DE BICICLETA ATÉ MARROCOS

DIÁRIO DE UMA VIAGEM de loucos 

 

POR CARLOS NETO DE CARVALHO E SÉRGIO SALTÃO

 

Em Marrocos…

Quanto mais pedalas, mais te dói…mas se páras morres!

(célebre frase proferida por Sérgio Saltão no decurso desta viagem)

 

Quanto mais malucos somos, mais longe vamos...

 Sérgio Saltão

OS PREPARATIVOS

MARROCOS

«Porta de acesso ao Norte de África, este moderno reino é herdeiro do fabuloso reino mouro»

     Estrategicamente situado na entrada ocidental do mar Mediterrâneo, Marrocos está a um passo da Europa, mas a sua atmosfera é inconfundivelmente oriental, importante pólo de turismo europeu.

   Presentemente, Marrocos é um dos três reinos ainda existentes em África, sendo no entanto firmemente pró- ocidental. Contudo, as suas pretensões sobre o Sara Ocidental, território vizinho escassamente povoado, arrastaram Marrocos para uma guerra prolongada e dispendiosa.

    Com uma área aproximada de 458000 km2, Marrocos possui uma costa Atlântica de 1400 km e um litoral Mediterrânico de apenas 400 km. O território marroquino apresenta nítidos contrastes: montanhas escarpadas, cujos cumes se cobrem de neve no inverno; a inclemente aridez do Sara, e as zonas litorais, verdejantes e cultivadas. O país é atravessado, de sudoeste para nordeste, pela cadeia do Atlas, que se prolonga pela Argélia. Para norte das montanhas, estendem-se férteis planícies ao longo da costa Atlântica; para sul, impera o deserto, com os seus oásis dispersos.

    No norte,as montanhas do Rif, verdejantes, de contornos suaves e bem irrigadas, erguem-se a 2456 m e estão separadas do Médio Atlas pelo desfiladeiro de Taza, parcialmente coberto por pinheiros, azinheiras e cedros. Mais a sul, em Toubkal, o Alto Atlas atinge 4167 m. No sudoeste, o Antiatlas forma uma bordadura elevada no limite do planalto do Sara.

    No norte, o clima é aprazivelmente mediterrânico, com verões quentes e secos e invernos húmidos e amenos. As temperaturas médias em Tânger variam entre 11ºC no inverno e 29ªC no verão; em Marrakech, os invernos são mais amenos e os verões ainda  mais quentes. A corrente fria das Canárias tempera o clima da costa Atlântica; em Essaouira, por exemplo, as temperaturas médias variam entre 14 e 20ªC.

    A vegetação natural varia desde os arbustos mediterrânicos no norte às florestas que revestem a cadeia do Atlas; cerca de 12% do território são cobertos de floresta. Nas vertentes meridionais do Atlas, mais secas, a escassa vegetação acaba por dar lugar ao deserto.

    Vivem em Marrocos 25 milhões de pessoas, a maior parte dos quais de ascendência mista. Os Berberes descedem dos primitivos habitantes da região. A língua oficial é o Árabe, falado pela maior parte da população, com excepção dos Berberes, cuja antiga língua ainda predomina nas montanhas centrais.

    Marrocos é ainda um país predominantemente agrícola: mais de metade da população vive do cultivo da terra. Nas montanhas criam-se grandes rebanhos de gado ovino e caprino. Apesar de tudo, profundas diferenças separam os níveis de vida da população e existe muita pobreza. A maioria dos agricultores possui apenas uma pequena parcela de terra do qual extrai o sustento para si e para  os seus familiares.

    O turismo é uma importante fonte de rendimentos para o país.

    Ceuta e Melilha são ainda hoje espanholas.

    O rei Hassam, apesar de existir parlamento, é um monarca absoluto. Em 1975, o rei Hassam organizou uma pacífica «marcha verde» na qual se incorporaram 350000 marroquinos desarmados que penetraram no Sara Espanhol (actual Sara Ocidental), rico em minerais. Os Sarauís constituíram um movimento a favor da autodeterminação, a frente Polisário, e lançaram-se numa guerra de guerrilha contra Marrocos e Mauritânia, também potência invasora. Em 1979, este último país desistiu das suas pretensões. O rei Hassan II é um desportista fanático.

    Marrocos debate-se com graves problemas sociais, como o rápido crescimento demográfico- na verdade, quase 50% da população tem idade inferior a 15 anos. O índice de alfabetização dos adultos é inferior a 30%. Os cuidados de saúde são insuficientes e existem relativamente poucos médicos.

Marrocos de relance:

Superfície: 458730 km2

População:26500000

Capital: Rabat

Governo: Monarquia constitucional

Moeda: Dirham= 100 cêntimos= 18$00; notas de 200, 100, 50 e 10 dirhams, e moedas de 50, 20, 10 e 5 cêntimos

Línguas: Árabe (oficial), berbere, francês, espanhol

Religiões: Islâmica 99%; cristã 1%

Clima: Temperado no litoral, quente no interior.

As temperaturas médias em Rabat variam de 8-17ºC em Janeiro a 18-28ºC em Agosto

Produções: cereais, produtos hortícolas, pecuária, madeira, peixe, fosfatos, ferro, chumbo, manganês

Actividades económicas: Agricultura, indústrias alimentares, têxteis, artigos de couro, cimentos, vinhos, fertilizantes, silvicultura, pesca e indústrias extractivas

 

Locais a conhecer:

CADEIA DO ATLAS: Sistema montanhoso que se orienta da costa atlântica de Marrocos para nordeste, numa extensão de cerca de 2250 km, até ao norte da Tunísia. Consiste em vários alinhamentos de relevos grosseiramente paralelos. Em Marrocos, estes constituem (de sul para norte) o Antiatlas, o Alto Atlas e o Médio Atlas. O pico mais elevado do Norte de África- Djebel Toubkal ( 4167 m)- ergue-se no Alto Atlas, em Marrocos.

CADEIA DO RIF: Cordilheira costeira do NE do país que se estende por 320 km desde de Ceuta a Melilha, separada das montanhas do Atlas Médio pelo desfiladeiro de Taza. A zona muito desgastada pela erosão,com vales profundos e picos escarpados,é de díficil acesso e tem servido de refúgio às tribos Berberes; o ponto mais elevado é Thidirhine (2456 m).

 

ROTEIRO PREVISTO DA VIAGEM

1º Dia: extensão - 169km

Amadora-Lisboa- Almada- Setúbal- Torroal- Grândola- Ferreira do Alentejo- Beja (Parque de campismo).

Observações: Percurso muito extenso para o primeiro dia, muito rápido devido ao excelente piso em asfalto numa região algo plana. Inicia a cerca de 100- 200 m com a descida ao rio Tejo, com passagem de barco para Almada. Segue-se a travessia da planície de Setúbal , passando pelos contrafortes da serra da Arrábida, onde é atingida a maior altitude desta etapa (pouco mais de 300m), onde se chega à cidade.

Por ferrie passa-se o rio Sado para Tróia, a que se segue por extensa recta, passando por Torroal até Grândola, e muito depois Ferreira do Alentejo. Daqui se irá subir muito suavemente até Beja, onde termina a etapa, a cerca de 250m de altitude.

2º Dia: extensão - 139 km

Beja- Serpa- Rosal de la Frontera- Sta. Bárbara- Cabezas Rubias- Calañas- Valverde del Camino.

Observações: Percurso muito rápido, em plena planície Alentejana, passando por Serpa até à fronteira, próximo Vila Verde de Ficalho, situada nos contrafortes da Serra da Adiça, a cerca de 300 m. O percurso mantém-se regular,  passando Sta. Bárbara, Cabezas Rubias e Calañas, exceptuando a passagem de uns poucos rios, terminando em Valverde del Camino, a 273 m de altitude.

3º Dia: extensão - 155 km

Valverde del Camino- La Palma del Condado- Sevilla- Dos Hermanas- Los Palacios y Villafranca- Las Cabezas de S. Juan- Embalse de Bornos ( Barragem).

Observações: A etapa desenvolve-se em plena planície Andaluza até Sevilha, atingindo o grande vale do Guadalquivir. Visita ao maior edifício gótico do mundo, situado na cidade velha, a catedral começada em 1402. Uma estrada ondulante leva até à barragem de Bornos, a cerca de 300 m de altitude.

4º Dia: extensão - 125 km

Embalse de Bornos- Arcos de la Frontera- Paterna de Rivera- Alcalá los Gazules- Los Barrios- Algeciras.

Observações: Grande parte da etapa é novamente feita em precurso mais ou menos plano, até Alcalá los Gazules, onde a partir daqui se sobe para as montanhas do parque natural de los Alcornocales, com cerca de 700 metros de altitude, passando por algumas barragens. A partir de Los Barrios existe uma rápida descida para Algeciras, junto ao mar. Passagem por ferrie para Ceuta, pelo estreito de Gibraltar, com 30 km de largo, onde serão tratadas todas as formalidades para a entrada em MARROCOS; a travessia é assegurada diáriamente, com duração de 1h30 m. Bilhetes na agência Transmediterranea, Recinto do porto. Possui parque de campismo.

5º Dia: extensão - 97 km

Ceuta-Monte Hacho-Ksar-es-Seghir-Cabo Malabata-Tânger- Cabo Spartel-Grutas de Hércules.

Observações: Percurso ondulado percorrido entre a costa e as colinas próximas.

   O porto de Ceuta ( 80 000 hab.), ocupa face a Gibraltar uma posição excepcional. A cidade, situada num lugar espectacular, estende os seus imóveis de aspecto europeu sobre o istmo muito estreito que liga o Monte Hacho ao continente. O Monte Hacho, com 124 m é coroado por uma cidadela, El Desnarigado, é rodeado por estrada que oferece belos panoramas. Na ponta E um fortim Português. A ermida de Sto. António, do séc. XVI, com vista magnífica. Igreja de Nossa Senhora de África, alargada no séc. XVII, catedral, séc.XVIII, e o monumental edifício da Câmara, todos situados na Plaza de África; antigo forte Português, no centro da cidade, com o fosso de S. Felipe, que corta o istmo, tornando Ceuta uma ilha. Mais para E uma série de baías isoladas culminam em Ksar-es-Seghir, onde uma fortaleza portuguesa, do séc. XVI, em ruínas, está a ficar soterrado nas dunas. Cabo Malabata, a 12 km de Tânger, com belo panorama sobre a cidade, o estreito, o oceano e as costas de Espanha. É uma área de praias. Tanger: cidade de África mais próxima da Europa. Cidade em anfiteatro situada numa baía admirável, antiquíssima. Um clima ameno, uma grande e bela praia, ladeada de restaurantes de peixe e bares de tapas, e farta vegetação envolvente, e um importante equipamento hoteleiro fazem desta, uma cidade muito frequentada. O centro de Tânger é o mercado muito concorrido do Grande Socco, animado e pitoresco, é uma rua cheia de mulheres do campo a vender os seus produtos, e possui cafés baratos, situado junto à cidade antiga,dominada pela sua Kasbah (cidadela) com as monumentais portas Bab er Raha e Bab el Aissa, onde fica o Dar al Makhzen (palácio do sultão). Na cidade antiga ergue-se ainda a Grande Mesquita, do séc. XVII. Jardins do tribunal de Sadad; junto da entrada, à direita, uma bela árvore, velha de oito séculos, dizem. Ao fundo deste parque, uma bela colecção de canhões de bronze, portugueses e espanhóis, do séc. XVII e XVIII. A praça do Kasbah, onde, à esquerda uma plataforma oferece belo panorama sobre o oceano, as costas marroquina e espanhola. Borj el Marsa, o fortim do porto está transformado num belo miradouro. Mesquita Sidi Bouabid, revestida de riquíssimos azulejos, com um elegante minarete. À beira-mar encontra-se uma série de divertidos e mal afamados bares de petiscos e grelhados de peixe, e que vendem sandes durante todo o dia (parque de campismo alternativo).

    Entre o cabo Malabata e o cabo Spartel, numa extensão de 22 km, alinham-se praias e baías rochosas de onde se avista Espanha.População:267000. ( existe mapa). Cabo Spartel, o extremo NW do continente Africano oferece belos panoramas. A costa é muito escarpada, pejada de escolhos, e com praias de areia fina. Grutas de Hércules, curiosas cavidades na falésia, umas naturais, outras feitas pelo Homem no calcário duro, para o fabrico de mós.

    A 500 m das grutas de Hércules descer até junto da praia, onde se situam as ruínas da cidade de Cotta, de origem Cartaginesa, e mais tarde Romana. Observam-se os restos de um pequeno templo e das termas. Uma série de covas profundas indicam uma antiga fábrica de “garum”.  Procurar parque de campismo, com o mesmo nome.

6º Dia: extensão - 82 km

Grutas de Hércules- Asilah- Lixus- Larache

Observações: Percurso plano e rápido em estrada principal, sempre próximo do litoral.

   Asilah: 18 781 habitantes. Moussem em Agosto. Asilah é uma cidade sossegada, com um bairro antigo caiado de branco, circundado de muralhas portuguesas do séc. XVI e uma bela praia que se estende para Norte. Grande praia com enormes angras negras; muralhas junto ao mar, construídas pelos Portugueses no séc. XV, com a Porta da Terra, a Porta do Mar, junto da torre El Kamra; avenida Hassan II acolhe o mercado à Qunta- feira (existe mapa da cidade). Torre vermelha do kasbah. Palácio de Raisuli, ex-libris da cidade. Túmulo, cais e cemitério de Sidi Mansour. Lixus é uma cidade romana em ruínas, situada no topo de uma colina que domina a margem direita do rio Loukos. Foi ocupado a partir do Neolítico, até ao séc. VII (existe mapa). Existe um guia residente.

    O bairro industrial estende-se ao longo da actual estrada de Tânger, junto dos restos do porto no rio Loukos. Era a mais importante industria de salga romana de Marrocos; subindo ao topo da colina por estreito caminho encontramos o teatro romano, único em Marrocos, um mosaico do deus Oceano, junto da arena, a acrópole e os restos das termas, o grande templo, de onde se observa belo panorama, e os restos de uma igreja datada dos primeiros séculos da era cristã. Larache: 63 893 hab. Situada na embocadura do rio Loukos, com extensa área de lezíria e aluvionar, Porto de pesca, a 70 km a SW de Tânger. Tem um forte do séc. XVII, chamado Forte das Cegonhas, devido aos ninhos que estas aves fazem nas suas torres. Situa- se num avançado rochoso, dominando o mar. Visitar a Médina e o Zoco de la Alcaiceria (souk). Ao fundo deste a porta do Kasbah, antiga. Muralhas da cidade em ruínas, dominadas por um minarete antigo. Procurar parque de campismo.

7º Dia: extensão - 135 km

Larache- Kénitra- Mehdiya

Observações: Percurso mais ou menos plano, muito extenso.

   Uma lagoa salgada visitada por flamingos, o Lago de Merdja Zerga, onde se podem ver muitas espécies de aves.  Mehdiya fica situada a 7 km da moderna cidade de Kénitra ( na estrada para Mehdiya plage, a cerca de 5 km virar à esquerda. Fica situada na embocadura do rio Sebou esta antiquíssima cidade em ruínas, de fundação cartaginesa e ocupação romana. Kasbah em ruínas, com porta robusta. Ruínas do souk. Mesquita muito arruinada. No bastião NW um alinhamento de velhos canhões. Daí oferece belo panorama sobre o estuário do Sebou (existe guarda). Próximo existe praia extensa e larga. Próximo fica o lago de Sidi Bourhaba, maravilhosa reserva de terrenos pantanosos, com nidificação de numerosas espécies de aves, algumas ameaçadas. Procurar parque de campismo.

8º Dia: extensão - 40 km

Kénitra-jardins exóticos-Salé-Rabat                                                                                                                                               

    A 13 km de Rabat encontramos os espectaculares jardins exóticos de Rabat-Salé, numa estreita faixa arenosa da costa.. Este possui dois precursos alternativos, devendo- se seguir o da flecha de fundo branco, que segue um precurso acidentado que deixa vislumbrar cerca de 1500 espécies e variedades de plantas exóticas ornamentais originárias de várias regiões tropicais do mundo, através de pontes e estranhas construções em mau estado ( aberto das 9 às 18h30m). SALÉ: Porto atlântico e subúrbio de Rabat, à qual é ligado por ponte e carreiras de ferries que cruzam o rio Bou Regreg. Tem uma mesquita do séc. XII. Na rua da grande Mesquita existe um bairro burguês, onde se pode observar casas com portais Renascença. Faculdade alcorânica fundada em 1341, com magnífico portal, uma porta monumental (Bab Mrisa), do séc. XIII,em tempos uma porta marítima, o pitoresco souk el Ghezel e muitos exemplares de arquitectura dos sécs.XIII e XIV. Marabout de Sidi Abdallah ben Hassoun, elegante mausoléu construído no séc. XIX. Cemitério muçulmano, muito vasto, que separa a cidade do oceano, é um espectáculo curioso com as suas inúmeras estelas, das quais algumas são pintadas de cores vivas. Marabout de Sidi ben Achir, com uma cúpula branca. Fortim NW, com alinhamento de velhos canhões de bronze, ingleses e espanhóis; termina com uma torre, do cimo da qual o panorama é magnífico sobre o oceano, o estuário do Bou Regreg, as cidades de Rbat e Salé. População:290000. (existe mapa).

RABAT: Capital à beira do Atlântico, junto da foz do rio Bou

    Regreg. Mais turbulenta que Casablanca, mais prestigiada que Fès, mais violenta que Marrakech. A cidade antiga está rodeada por ameias do séc.XII e possui muitos bazares onde se vende larga gama de artesanato. Porta monumental de Oudaias, construída no mesmo século, considerada uma obra prima da arte islâmica. Dali próximo existe um belo panorama sobre o Bou Regreg, e sobre o grande cemitério muçulmano que desce a colina da cidade em direcção ao mar. Kasbah dos Oudaias: rua Souika, artéria principal da Médina, muito animada- souk de Sebat. Rua dos Cônsules, com o souk de Ghezel. À esquerda da praça do souk, o museu etnográfico de Oudaias, com porta de acesso na muralha, decorada com dois canhões. Edifício dominado por uma torre maciça, construído no final do séc.XVII. Jardim de Oudaias, fortificado. No muro E, uma porta dá acesso ao terraço de um café mouro que domina o Bou Regreg; saboreia-se aqui o chá de menta, com uma vista muito bela sobre Salé. Existem belas praias nas proximidades. Do kasbah à Avenida Hassan II, passa- se pela mesquita Moulay el Mekki, com elegante minarete octogonal. Passa-se depois pela Bab er Rouch, séc.XII, muito interessante. Palácio do Rei, rodeado de muralhas, com grande porta monumental, residência actual do rei Hassan II ( possível visita ao exterior); mesquita Ahl Fas onde o rei vai em grande cortejo, todas as 6ªs feiras, das 12:30 às 13:00. Ruínas da Mesquita Hassan e do mausoléu Mohammed V, dela resta um cemitério de colunas e um minarete inacabado, daquilo que era para ser a maior mesquita do Ocidente, construída no séc. XII. Cobre uma área de 2,5 ha as 400 colunas e as 14 portas; no centro, a torre Hassan, com 44 m de altura. Mausoléu de Mohammed V, em estilo tradicional. Fora das muralhas fica Chellah, cemitério Árabe do séc.XIV, possui um isolamento Maria, Jawhara Plage, km 30 da estrada de Casa, a 15 km de Témara, com excelente praia ( Campismo em Salé Camping Sun Dance Village).

9º Dia: extensão - 107 km

Rabat- Mohammedia- Casablanca

Observações: Percurso plano, sempre junto à costa e às numerosas praias, o último dia ao abrigo do “ameno” clima da costa Atlântica.

   MOHAMEDIA: Porto e estância de veraneio a 25 km N de Casablanca. Pequena cidade antiga que se aninha atrás das muralhas baixas de um forte português do séc. XVI. Foi uma posição portuguesa, e ainda restam alguns edifícios dessa época no bairro antigo, o kasbah de Fédala. O seu porto fica numa bela baía, protegida a W por dois ilhéus rochosos, hoje com ligação a terra; População: 105000. Cidade moderna e a mais europeia de Marrocos, Casablanca é a 4º maior cidade de África, com cerca de 3 500 000 hab. (existe mapa da cidade). O centro de artesanato, na Av. de Bordéus (objectos em couro, cerâmica, tapetes, bordados e madeira). Medina nova com mercado fervilhante. Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, moderna, vale a pena visitar (excepto Domingo). A Cornija, a 15 km, junto ao mar, no lado W da cidade: seguir pela Av. dos Almóadas, passando pelas praias e por um bastião armado com velhos canhões, até à mesquita Hassan II- a segunda maior mesquita do mundo. Encastrada no eixo da fachada sul, o minarete, equipado com um raio laser queatinge 30 km, indicando Meca, culmina a 200 m acima do mar. Procurar parque de campismo Oasis.

10º Dia: extensão - 75 km

Casablanca-Âin Diab- Berrechid- Settat

Observações: Seguindo a estrada da mesquita, junto ao mar, e a poucos km, situa-se a estância balnear de Ain- Diab, próxima de uma ponta de onde se observa bela vista sobre o oceano e a costa, com praia de 3 km. Aqui próximo fica o marabout muito frequentado de Sidi-Abd-er-Rahmane, muito venerado, assente num pitoresco rochedo acessível apenas na maré baixa. Regressar à estrada S 114. A partir daqui o percurso torna-se monótono, muito rápido, sobre boas estradas até Berrechid, e depois ascendendo ligeiramente até Settat, com 361 m de altitude. Procurar um espaço na mata junto da cidade bem discreto para acampar.

11º Dia: extensão - 99 km

Settat-Mechra Benâbbou-Skhour Rehamma- Ben Guerir

Observações: A estrada torna-se mais montanhosa. Em Mechra-Benâbbou passa-se sobre a Albufeira de Oum, ascendendo depois para Skhour Rehamma, a 500 m de altitude. Sempre ondulante o percurso termina em Ben Guerir, uma zona de exploração de fosfatos, onde ter-se-à de buscar abrigo atrás de alguma colina para se puder acampar.

12º Dia: extensão - 72 km

Ben Guerir-Sidi Bou Othmane- Marrakesh

Observações: O percurso é feito por estrada principal, subindo sempre ligeiramente até cerca dos 700 m de altitude, pouco antes de chegar a Marrakech, para o qual se desce.

    MARRAKECH: Situada a 453 m de altitude. Cidade imperial e capital do Sul, é rodeada por um vasto oásis de palmeiras, o mais septentrional de Marrocos, e fica num importante entroncamento no sopé do Alto Atlas, num pano de fundo semelhante aos Himalaias, 220 km S de Casablanca (existe mapa).  A cidade é o ponto de encontro das culturas Berbere, africana e árabe, numa fascinante mescla de cores, sons e actividades, aqui se confunde o medieval com o que há de moderno; é um enorme centro de artesanato, e o destino preferido pelos visitantes. Os souks que se espalham pela Médina possuem vendedores que vêem de todos os cantos do Sul do país.Possui um vastíssimo Kasbah. A Praça de Djemaa el Fna fervilha de animação: encantadores de serpentes, acrobatas, contadores de histórias. Nos bazares, artífices fabricam artesanato. Existem vendedores de laranjas e do seu sumo, de especiarias, de frutos, de nozes, de ervas raras, de amuletos, de água…; ao entardecer a confusão ainda aumenta mais; para comer à noite, bolo de batata, couscous e espetadas. Avultam as muralhas da cidade, do séc. XII, com as suas 9 portas, 19 km de perímetro e 202 torreões, com tons rosados fortes; o minarete da Mesquita Koutoubia, de 70 m de altura, séc.XII; porta Bab Aguenaou, contemporâneo da Koutoubia, vizinha da porta Bab er Rob. A primeira é um belo exemplo da porta monumental álmoada; o Mausoléu do Soberano e a universidade religiosa de Ben Youssef, a maior do Maghreb, do séc.XVI; mesquita El-Mansour, séc. XII, com um minarete muito grande. À direita da mesquita, uma rua estreita conduz à entrada dos túmulos Sádidas, pequeno cemitério com  esplêndidos mausoléus, onde repousam os membros desta dinastia, construídos no séc.XVI (9-11:45 e 14:30-17:45;10DH); El Badia foi edificada no final do séc. XVI, encontrando-se em ruínas. No interior deste palácio existe hoje um laranjal; Parque Ménara ( a cerca de 2 km para W de Bab Jdid), enorme reservatório de água do séc. XII ( aberto todos od dias atá ao pôr-do-sol, e ainda muito, muito mais para ver da cidade mais pitoresca e procurada de Marrocos… População: 440000. Procurar parque de campismo Municipal (Av. De France).

13º Dia: extensão - 64 km

Marrakesh- Tahanaoute- Gorges- Asni-Imlil

Observações: Dia marcado pela lenta ascenção aos contrafortes do Jbel Toubkal.

    Quase a 1000 m de altitude situa-se Tahanaoute, típica vila berbere, no flanco do vale do Reraia, à entrada de um desfiladeiro ( mercado à terça-feira).A cerca de 5 km de Asni a estrada entra na montanha estreitando-se, bordejada por pinheiros, em pleno desfiladeiro de Moulay-Brahim, abrupto e selvagem, cavado pelo rio Reraia. Por aqui se chega a Asni. A 1150 m de altitude, com 12308 hab., ocupa um lugar muito belo, nas proximidades de J. Toubkal, que fecha o vale a sul, vale constituído pela junção de dois rios, e aproveitado para olivais; pitoresca vila berbere, situada junto a um Kasbah vermelho. Mercado ao sábado. Subida por estrada alcatroada cerca de 10 km, e depois mais 7 km por estrada de terra até Imlil, a 1740 m, onde finaliza. A aldeia de Imlil é o centro de montanhismo do circundante Parque Nacional Toubkal. Existe parque de campismo.

14º Dia: extensão - 15 km

Imlil-Aremd-Neltner-J. Toubkal

Observações: Terrível ascenção ao Jbel Toubkal, com 4167 m de altitude, o ponto mais elevado de África do Norte, constituído por rochas graníticas, sem vegetação. Pode subsistir alguma neve. A rudeza das grandes muralhas é impressionante.. A paisagem cultivada pelo Homem, torna-se agora mais selvagem. A partir daqui a escalada demora cerca de 11 horas. Até ao circo deAremd é uma hora por caminho, e mais 5 horas até ao abrigo de Neltner, a 3 207 m , onde, se as coisas já eram terríveis, tornam-se a partir daqui um pesadelo, pois é a partir daqui que começa aascenção própriamente dita. O caminho leva ao alto vale do Ait- Mizane e passa junto do marabout de Sidi- Chamharouch. São mais 5 longas horas até ao cume, donde se avista um imenso e incomensurável panorama sobre os cumes do Alto Atlas. Procurar refúgio para montar acampamento.

15º Dia: extensão- +- 70 km

J. Toubkal- Tizi n`Ouanbuns- Imlil- Mezguemnat- Tiourar- Sour- Agouim.

Observações: Precurso muito díficil mas extremamente radical, em plena cumeada do Alto Atlas, sempre em declive descendente. Do cume da montanha desce para o lago de Ifni, por caminho. Um banho a cerca de 3500 m de altitude dará ânimo para prosseguir por estrada de terra considerada perigosa até Mezguemnat, onde se vira para Sour, que se alcança através de longo estradão de terra pelas montanhas. De Sour a Agouim desce-se por uma estrada um pouco melhor, onde se puderá acampar junto a um ribeiro próximo, a cerca de 2000 m . À saída de Agouim, vasto panorama sobre os mais altos cumes do Atlas.

16º Dia: extensão - 42 km

Agouim- Aguelmous- Telouèt.

Observações: Em Irherm-n-Ougdal, a 1970 m de altitude, é uma vila típica do Alto Atlas, com as suas casas baixas, como que encravadas na montanha. Uma fortaleza domina a vila, de dimensões modestas. Existe guarda. Pouco antes do cruzamento para Telouèt a estrada de montanha passa a 2210 m de altitude. Uma estrada de terra deambula através de uma região selvagem picotada de florestas. Ruínas do palácio de Telouèt, no kasbah situada num planalto no flanco da montanha. O dia finaliza a 1800 m de altitude, junto a esta aldeia admirável; acampamento em zona abrigada e discreta.

17º Dia: extensão - 88 km

Telouêt- Âit Benhadou- Ouarzazate

Observações: Precurso muito rápido e irregular em caminhos de montanha de diferentes tipos, concerteza em mau estado. Desce-se do Alto Atlas para o planalto onde o Saara tem a sua fronteira.

    Ksar de Âit Benhadou, situado na margem direita do Mellah, no flanco de uma colina dominada pelas fortificações em ruínas,considerado património mundial e o mais belo do sul de Marrocos, com muralhas em adobe vermelho, encontra-se parcialmente em ruínas e aqui habitam apenas algumas dezenas de pessoas; no parque de estacionamento vendem-se fósseis da região. Kasbah de Tiffoultoute, situado num ponto alto árido, domina o vale cultivado do oued Ouarzazate, ponteado de palmeiras. Fortaleza com 250 anos, da cor da rocha onde assenta, nos seus pés acomodam-se muitas casas, muitas das quais em ruínas. A entrada é feita por uma passagem estreita entre duas portas que conduzem ao interior da vila, onde vale a pena demorar a visitar. Foi recentemente transformado em restaurante marroquino, com danças tradicionais desta região ( visita acompanhada, ¼ ; 10 DH, com chá). Ouarzazate, a 1160 m de altitude, encontra- se em franco desenvolvimento turístico, para ser uma alternativa à abarrotada Marrakesh, possuindo inúmeras infrastruturas para tal.17 227 hab. Souk ao domingo. O contraste é enorme entre o Alto Atlas, com os seus relevos grandiosos, suas florestas, sua frescura, e o vasto planalto desértico onde se eleva a cidade, anunciadora do vizinho Saara. Próximo observa-se a grande albufeira da barragem El Mansour Eddahbi. Kasbah de Taourirt, a 1,5 km a E, é pela sua importância, sua arquitectura e decoração, um dos mais belos de Marrocos. Imponente vila fortificada. As casas, erigidas em massa compacta junto do oued Ouarzazate, onde vivem algumas centenas de pessoas. Do terraço do palácio em ruínas de Glaoui, um panorama formidável sobre a vila fortificada, o vale e seus oásis, e as montanhas cerrando o horizonte. Possui uma cooperativa artesanal. Visita acompanhada, de ½ hora, das 8 às 18 horas; 5 DH. Procurar parque de campismo Municipal em Ouarzazate.

18º Dia: extensão - 110 km

Ouarzazate- Agdz- Tansikht- Igdâoun

Observações: Partindo de Ouarzazate a estrada insinua-se pelo Jbel Tifernine, extremidade oriental do Anti- Atlas. A paisagem é agora quse exclusivamente constituída por rocha. Até Agdz o percurso é sinuoso, com bermas instáveis, à beira de precípicios. Subida a Tizi-n- Tinififft (1660 m ), donde se podem avistar belos panoramas sobre o Alto Atlas, e belos vales, sem água. Por uma impressionante descida, chega-se ao vale do Drâa ( oued nasce perto de Ouarzazate, perdendo as suas águas nas areias do deserto, centenas de km depois). Agdz fica situada num lugar espectacular, dominado pela cidadela, vermelha, junto ao Jbel Kissane. Aqui vende-se objectos esculpidos em pedra.

    A estrada acompanha o oued, entrando no óasis que vai desde Agdz a Mhamid, com 200 km de extensão. O Drâa corre por este oásis ininterrupto mas estreito. O fundo do vale é um jardim encantador. Entre os palmeirais surgem os Ksour, aldeias tradicionais comunitárias fortificadas, que se vão sucedendo. Para tentar escapar às razias dos nómadas, os sedentários do vale agruparam-se nos ksour, protegidos por altas muralhas, flanquedas de torres. Hoje em dia, alguns estão desertos e outros em ruínas; uns são muito trabalhados, outros muito simples, confundindo-se admirávelmente com a paisagem. Próximo, deve atentar-se para os curiosos cemitérios berberes com grande número de pedras trabalhadas. Numerosos burgos elevam-se no bordo da estrada, ou ao fundo do vale: as casas muralhadas de Tamnougalt, um dos mais típicos, antiga capital dos berberes, Timidert um antigo kasbah…

    A estrada vai-se elevando oferecendo belos panoramas sobre o óasis dominado pelo Jbel Kissane, e sobre o maciço desolador de Sarhro. Oulad-Âtmane é um ksar algo arruinado, ocupando uma posição dominante à direita da estrada. Igdâoun é um ksar espectacular pela sua extensão, e altura das suas torres, em forma de pirâmide truncada. Por parecer desabitada será um lugar ídilico para passar uma noite única, numa fortifiação fabulosa e lendária, num oásis de palmeiras, em pleno deserto do Saara…

19º Dia: extensão - 83 km

Igdâoun- Tansikht- Tazzarine

Observações: Retorna-se pela mesma estrada, subindo até ao cruzamento de Tansikht. A cerca de 1300 m de altitude a estrada percorre os contrafortes do Jbel Sarhro, sem vegetação, até se chegar a um palmeiral que bordeja um conjunto de oueds. Descendo paralelamente a estes chegamos a Tazzarine.

Acampar próximo da estrada, em lugar discreto.

20º Dia: extensão - 104 km

Tazzarine-Alnif- Mecissi

Observações: A estrada prossegue acidentada pelas vastas regiões desoladas. Em Alnif existe água potável. Mecissi é um pequeno sítio, onde existe água potável, e onde culmina esta longa etapa. Acampar próximo da estrada, em local discreto.

21º Dia: extensão - 70 km

Timerzif- Rissani (Tafilalt)

Observações: A longa estrada prolonga-se através dos vastos planaltos quentes e secos do sub-saara. Em Tikkert-n-Ouchchane passa-se à cota de 839 m.

   Esplendor de Sijilmassa, a primeira grande cidade de Marrocos, cheia de história, antiga capital da África Ocidental, rota de caravanas do ouro, declinou brutalmente no séc. XIV, e foi inteiramente destruída no séc. XIX. Restam as ruínas e panos de muralha, parcialmente cobertos pelas areias.Poucas centenas de metros depois chega-se a Rissani, antigo ksar, capital do Tafilalt, com mercado aos domingos, 3ªs e 5ªs. Vasta praça do souk, onde o mercado se faz sobre arcadas vermelhas, com bijútarias e objectos rústicos. Tornou-se à alguns anos ponto de interesse de cientistas e caçadores de fósseis, abrindo- se o comércio destes, apanhados no deserto.

    TAFILALT: Com 1375 km2 é o maior oásis sariano do país, e as suas aldeias fortificadas e pomares de tamareiras estendem-se ao longo de 50 km do vale do Ziz, perto de Erfoud. População: 70 000 hab.

Situa-se na região Sul Marroquina, numa zona desértica imensa .

    A maior parte da área é constituída por planaltos secos, nus, rochosos, boleados pelos ventos; ou então são áreas cobertas de “ergs”, cujas dimensões são ainda modestas em Marrocos. Os “oueds”, por evaporação e infiltração perdem praticamente toda a água.Os oásis são raros, um dos quais é Tafilalt, com uma sucessão de palmeiras. Aí começa o domínio dos grandes nómadas cameleiros.

    Tafilalt situa-se entre os oueds Rheris e Ziz, que aqui correm paralelamente.A irrigação permite alimentar o vasto palmeiral, que produz frutos para exportação, embora grande parte seja ali consumida ( base de alimentação do Filali, o habitante sedentário do Tafilalt, como do nómada vizinho). Com o agravamento das condições climatéricas, os palmeirais e os ksour estão a ser abandonados.

    As pistas do Tafilalt não oferecem dificuldades, salvo em períodos de intempérie. Penetra-se no grande palmeiral, com os seus ksour e seus jardins. O caminho prossegue agora por dentro do palmeiral.

    O ksar de Tinrheras situa-se no topo de um escarpado, e oferece um espectacular panorama sobre todo o palmeiral, o Alto Atlas ao longe (NW), a linha horizontal do deserto de Guir a E, e as dunas do erg de Chebbi a SE. Acampar no palmeiral.

22º Dia: extensão - 70 km

(Tafilalt)-Merzouga- Algures no erg Chebbi

Oulad Abdelhalim é um dos mais belos ksour do Tafilalt, com uma entrada monumental.

    Ksar Akbar, muito arruinado, fortaleza construída no séc. XIX, guarda o túmulo sagrado de Moulay-Ali-Chèrif, numa moderna mesquita branca. A pista sai do oásis em direcção ao deserto ardente. Aqui pode conhecer-se verdadeiro deserto, aproximando-nos do erg de Chebbi, com dunas com 100 m de altura, e passando por desertos de calhaus até Erfoud. Antes de chegar a Merzouga o caminho passa em Dayet Srji, um deserto salgado que seria um lago. Acampamento no erg de Chebbi, a cerca de 3 km do povoado, entre as dunas, talvez o mais solitário, agreste e fantástico acampamento da viagem.

23º Dia: extensão - 109 km

Algures no erg Chebbi- Erfoud- Source bleue de Meski

Observações: Vale a pena ver o nascer do sol sobre as dunas, areia, areia a perder de vista. A viagem prossegue pelas famosas pistas do deserto.

   A 20 km de Erfoud, junto da pista que segue para Merzouga, pode ver-se uma jazida de fósseis marinhos: Goniatites, Orthoceras e Phacops, em lajes maiores ou menores, que vão a polir, e são utilizados como pedra de mesa ou para outros fins decorativos.Cercada de tamareiras e palmeiras, situada junto do oued Ziz. Erfoud é uma cidade de construção recente, animada pelo grande mercado diário, que se situa na grande praça central. População: 10 124 hab. Situa-se a 802 m de altitude. A praça da cidade é ladeada por um mercado de tâmaras e fósseis, e é dominada pelo Forte Este, um castelo no alto do monte, a 935 m de altitude. O rio Ziz cortou um vale profundo e escarpado na região já quase desértica, mas, nas suas margens, há palmeiras e outra vegetação. A cidade é dominada por castelo em ruínas. A partir de Erfoud a estrada acompanha as margens do oued Ziz, cercada de ksour e kasbahs. Antes de Borj-Yerdi, belas dunas de areia cercam o oued. A estrada é um contraste entre o verde do palmeiral, e o deserto rochoso em volta.

    A nascente de Meski alimenta uma piscina inserida no palmeiral luxuriante, onde se pode acampar (nascente 2 DH). Lago de nascente cheio de carpas, no meio do deserto. É dominada por um penhasco onde se situa o ksar de Meski, em ruínas, desabitado, na margem oposta. Procurar parque de campismo La Source Bleue, e aproveitar bem a nascente para tirar o pó acumulado ao longo dos últimos dias do deserto.

24º Dia: extensão - 92 km

Meski- Er Rachidia- Gorges du Ziz- Rich

Observações: Er Rachidia é uma cidade moderna, a 1060 m de altitude. A partir daqui começa-se a subir de novo para o Alto Atlas.

    A estrada contorna as margens sinuosas da albufeira da barragem de Hassam Addakhil, de águas verde esmeralda, a contrastar com a paisagem rochosa adjacente.

    Gargantas do Ziz, paisagem selvática apertada, bordejada por palmeiral, onde o rio corre muito encaixado por um longo corredor entre montanhas, dominado pelo ksour e kasbah de Ifri. A estrada irrompe a montanha calcária, pelo túnel do legionário. Passando a cidade de Rich acampar na montanha, em local discreto junto da estrada.

25º Dia: Extensão - 85 km

Rich- Midelt

Observações: Poucos km após o início desta etapa, a estrada, em ascenção, passa a cerca de 1369 m de altitude.

   Junto do desfiladeiro de N`zala aprecia- se o vale do oued Ziz, que a estrada segue, com numerosos kasbahs que dominam os meandros encaixados do rio. A estrada sobe em direcção ao Tizi-n-Talrhemt, com 1907 m de altitude, onde acaba a zona pré- saariana. Midelt: 24 578 hab. Souk ao domingo. È uma cidade que se resume a um bairro de aspecto muito europeu, e um antigo ksar, cidade de montanha instalada a 1488 m de altitude, situada entre o Alto e o médio Atlas. Situa- se num lugar muito belo, junto do altíssimo Jbel Ayachi. Acampamento junto na estrada em pleno Plateau de l´Arid, em zona discreta.

26º Dia: extensão - 89 km

Midelt- Timahdite

Observações: As etapas continuam a desenrolar-se em pleno Alto Atlas, muito duras, sem grandes paragens demoradas, e sempre por estrada de montanha. O pequeno povoado de Zeida, essencialmente mineira situa-se a 1453 m de altitude. O povoado de Oualegh, situa-se a 1625 m de altitude. Em Col du Zad, a estrada atinge os 2178 m de altitude.

    Aguelmame de Sidi-Ali, próximo da rota seguida e ligada a esta por pequena estrada, situa-se a mais de 2000 m de altitude. É um lago com 3 km de extensão. Timahdite é uma pequena cidade a altitude próxima dos 1940 m. Acampar junto da cidade, na montanha.

27º Dia: extensão - 99 km

Timahdite- Azrou- Ito-Boufakrane- Meknés

Observações: Desde Midelt até Azrou está-se no país dos Beni Mguild, semi-nómadas berberes pastores, passíveis de serem encontrados nas estradas quando fazem as suas migrações sazonais, abrigando-se em tendas. De Jbel Hebri, cone vulcânico coberto de cedros, a 2104 m, existe uma grande descida que atravessa uma floresta de cedros, sepenteando por esta, com excelentes panoramas sobre a região de Azrou. Os primeiros cedros aparecem entre 1500 e 1600 m de altitude, atingindo todo o seu esplendor a 2000 m. Podem atingir 60 m de altura e 2 m de diâmetro, sendo numerosas as árvores com mais de dois séculos. As florestas de cedros do Médio Atlas albergam imensos macacos. Os planaltos rochosos são o habitat dos chacais. Azrou, a 1250 m de altitude, com 31 471 hab., situa-se não longe de um pico vulcânico, no vale do oued Tigrigra, entre as altas montanhas do Médio Atlas e o extremo da meseta marroquina. Possui um clima temperado pela altitude. Estância de montanha muito frequentada nos meses de Verão. Mercado à terça-feira. Cooperativa artesanal, junto da muralha do kasbah, com artefactos de madeiras exóticas, objectos em ferro, tapetes berberes.  Depois de atravessar o rico vale do oued Tigrigra, a estrada sobe e oferece soberbas vistas sobre Azrou. Do rebordo do planalto de El- Hajeb, a 18 km a NW, a 1428 m de altitude, panorama sobre a grande depressão, barrado o horizonte pelas alturas cobertas de bosques do Médio Atlas. A paisagem apresenta um caos de pequenos relevos: alinhamentos de crateras erodidas, grupos de vulcões do Quaternário, fracturas, escoadas lávicas. O oued Tigrigra passa através desta paisagem desnudada, que à luz rasante do sol, possui um aspecto fantástico qualificado como lunar.

    Segue- se El- Hajeb, cidade com 16 728 hab., pequeno centro estival com clima temperado (1044 m de altitude). Possui um kasbah muito arruinado, com posto de vigia; na parte E da cidade, as paredes rochosas deixam ver algumas habitações troglodíticas, feitas por uma torbulente tribo berbere, que aí se instalou em tempos para atacar a cidade ( mercado à 2º feira.). Saindo desta em direcção a Meknès, a estrada oferece panorama extenso sobre o opulento plano onde esta cidade se situa, nomeadamente sobre a cidade antiga coroada de minaretes, no topo de uma colina. O oued Boufkrane separa- a da cidade moderna.  MEKNÉS: a 552 m de altitude,cidade histórica situada a 58 km SW de Fez (existe mapa). Muitos dos edifícios existentes datam dos sécs.XIII e XIV. A rua Almriniyine oferece belos panoramas sobre a Médina.Bab Berdaine é uma bela porta maciça, flanqueada por dois enormes torreões. O arco enquadra o alto minarete da mesquita do mesmo nome. A seguir, a estrada contorna o mais antigo cemitério da cidade, a Koubba de Sidi Aissa. Bab el Khemis, bela porta flanqueada por dois torreões arruinados. Bab Mansour El Aleuj, enorme porta decorada com colunas romanas de Volubilis. Imponente Place El Hedim, com fila de fontes forradas a mosaicos. Bab en Nour, vizinha da última, é mais elegante. Bacia do Aguedal, vasto reservatório de água; Dar el Ma, cisternas profundas com cerca de 40 m de fundo, monumental (manhã e final de tarde, 5 DH); cavalariças de Moulay Ismail, em ruínas, e que podia albergar 120 000 cavalos. O telhado deste cavernoso celeiro ainda hoje suporta um miraculoso café, localizado no meio de um olival. No antigo local dos estábulos, há o parque de campismo. Bab er Reth, porta monumental de entrada para a nova cidade imperial construída por Moulay Ismail. Túmulo de Moulay Ismail ( é o único santuário de Marrocos que pode ser visitado por não muçulmanos. 9-12 e 15-18. Fechado sexta de manhã); antes de chegar ao pátio da fonte, o visitante tem de passar por três grandes pátios cobertos de azulejos. Os turistas devem tirar os sapatos respeitosamente, antes de avançar para o átrio mouro, decorado, e onde se pode ver o túmulo de mármore do sultão. Prisão dos cristãos, vastos subterrâneos com dimensões de 7 x 7 km, parte dos quais destruído. No séc.XVII foi construído o magnífico palácio de Dar el Kebira. A cidade está rodeada por uma enorme muralha tripla- 40 km de ameias e torres- dentro da qual se situam a Medina e o palácio. Praça de Hédime, com grande animação, dominada por duas portas monumentais: Bab Jema e a célebre Porta de Bab Mansour, de proporções magestosas, é o arco triunfal de acesso à cidade imperial. Os souks rodeiam a Grande Mesquita, são extremamente animados e cheios de imprevistos: vendem- se tapetes e objectos de arte local… Médersa Bou Inania, séc. XIV, com belo pórtico.População: 320 000 habitantes. Procurar parque de campismo de Aguedal.

28º Dia: extensão - 111 km

Meknés-Moussaoua- Moulay Idriss- Volubilis- Fés

Observações: Saindo de Meknès, atravessa- se uma zona de culturas muito irrigadas, e algo acidentada. Virando à direita, após 10 km, aborda- se o Jbel Zerhoun, o mais elevado desta cadeia de montanhas, com 1118 m de altitude. A erosão esculpiu desfiladeiros, falésias e picos rochosos. As águas são abundantes. Após estrada muito sinuosa, por zonas algo selvagens, panorama da estrada de El- Merhasiyne, sobre Moulay-Idriss, a 1,5 km; próximo um vale com uma depressão circular, antiga piscina romana. Moulay -Idriss aparece de repente sobre uma eminência. MOULAY IDRISS: 11128 hab. Souk ao sábado. Cidade a 50 km a W de Fez na orla de uma zona de colinas rochosas entre olivais e cactos, a 550 m de altitude. Pelo seu lugar fantástico, situada entre dois esporões rochosos, e pelo prestígio de cidade santa, esta atrai muitos turistas. As casas cúbicas encostam- se umas às outras, deixando apenas entre elas pequenas vielas. A população é unicamente constituída por muçulmanos, e conserva assim intacta o seu carácter de cidade religiosa islâmica. Todos os anos, a partir da primeira 5ª feira de Agosto (antes das monções), organizam o grande moussem, o mais importante de marrocos, atraindo milhares de peregrinos. Junto da cidade, na encosta, surge uma cidade de tendas. Sobre a esplanada de Khaibar, desenrolam- se as “fantasias”; enquanto dura o moussem alternam os festejos com os sacrificios e as preces ( eles aconselham a visitar a cidade com um guia oficial). Do bairro de Khiber, situado num rochedo abrupto, o panorama é muito belo sobre a cascata de casas que constitui a cidade. Ali se encontra o túmulo de Moulay Idriss I, fundador do reino de Marrocos, falecido em 791. O minarete do santuário é moderno (1939), com forma cilíndrica, único em Marrocos, possui inscrições estilizadas retiradas do corão. A mesquita e os edíficios que rodeiam o túmulo estão assinalados por uma barreira de madeira e são estritamente proibidos a não muçulmanos.

    Próximo ficam os vestígios de Volubilis. VOLUBILIS:  Ruínas da capital da antiga província romana da Mauritânia, situada 30 km a N de Meknés. Estas ruínas, com 1800 anos, são as mais importantes ruínas romanas de Marrocos, e distam 3 km do Moulay Idriss. Ocupam, a 390 m de altitude, um planalto nos primeiros contrafortes do maciço de Zerhoun. São as mais notáveis em Marrocos e incluem um capitólio, um fórum, uma basílica, termas,um arco do triunfo, várias casas- muitas com mosaicos intactos-uma padaria e muralhas do séc.II. Museu lapidar ao ar livre (pedras tumulares, estátuas, capitéis, inscrições). Encontrava-se rodeada de muralhas (20 DH).

A estrada desce agora para um plano a cerca de 200 m de altitude.

    FEZ:a 415 m de altitude. A 200 km SE de Tânger, num vale a N dos montes do Atlas Médio, na extremidade oriental do planalto de Sais, junto do oued Fès. Capital cultural, artística e espiritual de Marrocos, possui uma das maiores mesquitas do mundo- Karaouyine- que é também uma das mais antigas universidades do mundo, fundada em 850, a mais antiga da cidade; o minarete data desta época e possui o maior oratório de África do Norte. Possui inúmeras mesquitas, santuários, palácios e mercados. Fès el Bali, a cidade velha, é a cidade muçulmana medieval mais bem conservada do mundo. É um local espantoso e confuso, onde a elegância e a miséria se misturam à vontade. O palácio real, Dar el Makhzen, data do séc.XIII; a Place des Alaouites é um enorme espaço aberto que constitui acesso aos portões de bronze brilhante do Palácio Real. A Medina, com o seu labirinto de ruas, nas quais se penetra através dos arcos das suas muralhas, é a maior de Marrocos. População: 448823.

É a mais tradicionalista das cidades de Marrocos. O artesanato foi reactivado pelo turismo: trabalhos em couro, bordados, cerâmica.

   Bastião sul, abandonado, que domina um bosque de oliveiras. Os mausoléus em ruínas dos sultões merínideos dominam Fès a N, oferecendo uma vista espectacular sobre a cidade. Bab Dekakène, situada em Fès- El- Bali, do séc. XIV, é uma das mais imponentes portas de Fès, com as suas torres ameadas. A rua Talaa Kebira é a artéria principal desta zona, bordejada em grande parte por lojas e casas de artesanato, e com numerosos souks. Mèdersa Bou Inania possui carrilhão com 13 sinos de bronze, é a mais vasta e sumptuosa de Fès, remontando ao séc. XIV; na rua em frente, famoso relógio de água da medersa . Mèdersa Attarine, próximo do souk. Fundada no séc. X, possui dimensões modestas, mas é considerada a mais bela, entre as muitas existentes em Fès, possuindo uma porta monumental, uma pérola da arquitectura Hispano-mourisca. Mèdersa Cherratine, vasto edíficio de 1670. Zouia de Moulay Idriss, um dos mais santos de Marrocos; abriga o túmulo de Idriss II, possui porta principal ricamente decorada, um minarete muito alto, datado do séc. XIX (os não muçulmanos devem ter particular descrição). Praça Nejjarine, ao fundo do Foundouk com o mesmo nome ( finais do séc.XVIII), possui porta monumental, muito decorada e a célebre fonte com igual nome.  Mesquita dos Andaluzes, fundada no séc.IX, com porta monumental.

    Tinturarias, arcaicas, no bordo do oued Fès, oferece um espectáculo de cor, com grandes covas repletas de líquidos de cores vivas. Procurar parque de campismo Moulay Slimane.

29º Dia: extensão - 137 km

Fés-Karia Ba Mohaed- Ouazzane

Observações: A estrada atravessa um vasto planalto, serpenteando através de cumes rochosos com 632 m e 726 m respectivamente; depois desce-se para atravessar o oued Sebou.

A estrada volta subir para cotas de cerca de 400 m de altitude. De Pont du Sebou voltar para Karia-Ba-.

Passando o vale do oued Ouerrah, volta-se a subir até cotas de cerca de 335 m de altitude.

   Ouazzane- 40 485 hab. Linda cidade de montanha, a 320 m de altitude. Cidade situada no limite do Rif, num local verdejante, na encosta do jbel Bou-Hellal. Paisagens de colinas cobertas de oliveiras, campos de cereais e de árvores de fruto. Praça da Independência, muito animada nos dias de souk possui um belo panorama sobre a cidade. Mesquita Moulay Abdallah Chérif. Notável torre do relógio.  À direita, na parte baixa da rua alinham-se as curiosas barracas cobertas de colmo do souk dos Forgerons. Mesquita S`Ma dos zaouia ou “mesquita verde”, pela cor da decoração do seu minarete octogonal. Existe mapa.                                                      

Fazer acampamento junto da estrada, fora da cidade, em lugar discreto.

30º Dia: extensão - 131 km

Ouazzane- Chefchaouen- Tetouan- Martil

Observações: A estrada percorre um plano, acompanhando um vale apertado até cerca dos 273 m de altitude, donde se começa a subir até Chefchaouèn.

   Chefchaouèn, a 610 m de altitude, é uma cidade com 23 563 hab. Vindo do sul, aparece bruscamente numa curva da estrada, um burgo bem enquadrado, que contrasta com a nudeza do solo calcário onde se situa, e o campo verde do oued Laou. O aglomerado é dominado por um monte. Prevalecem as actividades ditas tradicionais, como a manufactura de tapetes de lã. Visita à cidade: Praça El Maghzen com pequenas lojas, coroado por um minarete; praça central  Uta el Hammam, bordejada por minúsculas lojas, com grande mesquita, que possui um belo minarete, hexagonal finamente decorado. Velhas muralhas do Kasbah, de aspecto europeu; no seu interior muitos jardins, com imensas palmeiras, figueiras, roseiras e flores. No 1º jardim, sob torre menagem à direita, as antigas masmorras, com túneis secretos subterrâneos. A Medina não se parece com nenhuma outra, possuindo casas de muitas cores, entre as quais surgem, de longe a longe, minaretes maciços, de pedra ocre ou cinza, pintados de branco e delicadamente decorados. O mercado, situado à entrada da cidade, com grande animação todos os dias. Pequena e atraente cidade alcandorada numa proeminência rochosa da cadeia do Rif, 60 km a sul de Tetuão. Chamam-lhe a Cidade das Fontes por causa das muitas nascentes de águas medicinais. Centro dos Berberes do Rif, remonta ao séc.XV,de que resta o centro da cidade. Com as suas muitas mesquitas e santuários, é uma cidade santa. A estrada segue agora o vale do Hajera, atingindo os 590 m próximo da sua nascente.

   TETUÃO: Cidade branca que se encontra num anfiteatro rodeado de montanhas, a 90 m de altitude. Possui uma bela medina ( bairro residencial muçulmano antigo), que conserva as suas reminiscências andaluzes, que faz dela a mais espano- mauresca das cidades de Marrocos. Souk El Hots, junto de um ntigo forte, dominado por uma torre poligonal. Place el Yalaa, de forma triangular, onde se pode ver uma exposição de canhões europeus capturados pelos corsários  séc. XVII. Os souks rivalizam com os mais animados de marrocos. Palácio Real, do séc. XVII, situado na Place Hassan, uma grande praça ornamental. Mesquita Sidi Saidi, com belo minarete, junto da porta do mesmo nome. Bab El Okla, bela porta da muralha. Bab Remouz, oferece belo panorama, domina o jardim Moulay Rachid, ornamentado à maneira andaluza, de quiosques e lagos, com as suas fortificações.População: 200000. Bab Ceuta, com belo panorama sobre o cemitério muçulmano e o velho bairro judeu, a Mellah.

    Em Martil, a 11 km existe uma praia muito movimentada, na costa mediterrânica de Marrocos. Estância balnear para os habitantes de Tetuão. Kasbah do séc. XVIII. Procurar parque de campismo.

31º Dia: extensão - 58 km

Martil-Ceuta-Algeciras-Gibraltar

Observações: Smir-Restinga possui uma longa praia de águas límpidas e frescas.

Bilhetes para a travessia do estreito de Gibraltar em Muelle Canonero Dato, 6 (Ceuta).

Regresso a Espanha e a Algeciras, com as longas despedidas de Marrocos a serem feitas nas praias e nas longas esperas na alfãndega.

    GIBRALTAR: Colónia britânica situada num promontório sobranceiro à entrada do Mediterrâneo, ergue-se num alcantilado rochoso de 425m de altitude. Os gibraltarinos são mestiços e falam tanto Inglês como Espanhol. Ganham a vida graças ao porto, às docas e às bases da NATO. O rochedo é conhecido pela sua colónia de macacos berberes, num número de 53 em 1985. População: 31200. Deverá haver parque de campismo?!

32º Dia: extensão - 147 km

Gibraltar- Jimena de la Frontera-Algar- Arcos de la Frontera- Espera- Cruz. estrada para Sevilha

Observações: Saindo de Gibraltar, ao cabo de 10 km e dois cruzamentos, a estrada sobe e penetra no Parque natural de los Alcornocales. Passando Jimena de la Frontera, vira-se para a montanha, onde se irá atingir os cerca de  800 m de altitude, baixando em Pto. de Galis para os 417 m. A estrada entra agora na vasta planície, passando pela Embalse de Guadalcacín, até Arcos de la Frontera. O caminho segue por Espera, virando-se depois para Las Cabezas de S. Juan. Chegados ao cruzamento da estrada para Sevilha, acampar aí próximo em local discreto.

33º Dia: extensão - 158 km

Cruz. estrada para Sevilha- Los Palacios y Villafranca- Camas- Sanlúcar la Mayor- Trigueros- Gibraléon

Observações: O percurso é agora extremamente plano e monótono. Passagem pelas vias rápidas dos arredores de Sevilha, até Camas. Procurar estrada para Sanlúcar la Mayor. Chegada a Gibraléon, situada junto do rio Odiel. Acampar, talvez junto do rio.

34º Dia: extensão - 147 km

Gibraléon- Sanlúcar de Guadiana- Alcoutim- Mértola- Beja

Observações: A estrada torna-se mais ondulada à medida que nos aproximamos da fronteira, e menos frequentada. Passagem do rio Guadiana em Sanlúcar de Guadiana, de barco, espectacular entrada em PORTUGAL. Alcoutim: Edificada em sítio alto, constituiu a guarda da fronteira portuguesa nesta região. Ruínas do castelo, de fundação Árabe. A vila é um dos mais puros exemplares da arquitectura urbana algarvia, igreja matriz; População: 245 habitantes.

A estrada segue pelos contrafortes da serra do Caldeirão até à região semiárida de Mértola.

   Situada na margem direita do Guadiana, num rebordo do planalto elevado que se debruça sobre o rio.

Panorama espectacular da povoação, a partir da margem esquerda, junto da ponte.

   Devido à sua posição estratégica, Mértola conheceu grande prosperidade e importância em tempos muito recuados. Muralha romana na margem do rio, um conjunto de ponte-cais. Mas é a ocupação moura qque mais se nota em Mértola, desde a estrutura da povoação, o tipo de casas, a Kaba ,igreja matriz, uma antiga mesquita Árabe do séc. XI. População: 1104 habitantes. Castelo imponente, um dos mais belos de Portugal

    Percorre-se agora a vasta planície alentejana, por estrada muito monótona até Beja, a 250 m de altitude, onde se acampará no parque de campismo, e se fará os necessários preparativos para a grande chegada, que acontecerá no dia seguinte.

35º Dia: extensão - 169 km

Beja- Ferreira do Alentejo- Grândola- Tróia- Setúbal- Amadora

Observações: Última etapa desta expedição que deixará grandes recordações e muitas saudades. Percurso análogo à 1ª etapa, muito vasto, monótono e rápido por boas estradas. Depois de passar o Sado em ferrie, últimas subidas nos contrafortes da Serra da Arrábida. Chegada a Lisboa, através do ferrie de Cacilhas. Subida para Alfragide, onde se culminará esta aventura única. Regresso a casa para um merecido banquete, e descanso… até à próxima !…

TOTAL: 3543 km

                                                                                            

O QUE LEVAR

Bicicleta:  

Objectos do dia a dia:

 

ALGUMAS INFORMAÇÕES ÚTEIS:

            Polícia - 19

            Ambulância - 15

            Médico - Farmácia Local

 

PRECURSOS ACONSELHADOS PARA TREINAR PARA A EXPEDIÇÃO EM PORTUGAL

  

PEQUENO LÉXICO ( EM ÁRABE FONÉTICO )  

Léxico útil (essencialmente berbere) para percursos sem acompanhante no Alto Atlas são escritos fonéticamente:  

Montanha: Adrar

Campismo: Moukhayyem

Mercearia: Tahanout

Vaca: Amougay

Carneiro: Ahouli

Macho: Asserdoun

Burriqueiro: Bousserdoun

Amanhã: Askkâ

Depois de amanhã: Nifouska

Ir: Dou

Nuvem: Amglou

Sol: Tafoukt

Lua: Aiourt

Céu:Ignna

Noite: Dyied

Faca: Mouss

Relógio: Magna

Comer: Atchi

Água: Aman

Pão: Aghroun

Uva: Adil

Ele está cansado: Ermi

Quente: Tému

Sim: Ouara

Não: Lalal ( berbere) ouholi (sul)

Adeus: Bislama

Obrigado: Choukrane

Em nome de Deus (agradecer algo que se dá e recebe): Bismilah

Se faz favor: Arbi

Boa noite: Lemsk Alakher

Como se chama?: Ma ismnek. Eu chamo-me: Ismniou

 

2 - A VIAGEM

 

 

 

1º DIA

 

169,6 km  (9 horas e 33 minutos. Velocidade média – 18 Km/hora)

 

Inicio exaustivo, com longo percurso mais ou menos plano.

Tempestade em Grândola que molhou quase tudo (inclusivamente roupa, tenda e sacos cama).

Chegámos completamente rebentados a Beja e ao parque de campismo devido, principalmente ás rectas monótonas a partir de Grândola.

A tenda tem problemas – ficámos sem estacas mas resolvemos o problema prendendo uma corda a uma árvore.

Chegámos ás 20:30 a Beja e deitámo-nos ás 22:00 horas.

 

 

2º DIA

 

144,6 km  (8 horas e 30 mins. Velocidade média – 18 Km/hora)

 

Início do parque de campismo de Beja, sem grandes problemas físicos à excepção do rabo do Sérgio.

Estradas boas foram uma constante em toda a viagem. Piso rápido e a direito até à fronteira, com passagem festejada. As estradas espanholas são uma maravilha.

Bom almoço em Rosal de La Frontera. A partir daqui travessia de vasta zona de barrancos, com um aguaceiro à mistura – o jantar foi comprado em Valverde del Caminho, onde tentámos telefonar sem êxito. Acampamento a alguns Km da vila, no caminho para La Palma del Condado, junto da estrada nacional. O sítio é frequentado. Esperamos ter uma boa noite de sono, pois estamos menos desfeitos do que ontem.

Deitámo-nos ás 21:30 – 22:30 hora espanhola.

 

 

3º DIA

 

133,92 km  (7 horas e 10 mins. Velocidade média – 19Km/hora)

 

Início do dia sem pequeno almoço durante 24 Km, com descida dos barrancos para o vale do Guadalquivir.

Conseguimos finalmente dar com o sistema dos telefones, o que permitiu a nossa despreocupação (e a deles).

Estradas planas, bom piso, propício para rolar a grande velocidade (chegámos a Ter média de 23 Km/h).

Hoje o calor apertou (registámos 40ºC em Sevilha).

Passagem na cosmopolita cidade de Sevilha. Belos panoramas sobre o Guadalquivir e o recinto da Expo 92, na ilha de Cartuja. Visita ao maior monumento gótico (com muita influência mudéjar). De salientar o pórtico principal (gótico), e a torre mudéjar transformada em torre sineira. O castelo, simples, possui pequeno pórtico monumental e pelourinho. A igreja tinha a torre em obras. Junto dos monumentos havia grande concentração de coches para visitar a cidade. Existe grande profusão de edifícios civis de gosto andaluz.

O capacete do Sérgio desfez-se com o calor.

Esta região é desprovida de vegetação, com quilómetros de campos de cultura. Tivemos dificuldade em arranjar onde dormir. Finalmente encontrámos, junto da estrada principal para Cádiz, um monte coberto de oliveiras, onde arranjámos um refúgio que parece uma sauna.

As bicicletas ainda não deram problemas. Nós estamos pegajosos com a porcaria que se juntou nestes três dias, mas conseguimos lavar o rabo!

Existe falta de locais com água (socorremo-nos quase sempre das bombas de gasolina).

Estamos cansados, mas as dores diminuem com a prática. Decidimos aumentar o percurso em mais um dia, em virtude da violência destes últimos três dias na Península Ibérica. Assim, temos o dia de amanhã para recuperar, e talvez para tomar banho.

 

 

4º DIA 

 

90,8 km 

 

Saímos de manhã do nosso matagal e recuámos um pouco para tomar o pequeno almoço – sumo de fruta e bolos regionais de Andaluzia, coisa que se torna pouco comum)

A noite que passou tinha sido um verdadeiro pesadelo, a habituação ainda se tinha iniciado, a água tinha acabado e a sede era horrível. Havia muitas melgas que nos picaram. Acordámos sobressaltados com barulhos de animais nocturnos.

A saída da estrada principal em direcção a Espera, deu-se com incremento do ondulado. O Sérgio fez um curativo no tornozelo (ele anda com dores musculares). Espera é uma típica vila Andaluzia, branca a destacar-se de uma paisagem árida e quente, e avermelhada da terra, com um castelo espectacular sobre a escarpa.

Almoçámos gaspacho gelado em Arcos de la Frontera, cidade turística que vive do seu conjunto de monumentos, de que se salienta o castelo no cimo de uma escarpa sobre um vale largo e seco, como todos os vales daqui, e ainda da barragem de Bornos.

Estivemos parados a descansar junto a uma levada de águas frescas e limpas (?), mas só conseguimos molhar os pés para nosso descontentamento, pois encontrávamo-nos todos cagados.

Em Paterna de Rivera, pequena vila branca, pudémos refrescar-nos do calor sufocante e do vento quente e seco. Aqui os povoados são espectaculares, sempre alcandorados em penhascos. O Sérgio começou a dar sinais de cansaço.

O vale que se seguiu era de sonho. Vale largo, entre grandes montanhas, apenas com figueiras do diabo e palmeiras vassouras, pequenos leitos de água sem vale definido, pequenos ranchos com touros bravos pastando, blocos escarpados que sobreviveram à erosão devido à sua dureza ... um espectáculo.

O Sérgio teve algumas dificuldades em atravessar alguns montes (isto é para variar).

Chegámos a Alcalá de los Gazules, típica vila alcandorada, vestida de branco, com um castelo bem alto sobre o vale. Encontrámos um parque de campismo a 4 km da vila! Um espectáculo: fomos bem recebidos, tinha uma piscina onde finalmente nos refrescámos, podemos tomar banho, lavámos a roupa ... um paraíso na imensidão destes lugares!

Estou a sentir-me agora muito bem e mais moralizado, apesar de termos jantado pouco num bar impecável. Existe muita água e fresca, o que na nossa situação é um luxo! Hoje aproveitamos bem a noite (deitámo-nos mais tarde). Estou certo que vou dormir melhor que nas outras noites, pois a tenda está bem montada, a noite menos quente ...

 

 

5º DIA

 

86 km  (5 horas e 43 mins. Velocidade média – 16 Km/hora)

 

Hoje o dia começou com lentidão, pois iríamos sair daquele local idílico, e porque iríamos apanhar montanha até Algeciras.

O percurso tinha grandes subidas, alternando com descidas rápidas, sempre em montanhas muito verdes e quase sem sinal de civilização. Duas enormes albufeiras davam outra cor e vida à paisagem.

Após um início fulgurante de Alcalá de los Gazules, vila típica com casas brancas subindo pelas vertentes abruptas até ao “parador”, onde tomámos o pequeno almoço, cedo as montanhas nos cansaram. Havia alturas que parecia que estávamos no Gerês – muito belo.

Em Los Barrios, cidade satélite de Algeciras, onde estávamos a pensar almoçar, não havia onde comer comida quente, e assim lá tivemos marchar às penúrias (sobretudo eu que rebentei nas montanhas) até um restaurante próximo da via rápida. Aí, junto da mesma, também compramos os bilhetes para o ferry até Ceuta, que nos saiu mais barato do que pensávamos, e assim não tivemos que levantar dinheiro.

Como havia um barco ás 15:30 e só acabámos de almoçar às 15:00 horas, foi uma correria louca em direcção ao porto. Após umas perdidas rápidas, lá conseguimos entrar no recinto, com muita gente a indicar o caminho, qual chegada de qualquer grande prémio. Conseguimos apanhar o ferry mesmo à hora.

O barco era enorme, com um vasto compartimento para os veículos, onde tivemos de deixar as bicicletas e subir para os camarotes. Este recinto até lojas e bares possuía! Viemos para fora para apanhar o vento fresco que me soube muito bem.

De Algeciras não há nada a dizer: uma cidade movimentada como tantas outras, rodeada de enormes montanhas escondidas pelas brumas. Para oeste vê-se Gibraltar, grande promontório a destacar-se da região plana adjacente, e do mar. Da costa africana para onde nos dirigíamos, apenas se via o Jbel Musa, uma das colunas de Hércules (como o penedo de Gibraltar) rodeado de densas nuvens. Começam-se a delinear os contornos de uma costa muito acidentada, e que promete para amanhã.

Após cerca de uma hora e meia de viagem, finalmente pisámos solo africano ainda com sabor a Europa, pois a Espanha está presente por todo o lado. Desde logo constatámos que o parque de campismo estava encerrado, mas o Sérgio rapidamente arranjou quem aluga-se um quarto, e por pouco dinheiro.

Foi tirar as coisas das bicicletas e ir fazer o circuito marginal da Península de Ceuta, nas calmas, mesmo em passeio, mas que ficou a desejar por não ter muito que ver: vimos ima grande lixeira, muitos testemunhos militares recentes ( armazéns, guaritas, etc.), um grande forte no topo do monte Hacho, utilizado por milénios, etc. De salientar o verde da colina e o azul do mar envolvente, e o pequeno forte de El Desnarigado, que observámos do topo do monte (situa-se na costa norte, junto do mar).

Da cidade de Ceuta, muito movimento e muitos turistas. De salientar a avenida marginal bem arranjada, junto da qual existem praias, alguns jardins, a igreja matriz ao gosto provinciano e imperialista espanhol, e ainda o forte de S. Filipe, construído pelos portugueses aquando da conquista de Ceuta. Trata-se de um vasto edifício, com trechos de muralha e fosso que parecem obra de artista, e o famoso e enorme fosso que torna Ceuta numa ilha – obra de engenharia fantástica e de volume considerável.

O jantar foi simples, sandes de tortilha e um bolo muito bom, ao qual foi adicionado uma sopa “Royco” e gelatina líquida feita por nós para melhorar o volume de líquidos e o “combustível no sangue.

 

 

6º DIA

 

80,6 km (5 horas e 6 mins. Velocidade média – 16km/h)

 

A noite foi longa mas alegre! A meio da noite havia festa tipicamente espanhola num bar junto da pensão. A nossa janela encontrava-se aberta, pelo que nos vimos invadidos pelo som inconfundível e pelas palmas ritmadas que se ouviam pela rua toda.

Tomámos o pequeno almoço ainda em Ceuta. Aí conhecemos um casal de portugueses que ia de jeep para Smir Restinga. Acompanhámo-los até à fronteira.

A partir da fronteira foi o choque! Havia marroquinos por todo o lado. Demorámo-nos a preencher os papéis e sobretudo a ser revistados. Tivemos que mostrar quase todo, inclusivamente as rações de emergência! Ainda houve uma pequena confusão com o leite em pó!

Assim que pudémos desandámos daquela zona, mas a primeira aldeia por onde passámos parecia o Casal Ventoso em dia de intenso movimento. Era horrível, cheia de lixo e com um cheiro que fomos encontrando em vários pontos do caminho. Após a aldeia, cedo começou a subida (escalada) às montanhas do Rif.

Hoje o dia foi praticamente passado entre o mar e as montanhas da região norte de Marrocos. O dia esteve fresco, mas o vento lateral era incrível; por vezes éramos lançados para fora da estrada e os meus mapas por pouco não caíram pela falésia abaixo (ficaram presos nuns arbustos).

O Sérgio está a descer que é uma coisa parva. A subir estamos a par (não somos maus escaladores, e estamos a melhorar de dia para dia).

Almoçámos em Ksar-es-Shegir, restaurante de estrada, numa zona muito concorrida pelos marroquinos, que aqui acampavam por todo o lado. A refeição consistiu e tagine, um prato de legumes com carne de borrego, uma salada de atum, pão e azeitonas com um molho picante.

Esta povoação possui um castelo português mergulhado nas dunas, muito arruinado.

As paisagens de montanha são lindíssimas, com afloramentos de rocha nua insinuando-se na paisagem e com muito verde. Até agora as povoações deixaram muito a desejar, pois são muito sujas e os sacos de plástico abundam por todo o lado. Existe recolha de lixo, mas vão deitando tudo pelo caminho.

As estradas não são más, mas um pouco apertadas, pelo que tivemos de ouvir inúmeras apitadelas dos senhores emigrantes com os seus mercedes, o carro mais visto por estas zonas, escolhido até para táxi.

A entrada e Tânger foi um choque. O Sérgio já acusava cansaço. Havia muita confusão, muita gente à procura de sacar algum dinheiro. Sempre que parávamos caiam-nos em cima.

Houve inclusivamente uma situação caricata. Um miúdo numa bicicleta fingiu ter caído por causa de mim, e queria ser indemnizado. Que grande lata.

Finalmente conseguimos dar com o parque de campismo, que não é mau, mas é mais caro do que pensávamos.

As casas de banho são aquele horror em termos de higiene, mas encontrámos água potável nos tanques, onde também lavámos a roupa.

Tomei banho na piscina, um pouco suja e cheia de marroquinos, o que teve muita piada. Houve aquelas conversas onde não se percebe nada, e ser ali o único português! Até agora não vimos nenhum português em Marrocos.

Deixámos as bicicletas no parque e decidimos vencer o trauma: vestimos a nossa roupa suja e fomos passear para a zona velha da cidade. Percorremos calmamente o Grande Soco, apinhado de gente comprando e vendendo; vê-se vender marroquinarias, frutos e legumes, muita comida e bolos. Tudo isto na rua ou em pequenas “tascas”. Comprámos uvas a 5 DM (90$00)

Ao jantar fomos comer a uma “tasca” uma grande sandes de kefta (carne e temperos), e finalmente provámos o formidável chá de menta: extremamente aromático, quente, doce, fabulosamente saborosa. Vamos deixar de beber coca-cola, e elegemos o chá de menta a nossa bebida de eleição.

Voltámos para o parque sem ver outros pontos de interesse, numa cidade que possui brutais contrastes entre o velho do centro da cidade e o novo dos grandes hotéis junto da marginal, que percorre as praias, algumas com os esgotos a despejarem para o mar a céu aberto.

 

 

7º DIA

 

141,52 km  (7 horas e 24 mins. Velocidade média – 20 km/h)

 

Depois de vermos o aguadeiro tradicional no “souk” de Tânger, com o seu típico traje (hoje apenas uma curiosidade), precedido pelos vendedores de sumos de fruta, e de uma noite cheia de ritmos árabes (a musica em altos berros é importante em cada tenda), metemo-nos novamente à estrada, desta feita para realizar um percurso muito extenso, mas plano e regular, e quase sempre por boas estradas.

Cedo o Sérgio “rebentou”, pois faltou-lhe a energia aos 40 km, mas depois resolveu-se e chegou melhor do que eu.

O trajecto de hoje teve de ser alterado pois Larache não possuía parque de campismo, pelo que tivémos de nos dirigir até Moulay-Bousselham. O percurso foi realizado entre o verde das florestas e o azul do mar das praias desertas, sempre a boa velocidade.

Tornámo-nos fanáticos por chá de menta. Passámos por Asillah, cidade fundada por portugueses, da qual subsiste o castelo com grandes torreões cercados de palmeiras. Junto existem salinas num oued. Aí retemperámos forças à custa de mais um chá de menta.

Pusemo-nos a caminho de Larache. Vimos os primeiros dromedários pastando calmamente com burros, muito utilizados aqui como animal de carga (ainda se vê muitas carroças puxadas por burros e cavalos).

Passámos por uma das muitas barracas pitorescas de beira de estrada que vendem melancias, e comprámos uma com 5kg. Foi logo digerida ali próximo, debaixo da sombra fresca de uma árvore. Fomos muito ovacionados pelos vendedores e pessoas que íamos encontrando à beira da estrada.

Em Larache passámos junto da cidade romana de Lixus, onde tivémos ocasião de ver os armazéns do “garum”. Também aqui o oued Loukkos possui vastas salinas.

Nada vimos desta cidade que encima um monte junto do mar, coroado por uma torre de cor escura. Aqui voltámos a apreciar os bons pratos marroquinos: comemos carne amassada grelhada na brasa, acompanhada com salada muito variada, molho de tomate e especiarias, e o pão tradicional que é redondo e chato.

Após nos termos perdido por poucos kms , por não termos virado num cruzamento, saímos da estrada boa e enfiámo-nos numa estrada secundária, levemente ondulada e sempre em linha recta, ladeada por vastos campos de regadio muito bem tratados. Aqui experimentámos um novo tipo de banho, por aspersão, utilizando para o efeito uma máquina de rega.

Tivémos o nosso primeiro furo. O pneu anda agora um bocado em baixo (para evitar outros furos). Outra coisa que me preocupa, é que o pneu começou a ficar com pequenas gretas. Mas a bicicleta do Sérgio também já faz uns barulhos giros.

Chegámos a Moulay-Bousselham mesmo ao cair da noite, exaustos (principalmente eu) devido a um pequeno erro de contas. Fomos ficar no parque de campismo (que estava cheio de marroquinos a passar férias), situado junto da lagoa Merdja-Zerga, no ponto de confluência desta com o oceano. Pouco ou nada deu para ver desta pequena povoação.

Jantámos uns folhados com mel e amêndoas (pensávamos que eram chamuças), pão e muito sumo (o Sérgio ficou mal disposto, pois comeu uma grande dose de azeitonas).

Esta parque de campismo tem uma particularidade: anda um homem com uma máquina com pesticida a pulverizar as tendas (isto está tudo cheio de melgas), intoxicando todos, inclusivamente nós.

 

 

8º DIA

 

134,9 km  (7 horas e 43 mins. Velocidade média – 18 km/h)

 

Este dia foi horrível.

Estou a escrever meio acordado meio a dormir, extremamente cansado...

De manhã demorámos a arrancar. Estivémos a conversar com um professor de desenho marroquino que queria informações para ir passar féria a Portugal. Não conhecia nada do nosso país. Comemos umas fatias de um bolo estranho (não sabia a nada), e mais tarde comemos uma melancia (é aquilo que nos vai safando!).

Rodeámos pela estrada o lago Merdja-Zerga, vasta zona deprimida ocupada por explorações agrícolas. A estrada piorou ainda mais e foi parcialmente ocupada por areia, possuindo ainda vastas crateras. Passámos por umas aldeias que nos fizeram ver a África pobre: era tudo muito estranho, olhavam-nos de uma forma estranha, e tentaram-nos roubar; cada vez que passávamos por uma aldeia tínhamos de acelerar... um pesadelo!

Eu e o Sérgio caímos ao saltar uma das crateras, pois as bicicletas encaixaram-se uma na outra.

Almoçámos mais uma melancia (poucas paragens pudemos fazer com receio que nos caíssem em cima).

Chegámos a Kénitra, cidade moderna e suja, com uma enorme lixeira à entrada da cidade. As pessoas a que fazíamos perguntas tratavam-nos muito bem porque éramos portugueses. O Sérgio furou um pneu mesmo no meio da cidade!

Dirigimo-nos para Mehdyia Plage, onde pensávamos ficar num parque de campismo. Trata-se de uma vila tipo Vila Nova de Mil Fontes, muito concorrida. Queriam que pagássemos três noites para ficar no parque de campismo, pelo que desistimos de aí ficar. O dia esteve quase sempre nublado e com vento contra.

Dirigimo-nos por uma estrada no meio da vegetação (onde comprámos 2 kg de tomates por 3 DH que deitámos quase todos fora mais tarde), a caminho do próximo parque de campismo perto de Rabat. Fomos interceptados pela policia quando tentávamos comer os tomates. O policia estendeu-me a mão (talvez para me pedir o passaporte), e eu dei-lhe um aperto de mão. Tivemos que lhe explicar durante muito tempo, que tal era uma forma de saudação no nosso país, e que não tínhamos feito por mal. Após as averiguações, indicaram-nos um parque de campismo na Plage-des-Nations, que afinal não existia. E com isto íamos fazendo kms e a noite ia-se aproximando (se isto é mau de dia, então de noite...).

Ao Sérgio deu-lhe uma coisa, e fizémos os últimos kms a uma média de 26 km/h. Chegámos a Salé vinha eu já delirante de cansaço.

Depois de nos perdermos na cidade (fomos quase até Rabat), lá demos com o pequeno parque de campismo junto ao mar, sem grandes condições nem árvores. Não havia onde comer nas imediações do parque, pelo que tivémos de comer as rações de emergência.

Espera-se um dia melhor para amanhã, com muita comida, muitas coisas belas para ver destas duas cidades vizinhas (Salé e Rabat), e muito descanso... porque amanhã não andamos de bicicleta.

P.S: ligámos Lisboa a Rabat, as duas capitais, em oito dias! Grande feito. 

 

9º DIA

 

Dia de descanso

Estamos no parque de campismo de Salé, cujo dono é parecídissimo com o Mário Soares (só que mais escuro).

Começámos a manhã por procurar um sítio para tomar o pequeno almoço. Perdemo-nos logo, e entrámos dentro da parte velha da cidade, com ruelas apertadíssimas, apinhadas de locais para comprar e vender produtos hortícolas, peixe, etc. Aos poucos vamo-nos habituando a andar nestes antros, pois andamos sujos, rotos, e até já nos disseram que parecíamos marroquinos, tanto que nos falam primeiro em árabe. Poucos pobres se metem connosco e não se demoram muito...

Tomámos um chá de menta e uns bolos de amêndoa muito bons. Visitámos as enormes muralhas de adobe de Salé, bem conservadas e envolvidas por jardins. O parque de campismo fica junto do grande cemitério de Salé, com estelas pintadas de azul e amarelo, que separa a cidade da praia.

De Salé a Rabat é só atravessar o Oued Bou  Regreg num trecho de certa beleza, com as duas enormes cidades em cada margem, e a torre Hassan imponente num ponto alto. Pessoas pescam nas margens do rio, ou descansam na sombra dos jardins. Junto ao mar situa-se o Kasbah de Oudaias, numa pequena elevação.

Hoje o dia foi para descanso, revisão mecânica das bicicletas, remendo de furos, e comida, muita comida. Comemos tabaibos e até um gelado miniatura (o Sérgio gere o dinheiro com pulso de ferro!)

Tentámos telefonar, mas em vão. Conseguimos mandar postais para toda a família. Almoçamos miúdos de frango com cebola, e uma bela salada. Aqui come-se bem e até é barato.

Rabat é uma cidade de contrastes: aqui vê-se a miscelânea entre o Oriente e o Ocidente, a tradição e o modernismo. As mulheres vestem trajes tradicionais, e andam de mala de pele a tiracolo e cabelo arranjado. Os homens estão trajados de forma ocidental (só alguns mais velhos não o fazem). Existem grandes e modernos edifícios, junto aos velhos Kasbah rodeados de muralhas.

O trânsito nestas cidades é infernal, e vêem-se inúmeros motocicletas muito práticas nestas zonas.

Visitámos os souks de Rabat, com venda de artesanato para estrangeiro comprar, como tapetes, candeeiros trabalhados, roupa árabe ricamente ornamentada e até alguns fósseis. Uma experiência não mais interessante que a visita ao souk de Salé pela manhã!

Visitámos as muralhas e porta monumental de Oudaias, constituindo um burgo sossegado. De referir o excelente trabalho dos arquitectos marroquinos para erigir tão preciosas obras de arte.

Por fim, visitámos o recinto da imponente e esbelta Torre Hassam, castanha, rodeada de vasta área ajardinada, e onde se impõem os restos dos muros da mesquita inacabada, e a floresta de colunas que cobrem todo o recinto. Vêem-se soldados marroquinos a pé e a cavalo, trajados à antiga, uma alegria para o turista japonês. Contemplámos à sombra desta obra prima da arquitectura, que é a torre Hassam, a paisagem sobre as duas cidades (que pareciam de longe ser tão calmas!).

Ao fundo do recinto erguem-se umas construções mais recentes, de elevada qualidade estética e muito trabalhados no seu interior. As portas em bronze são autênticas peças de joalharia (vá lá que aqui não se paga nada!). Trata-se do mausoléu de Mohammed V.

A Torre Hassan é o minarete daquilo que era para ser, no século XII, a maior mesquita do ocidente, espalhando as suas ruínas por 2,5 há, com cerca de 400 colunas. A torre tem 44m de altura.

Chegados ao parque, lavámos a roupa, e ao final da tarde fomos procurar em Salé um local para comer. Fomos ao mercado comprar figos e uvas, e jantámos numa pequena “tasca” umas deliciosas salsichas à moda de Marrocos, acompanhadas com pão, sem ajuda de garfo, e principalmente, sem faca, a qual nunca tivemos oportunidade de utilizar em qualquer sitio onde comemos.

Chegámos quase de noite ao parque.

Estamos com algum receio da estrada de Casablanca para Marrakesh, pelo que já temos visto até agora (existem marroquinos por todo o lado).

P.S – nas cidades erguem-se vários minaretes, donde se houve a determinadas horas, a chamada para a “missa”.

 

 

10º DIA

 

102,9 Km  (4 horas e 40 mins. Velocidade média – 23 km/h)

 

Saímos cedo de Salé para mais um dia, desta feita bem calmo, sem surpresas.

Tomámos o pequeno almoço num café de rua e derigimo-nos para a estrada junto da costa. As praias, entre rochedos, não têm grande piada, apesar de serem concorridas, e algumas delas com clubes internacionais sempre bem vedadas e guardadas. Nunca tínhamos visto tanta polícia. Um em cada cruzamento, em jeeps, motas, etc.

Passámos pela estância de férias do Rei, muito verde e sempre bem guardada com soldados de metralhadora em punho.

A estrada não tem grande piada, à excepção de alguns fortes em ruínas ou da polícia, e ainda o azul do mar. esta zona é muito plana. A média até Casablanca foi de 25 km/h, o que quer dizer que chegámos às 14 horas a Casablanca!

Mohammedia é uma cidade do tipo europeu, uma estância de veraneio. Ressalta a limpeza das ruas e o arranjo das avenidas com palmeiras. Fomos a um salão de chá beber um chá de menta e comer uns doces.

A chegada a Casablanca é horrível. Tivémos que passar por uma extensa zona portuária com bairros degradados. Ao longe, junto ao mar, via-se a torre Hassan II, a maior mesquita (à excepção de Meca), construída no nosso século. Trata-se de uma torre com 200 m de altura, que sobressai sobre todos os outros inúmeros prédios da cidade, que é a quarta maior de África, com 3,5 milhões de habitantes.

Percorremos cerca de 10 km nesta moderna cidade, até darmos com o parque de campismo. Tivémos a preciosa ajuda de um jardineiro local, que vinha a passar de bicicleta e soube do nosso problema. Disse para o seguirmos, e nós lá fomos atrás dele, devagar e atravessando cruzamentos movimentadíssimos com o sinal vermelho. Quando finalmente conseguimos dar com o sitio, o Sérgio quis dar-lhe dinheiro mas ele não aceitou (aqui ainda há pessoas que fazem boas acções sem interesse monetário!). Pediu a nossa morada, e deu-nos a dele. Tirei uma fotografia dele com o Sérgio, e prometemos trocar correspondência. No final apertou-nos a mão e...deu-nos dois beijos no rosto, para grande surpresa nossa (e levou a mão ao peito como cá fazem).

Almoçámos ás 16 horas numa pizaria americana (lasanha com faca e garfo!). Passámos o resto da tarde no parque de campismo, à sombra de uma árvore, a descansar.

Jantámos umas coisas que misturam tradição marroquina e pratos franceses (comemos um doce à base de frango e amêndoas, e sandes de especiarias e pão de Ceuta). Aqui a tradição já não é o que era!

Vamos tentar chegar a Marrakesh em apenas dois dias, por forma a dormir apenas uma noite nesta zona de pesadelo. Espero que tenhamos sorte!

 

 

11º DIA

 

96,8 KM  (4 horas e 27 mins. Velocidade média – 23 km/h)

 

Este dia tem pouco para contar. Desmontámos a tenda e fizemo-nos à estrada, num percurso sem sobressaltos e quase sempre plano. Almoçámos em Setat, pequena cidade muito verde e bem cuidada, onde há a destacar o Kasbah de Ismailia de fachadas bem preservadas.

Almoçámos uma farta salada e tajine (finalmente nos tradicionais tachos de barro), mas não nos soube muito bem (as especiarias a mais começam-nos a fazer mal ao estômago).

O calor é cada vez maior à medida que nos afastamos do litoral e m direcção a uma região demasiadamente plana. Vimos pela primeira vez mulheres com tatuagens nos pés e nas mãos. Trata-se de uma tradição dos casamentos berberes.

Em Marrocos somos muito bem vindos porque somos portugueses, é o que toda a gente nos diz. Somos sempre muito saudados, ou então apedrejados como aconteceu hoje por um rapaz que se encontrava junto de um poço.

Quando o calor mais apertava e o terror de passar mais uma noite nesta região sem locais para nos escondermos se aproximava, decidimos fazer uma paragem num pequeno café à beira da estrada para nos refrescarmos. Aqui arranjámos um quarto para dormir, e assim passámos a tarde toda sentados ao fresco e a ver televisão marroquina (uma série de acção dobrada em francês, musica tradicional árabe e um programa sobre caligrafia árabe). Evitámos assim uma noite de terror nesta região, e amanhã, possivelmente conseguiremos atingir a tão almejada cidade de Marrakesh.

 

 

12º DIA

 

148,5 KM  (7 horas e 7 mins. Velocidade média – 22 km/h)

 

Dormimos numas poltronas com grandes almofadas, à semelhança daquilo que havia no interior do café, o que o tornava muito confortável. Saímos bem cedo, pela fresca, para um dia longo mas sempre por boas estradas, e a um ritmo muito rápido.

Descemos 14 km por paisagens ondulantes e áridas até um largo oued, que enchia de verde toda a região. A partir daqui subimos ligeiramente durante 16 km até Skour-Rehamma, uma povoação vestida de adobe vermelho, situada num plano junto a um grande monte de encostas rochosas. Comemos tabaibos, que são muito nutritivos, e que possuem bastante água.

Em Ben Guerir, cidade moderna que cresceu à custa dos fosfatos (Marrocos é o maior produtor mundial), bebemos o nosso chá de menta.

Em Sidi-Bou-Othman, situada nas faldas de uns pequenos picos que ascendem a 800m, tomámos o nosso almoço: um excelente tajine com muitos legumes. Estamos a ingerir líquidos de uma forma monstruosa: garrafas de coca-cola e muita água Sidi-Ali (porque a Sidi-Akmane é muito calcária, não presta).

Iniciámos uma lenta ascensão sob um calor tórrido e um vento extremamente quente. A água ferve dentro das garrafas. A boca seca-nos num instante. Isto é um inferno! Não se vê ninguém.

Passámos o palmeiral de Marrakesh (muito seco e abandonado), que domina uma  vasta área plana.

Entrámos em Marrakesh, uma cidade que nos pareceu calma e com um estilo arquitectónico moderno, que respeita a construção tradicional, sem se observar os tão comuns sinais de pobreza.

O parque de campismo municipal estava fechado, e tinha-se mudado 12 km mais para norte, de onde tínhamos vindo! O Sérgio ficou fulo, pois já estávamos a acusar os kms e o forte calor sufocava-nos. Lá voltámos para trás até chegarmos ao parque ainda em construção.

 Fomos comer umas sandes de kefta a uma estação de serviço que existe ali ao lado.

No parque de campismo encontrámos um grupo de ingleses que tinham vindo de Gibraltar de bicicleta, e para lá partiriam amanhã. Tinham feito mais ou menos o mesmo percurso que nós, e com um dia de avanço (contudo traziam toda a sua carga num carro de apoio).

Hoje estamos cá fora a apanhar o vento fresco da noite. O Sérgio pensa dormir cá fora.

Amanhã iremos a pé visitar Marrakesh, e andaremos lá todo o dia.

P.S- Não vi sinais das montanhas do Atlas, nem do tão almejado Jbel-Toubkal, o que não deixa de ser estranho!

 

 

 

13º DIA

 

30 km a pé

 

Hoje o dia começou bem cedo, calmo e muito relaxante. Um duche para refrescar, roupa para lavar e muito descanso à sombra de uma oliveira.

Deviam ser umas 11 horas e o calor apertava, quando decidimos pegar nas mochilas e em duas garrafas de água e ir até Marrakesh, tão ansiada por nós.

O calor aqui é sufocante! Devem estar uns 50ºC ao sol!! Atravessámos os 5 km de palmeiral onde não se vêem casas, e um oued que mais parece um caneiro de esgoto, como é natural por aqui.

Do parque até Marraquesh são 11 km, mas a cidade é enorme! A entrada é constituida por um bairro calmo de gente com posses. Existem vários jardins na cidade, de tal forma apinhados de marroquinos que até faz impressão!

Passámos as muralhas da velha medina, sem grande interesse, e logo procurámos a famosa praça Jemaa el Fna. Os turistas são imensos, assim como os hotéis que se encontram entre os mais luxuosos de Marrocos. Encontramos o famoso minarete da mesquita Koutoubia, do século XXII, com 70m de altura. Infelizmente encontrava-se rodeada de andaimes, pois estava a ser restaurada. À volta desta ruína, a mesquita e os jardins. Prosseguimos por uma avenida que se encontrava cheia de coches para inglês ver, e entrámos na Jemaa el Fna, quase sem darmos por isso! À hora do calor encontrava-se quase vazia, se excluirmos os vendedores de sumos de laranja, tão insistentes (esta zona da cidade torna-se extremamente movimentada a partir das 17 horas).

Fomos almoçar brochettes num pequeno café mesmo na praça. De seguida fomos visitar os souks, sombrios, riquíssimos em diversidade, cheiros, quantidade... é um nunca mais acabar de marroquinaria e outras coisas para turista levar. Demos umas três voltas ao souk, sempre insistentemente interpelados pelos comerciantes (um deles levou o Sérgio para o interior da sua loja para lhe vender punhais!). Procurámos saber os preços dos fósseis, e vimos as falsificações (existem centopeias e escorpiões à mistura com trilobites, amonites, goniatites, ortoceras, quartzo ametista e galena vendida ao quilo, certamente de minas nos arredores).

Passámos o resto da tarde de café em café, a beber água e sumos, à espera da hora do inicio da festa (sem nunca deixar de transpirar abundantemente). E assim aconteceu. De um momento para o outro a praça encheu-se de tascas e de pessoas que aqui vendiam as mais variadas coisas. Existem dentistas que vendem placas usadas, o que foi um desconsolo, tal como o resto! Existem encantadores de serpentes por todos os lados, e nós fomos bem embrulhados em 4000$00 só para tirar umas fotografias junto de uma cobra capelo de cor negra, e para ter umas cobras enroladas ao pescoço! Queriam-nos levar quase 7000$00, mas consegui-me opor entre o meu, e sobretudo o pasmo do Sérgio que ficou sem saber o que fazer...

Fomos comer os famosos couscous, que mais souberam à amargura do engano, e depressa dali saímos com um grande desconsolo pelo desperdício de energias, e por termos perdido tão precioso dinheiro. Agora estamos mais apertados, mas ainda dá para continuar a viver bem.

A viagem de regresso foi muito cansativa, e feita à noite, o que é muito perigoso. O Sérgio veio sempre a bufar, e a chatear-me a cabeça (diz que foi o dia mais cansativo, e que mais valia não ter saído do parque). Às vezes tem umas reacções chatas, que quase me fazem perder a paciência, mas alguém tem de se manter controlado! Afinal, ás vezes eu também sou muito chato!

Deitámo-nos tarde (ainda tomámos banho), e amanhã precisamos de acordar bem cedo por causa do calor. Espero que estejamos em condições fisicas e psicológicas para levar esta louca aventura até ao fim!

Apesar de tudo, gostei muito de Marrakesh, embora seja um pouco diferente daquilo que estávamos à espera, pois cresceu muito voltada para o turismo. Mesmo assim, continua a ser uma cidade muito violenta, cheia de pessoas a tentar ganhar dinheiro de todas as formas.

Finalmente amanhã abandonaremos estas cidades imperiais.

14º DIA

 

78,44 km  (5 horas e 10 mins. Velocidade média – 16 km/h)

 

O dia começou quente tal como todos os outros, exceptuando-se uma madrugada fresca.

Saímos do parque em direcção a Marrakesh. Sinto-me com dores de cabeça, e estamos bastante cansados da nossa insólita caminhada de ontem. Andámos perdidos em Marrakesh (fizémos 20 km nesta zona). É só trapaceiros por aqui! Já desmoralizados, demos finalmente com o caminho, inicialmente plano, e depois ligeiramente a subir (estava a começar a ascensão do Atlas).

Tomámos um banho delicioso numa vala de águas frescas e límpidas vindas do Atlas. Este começa a aparecer no horizonte, envolto por uma neblina.

Chegámos a Tahanaoute, vila tipicamente berbere, situada junto do desfiladeiro do oued Reraia. Comemos sandes de queijo fundido e bastantes tabaibos. Entrámos finalmente na região mais interessante e bela de Marrocos. As casas, feitas de adobe, juntam-se em pequenos aglomerados nas encostas e topos das serras. O vale do oued Reraia é muito belo (aqui tomámos um refrescante banho!).

Começou a estrada de montanha. O Jbel Toubkal e Asni, situada no flanco de uma montanha, dominam o vale repleto de pinheiros.

Ao chegar a Asni, fomos interpelados por dois jovens, que nos ofereceram a oportunidade de dormir numa casa berbere por um pequeno preço. Seguimo-los por dificil caminho até um pequeno conjunto de casas de aspecto humilde, próximo de Asni. O local é sossegado e a aldeia é toda ela constituida por casas em adobe com telhados de cana.

Sentámo-nos à sombra numa esteira, rodeados por almofadas. Vem um chá de menta. Ficamos a conhecer a família toda: o pai é tuaregue e a mãe berbere. Negoceiam roupas por jóias para ir vender a Marrakesh. Mostram-nos jóias (que esperamos serem de prata verdadeira), e começa uma negociação típica, com chá à mistura: acabámos por fazer trocas e dar dinheiro. O Sérgio comprou cinco pulseiras e eu uma (a minha é de Merzouga, as do Sérgio do Saara e berberes, com contas para o ramadão). Ficámos com a sensação de sermos enganados, como sempre!

A seguir visitámos o mercado da cidade, típico da pequena vila que é. Tomamos todos chá num boteco central.

O local onde vamos dormir tem só tapetes e almofadas, e temos de entrar descalços.

Hoje vamos comer couscous como à boa maneira tradicional: amassado à mão.

As minhas dores de cabeça aumentaram!

O dinheiro vai-se num instante, mas estamos a curtir à grande, misturando-nos no meio deste povo afável, mas muito virado para o dinheiro.

Escrevo estas linhas rodeado de três crianças, num total de cinco irmãos

O Toubkal desaparece na noite. Já nos avisaram que é impossível chegar até ao topo de bicicleta. Prosseguiremos amanhã até ao lago Ifni.

O jantar foi em tapetes, com uma pequena mesa e apenas um grande prato cheio de comida. Parte dela voltou para trás.

 

              Said Boudall

              Asni

              Marrakesh

              Marocco

 

P.S – vimos livros escolares em árabe, e tentámos aprender alguma coisa de árabe.

 

 

 

 

 

 

 

15º DIA

 

26,5 km  (velocidade média – 5 km/h)

 

Acordámos bem cedo, ainda o sol se escondia por detrás do anfiteatro imenso de montanhas. Sinto-me muito melhor! Tomámos café com leite e pão com queijo. Já disse que o pão aqui é sempre redondo e espalmado?

Dirigimo-nos para a estrada a caminho de Imlil, que desde logo começou a subir imenso. O panorama é fantástico! Seguimos um vale muito encaixado, por onde corre uma linha de água. A vegetação abunda apenas nos vales ainda cultivados, mas escasseia na montanha. Passámos por algumas zonas com vegetação abundante e cerrada, onde existem bastantes fontes e linhas de água, as quais vamos transpondo. A estrada é cada vez pior, mas ainda vai dando para andar de bicicleta.

Ao cabo de 10 km entrámos numa estrada de terra, ainda pior que a anterior. A paisagem é sublime, com lindas aldeias da cor do local com que se confundem.

Chegámos a Imlil ainda cedo, e resolvemos almoçar feijão com tripas. Esta aldeia fica a 1740m de altitude, rodeada de árvores e com várias aldeias próximas. Disseram-nos que o caminho para o abrigo de Neltner é impossível com as bicicletas carregadas. Tentaram-nos, inclusivamente, alugar mulas. Seguimos por um caminho que nos obriga a levar as bicicletas pela mão. A paisagem torna-se cada vez mais agreste e selvagem.

Passámos a aldeia de Aremd, situada no fundo de um vale por onde corre um rio com abundante caudal. Atravessámos com dificuldade o “circo” de Aremd, um amontoado de calhaus numa região onde o vale é muito largo. Aqui começaram as grandes dificuldades, e a verdadeira ascensão ao Toubkal.

Da estrada ou caminho, passámos agora para um carreiro de pé posto, com muita pedra.

O clima estava bastante agradável; na encosta das montanhas subsiste neve!

O transporte das bicicletas faz-se agora de empurrão, ou no caso do Sérgio, ás costas.

Houve uma pausa para um banho muito rápido, porque a água, proveniente do degelo, estava de gelar os ossos. Enquanto nos secávamos, apareceu um homem de idade que quis que fossemos beber um chá ao seu estabelecimento, situado um pouco mais acima.

Se as coisas já estavam más, pior ficaram, pois o caminho aumentou de inclinação e de pedregulhos. Arrastávamo-nos pela montanha acima, cada vez maior aos nosso olhos, sempre com o Toubkal a fechar o nosso horizonte.

O trânsito das mulas é por aqui enorme. São utilizadas para transporte de mochilas e outro material, dos inúmeros caminhantes que ascendem a esta montanha. Estes vão-nos dando apoio, face ao nosso enorme esforço. Houve um grupo de franceses que já vinha a descer, que disseram que éramos completamente doidos!

O Sérgio teve mais um furo (hoje apenas um, o que na minha ideia foi sorte). Enquanto descansávamos e remendávamos o pneu, passou no sentido inverso, um local em cima da sua mula que nos pediu lume e alguns dos biscoitos que estávamos a comer. Os corvos abundam por aqui.

O sol começava a desaparecer por detrás destas imensas montanhas. Completamente exaustos e sem esperanças de chegar a Neltner, resolvemos acampar junto ao rio que vínhamos a acompanhar.

Lavámo-nos e montámos o nosso acampamento ao ar livre. Hoje iríamos dormir à luz das estrelas (não montámos a tenda para passarmos despercebidos). Comemos o nosso pão com sardinhas e tâmaras de Marrakesh. Não estávamos mal. Na encosta em frente a nós, subsistem grandes retalhos de branca neve (estamos a cerca de 3000m de altitude). A paisagem é espectacular, neste apertado vale coroado pelo Jbel Toubkal.

A noite previa-se fria, muito fria. A temperatura descera bruscamente, e esperam-se temperaturas da ordem dos 0ºC (que grandes amplitudes térmicas se sentem aqui).

Um rebanho de cabras desce a encosta.

 

 

 

 

 

16º DIA

 

3,53 km

 

Que noite, meu deus!

 

Se o céu estava incrível, completamente cravejado de estrelas, o frio apertava e um vento gelado não nos deixara dormir. Como se não bastasse, havia calhaus por todo o lado, e as dores eram enormes!

Levantámo-nos ainda não era dia. Não havia razão para continuar este suplicio.

Comemos parte das rações de emergência (não temos mais nada para comer).O Sérgio começou a dar sinais de estar doente.

Seguimos pelo caminho que bordeja o vale, cada vez mais inclinado e com mais calhaus. Atingimos o abrigo de montanha de Neltner, a 3207m de altitude, situado num vale onde abundam tendas em socalcos.

Cheguei primeiro. O Sérgio tinha ficado para trás. Fui saber as condições do local, e depois fui buscar-lhe a mochila. Estendeu-se sobre a vegetação fôfa, estoirado. Era o principio de uma febre. Montei a tenda e depois fomos comer. Entrámos no pequeno abrigo de montanha, repleto de montanhistas sentados em torno de uma grande mesa central, bordejada pela “cozinha” e por camas dos guardas. Comemos enlatados com vegetais para desenrascar.

O Sérgio teve que passar a tarde na tenda. Eu decidi ascender ao Toubkal, coisa que não fiz porque me enganei no caminho. Contudo, fiquei a conhecer o caminho de amanhã: um pesadelo, e ao mesmo tempo belo. O percurso tornou-se mais pedregoso, e de inicio mais inclinado. Passei por um desfiladeiro com quedas de água, e gelo no fundo em grandes mantos brancos. Atravessei um pequeno planalto, onde corria uma pequena linha de água e onde as mulas pastavam. Ouve-se o som estridente das gralhas que abundam por aqui (e não corvos!). Existe aqui muita gente a acampar. Os mantos de neve espalham-se por vários recantos das montanhas. O vale é largo, como que o de um antigo vale glaciário.

Ascendo a outro planalto, desta vez maior, a cabeceira da linha de água que vínhamos acompanhando desde ontem. Grande parte desta água provém do degelo, e como tal ela é gelada!

A diminuição do oxigénio com a altitude faz-se sentir: o coração bate muito depressa e tenho que fazer várias pausas.

Subo a montanha até Tízi n’Oumbous, a 4000m de altitude, um caminho sempre em S, muito inclinado e pedregoso. Junto de uma escarpa onde passo, subsiste neve. Do outro lado a paisagem é fantástica! A montanha deste lado ainda parece ser mais a pique! O caminho continua em direcção ao lago Ifni (espectacular), possivelmente um resquício de um antigo glaciar. Vejo ainda ao longe a paisagem montanhosa e desértica do sub-saara, onde subsistem alguns picos.

Pensando ser aquele o Jbel Toubkal, começo a subir um escarpado, mas não durante muito tempo, pois uma parede a pique barra-me a passagem. Com algum receio volto para trás. Terei talvez chegado aos 4050m.

Começo a fazer o caminho de volta para o abrigo. Vai ser quase impossível passar aqui de bicicleta, e com o Sérgio doente...

À vinda retempero-me de energias com a água fresca do riacho. Chego a Neltner e procuro saber quanto custa o aluguer de uma mula até ao lago Ifni. Falo com o Sérgio, e decidimos alugar uma mula, isto se ele estiver melhor. Cá está um sitio onde o animal domina claramente a máquina (aliás, aqui a máquina não serve para nada! É um estorvo. Que o digam as pernas e o resto do corpo, todo arranhado das pedras).

Jantamos no abrigo, numa imensa confusão (tivémos que estar à espera que um grupo de ingleses comesse primeiro!). Depois, numa noite escura como o breu, foi conseguir dar com a tenda ás apalpadelas, e a cerca de 150m do abrigo, numa paisagem pautada pelas pedras e irregularidades do terreno.

Esperamos dormir melhor esta noite (dentro da tenda e com uma cama fôfa de vegetação). Ouvem-se batuques vindos das tendas dos burriqueiros, com ritmos tradicionais da região.

 

 

 

17º DIA

 

15 km pela montanha

 

Mais uma noite que só visto.

O frio era intenso e o vento soprava forte. Apesar de o chão ser confortável, era demasiadamente inclinado, e não tínhamos posição para dormir.

Levantámo-nos bem cedo (para variar!). O frio não tinha diminuído de intensidade. O Sérgio melhorou, ao ponto de estar completamente curado!

Fomos tomar o pequeno almoço à casa abrigo, depois de tudo arrumado e transportado para perto desta. Pedimos uma mula. Disseram-nos que não havia nenhuma para o lago Ifni. Conseguimos arranjar quem nos levasse. Desmontámos as bicicletas (que foram muito maltratadas pelas cordas que as prendiam). A mula ficou pronta, apesar de a principio não querer levar as nossas bicicletas (as mulas têm pavor das nossas bicicletas, algumas entram mesmo em pânico, saindo do caminho para desespero dos condutores). Todo o nosso material ia dentro de dois cestos, onde as bicicletas e as rodas cabiam a custo.

Começou a ascensão. O carregador que conduzia a mula, transportava a mochila do Sérgio. Ascendemos rapidamente aos 4000m de altitude. É incrível como a mula vence aqueles desníveis em solo tão pedregoso!

Passámos um grupo de montanhistas vestidos a rigor, andando a passo largo.

Ao chegar a Tízi-n’Oumbous, começou uma formidável descida que nos levava ao lago Ifni. O desnível era impressionante (eu caí uma ou duas vezes!).

A dada altura o quadro da minha bicicleta ia ás costas do carregador, e o Sérgio ia agarrado ao rabo da mula para a controlar. Ele também transportou a minha bicicleta ás costas!

A paisagem era indescritível: seguiamos uma linha de água, que caía em quedas sucessivas, e onde havia grandes blocos de gelo junto desta. Uma grande fractura na montanha encontrava-se parcialmente coberta de gelo.

Havia vezes em que a mula se ia abaixo das pernas, e em que era preciso segurá-la.

Chegámos à base da montanha, numa paisagem caótica, toda cheia de calhaus. Depósitos de vertente abundavam por todo o lado. Dois antigos vales glaciários vinham unir-se aqui, onde agora resta uma passagem na montanha e o lago.

O lago Ifni é lindíssimo, muito azul, no meio de uma paisagem do tipo lunar. Possui uma grande extensão.

Comemos pão com sardinhas (para desespero do Sérgio!) juntamente com o carregador, numa pequena barraca de pedra, que serve para dar apoio aos poucos turistas que ali conseguem chegar. Voltámos a arrumar as coisas, e depois eu pude deliciar me a tomar um banho fresco naquele lago de montanha, a mais de 2500m de altitude.

Voltámos ao velho caminho de pedras no meio de uma paisagem caótica de grandes blocos (que inclusivamente obstruíam o caminho, por onde tivémos de arrastar as bicicletas. Ficámos desesperados. Só se via blocos e grandes montanhas.

Descansávamos à sombra de uma rocha, quando o Sérgio disse que ali não se ouvia nada  nem havia ninguém; nesse mesmo instante passou um marroquino, que nos disse que estávamos próximo da povoação. Ganhámos novo ânimo, que aumentou quando vimos um rio correndo junto de uma estrada de terra.

Quando lá chegámos deparámos com uma estrada péssima, cheia de cascalho e grandes blocos de pedra. Mas o rio lá estava, com as suas  águas geladas onde pudémos saciar a nossa sede e lavar as nossas feridas (causadas pelos pedais das bicicletas a roçarem-nos nas pernas). Tivémos a companhia de um jovem que nos pediu lápis (o que é costume por aqui), e se divertiu com a minha garrafa de água.

Embora o caminho fosse um pouco inclinado e dificil, já foi possível andar de bicicleta (finalmente!).

Dirigiamo-nos para um vale lindíssimo, farto em água e com uma grande cascata. As encostas das montanhas estavam cultivadas em socalcos, onde existiam aglomerados de casas em adobe, formando um cenário idílico.

Chegámos à aldeia de Imlil, onde dois indivíduos nos tentaram vender haxixe!

O caminho era muito lento, e os miúdos perseguiam-nos e agarravam-se ás bicicletas, o que é muito chato (chegámos a ter uns 15 miúdos a empurrar a bicicleta!). Numa aldeia, o caminho estava completamente inundado de água.

O vale é intensamente habitado, e contrasta com a rudeza e secura das montanhas envolventes.

Seguíamos o caminho para Ouarzazate sem saber onde nos encontrávamos. A noite começava a cair, e não conseguíamos arranjar um lugar discreto para dormir. Os turistas não abundam propriamente por aqui! Encontrámos um pequeno “hotel” à beira do caminho. O preço era de 60 DH, mas o Sérgio conseguiu desce-lo para 40 DH.

Pudémos tomar um banho morno (um luxo!). Prepararam os tapetes e os cobertores para dormimos no terraço. O dono andava numa grande azáfama para que tudo ficasse ao nosso gosto. Comemos os biscoitos que tínhamos comprado no lago (comprámos duas garrafas de água por 30 DH!) e bebemos um belo chá de menta.

A noite está excelente, amena e sem vento.

Constata-se que aqui não existe electricidade, pois com tantas aldeias não se vê nada na escuridão, a não ser a lanterna que me alumia.

 Os meus lábio estão uma lástima; cieiro deu cabo deles (estão inchados e cheios de feridas).

 

 

18º DIA

 

13 km

 

Acordámos bem cedo. Eu dormi muito bem, mas o mesmo não se pode dizer do Sérgio. Passou a noite toda a tentar ver que bicho corria por cima das nossas almofadas. Quando eu acordava, lá estava ele com a lanterna a observar atentamente o terraço.

Vieram dar-nos o pequeno almoço: chá e pão com ovos.

Quando estávamos a arranjar as nossa bicicletas, verificámos que a minha tinha um raio partido, e ainda por cima numa zona para onde não tínhamos ferramentas. O Sérgio esforçou-se, mas a dada altura quase toda a aldeia já nos tentava ajudar. Foi então que foram chamar alguém que eles diziam ser “o ciclista”. Quis tirar as peças à força, e a certa altura já os rolamentos rolavam pelo chão! Finalmente reconstruíram (mal) a roda, e nós, completamente estoirados lá nos pusemos a caminho. Parámos poucos metros mais à frente, para o Sérgio poder arranjar a roda.

O caminho mostrava-se muito lento e de dificil progressão, devido ao excesso de calhaus e de areia.

Chegámos famintos a uma aldeia. Contudo, um merceeiro (já velhote) abriu a porta do seu estabelecimento e ofereceu-nos pão, sardinhas, azeite e fruta fresca. Não nos deixou pagar a refeição!

Voltámos ao caminho para logo sermos assediados por um bando de miúdos, que nos acompanhou por alguns kms. Fomos inclusivamente acompanhados por homens, o que nos fez ficar alerta.

Pudemos descansar finalmente numa curva de estrada, com um vale rico em árvores. O Sérgio encontrava-se com graves problemas intestinais. Resolvemos desistir, e tentar apanhar uma boleia até Ouarzazate, num desses velhos camiões Berliet, que transportam pessoas e os seus pertences. Por azar, coisa que é comum, nenhum passou, a não ser algumas pessoas com os seus burros.

Resolvemos passar aqui a noite, sem comida, para arrancar amanhã bem cedo na esperança de arranjar uma boleia. Vamos tentar chegar a casa de transportes. O Alto atlas deixou-nos completamente estoirados, e este caminho parece não ter fim. Estamos a cerca de 49 km do alcatrão mais próximo. Algumas crianças que pastam cabras, observam-nos ao longe.

Mesmo no final da tarde, apareceu um homem que inundou todo o vale onde estávamos a pensar dormir! Tivemos que sair dali.

O dia acabava e nós fazíamos mais alguns kms entre aldeias cheias de gente, sem que houve-se um local para dormir. Entrámos numa loja e comprámos o nosso jantar: duas bolachas para cada um. Era tudo o que havia.

Finalmente conseguimos arranjar um local isolado, próximo de um charco com água, onde montámos a nossa tenda.

 

 

 

 

19º DIA

 

108,97 km  (6horas e 23 mins. Velocidade Média – 17 km/h)

 

O dia começou bem sedo, ainda o sol não tinha nascido. Já havia pessoas a passar na estrada.

Enquanto arrumava-mos a coisas, entretive-me a arrancar espinhos das rodas: um deles obrigou-nos a mudar o pneu duas vezes. Contudo o Sérgio também furou um pneu...

A paisagem é muito seca, quase lunar, encabeçada pelas altas montanhas do Atlas; nós seguimos por uma zona deprimida, entre este e algumas montanhas menores a sul. Aqui e ali aparecem pequenos cursos de água fresca e límpida, que são a nossa maios diversão, pois saciamos a sede e tomamos um banho refrescante

Em algumas aldeias ouvem-se mulheres a cantar, e quando passamos os miúdos correm atrás de nós, pedindo dinheiro ou lápis.

Parámos numa tasca para tomar o nosso pequenos almoço: muito pão, chá e ovos. Era uma casa rude mas muito bem conseguida, e o seu dono, um senhor de idade, mantinha-a funcional.

As nossa bicicletas são novidade nestas aldeias onde pouco se passa, a não ser a passagem de alguns jeeps, transportando turistas mais “radicais”. Chegam-se a juntar grupos de miúdos e graúdos para observar atentamente as nossas bicicletas.

Fomos prosseguindo muito lentamente, pois o caminho é muito dificil, com muita pedra, areia e buracos.

Almoçámos pão com queijo e duas garrafas de Fanta de 1,5 litros (refrescadas no rio que corria em frente ao café).

As aldeias sobressaem do resto, pois são feitas em adobe, e muita vezes o próprio tecto é também feito neste material. O substrato vai mudando do amarelo para o vermelho, passando pelo cinza.

Percorremos cerca de 40 km nesta estrada infinita. O final do percurso foi feito à velocidade limite, para não desfazer ainda mais as bicicletas.

O Sérgio pensa ter encontrado uma estação arqueológica à saída de Sour, e trouxe consigo aquilo que parece ser um biface, havendo também sílex e umas pedras arredondadas e lascadas.

Alguns kms antes de Agouim, descobriu uma zona com abundantes ágatas e algum quartzo ametista, donde aproveitámos para trazer algumas amostras.

Finalmente em Agouim apanhámos o alcatrão. Bebemos uma coca-cola de litro e fizemo-nos à estrada. E que estrada! Foram os 67 km mais rápidos da minha vida, até Ouarzazate. De inicio seguimos um rio, sempre a descer e depois entrámos numa enorme zona plana e seca, onde existiam inúmeros locais de venda de geodes de quartzo ametista e outros minerais.

Por fim entrámos numa zona montanhosa, mas muito rápida. Os últimos 30 km realizaram-se numa zona onde o deserto do Saara já se fazia sentir. Afinal, Ouarzazate é a entrada para o Saara.

Ouarzazate é uma cidade moderna, sem nada a mencionar. Para variar foi dificil dar com o parque de campismo, sempre escondido no canto oposto da cidade, e sem nenhuma sinalização.

Chegámos ao parque de campismo completamente exaustos: eu sinto-me muito fraco, e ainda por cima está muito calor. Vimo-nos aflitos para montar a tenda, pois o chão é muito duro.

A mulher do parque não nos quis fazer o jantar, pelo que comemos três bolachas cada um. Estamos exaustos, fracos e cheios de fome...

Resolvemos não desistir (não passou nenhum camião, e felizmente contamos apenas com as nossas pernas para poder progredir).

Este esforço para chegar a Ouarzazate vai-nos permitir ter o dia de amanhã para descansar e arranjar as martirizadas bicicletas (devem ter os parafusos todos soltos, principalmente a minha!). Vamos ainda preparar um nove percurso, uma vez que este atraso nos faria chegar muito tarde a casa, coisa que não desejamos mesmo nada! Vamos procurar um circuito por boas estradas, uma vez que as bicicletas estão cada vez piores. Vamos tentar evitar o deserto, e manter-nos próximo das montanhas, pois é mais fresco.

Encontramo-nos fisicamente e psicologicamente muito debilitados, mas decididos a levar avante esta aventura (pelo menos, até que um de nós ou as bicicletas quebre).

 

 

 

 

20º DIA

 

Dia de descanso

 

Dia de descanso e arrumação.

Acordámos cedo para ir à cidade tomar um revigorante pequeno almoço, que incluiu sumo de laranja e iogurte natural.

Arranjámos as bicicletas, fazendo uma pequena revisão.

Estamos extremamente cansados, mas é o Sérgio que se mostra mais em baixo.

Fomos almoçar, mas apenas encontrámos dois restaurantes a 1,5 km do parque, e ambos muito caros. Gastámos 90 DH numa refeição constituida por tajine de frango, que soube a pouco.

O dia tem estado cinzento, e chove de vez em quando. Para quem está ás portas do deserto do Saara...

O vento trás muito pó. Ouarzazate é uma cidade muito poeirenta. O centro histórico é pequeno, mas o seu Kasbah é, de facto, espectacular. É todo feito de lama, e extremamente bem conservado.

A meio da manhã entretivémo-nos a comer uma melancia. À tarde, após comprarmos um jantar de pão e doce de pêssego, e outros bens de primeira necessidade, o resto desta foi passado a dormir à sombra de uma árvore. Depois seguiu-se a lavagem da roupa, tão suja, tão suja! Foram sete dias de pó!

Passámos o final da tarde a descascar e a comer tabaibos. Embora já tivéssemos alguma prática a descascar estes frutos, não conseguimos evitar de ficar com as mãos cheias de espinhos.

O Sérgio preocupa-me: está apático, pensa em desistir... Modificámos o percurso para o conseguir fazer em 36 dias, sem grandes esforços.

 

 

21º DIA

 

Dia de descanso

 

Novo dia de descanso, desta feita já com as forças retemperadas. A noite foi calma.Levantámo-nos bem cedo e fomos tomar o pequeno almoço: iogurte natural e bolos, em dois cafés diferentes. Desta vez tivémos a feliz ideia de ir de bicicleta.

Comprámos postais para escrever à família toda, ao fim de oito dias sem dar sinal de vida. Fomos cambiar o resto do nosso dinheiro.

Passámos o resto da manhã a arrumar as coisas, e a deitar fora tudo o que não era necessário para irmos mais leves.

Almoçámos tajine de frango bem servido e barato, enquanto víamos um filme antigo marroquino.

Visitámos rapidamente Taorirt, principal centro histórico da região, mas sempre com poucos turistas. É um Kasbah espectacular, todo construído em adobe, com inúmeras torres decoradas com motivos tradicionais. À entrada existem guardas que acompanham a visita ao interior, coisa que não fizémos.

Decidimos ir a uma loja tradicional de bijutaria marroquina. Lá conhecemos dois jovens do deserto, de M’mahmid, que logo nos mostraram fotografias da sua terra e da sua família. Começou aqui uma tarde interessante, regada com chá de menta, em amena conversa de negócios. Nós falámos de Portugal e eles da sua terra. O Sérgio comprou uma adaga vinda dos artesãos do deserto do sul e uma cruz do sul. Eu comprei uma pulseira, uma cruz do sul e um punhal dos artesãos das montanhas. O trabalho em metal, pedra e madeira é fantástico, e uma pessoa com dinheiro perde aqui a cabeça. Eles dizem-nos que alguns objectos são de prata. Se estes objectos de arte são realmente feitos deste precioso metal,  então ainda aumenta mais o valor destes destes objectos, trabalhados por mãos ágeis das famílias de artesãos. Tirámos fotografias todos juntos,  vestidos a rigor com o fato de cerimónia e um longo lenço azul na cabeça, como os nómadas do deserto.

O parque de campismo fica junto do parque zoológico. Ao longe vê-se a enorme massa liquida de uma grande albufeira de barragem, o que dá um tom diferente à paisagem.

Passámos o resto desta agradável tarde ao sol, calor e vento poeirento, debaixo da nossa árvore a remendar pneus (cinco!), e depois debaixo da sombra de um toldo a atirar abaixo uma garrafa de coca-cola de litro.

Ao final da tarde fomos jantar ao nosso café habitual, uma grande sandes de manteiga e mortadela, iogurte natural e sumo de laranja.

Já montámos as mochilas nas bicicletas. Amanhã o dia começará cedo, e será longo, em direcção ás montanhas do Alto Atlas.

 

 

22º DIA

 

41 km

 

Levantámo-nos bem cedo, decididos a continuar viagem em direcção ao deserto.

Mal saímos de Ouarzazate entrámos numa paisagem estéril, pautada por pequenos relevos, onde os feitos do sol já se faziam sentir.

Aos tinta kms, quando tudo parecia correr bem, o Sérgio para a bicicleta junto de uma palmeira, próximo de um Ksar. Estava estoirado física e psicologicamente. O Atlas e as doenças tinham nos afectado profundamente.

Tentou fazer mais uns kms mas desistiu. Arrastou-se até Skoura, uma aldeia de pequenas dimensões, situada num palmeiral e com casas em adobe, rodeada por quatro torres ornamentadas. A nossa viagem de bicicleta terminava nesta vila.

Passámos o resto da manhã num café, onde comemos brochettes e salada.

Fomos para a estrada para mandar parar a camioneta que ia directamente para Errachidia. Aquelas camionetas velhas são castiças, todas cheias de gente e de tralha. As bicicletas fora no topo da camioneta. De inicio fomos de pé, pois não havia lugar sentado.

Atravessámos uma vasta região desértica, pedregosa, por vezes arenosa. De quando em vez, um passageiro saído do nada, ou alguém cuja casa ficava algures naquele ermo, mandava parar a camioneta.

Chegámos quase de noite a Errachidia. Os transportes em Marrocos são a toda a hora, baratos, desconfortáveis, mas para nosso contentamento, eficientes.

Tivémos a ajuda de um militar extremamente simpático, que nos orientou e se tornou um verdadeiro amigo!

 

 

Aitoulbazi L’houssoin

 

2en Q.E.G. Errachidia

Maroc

Tel. 05. 57. 31. 95

 

Conversámos muito sobre a vida em Portugal e Marrocos (ele vive numa pequena aldeia do Alto Atlas, e presta serviço em Errachidia).

 Tivémos de abandonar o nosso amigo militar (não sem antes nos ir oferecer duas coca-colas à camioneta), mas apresentou-nos um outro amigo seu que também ia na camioneta para Meknés.

A camioneta melhorou substancialmente, mas era muito desconfortável para dormir. Sempre que chegava a uma cidade, estava muito tempo parada, e eu pude conhecer outra pessoa simpática, um brigadeiro do exército real, que servia em Kemesset e tinha estado quinze dias de licença. Trocámos de impressões.

Não tínhamos tempo para mudar de roupa, nem para tirar aqueles calções de bicicleta, na ocasião ridículos.

À noite é quando estas cidades parecem ter mais vida, com um comércio efervescente.

Parámos para jantar numa pequena cidade. Fiquei a conhecer, a partir do meu amigo, algumas das ruas escuras e duvidosas deste antro regional de prostituição, onde se tem uma mulher por 20 DH... só visto!

Comprei o nosso jantar: uma enorme sandes de ovo e muitos condimentos, que destruiu o que restava do meu estômago!

 

 

23º DIA

 

Chegámos ás cinco da manhã a Meknés, da qual só tivemos a percepção da enormedimensão, e das avenidas marcadamente europeias.

Tivémos logo camioneta para Tânger. Foi uma viagem muito desconfortável para mim, cheio de dores. O Sérgio ia dormindo aquilo que conseguia.

Passámos numa cidade onde mal consegui come um croissant. Foi tudo o que comemos até agora!

Em Tânger, esta cidade pesadelo, quiseram-nos comprar as bicicletas (três pessoas!).

Os bilhetes para Algeciras custam 16 contos!

O Sérgio não conseguiu levantar dinheiro com o cartão visa, em nenhum dos sete bancos que visitámos. Assim tivémos que apanhar a camioneta para Sebta, a Ceuta espanhola, um antro sujo de Marrocos. Estávamos desertos por sair deste país dos sentidos. Porra!

Chegados a Sebta rumámos rápidamente à alfândega, carregada de gente, e onde ninguém nos inspeccionou as malas.

Dirigimo-nos o mais rápidamente para o porto de Ceuta, para apanhar o barco para a civilização... que bom não termos sempre gente em cima de nós! Que alivio!

Acabámos o dia, era meia noite a rodar pelas avenidas de Algeciras à procura do parque de campismo. Foi dormir até de manhã.

 

 

24º DIA

 

Levantámo-nos bem cedo, com sono e muita fome, e fomos s Algeciras levantar dinheiro. Voltámos ao parque para pagar e arrumar as bicicletas.

Fomos para a estação das camionetas (Que tivémos alguma dificuldade em encontrar). Seguimos de camioneta para Cádis, onde esperámos cerca de três horas pela camioneta para Huelva (almoçámos sandes com chouriço).

Chegámos a Huelva ao anoitecer. Comemos umas sandes num café e procurámos uma pousada barata para dormir. Conseguimos negociar com o dono da pousada (afinal tínhamos estado em Marrocos!), e ficámos os dois num quarto com uma cama pequena.

 

 

25º DIA

 

Levantámo-nos ao nascer do dia e fomos para a estação das camionetas. Comprámos o bilhete para Faro. Aí tomámos o pequeno almoço.

Chegadas as nove horas partimos para o nosso país, não sem antes Ter havido alguma confusão com o motorista, que não queria levar as nossas bicicletas.

A entrada em Portugal foi bastante festejada por nós.

Em Faro, o transporte das bicicletas teve de ser feito por comboio, chegando a Lisboa ás dez da noite. Nós esperámos pelo intercidades que partia ás duas e um quarto da tarde, e que nos levaria de regresso a casa... 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

FIM

 

 

 

 

 

 

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