EMBOSCADA: O
AQUECIMENTO DO MUNDO
“Eles armam
ciladas contra o seu próprio sangue”. Provérbios 1:18
Há
300 milhões de anos, a Terra era coberta por imensos pântanos. Quando as
samambaias, as cavalinhas e os licopódios morriam, eram enterrados na lama.
Eras se passaram; os resíduos foram carregados para debaixo do solo e ali
transformados, por lentas etapas, num sólido orgânico duro que chamamos de
carvão. Em outros locais e épocas, um imenso número de plantas e animais
unicelulares morreram, tombaram até o fundo do mar e foram cobertos por
sedimentos. Fervendo durante eras, seus resíduos foram convertidos, por etapas
imperceptíveis, em líquidos e gases orgânicos soterrados que chamamos de
petróleo e gás natural. (Parte do gás natural pode ser primordial - não de
origem biológica, mas incorporado na Terra durante a formação de nosso
planeta.) Depois que os humanos evoluíram, houve alguns primeiros encontros
casuais com esses estranhos materiais, quando eles afloravam na superfície da
Terra.
Atribui-se
a origem da chama eterna central para as religiões que cultuavam o fogo na
antiga Pérsia a vazamentos de óleo e gás e à sua combustão por um raio. Marco
Polo foi amplamente desacreditado, quando relatou aos especialistas europeus de
sua época a história absurda de que na China se extraía uma pedra preta que
queimava quando acesa. Por fim, os europeus reconheceram que esses materiais
ricos em energia e de fácil transporte podiam ser úteis. Eram muito melhores
que a madeira.
Podia-se
aquecer a casa com eles, alimentar uma fornalha. Fazer funcionar uma máquina a
vapor, gerar eletricidade, impulsionar a indústria e pôr em movimento trens,
carros, navios e aviões. E havia aplicações militares potentes. Assim,
aprendemos a extrair o carvão da Terra e a fazer buracos profundos no solo para
que o gás e o óleo profundamente soterrados, comprimidos pela sobrecarga de
pedras, pudessem jorrar para a superfície. Finalmente, essas substâncias
passaram a dominar a economia. Elas propiciaram a propulsão para a nossa
civilização tecnológica global. Não é exagero dizer que num certo sentido elas
regem o mundo. Como sempre, há um preço a pagar. O carvão, o óleo e o gás são
chamados combustíveis fósseis, porque são compostos principalmente dos resíduos
fósseis de seres remotos. A energia química que existe dentro deles é uma
espécie de luz do Sol armazenada, originalmente acumulada pelas plantas
antigas. A nossa civilização funciona pela queima dos resíduos de criaturas
humildes que habitaram a Terra centenas de milhões de anos antes que os
primeiros humanos aparecessem na cena. Como num terrível culto canibal,
subsistimos dos corpos mortos de nossos ancestrais e parentes distantes. Se
voltarmos o pensamento para o tempo em que nosso único combustível era a
madeira, adquiriremos uma noção dos benefícios que os combustíveis fósseis nos
proporcionaram. Eles também criaram enormes indústrias globais, com imenso
poder financeiro e político - não apenas os conglomerados de óleo, gás e
carvão, mas também indústrias subsidiárias inteiramente (automóveis, aviões) ou
parcialmente (produtos químicos, fertilizadores, agricultura) dependentes
dessas fontes de energia. Essa dependência significa que as nações tudo farão
para preservar suas fontes de suprimento. Os combustíveis fósseis foram fatores
importantes na condução das duas guerras mundiais. A agressão japonesa no
início da Segunda Guerra Mundial foi explicada e justificada pelo fato de os
japoneses terem sido obrigados a salvaguardar suas fontes de óleo. Como a
Guerra do Golfo Pérsico em 1991 nos lembra, a importância política e militar
dos combustíveis fósseis continua em alta. Cerca de 30% de todas as importações de
óleo dos Estados Unidos vêm do golfo Pérsico. Em alguns meses, mais da metade
do óleo dos Estados Unidos é importada. O óleo constitui mais da metade de
todos os déficits da balança de pagamentos norte-americana. Os Estados Unidos
gastam mais de 1 bilhão de dólares por semana com a importação de óleo do
exterior. A conta da importação de óleo japonesa é mais ou menos igual A China
- com uma demanda crescente de automóveis - pode atingir o mesmo nível no
início do século XXI. Números semelhantes se aplicam à Europa ocidental. Os
economistas apresentam roteiros em que aumentos nos preços do óleo provocam
inflação, taxas de juros mais elevadas, menos investimentos em novas
indústrias, menos empregos e recessão econômica. Essas previsões podem não
acontecer, mas são uma conseqüência possível de sermos viciados em óleo. O óleo
força as nações a adotarem políticas que do contrario seriam consideradas
inescrupulosas ou temeraírias. Considere-se, por exemplo, o seguinte comentário
( 1 ï)90) do colunista de vários periódicos, Jack Anderson, expressando uma
opinião amplamente difundida: "Por mais impopular que seja a noção os
Estados Unidos devem continuar sendo a polícia do globo. Num nível puramente
egoísta, os norte-americanos precisam do que o mundo tem - sendo o petróleo a
necessidade preeminente". Segundo Bob Dole, na época o líder da minoria no
Senado, a Guerra do Golfo Pérsico - que pôs em risco a vida de 200 mil jovens
norte-americanos - foi empreendida "por uma única razão: P E T R Ó L E O.
No momento em que escrevo, o custo nominal do petróleo cru é de quase vinte
dólares por barril, enquanto as reservas mundiais de petróleo autenticadas ou
"comprovadas" são de quase 1 trilhão de barris. Vinte trilhões de
dólares é quatro vezes a dívida nacional dos Estados Unidos, a maior do mundo.
Ouro negro, sem dúvida. A produção global de petróleo é de cerca de 20 bilhões
de barris por ano, por isso a cada ano consumimos aproximadamente 2% das
reservas comprovadas. É de pensar que vamos esgotar as reservas muito em breve,
talvez nos próximos cinqüenta anos. Mas continuamos a encontrar novas reservas.
Predições anteriores de que ficaríamos sem petróleo em alguma data marcada têm
se revelado infundadas. Há uma quantidade finita de óleo, gás e carvão no
mundo, é verdade. Havia apenas um número finito daqueles organismos antigos que
contribuíram com seus corpos para o nosso conforto e conveniência. Mas parece
improvável que fiquemos sem combustíveis fósseis num futuro próximo. O único
problema é o seguinte: é cada vez mais dispendioso encontrar novas reservas
inexploradas: a economia mundial pode ter fibrilações, se os preços do óleo
tiverem que mudar rapidamente: e os países declaram guerra para conseguir o
material. Além disso, é claro, ha o custo ambiental. O preço que pagamos pelos
combustíveis fósseis não é medido apenas em dólares. As
"usinas satânicas" da Inglaterra nos primeiros anos da Revolução
Industrial poluíam o ar e causaram uma epidemia de doenças respiratórias. Os
nevoeiros “densos e amarelados” de Londres, tão familiares para nós nas
dramatizações de Holmes e Watson, Jekvll e Hyde. ,Iack, o Estripador e suas
vítimas, eram poluição doméstica e industrial mortífera proveniente em grande
parte da queima do carvão. Hoje, os automóveis acrescentam os seus gases de
escapamento. E nossas cidades sofrem com o nevoeiro enfumaça- do - que afeta a
saúde, a felicidade e a produtividade das próprias pessoas que geram os
poluentes. Conhecemos também a chuva ácida e a desordem ecológica causada pelos
vazamentos de óleo. Mas a opinião predominante tem sido que esses danos à saúde
e ao meio ambiente são mais do que compensados pelos benefícios que os
combustíveis fósseis proporcionam. No entanto, agora os governos e os povos da
Terra estão se tornando gradativamente conscientes de mais outra conseqüência
perigosa: da queima dos combustíveis fósseis: se queimo um pedaço de carvão, um
galão de petróleo ou trinta centímetros cúbicos de gás natural, estou
combinando o carbono no combustível fóssil com o oxigênio no ar. Essa reação
química libera uma energia trancada há talvez 200 milhões de anos. Mas ao combinar
um átomo de carbono, C com uma molécula de oxigênio, O" também sintetizo
uma molécula de dióxido de carbono, CO C + o, ~ Co, O que determina a
temperatura média da Terra, o clima planetário? A quantidade de calor liberada
pelo centro da Terra é muito pequena se comparada com a quantidade que o Sol
espalha sobre a superfície do globo. Na verdade, se o Sol fosse desligado, a
temperatura da Terra cairia tanto que o ar congelaria, e o planeta seria
coberto por uma camada de neve de nitrogênio e oxigênio de dez metros de
espessura. Bem, sabemos quanta luz solar cai sobre a Terra, aquecendo-a. Não
podemos calcular qual seria a temperatura média da superfície da Terra? E um
cálculo fácil - ensinado nos cursos elementares de astronomia e meteorologia,
outro exemplo do poder e beleza da quantificação. A quantidade de luz solar
absorvida pela Terra tem de equivaler em média à quantidade de energia
irradiada de volta para o espaço. Não pensamos comumente na Terra como um corpo
celeste que irradia para o espaço, e quando voamos sobre a Terra à noite, não a
vemos brilhar no escuro (exceto as cidades). Mas é porque estamos vendo à luz
visível comum, o tipo de luz a que nossos olhos são sensíveis. Se olhássemos
além da luz vermelha no que se chama a parte infravermelha térmica do espectro
- a vinte vezes o comprimento de onda da luz amarela, por exemplo -, veríamos a
Terra brilhando na sua própria luz infravermelha fria e estranha, mais na
região do Saara que na Antártida, mais durante o dia que à noite. Não é a luz
solar refletida pela Terra, mas o calor do próprio corpo do planeta. Quanto
mais energia recebemos do Sol, mais a Terra irradia de volta para o espaço.
Quanto mais quente a Terra, mais ela brilha no escuro. O que contribui para
aquecer a Terra depende do grau de brilho do Sol e do grau de reflexão da
Terra. (Tudo o que não for refletido de volta para o espaço é absorvido pelo
solo, as nuvens e o ar. Se a Terra fosse perfeitamente lustrosa e reflexiva, a
luz solar que incide sobre sua superfície não a aqueceria nem um pouco.) É
claro que a luz solar refletida está principalmente na parte visível do
espectro. Assim, iguale o dado de entrada (que depende de quanta luz solar a
Terra absorve) ao dado de saída (que depende da temperatura da Terra),
equilibre os dois lados da equação, e vai obter a temperatura prevista da Terra.
Uma canja! Nada mais fácil! Você calcula, e qual é a resposta? O nosso cálculo
nos diz que a temperatura média da Terra deveria ser de aproximadamente 20°C abaixo do ponto de
congelamento da água. Os oceanos deveriam ser ocos de gelo, e nós todos
deveríamos estar congelados. A Terra seria inóspita a quase todas as formas de
vida. O que há de errado com o cálculo? Será que cometemos um erro? Não
cometemos exatamente um erro no cálculo. Apenas deixamos um dado de fora: o
efeito estufa. Assumimos implicitamente que a Terra não tinha atmosfera. Embora
o ar seja transparente em comprimentos de onda visíveis comuns (exceto em
lugares como Denver e Los Angeles), é muito mais opaco na parte infravermelha
térmica do espectro, em que a Terra gosta de irradiar para o espaço. E isso faz
toda a diferença do mundo. Acontece que alguns dos gases no ar à nossa frente -
dióxido de carbono, vapor de água, alguns óxidos de nitrogênio, metano,
clorofiuorcarbonetos – são bastante absorventes no espectro infravermelho,
mesmo quando são completamente invisíveis na luz visível. Se uma camada desse
material é colocada acima da superfície da Terra, a luz solar ainda penetra até
o solo. Mas quando a superfície tenta irradiar de volta para o espaço, o
caminho é bloqueado por esse cobertor de gases absorventes no espectro
infravermelho. É transparente na luz visível, semi-opaco na infravermelha. O
resultado é que a Terra tem de aquecer um pouco para atingir o equilíbrio entre
a luz solar que recebe e a radiação infravermelha emitida. Se calcularmos o
grau de opacidade desses gases na infravermelha, a quantidade de calor do corpo
da Terra que eles interceptam, conseguiremos a resposta correta.
Descobriremos
que, em média - uma média que leva em conta as estações, a atitude e a hora do
dia -, a superfície da Terra deve estar a uns 13°C acima de zero. É
por isso que os oceanos não congelam, que o clima é adequado para a nossa
espécie e para a nossa civilização. A nossa vida depende de um equilíbrio
delicado de gases invisíveis que são componentes secundários da atmosfera da
Terra. Um pouco de efeito estufa é muito bom. Mas se acrescentamos mais
gases-estufa - como temos feito desde o início da Revolução Industrial -
absorvemos mais radiações infravermelhas. Tomamos o cobertor mais espesso aquecemos
ainda mais a Terra. Para o público e os traçadores de políticas, tudo isso pode
parecer um pouco abstrato - gases invisíveis, cobertores infravermelhos,
cálculos de físicos. Se decisões difíceis quanto a gastos monetários devem ser
tomadas, não precisamos de mais evidências de que existe realmente um efeito
estufa e de que uma quantidade exagerada desse efeito pode ser perigosa. A
natureza bondosamente nos forneceu na figura do planeta mais próximo uma
advertência. O planeta Vénus está um pouco mais próximo do Sol que a Terra, mas
suas nuvens sem brechas são tão brilhantes que o planeta, na realidade absorve
menos luz solar que a Terra. Sem considerar o efeito estufa a sua superfície
deveria ser mais fria que a da Terra. Vénus tem mais ou menos o mesmo tamanho e
massa da Terra e por tudo isso poderíamos concluir ingenuamente que tem um meio
ambiente agradável semelhante ao da Terra até apropriado para o turismo. No
entanto, se mandássemos uma nave espacial que penetrasse nas nuvens - por
sinal, compostas em grande parte de ácido sulfúrico -, como a União Soviética
fez na sua série pioneira Venera de exploração do espaço, descobriríamos uma
atmosfera extremamente densa composta em grande parte de dióxido de carbono com
uma pressão na superfície noventa vezes maior do que a da Terra. Se agora
colocássemos para fora um termômetro, como fez a nave espacial Venera
descobriríamos que a temperatura é de aproximadamente 470°C (cerca de 900F) - quente o suficiente
para derreter o estanho ou o chumbo. As temperaturas da superfície, mais
quentes que a do forno caseiro mais quente, são devidas ao efeito estufa,
causado em grande parte pela grande atmosfera de dióxido de carbono. (Há também
pequenas quantidades de vapor de água e outros gases absorventes na radiação
infravermelha.) Vénus é uma demonstração prática de que um aumento na abundância
dos gases-estufa pode ter conseqüências desagradáveis. É um bom exemplo para se
dar aos entre visitadores de programas de rádio dominados pela ideologia, que
insistem em dizer que o efeito estufa é uma "fraude". À medida que
aumenta a população da Terra e que nossos poderes tecnológicos se tomam ainda
maiores, estamos lançando na atmosfera uma quantidade cada vez maior de gases
absorventes no espectro infravermelho. Há mecanismos naturais que eliminam
esses gases do ar, mas nós os estamos produzindo num tal ritmo que superamos os
mecanismos de remoção. Entre a queima de combustíveis fósseis e a destruição das
florestas (as árvores eliminam o CO e o convertem em madeira), nós, humanos,
somos responsáveis pela introdução de cerca de 7 bilhões de toneladas de
dióxido de carbono no ar a cada ano. Na figura da página 117, pode-se ver o
aumento do dióxido de carbono na atmosfera da Terra ao longo do tempo. Os dados
são do observatório atmosférico Mauna Loa no Havaí. O Havaí não é altamente
industrializado, nem é um lugar onde grandes áreas de florestas estejam sendo
queimadas (introduzindo mais CO no ar). O aumento de dióxido de carbono ao
longo do tempo, detectado no Havaí provém de atividades sobre toda a Terra. O dióxido
de carbono é simplesmente carregado pela circulação geral da atmosfera por todo
o mundo - inclusive sobre o Havaí. Pode-se observar que a cada ano há um
aumento e uma queda de dióxido de carbono. O fenômeno é devido a árvores
decíduas que, no verão, quando cobertas de folhagem, tiram CO da atmosfera, mas
no inverno, sem folhas não cumprem essa missão. Mas superposta a essa oscilação
anual está uma tendência de aumento a longo prazo, que é totalmente inequívoca.
A relação de mistura de CO já ultrapassou 350 partes por milhão - está mais
elevada do que jamais foi durante toda a existência dos humanos sobre a Terra.
Os aumentos de clorofiuorcarbonetos têm sido mais rápidos - cerca de 5% ao ano –
por causa do crescimento mundial da indústria dos CFCS, mas estão começando a diminuir
gradualmente.* Outros gases-estufa, metano, por exemplo, estão também aumentando
graças à nossa agricultura e à nossa indústria. Bem, se sabemos o índice de aumento
dos gases-estufa na atmosfera e afirmamos compreender o que é a resultante opacidade
infravermelha, não poderíamos calcular o aumento da temperatura em décadas recentes
como conseqüência do aumento de CO e outros gases? Sim, podemos. Mas temos de ser
cuidadosos. Devemos lembrar que o Sol passa por um ciclo de onze anos, e que a quantidade
de energia por ele emitida muda um pouco durante o seu ciclo. Devemos lembrar que
os vulcões de vez em quando entram em erupção e injetam finas gotinhas de ácido
sulfúrico na atmosfera, refletindo desse modo mais luz solar de volta para o
espaço e resfriando um pouco a Terra. Como já se calculou, uma explosão de
monta pode diminuir a temperatura mundial em quase C durante alguns anos. Devemos lembrar que,
na baixa atmosfera, há uma nuvem de pequenas partículas contendo enxofre
proveniente da poluição das chaminés industriais que - por mais nociva que seja
às pessoas ao redor – também resfria a Terra, além da poeira mineral de solos
revoltos carregada pêlos ventos, que tem um efeito semelhante. Se levarmos
em
conta esses fatores e muitos mais, se fizermos o melhor trabalho de que os
climatologistas são atualmente capazes, vamos chegar à seguinte conclusão:
durante o século XX, devido à queima de combustíveis fósseis, a temperatura
média da Terra deve ter aumentado alguns décimos de l "C.
Naturalmente,
gostaríamos de comparar essa predição com os fatos. A temperatura da Terra
aumentou especialmente nessa proporção. durante o século XX? Mais uma vez temos
de ser cuidadosos. Mais uma vez. Como os CO’s esvaziam a camada de ozônio e
contribuem para o aquecimento global tem havido alguma contusão entre esses
dois resultados ambientais muito diferentes.
Devemos
usar medições de temperatura feitas longe de cidades, porque as cidades, pela
sua indústria e relativa falta de vegetação, são na realidade mais quentes do
que as áreas ao seu redor. Devemos tirar apropriadamente a média das medições
feitas em diferentes latitudes, altitudes, estações e horas do dia. Devemos
levar em conta a diferença entre as medições feitas em terra e as medições
feitas na água. Mas, feito tudo isso, os resultados parecem coerentes com a
expectativa teórica. A temperatura da Terra tem aumentado um pouco, menos que 1°C, no século XX. Há
perturbações substanciais nas curvas, ruído no sinal climático global. Os dez
anos mais quentes desde 1860 ocorreram todos na década de 1980 e no início da
década de 1990 - apesar do resfriamento da Terra pela explosão do vulcão
filipino Monte Pinatubo em 1991. Esse vulcão introduziu vinte a trinta
megatoneladas de dióxido de enxofre e aerossóis na atmosfera da Terra. Esses
materiais circularam ao redor de toda a Terra durante cerca de três meses.
Depois de apenas dois meses, tinham coberto cerca de dois quintos da superfície
da Terra. Foi a segunda erupção vulcânica mais violenta neste século (somente
menor à do monte Katmai, no Alasca, em 1912). Se os cálculos estiverem certos e
não houver maiores explosões vulcânicas no futuro próximo, a tendência de
aumento da temperatura deverá se reafirmar no final dos anos 90. É o que tem
acontecido: 1995 foi marginalmente o ano mais quente já registrado.
Outra
maneira de checar se os climatologistas sabem o que estão fazendo é pedir que
façam predições retrospectivas. A Terra passou por eras glaciais. Há maneiras
de medir como a temperatura flutuou no passado.
Eles
podem predizer (ou melhor, pós-dizer) o clima do passado?
Importantes
descobertas sobre a história do clima da Terra têm surgido nos estudos dos
núcleos de gelo cortados e extraídos das calotas glaciais da Groenlândia c da
Antártida. A tecnologia para essas perfurações vem diretamente da indústria do
petróleo: dessa maneira, os responsáveis pela extração de combustíveis fósseis
têm dado uma contribuição importante para esclarecer os perigos de usar esses
materiais. O exame físico e químico minucioso desses núcleos revela que a
temperatura da Terra e a abundância de CO na sua atmosfera aumentam e diminuem
juntos - quanto mais CO, mais quente a Terra. Os mesmos modelos computacionais
usados para compreender as tendências da temperatura global das últimas décadas
pós-dizem corretamente o clima da era glacial pelas flutuações dos gasesestufa
em épocas primitivas. (É claro que ninguém está dizendo que antes da era
glacial tenham existido civilizações que dirigiam carros ineficientes quanto ao
uso de combustível e que despejavam enormes quantidades de gases-estufa na
atmosfera. Alguma variação na quantidade de CC acontece naturalmente.)
Nos
últimos 100 mil anos, a Terra entrou e saiu de várias eras glaciais.
Há
20 mil anos, a cidade de Chicago estava sob uma milha de gelo. Hoje estamos
entre eras glaciais, no que é chamado intervalo interglacial. A diferença
típica de temperatura para o mundo inteiro entre uma era glacial e um intervalo
interglacial é de apenas 3 a
6°C
(equivalente a uma diferença de temperatura de 5 a 11°F). Isso deve fazer
soar imediatamente as campainhas de alarme: uma mudança de temperatura de
apenas alguns graus pode ser um negócio muito sério. Com essa experiência nas
costas, essa calibração de suas capacidades, os climatologistas podem agora
tentar predizer qual será o futuro clima da Terra, se continuarmos a queimar
combustíveis fósseis, se continuarmos a despejar gases-estufa na atmosfera num
ritmo frenético. Vários grupos científicos - equivalentes modernos do oráculo
de Delfos – têm empregado modelos computacionais para calcular qual deverá ser
o aumento de temperatura, se, digamos, dobrar a quantidade de dióxido de
carbono na atmosfera, o que vai acontecer (no presente ritmo de queima de
combustíveis fósseis) no final do século XXI. Os principais oráculos são o
Laboratório Geofísico de Dinâmica Fluida da Administração Nacional Oceânica e
Atmosférica (NOAA), em Princeton; O Instituto Goddard de Estudos Espaciais da
NASA, em Nova York:
o Centro Nacional para Pesquisa Atmosférica em Boulder, Colorado; o Laboratório
Nacional Lawrence Livermore do Departamento de Energia, na Califórnia; a
Universidade do Estado de Oregon; o Centro Hadley para Predição e Pesquisa
Climática, no Reino Unido; e o Instituto Max Planck de Meteorologia em Hamburgo. Todos
predizem que o aumento médio de temperatura ficará entre aproximadamente 1 e 4C. (Em Fahrenheit, é mais ou
menos o dobro disso.) É um aumento mais rápido do que qualquer mudança
climática observada desde o nascimento da civilização. Ocorrendo a previsão
mais baixa, ao menos as sociedades industriais desenvolvidas seriam 20 capazes
de se ajustar com um pouco de esforço às circunstâncias alteradas. Ocorrendo a
previsão mais alta, o mapa climático da Terra seria dramaticamente alterado, e
as conseqüências, tanto para as nações ricas como para as pobres, seriam
catastróficas. Em grande parte do planeta, temos confinado as florestas e a
vida selvagem em áreas isoladas, não contíguas. Esses organismos serão
incapazes de procurar outros lugares, quando o clima mudar. As extinções de
espécies serão muito aceleradas.
Um
considerável transplante de colheitas e pessoas se tomará necessário. Nenhum
dos grupos afirma que a duplicação do conteúdo de dióxido de carbono da
atmosfera vai resfriar a Terra. Nenhum afirma que vai aquecer a Terra em
dezenas ou centenas de graus. Temos uma oportunidade negada a muitos gregos
antigos - podemos ir a vários oráculos e comparar as profecias. Quando seguimos
esse caminho, descobrimos que todos dizem mais ou menos a mesma coisa. Na
verdade, as respostas estão de acordo com os oráculos mais antigos sobre o
assunto - inclusive Svante Arrhenius, o químico sueco ganhador do Prêmio Nobel,
que perto da virada do século fez uma predição similar usando, é claro,
conhecimentos muito menos sofisticados da absorção infravermelha do dióxido de
carbono e das propriedades da atmosfera da Terra. A física empregada por todos
esses grupos prediz corretamente a atual temperatura da Terra, bem como o
efeito estufa em outros planetas, como Vénus. É lógico que pode haver algum
erro simples que ninguém tenha percebido. Mas certamente essas profecias
concordantes merecem ser levadas muito a sério. Há outros sinais inquietadores.
Pesquisadores noruegueses anunciam uma diminuição na extensão da cobertura de
gelo ártico desde 1978. Enormes fendas na geleira Wordie, na Antártida, se
tomaram evidentes no mesmo período. Em janeiro de 1995, um pedaço de 4200
quilômetros quadrados da barreira de gelo Larsen caiu no oceano Antártico. Tem
ocorrido um notárcuo das geleiras nas montanhas em todo o mundo. Os extremos do
clima estão aumentando em muitas partes do mundo. O nível do mar continua a
subir. Nenhuma dessas tendências é, em si, uma prova convincente de que a
responsabilidade das mudanças cabe à nossa civilização e não se deve à
variabilidade atual. Mas, juntas elas são muito preocupantes. Um número
crescente de especialistas em clima concluiu recentemente que já foi detectada
a "marca" do aquecimento global provocado pelo homem. Em 1995, depois
de um estudo exaustivo, representantes dos 25 mil cientistas do Painel
Intergovemamental sobre Mudanças Climáticas concluíram que "o equilíbrio
das evidências sugere que há uma discernível influência humana no clima".
Embora
ainda não seja "sem sombra de dúvida", diz Michael MacCracken,
diretor do Programa de Pesquisa das Mudanças Globais dos Estados Unidos, a
evidência "está se tomando bastante convincente". "É improvável
que o aquecimento observado seja causado pela variabilidade natural", diz
Thomas Kari, do Centro Nacional de Dados Climáticos dos Estados Unidos.
"Há uma chance de 90 a
95% de que não estejamos enganados." No esboço seguinte, é apresentada uma
perspectiva ampla. À esquerda, a situação é a de 150 mil anos atrás; temos
machados de pedra e estamos realmente orgulhosos de ter domesticado o fogo. As
temperaturas globais variam ao longo do tempo entre profundas eras glaciais e
períodos interglaciais. A amplitude total das flutuações, da mais fria à mais
quente, é de aproximadamente 5°C
(quase 10"F). Assim, a curva segue coleando, e depois do fim da última era
glacial temos arcos e flechas, animais domesticados, a origem da agricultura, a
vida sedentária, armas metálicas, cidades, forças policiais, impostos,
crescimento exponencial da população, a Revolução Industrial e as armas
nucleares (toda essa última parte é inventada apenas na extrema direita da
curva sólida). As linhas pontilhadas mostram algumas projeções do que pode nos
acontecer por causa do aquecimento pelo efeito estufa. Essa figura deixa muito
claro que as temperaturas que temos atualmente (ou que teremos em breve, se as tendências
presentes continuarem) não são apenas as mais quentes no último século, mas as mais
quentes nos últimos 150 mil anos. Essa é outra medida da magnitude das mudanças
globais que nós, humanos, estamos gerando. bem como de sua natureza sem
precedentes. Por si só o aquecimento global não gera um clima ruim. Mas
intensifica a possibilidade de haver um clima ruim. O mau tempo certamente não
requer aquecimento global porém todos os modelos computacionais mostram que o
aquecimento global deve ser acompanhado de aumentos significativos de mau tempo
secas rigorosas no interior. sistemas de tempestades violentas e enchentes
perto das costas. tempo mais quente e mais frio em certas regiões tudo provocado
por um aumento relativamente modesto na temperatura média planetária.
É
por isso que um tempo extremamente frio em, digamos, Detroit em janeiro não é a
refutação poderosa do aquecimento global que os editoriais de alguns jornais
alegam. O mau tempo pode ser muito caro. Para dar um único exemplo, só a
indústria de seguros norteamericana sofreu uma perda líquida de uns 50 bilhões
de dólares na esteira de um único furacão (Andrew) em 1992, e essa é apenas uma
pequena fração das perdas totais de 1992. Os desastres naturais custam mais de
100 bilhões de dólares por ano aos Estados Unidos. Além disso, as mudanças no
clima afetam os animais e os micróbios que carregam as doenças. Suspeita-se que
as recentes irrupções de cólera, malária, febre amarela, dengue e a síndrome
pulmonar do hantavirus tenham todas relação com a mudança do clima. Uma
estimativa médica recente é que o aumento na área da Terra ocupada pêlos
trópicos e subtrópicos, e a resultante população florescente de mosquitos
portadores da malária, provocariam, no final do próximo século, 50 a 80 milhões de casos
adicionais de malária por ano. A menos que se faça alguma coisa. Um relatório
científico das Nações Unidas de 1996 afirma: "Se é provável que impactos adversos
para a saúde da população resultem da mudança climática, não temos a opção
usual de procurar evidências empíricas definitivas antes de agir. Uma abordagem
de esperar para ver seria imprudente na melhor das hipóteses, e um disparate no
pior dos casos". O clima predito para o próximo século depende de
estabelecermos se vamos introduzir gasesestufa na atmosfera no ritmo atual, num
ritmo acelerado ou num ritmo diminuído. Quanto mais gases-estufa, mais quente
fica.
Mesmo
supondo apenas aumentos moderados, as temperaturas vão Ter aparentemente uma
elevação significativa. Mas essas são médias globais; alguns lugares serão
muito mais frios e outros muito mais quentes. São previstas grandes áreas de
seca crescente. Muitos modelos predizem que grandes áreas mundiais de produção
de alimentos no Sul e Sudeste da Ásia, na América Latina e na África
subsaariana, vão se tomar quentes e secas. Algumas nações exportadoras de
produtos agrícolas nas latitudes médias e elevadas (os Estados Unidos o Canadá,
a Austrália por exemplo) a princípio podem ganhar com isso. Aumentando
muitíssimo as suas exportações. O impacto sobre as nações pobres será mais
severo. Neste como em muitos outros aspectos a disparidade global entre os
ricos e os pobres pode crescer dramaticamente no século XXI. 24 Milhões de
pessoas, com os filhos morrendo de fome, com muito pouco a perder representam
um problema prático e sério para os ricos - como ensina a história das
revoluções. A possibilidade de uma crise agrícola global provocada pela seca começa
a se tomar significativa perto do ano 2050. Alguns cientistas acham que a
possibilidade de um grande fracasso agrícola em todo o mundo no ano 2050 por
causa do aquecimento estufa é baixa talvez apenas 10%. Mas, é claro, quanto
mais esperarmos, maior será a possibilidade. Por algum tempo, alguns lugares -
Canadá, Sibéria – podem melhorar (se o solo for apropriado para a agricultura),
mesmo que as latitudes mais baixas piorem. Se esperarmos muito tempo, o clima
vai se deteriorar em todo o mundo. Enquanto a Terra esquenta, o nível do mar
sobe. No final do próximo século, o nível do mar terá talvez subido algumas
dezenas de centímetros e, possivelmente, um metro. Em parte, isso se deve ao
fato de que a água do mar se expande quando é aquecida, e em parte à liquefação
do gelo polar e glacial. Com o passar do tempo, o nível do mar sobe ainda mais.
Ninguém sabe quando vai acontecer, mas muitas ilhas habitadas na Polinésia,
Melanésia e no oceano Índico vão acabar sendo inteiramente submersas, segundo
as projeções, e desaparecer da face da Terra. Bastante compreensivelmente,
formou-se uma Aliança dos Estados das Pequenas Ilhas, que se opõe
militantemente contra mais aumentos nos gases-estufa. Impactos devastadores
também são preditos para Veneza, Bancoc, Alexandria, Nova Orleans, Miami, para
a cidade de Nova York e, mais em geral, para as áreas altamente povoadas dos
rios Mississippi, Yang-Tsé, Amarelo, Reno, Ródano. Pó, Nilo, Indo, Ganges,
Niger e Mekong. O nível do mar cada vez mais elevado vai deslocar dezenas de
milhões de pessoas só em Bangladesh. Haverá um novo e imenso problema de
refugiados ambientais - à medida que as populações crescem, os meios ambientes
se deterioram e os sistemas sociais se tomam cada vez mais incompetentes para
lidar com as mudanças rápidas. Aonde deveriam ir? Problemas semelhantes podem
ser previstos para a China. Se continuarmos a exercer as nossas atividades como
de costume a Terra será cada vez mais aquecida a cada ano. as secas e as
enchentes serão endêmicas; muito mais cidades, províncias e nações inteiras
ficarão submersas sob as ondas - a menos que sejam tomadas heróicas
contramedidas de engenharia em todo o mundo. A longo prazo, podem ocorrer
conseqüências ainda mais terríveis, inclusive o colapso da geleira na região
oeste da Antártida, o seu rolar para dentro do mar um aumento global
significativo no nível do mar e a inundação de quase todas as cidades costeiras
no planeta. Os modelos do aquecimento global mostram efeitos diferentes -
mudanças na temperatura, secas, mau tempo e a elevação do nível do mar, por
exemplo - tomando-se visíveis em diferentes escalas de tempo, desde décadas a
um ou dois séculos. Essas conseqüências parecem tão desagradáveis e sua
correção tão dispendiosa que naturalmente se tem feito um sério esforço para
descobrir alguma coisa de errado na história. Alguns dos esforços são motivados
por nada mais que o ceticismo científico padrão a respeito de todas as novas
idéias; outros são motivados pelo lucro nas indústrias afetadas. Uma
questão-chave é a realimentação. Há realimentações positivas e negativas no
sistema climático global. As realimentações positivas são do tipo perigoso. Eis
um exemplo de realimentação positiva: a temperatura aumenta um pouquinho por
causa do efeito estufa, e assim um pouco do gelo polar se derrete. Mas o gelo
polar é brilhante, comparado ao mar aberto. Como resultado de sua liquefação, a
Terra é agora um pouquinho mais escura; e como a Terra é mais escura, ela agora
absorve um pouco mais de luz solar, por isso ela aquece mais e derrete um pouco
mais do gelo polar, e o processo continua - talvez até se tomar incontrolável.
Essa é uma realimentação positiva. Outra realimentação positiva: um pouco mais
de CO no ar aquece um pouquinho a superfície da Terra inclusive os oceanos. Os
oceanos, então mais quentes, borrifam um pouco mais de vapor de água na
atmosfera. O vapor de água também é um gás-estufa, por isso provoca mais calor
e a temperatura se eleva.
Depois,
há as realimentações negativas. Elas são homeostáticas. Um exemplo: aquecesse a
Terra um pouquinho introduzindo mais dióxido de carbono por exemplo na
atmosfera. Como antes isso injeta mais vapor de água na atmosfera, mas gera
mais nuvens. As nuvens são brilhantes: elas refletem mais luz solar para o
espaço portanto resta menos luz solar para aquecer a Terra. O aumento na
temperatura acaba por causar um declínio na temperatura. Outra possibilidade:
coloca-se um pouco mais de dióxido de carbono na atmosfera. As plantas
geralmente gostam mais de dióxido de carbono, por isso 126 crescem mais rápido,
e, ao crescerem mais rápido, tiram mais dióxido de carbono do ar - o que, por
sua vez, reduz o efeito estufa. As realimentações negativas são como
termostatos no clima global. Se, por um acaso feliz, elas fossem muito
poderosas, o aquecimento pêlos gases-estufa seria talvez capaz de se
autocontrolar, e poderíamos nos dar ao luxo de imitar os ouvintes de Cassandra
sem partilhar o seu destino. A questão é: equilibrando todas as realimentações
positivas e negativas, a que conclusão chegaríamos? A resposta é: ninguém tem
certeza absoluta. As tentativas retrospectivas de calcular o aquecimento e o
resfriamento global durante as eras glaciais pelo aumento e declínio da
quantidade de gases-estufa fornecem a resposta correta. Em outras palavras,
calibrar os modelos computacionais forçando a concordância com os dados
históricos vai explicar automaticamente todos os mecanismos de realimentação,
conhecidos e desconhecidos, na máquina climática natural. Mas é possível que,
se a Terra for submetida a regimes climáticos desconhecidos nos últimos 200 mi anos, venham a
ocorrer novas realimentações das quais não temos conhecimento. Por exemplo,
grande parte do metano é isolado em pântanos (o que às vezes produz o fenômenos
das luzes dançarinas estranhamente belas chamado "fogo-fátuo"). O gás
pode começar a formar bolhas em ritmo crescente, à medida que a Terra aquece. O
metano adicional aquece ainda mais a Terra, e assim por diante, outra
realimentação positiva. Wallace Broecker, da Universidade de Columbia, aponta o
aquecimento muito rápido que aconteceu por volta de 10000 a.C., pouco antes da
invenção da agricultura. A seu ver, a elevação da curva é tão abrupta que
implica uma instabilidade no sistema acoplado oceanoatmosfera; e que, se
forçamos demais o clima da Terra numa ou noutra direção, cruzamos um limiar, há
uma espécie de "bang", e todo o sistema sai fora de controle até
atingir outro estado estável. Ele propõe que podemos estar oscilando numa
dessas instabilidades no momento atual. Essa consideração só toma pior a
situação talvez muito pior. De qualquer modo, não resta dúvida de que quanto
mais rápida a mudança climática, mais difícil é para os sistemas homeostáticos
existentes acompanharem o ritmo e estabilizarem. Eu me pergunto se não é mais
provável que observemos as realimentações tranqüilizadoras e deixemos de
perceber as desagradáveis. Não somos bastante inteligentes para predizer tudo.
Disso não há dúvida. Acho improvável que sejamos sábios por tudo o que somos
demasiado ignorantes para imaginar. Talvez sejamos salvos. Mas estaríamos
dispostos a apostar nossa vida nisso? O vigor e a importância das questões
ambientais se refletem nos encontros das sociedades científicas profissionais.
Por exemplo a Associação Geofísica Americana é a maior organização d
profissionais das geociências no mundo. Num recente encontro anual (1993).
houve uma sessão sobre episódios de aquecimento anteriores na história da Terra
com o intuito de compreender quais seriam as conseqüências do aquecimento
global. O primeiro trabalho alertava que. "como as tendências de
aquecimento futuro serão muito rápidas não há dados exatos análogos a um
aquecimento estufa no século XI". Houve quatro sessões de meio turno
dedicadas à diminuição da camada de ozônio. e três sessões sobre a realimentação
nuvem/clima. Três sessões adicionais foram dedicadas a estudos mais gerais dos
climas no passado. J. D. Mahiman. da NASA, começou a sua palestra observando:
"A descoberta das extraordinárias perdas de ozônio na Antártida na década
de 80 foi uma ocorrência que ninguém previu". Um trabalho do Centro de
Pesquisa Polar Byrd. Da Universidade do Estado de Ohio apresentou evidências
colhidas em núcleos de gelo extraídos das geleiras no oeste da China e no Peru
de um aquecimento recente da Terra em comparação as temperaturas dos últimos
quinhentos anos. Considerando como é contenciosa a comunidade científica é
notável que não tenha sido apresentado nem um único trabalho afirmando que a
diminuição da camada de ozônio ou o aquecimento "global são armadilhas e equívocos
ou que sempre houve um buraco na camada de ozônio sobre a Antártida. ou que o
aquecimento global será consideravelmente menor do que os estimados 1 a 4"C para o dobro de
dióxido de carbono na atmosfera. São muito alias as recompensas para quem descobrir
que não há diminuição da camada de ozônio ou que o aquecimento global é
insignificante. Há muitas indústrias e indivíduos poderosos e ricos que se
beneficiariam se essas alegações fossem verdadeiras. Mas, como indicam os
programas dos encontros científicos essa é provavelmente uma esperança vã. A
nossa civilização técnica propõe um problema real para si mesma. Por toda parte
os combustíveis fósseis mundiais estão degradando simultaneamente a saúde
respiratória da vida nas florestas, as linhas da costa, os oceanos e o clima
mundial. Ninguém pretendia causar danos certamente. Os capitães da indústria
dos combustíveis fósseis estavam simplesmente tentando conseguir o máximo de
lucro para si mesmos e seus acionistas e oferecer um produto que todos queriam
e dar o seu apoio ao poder econômico e militar das nações que por acaso estavam
implicadas no processo. O lato de que o dano foi involuntário, as intenções
eram boas. a maioria das pessoas no mundo desenvolvido se beneficiou da nossa
civilização movida a combustíveis fósseis, muitas nações e gerações
contribuíram para o problema - tudo sugere que não é hora de apontar o culpado.
Nenhuma nação, geração ou indústria sozinha nos meteu nessa encrenca e nenhuma
nação, geração ou indústria vai sozinha nos livrar do apuro. Se quisermos
evitar que esse problema climático tenha as piores conseqüências, devemos
simplesmente trabalhar juntos e por um longo período. O principal obstáculo é
certamente a inércia a resistência à mudança - o imenso estabilishiment industrial econômico e político inter-relacionado
em todo o mundo dependente dos combustíveis fósseis quando estes é que são o
problema. Nos Estados Unidos, ã medida que crescem as evidências da seriedade
do aquecimento global, a vontade política de fazer alguma coisa a respeito
parece estar se atrofiando.
(Fonte: SAGAN, Carl. Bilhões e bilhões: na virada do
milênio. São Paulo: Schwarcz, 1997. Disponível em:
<http://www.4shared.com/get/33010230/fb543116/Carl_Sagan-_Bilhes_e_Bilhes.html>.
Acesso em: 23 maio 2009.).