conduzido pelos seus empresários, ensaia uma "recuperação" providencial: afasta-se temporariamente para cumprir o serviço militar e volta com a imagem de patriota, devotado aos velhos valores puritanos. Abandona os requebros e ataca de "It's now or Never" e de "Love me tender" !
E para completar, acasos do destino retiram de cena cantores originais como Eddie Cochran.
Paralelamente, as rádios divulgam versões palatáveis do rock, como "Let's Twist Again"(Trini Lopez), "Only You" (Platters) e a música dos Everly Brothers.
Nos anos de 1954 a 1958, o rock eclodiu com um feliz encontro entre os ritmos do blues e a revolta dos adolescentes. Já nos anos de 1958 a 1962 o ímpeto subversivo do rock recua, mas as vendas aumentam.
" A idade, o azar, os imperativos comerciais, o racismo e o puritanismo triunfaram na primeira vaga do rock. Com o recuo histórico, compreendemos melhor o extraordinário trabalho destes cantores do Sul, brancos ou negros. A sua revolução falhada, surgida talvez demasiado cedo no mundo empedernido por costumes que vêem de longe, aparece como um ensaio das agitações da década seguinte"
3

Notas

1. Paraire, Philippe. 50 Anos de Música Rock.Ed Pergaminho, Lisboa, 1992, página 49.
2. Id, Ibiden, página 50.
3. Id, Ibidem, página 51

IV - História do Rock - Anos 60


1. Jovens no pós - Segunda Guerra

Na Europa e EUA dos primeiros anos da década de 60, os jovens que então estavam se aproximando dos dezoito anos de idade não tinham lá muitos motivos para se orgulhar da civilização ocidental: duas grandes Guerras haviam se passado antes de seu nascimento e vários conflitos regionais eclodiram ou ainda se arrastavam, com seu cortejo de inválidos e mortos, no decorrer de sua pouca existência, sempre com a presença desastrosa de seus países:

- EUA nas Guerras da Coréia (1950-1953) e do Vietnã (1956-1975);

- França nas Guerras da Indochina (1945--1954) e da Argélia (1962);

- Inglaterra contra o movimento de desobbediência civil de Mahatama Gandhi, vitorioso em 1947.

2. No coração do capitalismo

Internamente, os países centrais do capitalismo não pareciam empolgar a juventude.
Nas grandes cidades industriais da Inglaterra os rapazes desempregados se aglomeravam em grandes conjuntos habitacionais de áreas suburbanas.
Nos EUA o racismo dos adultos procurava separar jovens brancos e negros, unidos pelo som do rock desde os anos 50.
Mesmo para os filhos daquela feliz classe média que passou todo o período pós-Segunda guerra acumulando bens para oferecer-lhes um futuro seguro, as perspectivas de realização pessoal não eram nada animadoras, pois não parecia haver muito sentido seguir os passos dos pais, o que significava, a seus olhos, restringir a existência ao mundo individualista de um emprego estável, casamento e ideais patrióticos.

3. Alternativas

Do mundo socialista poucas informações confiáveis atravessavam a espessa cortina da Guerra Fria. Algumas eram nada alentadoras: invasão soviética em países socialistas que procuravam trilhar seu próprio caminho, como na Hungria (1956) e na Checoslováquia (1968).

Qual seria o caminho para o ser (jovem) humano viver suas potencialidades ?

Várias propostas se apresentaram sedutoras, amontoando-se diante dos meninos do mundo:

- comunidades alternativas, onde comparttilhar era a senha de convivência, como os Hippies da Costa Oeste dos EUA;
- militância política para derrubar o raacismo (Black Panthers; Martin Luther King)
- ou para derrotar o próprio país, agentte agressor internacional (pacifismo);
- reencontro com a natureza popular e foolclórica de sua nação;
- busca de experiências místicas e psicoodélicas.

As novas experiências juvenis, algumas desconcertantes, outras autodestrutivas, outras ainda extremamente subversivas e combativas, tinham em comum a rejeição da cultura tradicional, daí serem rotuladas de contracultura.

4 - Rock: linguagem de protesto

E para incorporar um novo padrão de comportamento, nada melhor do que ressuscitar e reelaborar o bom e velho rock dos anos 50, que havia sido desprezado pelas fórmulas inodoras do rock da virada da década, do tipo Platers (Only You !!)
No plano formal, a reedição do rock, agora em um estilo verdadeiramente original, veio da Inglaterra com os meninos de Liverpol. Novos arranjos, utilização do canto coral, visual descontraído e irreverente, assim os Beatles retomam a trilha do rock. Surge um grupo mais ofensivo ( Rolling Stones), no plano das letras (Streetfightman) e do desempenho de palco (I can't get now).

5. Renovação também nos EUA

Os EUA, que então haviam perdido a liderança mundial do rock para a Inglaterra, reagem com um música de protesto de Bob Dilan (Master of War); com cânticos inspirados no Power Flower dos The Mamas And The Papa's (California Dreaming); com o requinte técnico dos solos de guitarra do inigualável Jimi Hendrix; com o grito depressivo, no bom estilo blues, de Janis Joplin (Cry Baby); e com a poesia psicodélica do The Doors (Summer's Almost Gone), entre tantos outros.

6. O Império Contra ataca

Mas, novamente as energias do mercado e do comportamento conservador vencem a avalanche da contracultura.
Os Beatles desaparecem devido ao embate das forças desagregadoras do bom-mocismo de Paul e do engajamento de John.
Os Rolling Stones continuam até hoje lotando estádios (e comprando mansões) ao som de antigas letras que nada dizem de novo e a nada mais se referem.
Jimi sucumbiu diante da interminável seqüência de seus shows, que o levava a consumir ora estimulantes, ora soporíferos. Morreu sufocado pelo vômito.
Janis se foi em uma noite de overdose de cocaína e solidão, sua companheira insistente.
Jim Morrison (The Doors) também se desfez em sucessivos coquetéis que só lhe trouxeram a porta da morte precoce.
Fatos mortais para a história do rock, concentrados entre 1970 e 1971.
Entram os anos 70 e o Grande Império (EUA) afia as suas garras: continua no Vietnã até 1975; entra no Chile em 1973 para colocar o detestável Pinochet no lugar do único líder comunista que chegara ao poder pelo voto; apoia o governo racista da África do Sul e a longa ditadura militar do Brasil.
Algo valeu a pena ??!!
.

V - História do Rock - Anos 70 e 80

1. Os anos de 1970 a 1977

O início dos anos 70 marcaram, no seu conjunto, um nítido recuo da criatividade perante a reação ideológica e comercial organizada pelas gravadoras e distribuidoras nos EUA e Europa. A longa série de mortes acidentais, ou quase, contribuiu profundamente para este recuo geral.
Mesmo grupos como Pink Floid, cujo sucesso de vendas estoura nos anos 70, vivem uma queda qualitativa (Sid Barret, o "gênio" do grupo, conhece a loucura e é internado em 1971).
Este período viu portanto morrer o que tinha sido a essência do rock dos anos 60, a renovação do espírito inicial do rock'n'roll pela procura experimental de novos sons e a definição, na luta, de uma cultura alternativa da juventude.
Até 1977, ano do grito selvagem do movimento punk (mais uma vez a renovação vem da Inglaterra) , o rock vai explorar receitas, usar a rotina até a exaustão, confinando-se mesmo na música de variedades.
O peso da indústria fonográfica se faz sentir com muito mais vigor e mais profissionalizada, se compararmos às décadas anteriores. Vejamos: publicidade agressiva; investimentos volumosos; concertos giantescos, shows iluminados por computador, são ingredientes comuns das grandes bandas. Estádios inteiros enchem-se rapidamente, os grupos ficam por vezes até um ano na estrada.
Qualquer tournee é anunciada com meses de antecedência, alimentam-se do crescimento do poder aquisitivo da classe média dos EUA e Inglaterra. A divulgação associa rádios, jornais, TVs e cartazes. Lentamente o aspecto visual vai se sobrepondo à dimensão musical.
Roling Stones dào o exemplo: a partir dos anos 70 têm sua própria gravadora, seu próprio aviào, dezenas de caminhòes de som, um estúdio móvel de gravação e... mansões, muitas mansões, colecionadas por Mick Jagger que, no entanto, continua escancarando sua pequena boca prá gritar "I can't get now", prá delírio do público.
Muitos outros supergrupos ultrapassam de longe os recordes de venda de Elvis e Beatles: Supertramp, Kiss, Eagles, Elton John, Led Zeppelin, Deep Purple...
Contudo, não se deve penalizar todos os artistas do período. A maior parte deles foram tragados por um sucesso imprevisto e procuraram sinceramente caminhos musicais inovadores.
A rotina se sobrepos, seja pelo peso da indústria fonográfica, da força da publicidade, ou das repetições estafantes de tournees mundiais e ou até mesmo de um público jovem menos crítico e demasiado sensível à propaganda.
No geral, a procura artística acabou cedendo lugar à procura do lucro sistemático. O rock virou uma instituição.

2. Anos de 1977 a 1990

A crise econômica causada pelo aumento brutal dos preços do petróleo bruto após o conflito árabe-israelense de 1973 atinge violentamente as nações ocidentais. Os EUA ragem de acordo com seu poder econômico.
A Grã-Bretanha é atingida fortemente: falências e queda da produção na industria têxtil, automobilística, na frota mercantil, metalurgia e no setor do carvão. Os preços sobem, os salários ficam estagnados, cresce o desemprego, a violência e aviad cotidiana dos britânicos se ainda mais abalada pelos conflitos entre governo e IRA. A paixão inglesa pelo futebol se transforma em refúgio para multidões.
Mas a juventude classe média nào vê alternativas: diariamente assiste na TV as estatísticas decrescentes de emprego. Pequenos trabalhos ocasionais, bolsas escolares não sào suficientes prá espantar o medo do futuro. Noutros tempos teria havido o rock para estimular a consciência e a chama da revolta. Mas agora os jovens nem sempre se identificam com roqueiros trintões e multimilionários. De fato a indústria fonográfica está meio desligada das realidades do povo que vive nos conjuntos habitacionais sombrios dos subúrbios de Londres.
É neste ambiente suburbano que surge o punk.
Não houve uma corrente se pensamento punk, nem se pode falar de uma filosofia punk. Aos olhos do movimento punk, o mundo é um conjunto simplificado de injustiças sociais: há ricos e pobres, fortes e fracos; pais e filhos. Assim, através de seu "look"pobre, sapato de trabalhador, casaco preto, o punk devolve a sociedade um imagem caricatural daquilo que ela mesma produziu, sem esquecer, é claro, um tom de zombaria e agressão visual. Recusam a educação escolar e a familiar. O desejo secreto do punk é envergonhar a sociedade através de sua aparência e seu comportamento. O culto do feio passa a ser norma.
Essa juventude pouco politizada, inculta, pré-delinquente e desocupada à força terá capacidade de produzir uma autêntica revolução musical na história do rock. No início os punks recusavam o termo "punk rock", tal era o ódio que sentiam pelo rock.
As melodias punk nào se regem pela estutura harmônica dos três acordes que o rock dosa nos 50 foi buscar no blues de décadas anteriores. O rítmo das canções punk é particularmente característico: ao contrário do rock clássico herdado do blues (tempo forte no primeiro) e do reagge (tempo forte, em contratempo, no segundo), o punk rock acentua todos os tempos,o que equivale a abolir todos os tempos.
Por ignorância ou voluntariamente, o guitarrista e o barterista punk maltratam os seus instrumentos, batendo-lhes sem parar. Sid Vicious inventa o "pogo", a dança punk que consiste em saltar no ar em cada tempo, como um manequim com molas. Três anos de moda punk destruíram o domínio único do rok clássico.
Nenhum dos grupos históricos de 1977 sobreviveu. O extremismo dos pioneiros do punk causou estragos nas suas fileiras,mas marcou profundamente a história do rock.
A new wave sucedeu ao punk rock. Ela é a sua versão aceitável: nada de niilismo, de violência. Nada que possa chocar um sistema. A nova moda impôs-se no início doa nos 80. A new wave é marcada por uma técnica incomparavelmente mais elaborada do que a dos punks. As melodias são verdadeiramente cantadas, a maior parte das vezes de forma monótona e aguda ( a marca do punk continua a ser audível).

Muitas estrelas do rock dos anos 80 tiveram, numa fase ou outra de suas carreiras, ligadas ao punk.Vejamos: Robert Smith do The Cure tocou com os Sex Pistols; Jim Kerr do Simple Mind estava no seu início próximo dos punks; Sting popularizou os cabelos curtos e descolorados na sua fase The Police; Edge do U2 tem uma execução de guitarra influenciada pelo despojamento do punk.
Apesar da new wave ser proveniente da moda punk, já não há mais revolta nas suas letras: a aprtir dela a boa consciência e o humanismo (ecologia, pacifismo, direitos do homem) substituem o "no future" dos punks.


VI - História do Rock Brasileiro - Anos 60

1. Definição

Num sentido estrito, a expressão Jovem Guarda designou programa da TV Record, de São Paulo SP, estreado em setembro de 1965 e findo em 1969, comandado por Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia; mas tem sido comumente empregada para definir gênero musical também conhecido como iê-iê-iê, seja, a versão brasileira do rock internacional.

2. Antecedentes

A Jovem Guarda foi, entretanto, cristalização de uma tendência bem anterior: a informação do rock'n'roll norte-americano da década de 1950 já criara no Brasil um mercado de consumidores e aficionados, permitindo que, desde 1957, os primeiros cantores e compositores brasileiros do gênero tentassem reproduzir o ritmo com letras em português ou cantando no original. Entre os maiores expoentes desse período estavam os irmãos Tony e Celly Campelo, Sérgio Murilo, Ed Wilson e, em fase pouco posterior, Ronnie Cord e os grupos The Jordans, The Jet Blacks e The Clevers.

3. O Grupo

O trio central - Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia - entrou em cena justamente quando começava a se acentuar a queda de popularidade dos primeiros artistas brasileiros do rock'n'roll.
Em 1961, Celly Campelo decidiu afastar-se da vida artística, enquanto as atenções se voltavam para a bossa nova e, nos meios de comunicação, sobreviviam poucos espaços.
Em discos, os sucessos rareavam: Marcianita, com Sérgio Murilo, Diana, com Carlos Gonzaga. Roberto Carlos optou, então, por algum tempo, pela bossa nova, mas Erasmo Carlos e Wanderléia decidiram insistir, tentando divulgar um tipo de musica que, nessa época, já tinha muito de bolero e samba-canção, misturado ao ritmo do rock'n'roll.
No Rio de Janeiro RJ, Ed Wilson, Cleide Alves, Renato e seus Blue Caps também esperavam sua oportunidade.
Foi o repentino sucesso de um compositor e intérprete radicado em São Paulo que abriu a brecha para o que seria a Jovem Guarda: em 1963, Ronnie Cord conseguiu bons índices de venda e popularidade com o rock Rua Augusta (de Hervê Cordovil), chamando a atenção do publico e dos homens de media para as figuras de Roberto Carlos e Erasmo Carlos, principalmente, autores de Parei na contramão.
Em seguida, É proibido fumar e Festa de arromba (da mesma dupla) confirmaram a existência do mercado.
Foi dessa música - onde os dois celebram textualmente seus companheiros de vida artística e preferência musical - que surgiu a idéia de um programa de televisão, concretizado pela TV Record paulista, na época grande investidora em musica popular.
Inicialmente o programa deveria chamar-se Festa de Arromba e ocuparia uma hora ociosa, a tarde de domingo, vaga desde a proibição de transmissão dos jogos de futebol.

4. O Programa da Record

Com o nome definitivo de Jovem Guarda, o programa foi ao ar pela primeira vez em setembro de 1965, reunindo Roberto Carlos, Erasmo Carlos e Wanderléia, os cantores Eduardo Araújo, Sérgio Murilo, Agnaldo Rayol, Reynaldo Rayol, Martinha, Cleide Alves, Meyre Pavão, Rosemary e os grupos The Jordans, The Jet Blacks, Renato e seus Blue Caps, Os Incríveis e Golden Boys.
Rapidamente, a Jovem Guarda tornou-se uma das grandes atrações da emissora, reunindo grandes platéias de adolescentes no Teatro Record, mas foi a partir de 1966, com o grande sucesso de Roberto Carlos e Erasmo Carlos Quero que vá tudo pro inferno, que o programa tomou proporções nacionais e passou a ser sinônimo de movimento ou tendência musical.
Outros artistas se juntaram ao grupo inicial: Ronnie Von, Vanusa, De Kalafe, Deny e Dino, Leno e Lilian, Antônio Marcos, Os Vips, Os Brasões, The Pops, entre outros. Seguindo o exemplo da Apple, promotora dos Beatles, a agência de publicidade Magaldi, Maia & Prosperi passou a coordenar industrialmente a imagem do trio central da Jovem Guarda, criando as marcas Calhambeque, Tremendão e Ternurinha para uma série de produtos que ia de bonecas a calças e blusas.
Vários compositores de outras áreas começaram então a se interessar pelos ritmos da Jovem Guarda, como Jorge Ben, que passou a freqüentar o programa, e os baianos Gilberto Gil e Caetano Veloso, que, aconselhados pela cantora Maria Bethânia, incorporaram ao seu trabalho elementos do iê-iê-iê, como as guitarras que acompanhavam Domingo no parque e Alegria, alegria, no III FMPB, da TV Record, em 1967.

5. A Queda

Segundo Erasmo Carlos, foi justamente a Tropicália - movimento que Gil e Caetano fundaram nesse período - uma das principais causas do esvaziamento da Jovem Guarda. "A Tropicália - diz ele - era uma Jovem Guarda com consciência das coisas, e nos deixou num branco total".
Mas, antes de se extinguir totalmente no inicio de 1969, diluída pela superexposição ao consumo, a Jovem Guarda deixou sua contribuição, alimentando vários programas semelhantes na televisão, como a Festa do Bolinha, de Jair de Taumaturgo, na TV-Rio carioca, e publicações especializadas, como a revista Reis do iê-iê-iê, sucessora do que a Revista do rock tinha sido para o rock'n'roll brasileiro na década de 1950.

6. Influências

Além de projetar nacionalmente alguns de seus ídolos, o movimento foi em grande parte responsável pela posterior assimilação de instrumentos eletrônicos na musica brasileira de todas as tendências e pela fusão de informações estrangeiras e dados nacionais que caracterizou a produção musical na década de 1970.
No inicio da década seguinte, Léo Jaime, os Titãs, a Blitz e outros interpretes e grupos roqueiros retomaram a musicalidade simples e direta da Jovem Guarda, constituindo a Nova Jovem Guarda. Em 1995, remanescentes da Jovem Guarda se reuniram para comemorar os 30 anos do movimento, gravando uma caixa de cinco CDs para a Polygram, onde recriam os antigos sucessos, e fazendo uma serie de shows com êxito nacional: Wanderléia, Erasmo Carlos, Ronnie Von, Bobby de Carlo, Os Vips, Os Incríveis, Martinha, Leno e Lilian, Golden Boys e outros.

VII - História do Rock Brasileiro - Anos 70


a) - A Influência do Tropicalismo (1970 - 1975)

1. Inovações de Caetano e Gil

O tropicalismo trouxe para a música brasileira a mistura de estilos : samba, MPB e Rock. No final de outubro de 1967, as rádios do país começaram a tocar com uma certa insistência a canção "Alegria, Alegria", síntese e símbolo da originalidade tropicalista. Abandona-va, assim, um certo tradicionalismo musical que então rejeitava influências externas e abominava a guitara elétrica na MPB.
Caetano Veloso e Gilberto Gil, junto com um time de rockeiros, arranjadores, poetas e artistas plásticos, fizeram com que ninguém mais estranhasse ao se afirmar que a MPB é pop.. Os tradicionalistas odiavam esta afirmação. Além disto, aqueles que atacavam a Jovem Guarda usando como argumento a falta de "bagagem cultural", não podiam dizer o mesmo do tropicalismo. Entre a turma tropicalista havia muitos músicos eruditos.
O pessoal da Tropicália também ganhou programa de TV, o "Divino Maravilhoso", que tinha como palavra de ordem o ecletismo. Acontecia de tudo neste programa, às vezes, performances consideradas modernas demais até mesmo para os dias de hoje, como por exemplo Caetano jogando livros de poesia na platéia. O publico que frequentava o programa naquele momento já podia ser rotulado como underground brazuca. Sem duvida, a Tropicália foi o berço do hippie tupiniquim.
Os tropicalistas ainda viriam a sofrer a censura do AI-5, pricipalmente Gil e Caetano, que tiveram de viverem no exílio (em Londres) até 1972, quando retornaram.

2. Rita e Raul

Em 1972, a voz feminina de Rita Lee deixa o trio que vinha revolucionando e marcando a música tropicalista, ao lado de Gil e Caetano. Para muitos, foi o fim dos "verdadeiros" Mutantes. Mas Rita Lee não para por ai e em 1973 forma o conjunto Tutti Frutti, que de certo modo, era na realidade mais um grupo de apoio à Rita Lee de 1974 a 1978. Foi de sua autoria o hino da juventude rebelde brasileira dos anos 70 - "Ovelha Negra".
Mas os cinco primeiros anos da década de 70 não foram só Tropicálismo. Um retrato dessa diversidade era Raul Seixas que não pertencia ao grupo tropicalista. Começou com sua banda "Raulzito e os Panteras" (ou "Raulzito e os the Panthers"). Mas seu talento sobrou e a carreira solo foi inevitável. Seu sucesso foi tanto que seu trabalho arrebatou uma legião de fãs que presta devoção ao seu trabalho até hoje. Raul Seixas inovou ao associar elementos da cultura nordestina, como o xaxado, o forró e etc., com o rock'n'roll clássico. A imagem de Raul Seixas gerou então o modelo do roqueiro tupiniquim.
A identificação entre homem e música foi tamanha que Raul chegou a declarar frases que marcaram, como "Eu sou o próprio rock".

3. Secos e Molhados e Novos Baianos

Outro grupo que recebia influencia do Tropicálismo, e também marcou época, foi o trio vocal Secos e Molhados, formado por Ney Matogrosso, Gérson Conrad e João Ricardo. Despontaram em 1973, tinham um visual andrógeno. A maquiagem agressiva, a expressão sensual do corpo e a surpreendente voz de Ney chamavam a atenção do público. O trio teve vida curta.
Os Tropicálistas praticamente "caçados" pelo governo (AI-5), , mas logo apareceu uma turma para manter a bandeira Tropicálista hasteada.

Era um pessoal que vivia em comunidade, era macrobiótico e gostava de rock, para eles, tudo se resumia em paz e amor: os Novos Baianos ( Paulinho Boca de Cantor e Baby Consuelo ; Moraes Moreira; Galvão, o letrista da banda). Em 1972, o grupo aumenta com a entrada de Pepeu Gomes (guitarra)

b) A Explosão da DISCO e o Rock Progressivo 1975 - 1979

1. No fim da ditadura, a "abertura"

No final da década de 70, o Brasil não era o melhor país do mundo para se viver de música. O fim da Tropicália e dos grandes festivais gerou certa apatia no cenário rock brasileiro. Ainda estava em plena atividade a linha dura da ditadura militar, contrária ao projeto conservador da "abertura" política, com a retomada da repressão, tortura e censura.
Os poucos que insistiam na música como estilo de vida, tiveram que encontrar novas fórmulas para fugir da repressão da censura. Haviam, em tese, três alternativas: sair do país, optar por um visual exótico ou ainda o humor e a dança. Para todos do rock, esta época foi difícil, pois nenhuma rádio brasileira tocava rock nacional (o termo, na verdade nem existia); a TV só se interessava por MPB e as gravadoras morriam de medo da palavra "banda".


2. Influencia do rock progressivo

Havia ainda o pessoal que se espelhava em grupos de sucesso dos EUA e Europa, tais como: Pink Floyd, Yes, Genesis, King Crimson ou Jethro Tull. O problema é que a maioria dos grupos nacionais não contava com o apoio das gravadoras, como os grupos lá de fora.
Entre eles, destaca-se o grupo Vímana, quase desconhecida hoje em dia, mas com grande influência posterior, formado por Ritchie, Lulu Santos e Lobão. Como outras bandas da época o Vímana, gravou apenas um disco e depois desapareceu.
E como a ecologia estava em alta no final da década de 70, institui-se o rock rural, e nenhum exemplo supera do trio Sá, Rodrix e Guarabyra.

3. A moda disco

A partir de 1975, muitos passaram a preferir o calor de uma pista de dança superlotada no centro de alguma grande cidade. A disco (ou discoteca) surgiu em meados dos anos 70, nos guetos gays de New York. Mas a batida só caiu no gosto do grande público em 1977, por obra e graça de John Travolta, astro do filme "Os Embalos de Sábado à Noite" ("Saturday Night Fever").
Neste ritmo surgiram As Frenéticas, que em 78 viraram mania nacional. Combinavam com perfeição os ideais do gênero:visual arrojado,extravagante,animação e batidas fortes.
Mas um grupo que seguiu a contramão desta tendência foi o Joelho de Porco, com um visual divertidíssimo (maquiagem pesada beirando o gótico) e muita paródia, metalinguagem e colagens. Faziam o público ir ao delírio.
E a década não para por ai. Também surgiram Tim Maia, enquanto Luiz Melodia e Guilherme Arantes, que brilhavam com temas de novelas.
Mas o fato é que o final dos anos 70 foi palco para muitas bandas que surgiram e desapareceram rapidamente.

 


VIII - História do Rock Brasileiro - Anos 80

a) - A Influência punk e new wave - 1980 - 1984

1. Punks

A década de 80 começa com o povo ainda comemorando com os acontecimentos do final da década anterior, o fim do AI-5 e a anistia cria uma expectativa de mudanças políticas. A censura não era mais tão feroz como na década anterior. Assim, começaram a surgir no underground, bandas sonhando expor ao público suas idéias contestadoras. Bandas como Sex Pistols e The Clash eram as novas referencias . Ali começou a surgir o movimento punk, com um rock rápido, cru e agressivo. Um exemplo de banda punk brasileira é Os Inocentes, que diga-se passagem, foi uma das mais importantes para o movimento. Clemente Tadeu comentou o seguinte sobre o movimento punk:
- "Nós estamos aqui para revolucionnar a música popular brasileira, para pintar de negro a asa branca, atrasar o trem das onze, pisar sobre as flores do Geraldo Vandré e fazer da Amélia uma mulher qualquer".
O punk brasileiro mostrou sua real força em 1982, no Sesc-Pompéia em São Paulo, no festival "O Começo do Fim do Mundo" , que reuniu mais de vinte bandas punk. Entretanto não foi só o movimento punk que mostrou a cara neste inicio de década. Vários grupos surgiram (e desapareceram) dentro das universidades: eram jovens que gostavam de rock e MPB, juntavam-se e formavam bandas... é dai que saiu gente como: Arrigo Barnabé e Banda Sabor de Veneno, Itamar Asumpção & Banda Isca de Polícia, Língua de Trapo.

2. New Wave

E longe do punk de São Paulo, vinha a New Wave do Rio, com bandas como Gang 90 & Absurdetes, com grande influência de grupos como: Blondie, Devo e B-52's. O grupo era o que mais prometia no então rock nacional, com o som correto (new wave), o visual ideal (moderno) e um líder antenado com o mundo (Júlio Barroso). Entretanto, a banda teve um fim inesperado com a morte precoce de Júlio Barroso, em 7 de julho de 1984, após cair da janela de seu apartamento, no 11º andar.
Quem também marcou este início foi a banda Blitz, que com o sucesso avassalador que fizeram, funcionaram como isca, atraindo as gravadoras para o fértil campo do rock nacional. A Blitz chegou a tocar no Festival Internacional da Juventude, em Moscou.
O Rio tinha dois palcos para as novas bandas: A Rádio Fluminense e o Circo Voador (Blitz, Barão Vermelho e Kid Abelha foram algumas das varias bandas vieram da rádio e tocaram no circo). O Circo Voador guarda muitas das curiosidades do rock nacional. Numa delas o protagonista foi Lulu Santos. Em 1983, o cantor foi impedido de entrar pelo porteiro. Para acalmar a ira do cantor, que jurou nunca mais tocar lá, a entrada dos artistas ganhou por alguns anos a placa "Portão Lulu Santos".
Radio Táxi foi outra banda que se deu bem na época. Seu disco de estréia foi um dos mais vendidos em 1982, graças às apresentações nos programas de auditório (que não foram poucas...).
Mas sem duvida, a banda da primeira geração que conseguiu grande popularidade e que está até hoje nas paradas, é o Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, hoje só Kid Abelha e sem seu membro fundador, Leoni. Com sua música pop de boa qualidade, não foi difícil conquistar fãs de todas idades em todo país.
Mais uma banda que estourou nesta época foi Os Paralamas do Sucesso, que contraria todas tendências de new wave, aplicando ao seu rock elementos da cultura afro-americana como o reggae e o ska. Eles foram, junto com o Kid Abelha e os Abóboras Selvagens, a banda mais executada no ano de 1984.
Pode-se imaginar que nesta época só existia rock/pop alegre, praiano. Mas isto não é verdade e a prova é o Barão Vermelho, com seu rock sério, compromissado, de ótima qualidade e com um pé no blues, além de mostrar o primeiro grande poeta do rock dos anos 80: Agenor de Miranda Araújo Neto, ou Caju, ou simplesmente Cazuza.

b) - A Fase mais eufórica do pop rock nacional - 1985-1987

1. Rock in Rio

Com certeza quem viveu, jamais esquecerá o ano de 1985. Nunca o rock pulsou de forma tão intensa no país, e mesmo no mundo. Jovens de todo o país se reuniram para um celebração musical: o Rock in Rio. O festival, iniciado no dia 11 de janeiro, era um reflexo do otimismo que havia tomado conta do Brasil. Foram dez dias de shows, com quatorze atrações internacionais. Foi o maior evento que o país já havia presenciado (para ver detalhes clique aqui). O festival colocou o Brasil no mapa das grandes turnês mundiais. E aqui dentro, serviu de lição para que os roqueiros nunca mais fossem discriminados. E abriu-se aí, um novo espaço: rádio e TV deram mais espaço ao gênero e as gravadoras redescobriram as bandas.

2. RPM. Ultraje e Ira

O primeiro grande sucesso, fruto desta reviravolta fonográfica, foi o RPM, que estoura com "Louras Geladas" e "Olhar 43", e conquista as rádios e TVs tupiniquins. Seu primeiro compacto vendeu 100 mil cópias. A sofisticação era uma das marcas da banda. O golpe de misericórdia para o sucesso máximo foi o lançamento do álbum "Radio Pirata ao Vivo", que antes mesmo de chegar nas prateleiras das lojas, já havia vendido mais de 500 mil cópias.
Não foi só o RPM que lucrou com os resíduos do Rock in Rio. O Ultraje a Rigor, em 85 gravou seu primeiro LP e de cara foi super bem aceito pelo público. Tinha uma fórmula imbatível: rock básico e bem-humorado, com letras politicamente ativas. Em 1987, eles conseguem um feito: no dia 19 de março, param o trânsito da Av. Paulista com um show-surpresa. Motivo: a gravação do clipe de "Eu Gosto é de Mulher" para o programa "Fantástico", da TV Globo.
Também de São Paulo vinha outra banda que conquistaria o seu público na época : o Ira!, com suas letras que não passavam desapercebidas devido à sua contundência e som inspirado na década de 60. Contava ainda de quebra com o melhor guitarrista do Brasil: Edgard Scandurra. O auge do sucesso veio com a musica "Flores em Você", que não por acaso foi tema da novela da 21hs da Rede Globo, "O Outro".


3. Lobão. Legião, Titãs


Outro grupo estourou, mas teve duração bem mais curta, foi o Metrô, que conquistou todo país com seu rock romântico. Conseguiu emplacar vários hits nas rádios, mas o principal foi: "Beat Acelerado". Não só o Metrô teve seu auge nesta época. Léo Jaime também teve seu grande momento de fama entre 85 e 86. Quem, como Léo, viveu sua melhor fase neste período, foi Lobão, que apesar de todo sucesso, teve um ano de 1987 bastante complicado, pois fora preso 4 vezes.
Fora do eixo Rio-São Paulo, as Gravadoras começaram a descobrir talentos como o rock pesado do grupo baiano Camisa de Vênus, a música "Eu Não Matei Joana D'Arc" foi executada em todo país. Outra banda fora deste eixo, e com certeza uma das mais importantes foi o Legião Urbana, que é idolatrada em todo o país até hoje. O vocalista e letrista da banda, Renato Russo, com seu carisma inquestionável, se mostra um grande poeta, e ocupa o altar dos maiores poetas do rock nacional ao lado de Cazuza.
Quem também aproveitou bem esta época para explodir foram os Titãs, com músicas de todos os gêneros (brega, new wave, funk, reggae e rock) conquistou fãs em todo o Brasil. Mas a explosão ocorreu em 1986, com o LP "Cabeça Dinossauro". Os Titãs foram uma das poucas bandas que sobreviveram ao tempo, e fazem sucesso até hoje.



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