ENTREVISTA CONCEDIDA PELO PROFESSOR JOÃO BESERRA DA SILVA À
JORNALISTA BEL CORRÊA
1 - Bel Correa - Para iniciarmos nossa conversa, que tal o
senhor falar um pouco sobre sua trajetória profissional?
Como foi o início de sua carreira? Qual foi o seu primeiro
emprego? Quantos anos o senhor tinha na época? Quais as
lições tiradas deste emprego?
Prof. João Beserra da Silva – Antes das respostas em si,
importante é explicar que tive, graças a Deus uma boa
formação em minha infância e adolescência. Embora meus pais
fossem semi-analfabetos, encaminharam-me muito bem. Por
livre escolha, fui aos doze anos para o seminário estudar
para ser frade franciscano, lá ficando até aos dezoito anos.
Naquela época, há cinqüenta anos atrás, os estudos eram
muito sérios de modo que, ao concluirmos apenas o curso
ginasial(hoje, a 8ª série), tínhamos condições de vir a São
Paulo e prestar vestibular para Direito e todos passávamos.
Mesmo com esse estudo fui trabalhar aos dezoito anos como
office-boy de uma cadeia de lojas de departamentos. Fiquei
apenas uma semana nesse cargo. Logo em seguida passei a ser
encarregado de seção.
As lições foram muitas, como as assimilo até hoje. Em tudo
estou a aprender algo. Sempre me coloquei à disposição dos
meus superiores e dos colegas de trabalho. Todos os momentos
eram muito importantes para mim; assim, estava disposto a
aprender sempre mais, uma vez que agora precisava
responsabilizar-me pela minha sobrevivência e por meu
futuro, já que a minha vocação havia mudado de direção.
Sempre procurei fazer parte de equipes sérias que encaravam
o trabalho com responsabilidade e dignidade humana.
2 - Bel Correa - Na sua carreira, de Office boy a
Diretor-Comercial, quais conquistas alcançadas foram as mais
marcantes? E quais dificuldades enfrentou e como conseguiu
contorná-las?
Prof. João Beserra da Silva – Vamos começar pelas
dificuldades. Foram muitas. As maiores que encontrei
situavam-se no campo da conquista da confiança das pessoas,
devido ao meu conhecimento da língua portuguesa e de outros
idiomas necessários ao seu bom entendimento, como o Latim e
o Grego, que havia estudado no seminário. Com o tempo todos
notaram que era uma responsabilidade minha cultivar a nossa
língua-mãe e passei a ser correspondente, cargo hoje ocupado
por mulheres, como secretárias. Nunca abri mão das
responsabilidades inerentes aos meus cargos e encargos e
exigia o mesmo dos colegas e comandados. Com efeito,
destaquei-me entre os meus pares e galguei os mais elevados
postos, chegando já na década de 60 a ser assistente da
Diretoria. Esse posto equivale hoje a Diretor-Adjunto. Em
1961, aos vinte e cinco anos de idade, o meu patrão daquele
tempo me lançou a Deputado Estadual pelo Partido
Republicano, ao lado de Laudo Natel, que ganhou para
Vice-Governador.
Dali em diante dirigi alguns departamentos de
multinacionais, ocupando postos como Gerente de Crédito,
Gerente de Vendas, Gerente de Marketing e Diretor-Comercial.
Fui Gerente-Comercial no Rio de Janeiro por três anos e no
Recife por cinco. Retornei de lá para São Paulo a fim de
assumir a Direção Comercial da empresa.
Tudo quanto hoje as empresas buscam na área do Lado Humano
da Qualidade já era posto em prática por mim com a minhas
equipes. Sempre soube que equipes bem motivadas produzem
mais. Mas, descobri que a maior motivação é a sinceridade, o
respeito, o amor, a compreensão e a solidariedade. Assim
agia com os meus e fui entre eles exemplo de sucesso. Nossas
equipes eram campeãs, em qualquer território que atuássemos.
Em menos de seis meses quintuplicamos o faturamento da
empresa, passando de duas mil unidades para dez mil.
3 - Bel Correa - Pela sua experiência, como participante
ativo em comunidades virtuais, quais são os aspectos
positivos e negativos dessas comunidades? Alguma situação
inusitada e marcante que o senhor tenha vivido em meio a
estas listas de discussões?
Prof. João Beserra da Silva – Sim, vivi e vivo diversas
situações, agradáveis e más. Logo que entrei nessas
comunidades abri o meu espírito para servir e colaborar com
todos, pois é meu entendimento que a melhor maneira de viver
é compartilhando o que é bom, útil, justo e belo. No início
não fui entendido; sofri muitas críticas, como sofrem
aqueles que desejam doar e entregar aquilo que é bom.
De outra parte, também noto que muitas pessoas que conhecem
e sabem algo, sobremodo alguns que têm títulos,
apresentam-se como poderosos e auto-suficientes, procurando
esmagar os demais. Há o caso de uma pessoa que se apresenta
como presidente de uma ONG que só vive a ameaçar com ações
judiciais as pessoas e até mesmo o Nosso Grupo. Não penso
ser atitude correta de pessoas que façam parte de grupos
virtuais.
Em contrapartida, há muitas pessoas desprendidas e
despretensiosas que colocam à disposição dos grupos os seus
conhecimentos, como auxílio geral para muitas pessoas, em
especial para os jovens principiantes.
Uma das situações inusitadas foi que houve polêmicas até
mesmo em grupos que se dizem evangélicos, um atacando o
outro. Intervi corajosamente como mediador, mostrando o lado
bom da vida, sem críticas, pelo amor ao bem e ao próximo.
4 - Bel Correa - Quais são as qualificações e habilidades
que precisamos desenvolver para nos tornarmos profissionais
bem-sucedidos na sua opinião?
Prof. João Beserra da Silva – Como declarei em minha
apresentação na Editora Abril aos jovens do grupo Talentos
para Talentos, é necessário acima de tudo e antes de mais
nada, transformar o seu potencial em desempenho a serviço da
empresa a qual estão prestando os seus serviços,
independentemente do que percebem como remuneração e do
posto que ocuparem logo no início. Como afirmei, quem
valoriza as pequeninas coisas, gradativamente vai se
tornando merecedor das grandiosas que aspira e que merece.
As habilidades que devem ser desenvolvidas são várias e
todos os dias surgem novas. Uma delas é estar muito atento
às mudanças; observar os acontecimentos no mundo empresarial
e perceber que vão se projetar aqueles que estiverem
dispostos a aceitar desafios, que se mostrarem abertos às
inovações e que apurarem o seu espírito de criatividade. As
empresas não estão muito interessadas em experiência passada
ou em especialistas, mas naqueles que possam recriar o
futuro no presente. Pessoas que estiverem qualificadas para
o relacionamento amistoso, emocionalmente equilibradas e
dispostas a trabalhos em equipe, com alegria, entusiasmo e
disposição vão ser chamadas a mudar o mundo. Pessoas
apaixonadas pelo que fazem, amando intensamente as suas
tarefas, engajadas no comprometimento, propensas a deixar
fluir o conhecimento, respeitosas e amáveis, vão liderar o
nosso mundo corporativo. Ao contrário, quem sonegar
conhecimento e informação, quem pensar que só deve realizar
aquilo para o que está sendo remunerado, quem fugir dos
problemas da empresa, quem pensar que “puxando o saco” no
papel de “leva-e-traz”, de “dedo duro” ou de “puxa-tapete”
vai chegar às alturas, estará redondamente enganado. Porque
esse tipo de profissional está se extinguindo em nossos
dias, graças a Deus e ao tirocínio de muitos executivos que
estão dispostos a banir esses maus profissionais.
5 - Bel Correa - Gostaria que o senhor falasse um pouco da
sua vivência no exterior. O senhor acredita que sua passagem
por três continentes trouxe transformações para o seu
dia-a-dia? Quais foram as mudanças no âmbito pessoal e
profissional?
Prof. João Beserra da Silva – É bom que todos saibam que o
nosso país, apesar da maioria dos governantes que tem, é o
melhor lugar do mundo para se viver. Mas, aconselho aos
jovens e a quantos ainda não saíram do Brasil, na medida das
suas posses, darem uma passada lá fora. Os horizontes
alargam-se e a visão se amplia, saindo do Brasil com o
intuito de aprender, pela observação. Foi o que sempre
fizemos em nossas viagens pelos três continentes. É certo
que se aprende nos Estados Unidos até mesmo como não se
fazer ou agir.
A Europa é e será sempre a “velha” escola, de onde continuam
vindo as grandes lições. Mas, hoje em dia, onde mais se
aprende é no Oriente. Lá está o maior poder de concentração
que alguém precisa assimilar. Fala-se muito em paixão pela
qualidade, mas lá a qualidade faz parte da educação do povo;
já está enraizada em seu próprio sangue: corre pelas veias e
pelo espírito. É questão de honra; até mesmo de cidadania. É
vergonhoso para o oriental não estar do lado da qualidade.
Alguém poderá dizer que em países como Japão e Coréia, que
são ricos, é possível ser assim. Contudo, onde mais aprendi
foi em países pobres, como a Índia.
O hindu tem respeito, amor e consideração pelos outros e é
de palavra. Hoje a Índia exporta executivos, Inteligência e
Sabedoria. Orgulha-se de manter um banco de talentos à
disposição do mundo capitalista.
Aquela cultura já estava impregnada no meu dia-a-dia, mas
mudou a minha consciência quanto ao respeito que devemos ter
pelos semelhantes. Estava eu com a minha equipe na cidade de
Agra para visita de duas horas ao Taj Mahal, quando se
aproxima de mim correndo um garoto oferecendo os seus
produtos.
Disse-lhe, ao descer do ônibus: “depois”. Ele me respondeu
em inglês fluente, melhor do que o meu: “estarei aqui
esperando pelo senhor!” Lá é obrigatório deixar os veículos
dois quilômetros distantes daquele monumento fenomenal. A
nossa visita que deveria ser, de acordo com o programa de
duas horas, prolongou-se pela tarde toda. Para entrar no Taj
Mahal o turista ou qualquer outra pessoa deixa os seus
sapatos fora e entra descalço. Quando sai, lá estão os
sapatos no mesmo lugar.
Retornando para o nosso veículo, no trajeto, uma grande
multidão oferece os seus produtos. Tudo é muito barato e
compramos vários. Ao me aproximar do nosso ônibus, noto o
garoto dormindo no estribo à minha espera. Somente naquele
instante percebi o que havia feito na alma do menino. Ao
chegar próximo dele, ergueu-se e com brilho nos olhos, sem
raiva e sem rancor, disse-me com firmeza: “O senhor disse
que compraria de mim!”
Senti-me o pior dos homens. O garoto, sem escrúpulo e com
decência, fez-me sentir uma barata embaixo dos seus pés e
deu-me o golpe de misericórdia: “Nós aqui na Índia temos
palavra!”
Envergonhado, olhei para os componentes do grupo e
falei-lhes: “É verdade! Eu prometi que compraríamos dele!” –
Compramos todos os produtos do menino. Agora, com o dinheiro
no bolso, o suficiente para o alimento da semana,
sorridente, perguntou-me se era americano. Ao saber que era
do Brasil, começou a falar em castelhano comigo. Indagado
sobre quantos idiomas falava, respondeu-nos: “Cinco!” Ele só
tinha oito anos. A sua história consta de um dos meus livros
– A Arte de Viver e Conviver -, tantas foram as lições que
aquele menino me passou.
São muitas as lições, sim, que as minhas viagens me
ensinaram; mas, as que realizo por nosso país também têm me
proporcionado grandes ensinamentos.
6- Bel Correa - O senhor é formado em cursos
não-reconhecidos no Brasil como Parapsicologia e Metafísica.
São um pouco fora da formação adicional dos profissionais de
mercado atual. O que esses cursos influenciaram na sua vida
profissional?
Prof. João Beserra da Silva – Posso assegurar que esses
estudos me nortearam em tudo, pois conferiram-me a percepção
que outros cursos não nos dão. Trata-se de visão interior
que se alarga a ponto de enxergarmos na amplitude da
cosmovisão. Com esse tipo de estudo aprende-se a ler a alma
humana e fazer leitura no campo invisível. Todavia, nem
todos os formados nesses campos atingem esse poder de “ler”
no intangível. Mas, é esse conhecimento que até hoje me
faculta fazer o diagnóstico certo e diante de um auditório
de 200 a 600 pessoas perceber claramente o que todos estão
precisando. Mesmo porque o palestrante, o orador, o
conferencista, o consultor, qualquer que seja a denominação
que se atribua a si mesmo, não deve oferecer o que almeja,
mas o que o público anseia. Assim são as minhas
apresentações, os meus treinamentos, conforme você
testemunhou nas duas apresentações na Editora Abril.
7 - Bel Correa - O senhor lida com áreas como recursos
humanos, motivação e desenvolvimento pessoal. Como é
trabalhar neste segmento? Nas empresas em que o senhor
presta treinamentos, conferências ou palestras, quais
elementos o senhor busca para motivá-los, para desenvolver
potenciais, enfim, como se dá este trabalho de
desenvolvimento de competências?
Prof. João Beserra da Silva – Essa atividade abre leques
quase infinitos e na mesma proporção faculta-nos uma visão
que mui poucas pessoas alcançam. Simplesmente porque na área
de motivação humana e desenvolvimento pessoal o treinador
não deve olhar apenas para os objetivos da empresa, mas
focar a atenção dos participantes para os seus objetivos
pessoais. Nossos programas priorizam a pessoa humana e, como
Parapsicólogo e Metafísico e dotado de outras faculdades,
enxergo a alma das pessoas e vou ao foco dos seus anseios.
Portanto, mexo com o santuário do seu ser, com a
auto-estima, com aquilo que de mais sagrado ele tem, que é
ele mesmo. Como você viu lá na Editora Abril , a minha forma
de “desenvolver potenciais” é mostrar aos participantes que
só eles têm esse poder. Apresento “Como fazer” e “por que
fazer?”, ao contrário de outras técnicas que forçam a que
seja feito. O trabalho de desenvolvimento de competências se
dá pela valorização pessoal, pelo despertar do interesse por
sua pessoa, pelo despertar da “criança sagrada” que cada um
guarda em si, pela consciência do compromisso com a gestão
da qualidade pessoal, pelo amor a si, ao seu trabalho, à
vida, aos pais, à empresa que o emprega, aos pares e
semelhantes e a Deus. Toda essa estratégia se desenvolve
numa dinâmica denominada “A Rosa da Fortuna”
8 - Bel Correa - Como a motivação profissional pode
influenciar no trabalho do dia-a-dia do profissional na sua
empresa?
Prof. João Beserra da Silva – Já está tudo no quesito
anterior. É oportuno, entretanto, ressaltar que quem se ama
procura realizar o melhor ao descobrir que trabalha para si
mesmo. Quem se ama, merece o melhor.
9 - Bel Correa - Quais são os aspectos principais que o
senhor diria que o desenvolvimento pessoal ajuda um
profissional de mercado a crescer pessoalmente e
profissionalmente?
Prof. João Beserra da Silva – Todos os enumerados acima. Os
aspectos principais proporcionados pelo desenvolvimento
pessoal a cada profissional de mercado firmam-se no conceito
adquirido de que ele, sem se bastar a si mesmo como
auto-suficiente, sem engessar o seu pescoço pressupondo ser
“o bom” ou que “já sabe tudo”, sem estar na órbita do
egocentrismo, é ele o ponto de partida para tudo. Isto é,
deve aprimorar-se dia-a-dia como pessoa, com compromisso
pessoal com ele mesmo, disposto a ser canal de tudo quanto
sabe e pode para melhorar outras pessoas. Pela consciência
de que o mundo pode ser melhor com a sua contribuição e com
o seu interesse em oferecer sempre a sua parte boa. É muito
difícil entender e muito mais ainda assimilar, mas o
desenvolvimento de um profissional acontece quando ele
descobre que neste mundo em transformação deve ser “uma gota
de água pura na taça da vida de cada semelhante”; quer seja
esse semelhante um superior, um colateral ou um subordinado.
É essa a consciência que deixo em cada curso que ministro
nas empresas ou para a sociedade em geral, por meio de
magnífica dinâmica, criada por mim. Muito obrigado pela
oportunidade.
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