DE BICICLETA ATÉ MARROCOS
DIÁRIO
DE UMA VIAGEM de loucos
POR CARLOS NETO DE CARVALHO E SÉRGIO SALTÃO
Em
Marrocos…
Quanto
mais pedalas, mais te dói…mas se páras morres!
(célebre
frase proferida por Sérgio Saltão no decurso desta viagem)
Quanto
mais malucos somos, mais longe vamos...
Sérgio
Saltão
OS PREPARATIVOS
MARROCOS
«Porta
de acesso ao Norte de África, este moderno reino é herdeiro do fabuloso reino
mouro»
Estrategicamente situado na entrada ocidental do mar Mediterrâneo, Marrocos está a um passo da Europa, mas a sua atmosfera é inconfundivelmente oriental, importante pólo de turismo europeu.
Presentemente,
Marrocos é um dos três reinos ainda existentes em África, sendo no entanto
firmemente pró- ocidental. Contudo, as suas pretensões sobre o Sara Ocidental,
território vizinho escassamente povoado, arrastaram Marrocos para uma guerra
prolongada e dispendiosa.
Com uma área aproximada de 458000 km2, Marrocos possui uma costa Atlântica de
1400 km e um litoral Mediterrânico de apenas 400 km. O território marroquino
apresenta nítidos contrastes: montanhas escarpadas, cujos cumes se cobrem de
neve no inverno; a inclemente aridez do Sara, e as zonas litorais, verdejantes e
cultivadas. O país é atravessado, de sudoeste para nordeste, pela cadeia do
Atlas, que se prolonga pela Argélia. Para norte das montanhas, estendem-se férteis
planícies ao longo da costa Atlântica; para sul, impera o deserto, com os seus
oásis dispersos.
No norte,as montanhas do Rif, verdejantes, de contornos suaves e bem irrigadas,
erguem-se a 2456 m e estão separadas do Médio Atlas pelo desfiladeiro de Taza,
parcialmente coberto por pinheiros, azinheiras e cedros. Mais a sul, em Toubkal,
o Alto Atlas atinge 4167 m. No sudoeste, o Antiatlas forma uma bordadura elevada
no limite do planalto do Sara.
No norte, o clima é aprazivelmente mediterrânico, com verões quentes e secos
e invernos húmidos e amenos. As temperaturas médias em Tânger variam entre 11ºC
no inverno e 29ªC no verão; em Marrakech, os invernos são mais amenos e os
verões ainda mais quentes. A
corrente fria das Canárias tempera o clima da costa Atlântica; em Essaouira,
por exemplo, as temperaturas médias variam entre 14 e 20ªC.
A vegetação natural varia desde os arbustos mediterrânicos no norte às
florestas que revestem a cadeia do Atlas; cerca de 12% do território são
cobertos de floresta. Nas vertentes meridionais do Atlas, mais secas, a escassa
vegetação acaba por dar lugar ao deserto.
Vivem em Marrocos 25 milhões de pessoas, a maior parte dos quais de ascendência
mista. Os Berberes descedem dos primitivos habitantes da região. A língua
oficial é o Árabe, falado pela maior parte da população, com excepção dos
Berberes, cuja antiga língua ainda predomina nas montanhas centrais.
Marrocos é ainda um país predominantemente agrícola: mais de metade da população
vive do cultivo da terra. Nas montanhas criam-se grandes rebanhos de gado ovino
e caprino. Apesar de tudo, profundas diferenças separam os níveis de vida da
população e existe muita pobreza. A maioria dos agricultores possui apenas uma
pequena parcela de terra do qual extrai o sustento para si e para
os seus familiares.
O turismo é uma importante fonte de rendimentos para o país.
Ceuta e Melilha são ainda hoje espanholas.
O rei Hassam, apesar de existir parlamento, é um monarca absoluto. Em 1975, o
rei Hassam organizou uma pacífica «marcha verde» na qual se incorporaram
350000 marroquinos desarmados que penetraram no Sara Espanhol (actual Sara
Ocidental), rico em minerais. Os Sarauís constituíram um movimento a favor da
autodeterminação, a frente Polisário, e lançaram-se numa guerra de guerrilha
contra Marrocos e Mauritânia, também potência invasora. Em 1979, este último
país desistiu das suas pretensões. O rei Hassan II é um desportista fanático.
Marrocos debate-se com graves problemas sociais, como o rápido crescimento
demográfico- na verdade, quase 50% da população tem idade inferior a 15 anos.
O índice de alfabetização dos adultos é inferior a 30%. Os cuidados de saúde
são insuficientes e existem relativamente poucos médicos.
Marrocos
de relance:
Superfície:
458730 km2
População:26500000
Capital:
Rabat
Governo:
Monarquia constitucional
Moeda:
Dirham= 100 cêntimos= 18$00; notas de 200, 100, 50 e 10 dirhams, e
moedas de 50, 20, 10 e 5 cêntimos
Línguas:
Árabe (oficial), berbere, francês, espanhol
Religiões:
Islâmica 99%; cristã 1%
Clima:
Temperado no litoral, quente no interior.
As
temperaturas médias em Rabat variam de 8-17ºC em Janeiro a 18-28ºC em Agosto
Produções:
cereais, produtos hortícolas, pecuária, madeira, peixe, fosfatos, ferro,
chumbo, manganês
Actividades
económicas: Agricultura, indústrias alimentares, têxteis, artigos de couro,
cimentos, vinhos, fertilizantes, silvicultura, pesca e indústrias extractivas
Locais
a conhecer:
CADEIA
DO ATLAS: Sistema montanhoso que se orienta da costa atlântica de Marrocos para
nordeste, numa extensão de cerca de 2250 km, até ao norte da Tunísia.
Consiste em vários alinhamentos de relevos grosseiramente paralelos. Em
Marrocos, estes constituem (de sul para norte) o Antiatlas, o Alto Atlas e o Médio
Atlas. O pico mais elevado do Norte de África- Djebel Toubkal ( 4167 m)-
ergue-se no Alto Atlas, em Marrocos.
CADEIA
DO RIF: Cordilheira costeira do NE do país que se estende por 320 km desde de
Ceuta a Melilha, separada das montanhas do Atlas Médio pelo desfiladeiro de
Taza. A zona muito desgastada pela erosão,com vales profundos e picos
escarpados,é de díficil acesso e tem servido de refúgio às tribos Berberes;
o ponto mais elevado é Thidirhine (2456 m).
ROTEIRO PREVISTO DA VIAGEM
1º
Dia: extensão - 169km
Amadora-Lisboa-
Almada- Setúbal- Torroal- Grândola- Ferreira do Alentejo- Beja (Parque de
campismo).
Observações:
Percurso muito extenso
para o primeiro dia, muito rápido devido ao excelente piso em asfalto numa região
algo plana. Inicia a cerca de 100- 200 m com a descida ao rio Tejo, com passagem
de barco para Almada. Segue-se a travessia da planície de Setúbal , passando
pelos contrafortes da serra da Arrábida, onde é atingida a maior altitude
desta etapa (pouco mais de 300m), onde se chega à cidade.
Por
ferrie passa-se o rio Sado para Tróia, a que se segue por extensa recta,
passando por Torroal até Grândola, e muito depois Ferreira do Alentejo. Daqui
se irá subir muito suavemente até Beja, onde termina a etapa, a cerca de 250m
de altitude.
2º
Dia: extensão - 139 km
Beja-
Serpa- Rosal de la Frontera- Sta. Bárbara- Cabezas Rubias- Calañas- Valverde
del Camino.
Observações:
Percurso muito rápido,
em plena planície Alentejana, passando por Serpa até à fronteira, próximo
Vila Verde de Ficalho, situada nos contrafortes da Serra da Adiça, a cerca de
300 m. O percurso mantém-se regular, passando
Sta. Bárbara, Cabezas Rubias e Calañas, exceptuando a passagem de uns poucos
rios, terminando em Valverde del Camino, a 273 m de altitude.
3º
Dia: extensão - 155 km
Valverde del Camino- La Palma del Condado- Sevilla- Dos Hermanas- Los Palacios y Villafranca- Las Cabezas de S. Juan- Embalse de Bornos ( Barragem).
Observações:
A etapa desenvolve-se em
plena planície Andaluza até Sevilha, atingindo o grande vale do Guadalquivir.
Visita ao maior edifício gótico do mundo, situado na cidade velha, a catedral
começada em 1402. Uma estrada ondulante leva até à barragem de Bornos, a
cerca de 300 m de altitude.
4º
Dia: extensão - 125 km
Embalse
de Bornos- Arcos de la Frontera- Paterna de Rivera- Alcalá los Gazules- Los
Barrios- Algeciras.
Observações: Grande parte da etapa é novamente feita em precurso mais ou menos plano, até Alcalá los Gazules, onde a partir daqui se sobe para as montanhas do parque natural de los Alcornocales, com cerca de 700 metros de altitude, passando por algumas barragens. A partir de Los Barrios existe uma rápida descida para Algeciras, junto ao mar. Passagem por ferrie para Ceuta, pelo estreito de Gibraltar, com 30 km de largo, onde serão tratadas todas as formalidades para a entrada em MARROCOS; a travessia é assegurada diáriamente, com duração de 1h30 m. Bilhetes na agência Transmediterranea, Recinto do porto. Possui parque de campismo.
5º
Dia: extensão - 97 km
Ceuta-Monte
Hacho-Ksar-es-Seghir-Cabo Malabata-Tânger- Cabo Spartel-Grutas de Hércules.
Observações:
Percurso ondulado
percorrido entre a costa e as colinas próximas.
O porto de Ceuta ( 80 000 hab.),
ocupa face a Gibraltar uma posição excepcional. A cidade, situada num lugar
espectacular, estende os seus imóveis de aspecto europeu sobre o istmo muito
estreito que liga o Monte Hacho ao continente. O Monte Hacho, com 124 m é
coroado por uma cidadela, El Desnarigado, é rodeado por estrada que oferece
belos panoramas. Na ponta E um fortim Português. A ermida de Sto. António, do
séc. XVI, com vista magnífica. Igreja de Nossa Senhora de África, alargada no
séc. XVII, catedral, séc.XVIII, e o monumental edifício da Câmara, todos
situados na Plaza de África; antigo forte Português, no centro da cidade, com
o fosso de S. Felipe, que corta o istmo, tornando Ceuta uma ilha. Mais para E
uma série de baías isoladas culminam em Ksar-es-Seghir, onde uma fortaleza
portuguesa, do séc. XVI, em ruínas, está a ficar soterrado nas dunas. Cabo
Malabata, a 12 km de Tânger, com belo panorama sobre a cidade, o estreito, o
oceano e as costas de Espanha. É uma área de praias. Tanger: cidade de África
mais próxima da Europa. Cidade em anfiteatro
situada numa baía admirável, antiquíssima. Um clima ameno, uma grande e bela
praia, ladeada de restaurantes de peixe e bares de tapas, e farta vegetação
envolvente, e um importante equipamento hoteleiro fazem desta, uma cidade muito
frequentada. O centro de Tânger é o mercado muito concorrido do Grande Socco,
animado e pitoresco, é uma rua cheia de mulheres do campo a vender os seus
produtos, e possui cafés baratos, situado junto à cidade antiga,dominada pela
sua Kasbah (cidadela) com as monumentais portas Bab er Raha e Bab el Aissa, onde
fica o Dar al Makhzen (palácio do sultão). Na cidade antiga ergue-se ainda a
Grande Mesquita, do séc. XVII. Jardins do tribunal de Sadad; junto da entrada,
à direita, uma bela árvore, velha de oito séculos, dizem. Ao fundo deste
parque, uma bela colecção de canhões de bronze, portugueses e espanhóis, do
séc. XVII e XVIII. A praça do Kasbah, onde, à esquerda uma plataforma oferece
belo panorama sobre o oceano, as costas marroquina e espanhola. Borj el Marsa, o
fortim do porto está transformado num belo miradouro. Mesquita Sidi Bouabid,
revestida de riquíssimos azulejos, com um elegante minarete. À beira-mar
encontra-se uma série de divertidos e mal afamados bares de petiscos e
grelhados de peixe, e que vendem sandes durante todo o dia (parque de campismo
alternativo).
Entre o cabo Malabata e o cabo Spartel, numa extensão de 22 km, alinham-se
praias e baías rochosas de onde se avista Espanha.População:267000. ( existe
mapa). Cabo Spartel, o extremo NW do continente Africano oferece belos
panoramas. A costa é muito escarpada, pejada de escolhos, e com praias de areia
fina. Grutas de Hércules, curiosas cavidades na falésia, umas naturais, outras
feitas pelo Homem no calcário duro, para o fabrico de mós.
A 500 m das grutas de Hércules descer até junto da praia, onde se situam as ruínas
da cidade de Cotta, de origem Cartaginesa, e mais tarde Romana. Observam-se os
restos de um pequeno templo e das termas. Uma série de covas profundas indicam
uma antiga fábrica de “garum”. Procurar
parque de campismo, com o mesmo nome.
6º
Dia: extensão - 82 km
Grutas
de Hércules- Asilah- Lixus- Larache
Observações:
Percurso plano e rápido em estrada principal, sempre próximo do litoral.
Asilah: 18 781 habitantes.
Moussem em Agosto. Asilah é uma cidade sossegada, com um bairro antigo caiado
de branco, circundado de muralhas portuguesas do séc. XVI e uma bela praia que
se estende para Norte. Grande praia com enormes angras negras; muralhas junto ao
mar, construídas pelos Portugueses no séc. XV, com a Porta da Terra, a Porta
do Mar, junto da torre El Kamra; avenida Hassan II acolhe o mercado à Qunta-
feira (existe mapa da cidade). Torre vermelha do kasbah. Palácio de Raisuli,
ex-libris da cidade. Túmulo, cais e cemitério de Sidi Mansour. Lixus é uma
cidade romana em ruínas, situada no topo de uma colina que domina a margem
direita do rio Loukos. Foi ocupado a partir do Neolítico, até ao séc. VII
(existe mapa). Existe um guia residente.
O bairro industrial estende-se ao longo da actual estrada de Tânger, junto dos
restos do porto no rio Loukos. Era a mais importante industria de salga romana
de Marrocos; subindo ao topo da colina por estreito caminho encontramos o teatro
romano, único em Marrocos, um mosaico do deus Oceano, junto da arena, a acrópole
e os restos das termas, o grande templo, de onde se observa belo panorama, e os
restos de uma igreja datada dos primeiros séculos da era cristã. Larache: 63
893 hab. Situada na embocadura do rio Loukos, com extensa área de lezíria e
aluvionar, Porto de pesca, a 70 km a SW de Tânger. Tem um forte do séc. XVII,
chamado Forte das Cegonhas, devido aos ninhos que estas aves fazem nas suas
torres. Situa- se num avançado rochoso, dominando o mar. Visitar a Médina e o
Zoco de la Alcaiceria (souk). Ao fundo deste a porta do Kasbah, antiga. Muralhas
da cidade em ruínas, dominadas por um minarete antigo. Procurar parque de
campismo.
7º
Dia: extensão - 135 km
Larache-
Kénitra- Mehdiya
Observações:
Percurso mais ou menos
plano, muito extenso.
Uma lagoa salgada visitada por flamingos, o Lago de Merdja Zerga, onde se podem ver muitas espécies de aves. Mehdiya fica situada a 7 km da moderna cidade de Kénitra ( na estrada para Mehdiya plage, a cerca de 5 km virar à esquerda. Fica situada na embocadura do rio Sebou esta antiquíssima cidade em ruínas, de fundação cartaginesa e ocupação romana. Kasbah em ruínas, com porta robusta. Ruínas do souk. Mesquita muito arruinada. No bastião NW um alinhamento de velhos canhões. Daí oferece belo panorama sobre o estuário do Sebou (existe guarda). Próximo existe praia extensa e larga. Próximo fica o lago de Sidi Bourhaba, maravilhosa reserva de terrenos pantanosos, com nidificação de numerosas espécies de aves, algumas ameaçadas. Procurar parque de campismo.
8º
Dia: extensão - 40 km
Kénitra-jardins
exóticos-Salé-Rabat
A 13 km de Rabat encontramos os espectaculares jardins exóticos de Rabat-Salé,
numa estreita faixa arenosa da costa.. Este possui dois precursos alternativos,
devendo- se seguir o da flecha de fundo branco, que segue um precurso acidentado
que deixa vislumbrar cerca de 1500 espécies e variedades de plantas exóticas
ornamentais originárias de várias regiões tropicais do mundo, através de
pontes e estranhas construções em mau estado ( aberto das 9 às 18h30m). SALÉ:
Porto atlântico e subúrbio de Rabat, à qual é ligado por ponte e carreiras
de ferries que cruzam o rio Bou Regreg. Tem uma mesquita do séc. XII. Na
rua da grande Mesquita existe um bairro burguês, onde se pode observar casas
com portais Renascença. Faculdade alcorânica fundada em 1341, com magnífico
portal, uma porta monumental (Bab Mrisa), do séc. XIII,em tempos uma porta marítima,
o pitoresco souk el Ghezel e muitos exemplares de arquitectura dos sécs.XIII e
XIV. Marabout de Sidi Abdallah ben Hassoun, elegante mausoléu construído no séc.
XIX. Cemitério muçulmano, muito vasto, que separa a cidade do oceano, é um
espectáculo curioso com as suas inúmeras estelas, das quais algumas são
pintadas de cores vivas. Marabout de Sidi ben Achir, com uma cúpula branca.
Fortim NW, com alinhamento de velhos canhões de bronze, ingleses e espanhóis;
termina com uma torre, do cimo da qual o panorama é magnífico sobre o oceano,
o estuário do Bou Regreg, as cidades de Rbat e Salé. População:290000.
(existe mapa).
RABAT:
Capital à beira do Atlântico, junto da foz do rio Bou
Regreg. Mais turbulenta que Casablanca, mais prestigiada que Fès, mais violenta
que Marrakech. A cidade antiga está rodeada por ameias do séc.XII e possui
muitos bazares onde se vende larga gama de artesanato. Porta monumental de
Oudaias, construída no mesmo século, considerada uma obra prima da arte islâmica.
Dali próximo existe um belo panorama sobre o Bou Regreg, e sobre o grande cemitério
muçulmano que desce a colina da cidade em direcção ao mar. Kasbah dos Oudaias:
rua Souika, artéria principal da Médina, muito animada- souk de Sebat. Rua dos
Cônsules, com o souk de Ghezel. À esquerda da praça do souk, o museu etnográfico
de Oudaias, com porta de acesso na muralha, decorada com dois canhões. Edifício
dominado por uma torre maciça, construído no final do séc.XVII. Jardim de
Oudaias, fortificado. No muro E, uma porta dá acesso ao terraço de um café
mouro que domina o Bou Regreg; saboreia-se aqui o chá de menta, com uma vista
muito bela sobre Salé. Existem belas praias nas proximidades. Do kasbah à
Avenida Hassan II, passa- se pela mesquita Moulay el Mekki, com elegante
minarete octogonal. Passa-se depois pela Bab er Rouch, séc.XII, muito
interessante. Palácio do Rei, rodeado de muralhas, com grande porta monumental,
residência actual do rei Hassan II ( possível visita ao exterior); mesquita
Ahl Fas onde o rei vai em grande cortejo, todas as 6ªs feiras, das 12:30 às
13:00. Ruínas da Mesquita Hassan e do mausoléu Mohammed V, dela resta um cemitério
de colunas e um minarete inacabado, daquilo que era para ser a maior mesquita do
Ocidente, construída no séc. XII. Cobre uma área de 2,5 ha as 400 colunas e
as 14 portas; no centro, a torre Hassan, com 44 m de altura. Mausoléu de
Mohammed V, em estilo tradicional. Fora das muralhas fica Chellah, cemitério Árabe
do séc.XIV, possui um isolamento Maria, Jawhara Plage, km 30 da estrada de
Casa, a 15 km de Témara, com excelente praia ( Campismo em Salé Camping Sun
Dance Village).
9º
Dia: extensão - 107 km
Rabat-
Mohammedia- Casablanca
Observações:
Percurso plano, sempre
junto à costa e às numerosas praias, o último dia ao abrigo do “ameno”
clima da costa Atlântica.
MOHAMEDIA: Porto e estância
de veraneio a 25 km N de Casablanca. Pequena cidade antiga que se aninha atrás
das muralhas baixas de um forte português do séc. XVI. Foi uma posição
portuguesa, e ainda restam alguns edifícios dessa época no bairro antigo, o
kasbah de Fédala. O seu porto fica numa bela baía, protegida a W por dois ilhéus
rochosos, hoje com ligação a terra; População: 105000. Cidade moderna e a
mais europeia de Marrocos, Casablanca é a 4º maior cidade de África, com
cerca de 3 500 000 hab. (existe mapa da cidade). O centro de artesanato, na Av.
de Bordéus (objectos em couro, cerâmica, tapetes, bordados e madeira). Medina
nova com mercado fervilhante. Igreja de Nossa Senhora de Lourdes, moderna, vale
a pena visitar (excepto Domingo). A Cornija, a 15 km, junto ao mar, no lado W da
cidade: seguir pela Av. dos Almóadas, passando pelas praias e por um bastião
armado com velhos canhões, até à mesquita Hassan II- a segunda maior mesquita
do mundo. Encastrada no eixo da fachada sul, o minarete, equipado com um raio
laser queatinge 30 km, indicando Meca, culmina a 200 m acima do mar. Procurar
parque de campismo Oasis.
10º
Dia: extensão - 75 km
Casablanca-Âin
Diab- Berrechid- Settat
Observações:
Seguindo a estrada da
mesquita, junto ao mar, e a poucos km, situa-se a estância balnear de Ain- Diab,
próxima de uma ponta de onde se observa bela vista sobre o oceano e a costa,
com praia de 3 km. Aqui próximo fica o marabout muito frequentado de
Sidi-Abd-er-Rahmane, muito venerado, assente num pitoresco rochedo acessível
apenas na maré baixa. Regressar à estrada S 114. A
partir daqui o percurso torna-se monótono, muito rápido, sobre boas estradas
até Berrechid, e depois ascendendo ligeiramente até Settat, com 361 m de
altitude. Procurar um espaço na mata junto da cidade bem discreto para acampar.
11º
Dia: extensão - 99 km
Settat-Mechra
Benâbbou-Skhour Rehamma- Ben Guerir
Observações:
A estrada torna-se mais
montanhosa. Em Mechra-Benâbbou passa-se sobre a Albufeira de Oum, ascendendo
depois para Skhour Rehamma, a 500 m de altitude. Sempre ondulante o percurso
termina em Ben Guerir, uma zona de exploração de fosfatos, onde ter-se-à de
buscar abrigo atrás de alguma colina para se puder acampar.
12º
Dia: extensão - 72 km
Ben
Guerir-Sidi Bou Othmane- Marrakesh
Observações:
O percurso é feito por
estrada principal, subindo sempre ligeiramente até cerca dos 700 m de altitude,
pouco antes de chegar a Marrakech, para o qual se desce.
MARRAKECH: Situada a 453 m de altitude. Cidade imperial e capital do Sul, é
rodeada por um vasto oásis de palmeiras, o mais septentrional de Marrocos, e
fica num importante entroncamento no sopé do Alto Atlas, num pano de fundo
semelhante aos Himalaias, 220 km S de Casablanca (existe mapa).
A cidade é o ponto de encontro das culturas Berbere, africana e árabe,
numa fascinante mescla de cores, sons e actividades, aqui se confunde o medieval
com o que há de moderno; é um enorme centro de artesanato, e o destino
preferido pelos visitantes. Os souks que se espalham pela Médina possuem
vendedores que vêem de todos os cantos do Sul do país.Possui um vastíssimo
Kasbah. A Praça de Djemaa el Fna fervilha de animação: encantadores de
serpentes, acrobatas, contadores de histórias. Nos bazares, artífices fabricam
artesanato. Existem vendedores de laranjas e do seu sumo, de especiarias, de
frutos, de nozes, de ervas raras, de amuletos, de água…; ao entardecer a
confusão ainda aumenta mais; para comer à noite, bolo de batata, couscous e
espetadas. Avultam as muralhas da cidade, do séc. XII, com as suas 9 portas, 19
km de perímetro e 202 torreões, com tons rosados fortes; o minarete da
Mesquita Koutoubia, de 70 m de altura, séc.XII; porta Bab Aguenaou, contemporâneo
da Koutoubia, vizinha da porta Bab er Rob. A primeira é um belo exemplo da
porta monumental álmoada; o Mausoléu do Soberano e a universidade religiosa de
Ben Youssef, a maior do Maghreb, do séc.XVI; mesquita El-Mansour, séc. XII,
com um minarete muito grande. À direita da mesquita, uma rua estreita conduz à
entrada dos túmulos Sádidas, pequeno cemitério com
esplêndidos mausoléus, onde repousam os membros desta dinastia, construídos
no séc.XVI (9-11:45 e 14:30-17:45;10DH); El Badia foi edificada no final do séc.
XVI, encontrando-se em ruínas. No interior deste palácio existe hoje um
laranjal; Parque Ménara ( a cerca de 2 km para W de Bab Jdid), enorme reservatório
de água do séc. XII ( aberto todos od dias atá ao pôr-do-sol, e ainda muito,
muito mais para ver da cidade mais pitoresca e procurada de Marrocos… População:
440000. Procurar parque de campismo Municipal (Av. De France).
13º
Dia: extensão - 64 km
Marrakesh-
Tahanaoute- Gorges- Asni-Imlil
Observações:
Dia marcado pela lenta
ascenção aos contrafortes do Jbel Toubkal.
Quase a 1000 m de altitude situa-se Tahanaoute, típica vila berbere, no flanco
do vale do Reraia, à entrada de um desfiladeiro ( mercado à terça-feira).A
cerca de 5 km de Asni a estrada entra na montanha estreitando-se, bordejada por
pinheiros, em pleno desfiladeiro de Moulay-Brahim, abrupto e selvagem, cavado
pelo rio Reraia. Por aqui se chega a Asni. A 1150 m de altitude, com 12308 hab.,
ocupa um lugar muito belo, nas proximidades de J. Toubkal, que fecha o vale a
sul, vale constituído pela junção de dois rios, e aproveitado para olivais;
pitoresca vila berbere, situada junto a um Kasbah vermelho. Mercado ao sábado.
Subida por estrada alcatroada cerca de 10 km, e depois mais 7 km por estrada de
terra até Imlil, a 1740 m, onde finaliza. A aldeia de Imlil é o centro de
montanhismo do circundante Parque Nacional Toubkal. Existe parque de campismo.
14º
Dia: extensão - 15 km
Imlil-Aremd-Neltner-J.
Toubkal
Observações:
Terrível ascenção ao
Jbel Toubkal, com 4167 m de altitude, o ponto mais elevado de África do Norte,
constituído por rochas graníticas, sem vegetação. Pode subsistir alguma
neve. A rudeza das grandes muralhas é impressionante.. A paisagem cultivada
pelo Homem, torna-se agora mais selvagem. A partir daqui a escalada demora cerca
de 11 horas. Até ao circo deAremd é uma hora por caminho, e mais 5 horas até
ao abrigo de Neltner, a 3 207 m , onde, se as coisas já eram terríveis,
tornam-se a partir daqui um pesadelo, pois é a partir daqui que começa aascenção
própriamente dita. O caminho leva ao alto vale do Ait- Mizane e passa junto do
marabout de Sidi- Chamharouch. São mais 5 longas horas até ao cume, donde se
avista um imenso e incomensurável panorama sobre os cumes do Alto Atlas.
Procurar refúgio para montar acampamento.
15º
Dia: extensão- +- 70 km
J.
Toubkal- Tizi n`Ouanbuns- Imlil- Mezguemnat- Tiourar- Sour- Agouim.
Observações:
Precurso muito díficil mas extremamente radical, em plena cumeada do Alto
Atlas, sempre em declive descendente. Do cume da montanha desce para o lago de
Ifni, por caminho. Um banho a cerca de 3500 m de altitude dará ânimo para
prosseguir por estrada de terra considerada perigosa até Mezguemnat, onde se
vira para Sour, que se alcança através de longo estradão de terra pelas
montanhas. De Sour a Agouim desce-se por uma estrada um pouco melhor, onde se
puderá acampar junto a um ribeiro próximo, a cerca de 2000 m . À saída de
Agouim, vasto panorama sobre os mais altos cumes do Atlas.
16º
Dia: extensão - 42 km
Agouim-
Aguelmous- Telouèt.
Observações:
Em Irherm-n-Ougdal, a
1970 m de altitude, é uma vila típica do Alto Atlas, com as suas casas baixas,
como que encravadas na montanha. Uma fortaleza domina a vila, de dimensões
modestas. Existe guarda. Pouco antes do cruzamento para Telouèt a estrada de
montanha passa a 2210 m de altitude. Uma estrada de terra deambula através de
uma região selvagem picotada de florestas. Ruínas do palácio de Telouèt,
no kasbah situada num planalto no flanco da montanha. O dia finaliza a 1800 m de
altitude, junto a esta aldeia admirável; acampamento em zona abrigada e
discreta.
17º
Dia: extensão - 88 km
Telouêt-
Âit Benhadou- Ouarzazate
Observações:
Precurso muito rápido e irregular em caminhos de montanha de diferentes tipos,
concerteza em mau estado. Desce-se do Alto Atlas para o planalto onde o Saara
tem a sua fronteira.
Ksar de Âit Benhadou, situado na margem direita do Mellah, no flanco de uma
colina dominada pelas fortificações em ruínas,considerado património mundial
e o mais belo do sul de Marrocos, com muralhas em adobe vermelho, encontra-se
parcialmente em ruínas e aqui habitam apenas algumas dezenas de pessoas; no
parque de estacionamento vendem-se fósseis da região. Kasbah de Tiffoultoute,
situado num ponto alto árido, domina o vale cultivado do oued Ouarzazate,
ponteado de palmeiras. Fortaleza com 250 anos, da cor da rocha onde assenta, nos
seus pés acomodam-se muitas casas, muitas das quais em ruínas. A entrada é
feita por uma passagem estreita entre duas portas que conduzem ao interior da
vila, onde vale a pena demorar a visitar. Foi recentemente transformado em
restaurante marroquino, com danças tradicionais desta região ( visita
acompanhada, ¼ ; 10 DH, com chá). Ouarzazate, a 1160 m de altitude, encontra-
se em franco desenvolvimento turístico, para ser uma alternativa à abarrotada
Marrakesh, possuindo inúmeras infrastruturas para tal.17 227 hab. Souk ao
domingo. O contraste é enorme entre o Alto Atlas, com os seus relevos
grandiosos, suas florestas, sua frescura, e o vasto planalto desértico onde se
eleva a cidade, anunciadora do vizinho Saara. Próximo observa-se a grande
albufeira da barragem El Mansour Eddahbi. Kasbah de Taourirt, a 1,5 km a E, é
pela sua importância, sua arquitectura e decoração, um dos mais belos de
Marrocos. Imponente vila fortificada. As casas, erigidas em massa compacta junto
do oued Ouarzazate, onde vivem algumas centenas de pessoas. Do terraço do palácio
em ruínas de Glaoui, um panorama formidável sobre a vila fortificada, o vale e
seus oásis, e as montanhas cerrando o horizonte. Possui uma cooperativa
artesanal. Visita acompanhada, de ½ hora, das 8 às 18 horas; 5 DH. Procurar
parque de campismo Municipal em Ouarzazate.
18º
Dia: extensão - 110 km
Ouarzazate-
Agdz- Tansikht- Igdâoun
Observações:
Partindo de Ouarzazate a estrada insinua-se pelo Jbel Tifernine, extremidade
oriental do Anti- Atlas. A paisagem é agora quse exclusivamente constituída
por rocha. Até Agdz o percurso é sinuoso, com bermas instáveis, à beira de
precípicios. Subida a Tizi-n- Tinififft (1660 m ), donde se podem avistar belos
panoramas sobre o Alto Atlas, e belos vales, sem água. Por uma impressionante
descida, chega-se ao vale do Drâa ( oued nasce perto de Ouarzazate, perdendo as
suas águas nas areias do deserto, centenas de km depois). Agdz fica situada num
lugar espectacular, dominado pela cidadela, vermelha, junto ao Jbel Kissane.
Aqui vende-se objectos esculpidos em pedra.
A estrada acompanha o oued, entrando no óasis que vai desde Agdz a Mhamid, com
200 km de extensão. O Drâa corre por este oásis ininterrupto mas estreito. O
fundo do vale é um jardim encantador. Entre os palmeirais surgem os Ksour,
aldeias tradicionais comunitárias fortificadas, que se vão sucedendo. Para
tentar escapar às razias dos nómadas, os sedentários do vale agruparam-se nos
ksour, protegidos por altas muralhas, flanquedas de torres. Hoje em dia, alguns
estão desertos e outros em ruínas; uns são muito trabalhados, outros muito
simples, confundindo-se admirávelmente com a paisagem. Próximo, deve
atentar-se para os curiosos cemitérios berberes com grande número de pedras
trabalhadas. Numerosos burgos elevam-se no bordo da estrada, ou ao fundo do
vale: as casas muralhadas de Tamnougalt, um dos mais típicos, antiga capital
dos berberes, Timidert um antigo kasbah…
A estrada vai-se elevando oferecendo belos panoramas sobre o óasis dominado
pelo Jbel Kissane, e sobre o maciço desolador de Sarhro. Oulad-Âtmane é um
ksar algo arruinado, ocupando uma posição dominante à direita da estrada. Igdâoun
é um ksar espectacular pela sua extensão, e altura das suas torres, em forma
de pirâmide truncada. Por parecer desabitada será um lugar ídilico para
passar uma noite única, numa fortifiação fabulosa e lendária, num oásis de
palmeiras, em pleno deserto do Saara…
19º
Dia: extensão - 83 km
Igdâoun-
Tansikht- Tazzarine
Observações:
Retorna-se pela mesma estrada, subindo até ao cruzamento de Tansikht. A cerca
de 1300 m de altitude a estrada percorre os contrafortes do Jbel Sarhro, sem
vegetação, até se chegar a um palmeiral que bordeja um conjunto de oueds.
Descendo paralelamente a estes chegamos a Tazzarine.
Acampar
próximo da estrada, em lugar discreto.
20º
Dia: extensão - 104 km
Tazzarine-Alnif-
Mecissi
Observações:
A estrada prossegue
acidentada pelas vastas regiões desoladas. Em Alnif existe água potável.
Mecissi é um pequeno sítio, onde existe água potável, e onde culmina esta
longa etapa. Acampar próximo da estrada, em local discreto.
21º
Dia: extensão - 70 km
Timerzif-
Rissani (Tafilalt)
Observações:
A longa estrada
prolonga-se através dos vastos planaltos quentes e secos do sub-saara. Em
Tikkert-n-Ouchchane passa-se à cota de 839 m.
Esplendor de Sijilmassa, a
primeira grande cidade de Marrocos, cheia de história, antiga capital da África
Ocidental, rota de caravanas do ouro, declinou brutalmente no séc. XIV, e foi
inteiramente destruída no séc. XIX. Restam as ruínas e panos de muralha,
parcialmente cobertos pelas areias.Poucas centenas de metros depois chega-se a
Rissani, antigo ksar, capital do Tafilalt, com mercado aos domingos, 3ªs e 5ªs.
Vasta praça do souk, onde o mercado se faz sobre arcadas vermelhas, com bijútarias
e objectos rústicos. Tornou-se à alguns anos ponto de interesse de cientistas
e caçadores de fósseis, abrindo- se o comércio destes, apanhados no deserto.
TAFILALT: Com 1375 km2 é o maior oásis sariano do país, e as suas aldeias
fortificadas e pomares de tamareiras estendem-se ao longo de 50 km do vale do
Ziz, perto de Erfoud. População: 70 000 hab.
Situa-se
na região Sul Marroquina, numa zona desértica imensa .
A maior parte da área é constituída por planaltos secos, nus, rochosos,
boleados pelos ventos; ou então são áreas cobertas de “ergs”, cujas
dimensões são ainda modestas em Marrocos. Os “oueds”, por evaporação e
infiltração perdem praticamente toda a água.Os oásis são raros, um dos
quais é Tafilalt, com uma sucessão de palmeiras. Aí começa o domínio dos
grandes nómadas cameleiros.
Tafilalt situa-se entre os oueds Rheris e Ziz, que aqui correm paralelamente.A
irrigação permite alimentar o vasto palmeiral, que produz frutos para exportação,
embora grande parte seja ali consumida ( base de alimentação do Filali, o
habitante sedentário do Tafilalt, como do nómada vizinho). Com o agravamento
das condições climatéricas, os palmeirais e os ksour estão a ser
abandonados.
As pistas do Tafilalt não oferecem dificuldades, salvo em períodos de intempérie.
Penetra-se no grande palmeiral, com os seus ksour e seus jardins. O caminho
prossegue agora por dentro do palmeiral.
O ksar de Tinrheras situa-se no topo de um escarpado, e oferece um espectacular
panorama sobre todo o palmeiral, o Alto Atlas ao longe (NW), a linha horizontal
do deserto de Guir a E, e as dunas do erg de Chebbi a SE. Acampar no palmeiral.
22º
Dia: extensão - 70 km
(Tafilalt)-Merzouga-
Algures no erg Chebbi
Oulad
Abdelhalim é um dos mais belos ksour do Tafilalt, com uma entrada monumental.
Ksar Akbar, muito arruinado, fortaleza construída no séc. XIX, guarda o túmulo
sagrado de Moulay-Ali-Chèrif, numa moderna mesquita branca. A pista sai do oásis
em direcção ao deserto ardente. Aqui pode conhecer-se verdadeiro deserto,
aproximando-nos do erg de Chebbi, com dunas com 100 m de altura, e passando por
desertos de calhaus até Erfoud. Antes de chegar a Merzouga o caminho passa em
Dayet Srji, um deserto salgado que seria um lago. Acampamento no erg de Chebbi,
a cerca de 3 km do povoado, entre as dunas, talvez o mais solitário, agreste e
fantástico acampamento da viagem.
23º
Dia: extensão - 109 km
Algures
no erg Chebbi- Erfoud- Source bleue de Meski
Observações:
Vale a pena ver o nascer
do sol sobre as dunas, areia, areia a perder de vista. A viagem prossegue pelas
famosas pistas do deserto.
A 20 km de Erfoud, junto da pista que
segue para Merzouga, pode ver-se uma jazida de fósseis marinhos: Goniatites,
Orthoceras e Phacops, em lajes maiores ou menores, que vão a
polir, e são utilizados como pedra de mesa ou para outros fins
decorativos.Cercada de tamareiras e palmeiras, situada junto do oued Ziz. Erfoud
é uma cidade de construção recente, animada pelo grande mercado diário, que
se situa na grande praça central. População: 10 124 hab. Situa-se a 802 m de
altitude. A praça da cidade é ladeada por um mercado de tâmaras e fósseis, e
é dominada pelo Forte Este, um castelo no alto do monte, a 935 m de altitude. O
rio Ziz cortou um vale profundo e escarpado na região já quase desértica,
mas, nas suas margens, há palmeiras e outra vegetação. A cidade é dominada
por castelo em ruínas. A partir de Erfoud a estrada acompanha as margens do
oued Ziz, cercada de ksour e kasbahs. Antes de Borj-Yerdi, belas dunas de areia
cercam o oued. A estrada é um contraste entre o verde do palmeiral, e o deserto
rochoso em volta.
A nascente de Meski alimenta uma piscina inserida no palmeiral luxuriante, onde
se pode acampar (nascente 2 DH). Lago de nascente cheio de carpas, no meio do
deserto. É dominada por um penhasco onde se situa o ksar de Meski, em ruínas,
desabitado, na margem oposta. Procurar parque de campismo La Source Bleue, e
aproveitar bem a nascente para tirar o pó acumulado ao longo dos últimos dias
do deserto.
24º
Dia: extensão - 92 km
Meski-
Er Rachidia- Gorges du Ziz- Rich
Observações:
Er Rachidia é uma cidade moderna, a 1060 m de altitude. A partir daqui começa-se
a subir de novo para o Alto Atlas.
A estrada contorna as margens sinuosas da albufeira da barragem de Hassam
Addakhil, de águas verde esmeralda, a contrastar com a paisagem rochosa
adjacente.
Gargantas do Ziz, paisagem selvática apertada, bordejada por palmeiral, onde o
rio corre muito encaixado por um longo corredor entre montanhas, dominado pelo
ksour e kasbah de Ifri. A estrada irrompe a montanha calcária, pelo túnel do
legionário. Passando a cidade de Rich acampar na montanha, em local discreto
junto da estrada.
25º
Dia: Extensão - 85 km
Rich-
Midelt
Observações:
Poucos km após o início
desta etapa, a estrada, em ascenção, passa a cerca de 1369 m de altitude.
Junto do desfiladeiro de N`zala
aprecia- se o vale do oued Ziz, que a estrada segue, com numerosos kasbahs que
dominam os meandros encaixados do rio. A estrada sobe em direcção ao
Tizi-n-Talrhemt, com 1907 m de altitude, onde acaba a zona pré- saariana.
Midelt: 24 578 hab. Souk ao domingo. È uma cidade que se resume a um bairro de
aspecto muito europeu, e um antigo ksar, cidade de montanha instalada a 1488 m
de altitude, situada entre o Alto e o médio Atlas. Situa- se num lugar muito
belo, junto do altíssimo Jbel Ayachi. Acampamento junto na estrada em pleno
Plateau de l´Arid, em zona discreta.
26º
Dia: extensão - 89 km
Midelt-
Timahdite
Observações:
As etapas continuam a
desenrolar-se em pleno Alto Atlas, muito duras, sem grandes paragens demoradas,
e sempre por estrada de montanha. O pequeno povoado de Zeida, essencialmente
mineira situa-se a 1453 m de altitude. O povoado de Oualegh, situa-se a 1625 m
de altitude. Em Col du Zad, a estrada atinge os 2178 m de altitude.
Aguelmame de Sidi-Ali, próximo da rota seguida e ligada a esta por pequena
estrada, situa-se a mais de 2000 m de altitude. É um lago com 3 km de extensão.
Timahdite é uma pequena cidade a altitude próxima dos 1940 m. Acampar junto da
cidade, na montanha.
27º
Dia: extensão - 99 km
Timahdite-
Azrou- Ito-Boufakrane- Meknés
Observações:
Desde Midelt até Azrou
está-se no país dos Beni Mguild, semi-nómadas berberes pastores, passíveis
de serem encontrados nas estradas quando fazem as suas migrações sazonais,
abrigando-se em tendas. De Jbel Hebri, cone vulcânico coberto de cedros, a 2104
m, existe uma grande descida que atravessa uma floresta de cedros, sepenteando
por esta, com excelentes panoramas sobre a região de Azrou. Os primeiros cedros
aparecem entre 1500 e 1600 m de altitude, atingindo todo o seu esplendor a 2000
m. Podem atingir 60 m de altura e 2 m de diâmetro, sendo numerosas as árvores
com mais de dois séculos. As florestas de cedros do Médio Atlas albergam
imensos macacos. Os planaltos rochosos são o habitat dos chacais. Azrou, a 1250
m de altitude, com 31 471 hab., situa-se não longe de um pico vulcânico, no
vale do oued Tigrigra, entre as altas montanhas do Médio Atlas e o extremo da
meseta marroquina. Possui um clima temperado pela altitude. Estância de
montanha muito frequentada nos meses de Verão. Mercado à terça-feira.
Cooperativa artesanal, junto da muralha do kasbah, com artefactos de madeiras exóticas,
objectos em ferro, tapetes berberes. Depois
de atravessar o rico vale do oued Tigrigra, a estrada sobe e oferece soberbas
vistas sobre Azrou. Do rebordo do planalto de El- Hajeb, a 18 km a NW, a 1428 m
de altitude, panorama sobre a grande depressão, barrado o horizonte pelas
alturas cobertas de bosques do Médio Atlas. A paisagem apresenta um caos de
pequenos relevos: alinhamentos de crateras erodidas, grupos de vulcões do
Quaternário, fracturas, escoadas lávicas. O oued Tigrigra passa através desta
paisagem desnudada, que à luz rasante do sol, possui um aspecto fantástico
qualificado como lunar.
Segue- se El- Hajeb, cidade com 16 728 hab., pequeno centro estival com clima
temperado (1044 m de altitude). Possui um kasbah muito arruinado, com posto de
vigia; na parte E da cidade, as paredes rochosas deixam ver algumas habitações
troglodíticas, feitas por uma torbulente tribo berbere, que aí se instalou em
tempos para atacar a cidade ( mercado à 2º feira.). Saindo desta em direcção
a Meknès, a estrada oferece panorama extenso sobre o opulento plano onde esta
cidade se situa, nomeadamente sobre a cidade antiga coroada de minaretes, no
topo de uma colina. O oued Boufkrane separa- a da cidade moderna. MEKNÉS:
a 552 m de altitude,cidade histórica situada a 58 km SW de Fez (existe mapa).
Muitos dos edifícios existentes datam dos sécs.XIII e XIV. A rua Almriniyine
oferece belos panoramas sobre a Médina.Bab Berdaine é uma bela porta maciça,
flanqueada por dois enormes torreões. O arco enquadra o alto minarete da
mesquita do mesmo nome. A seguir, a estrada contorna o mais antigo cemitério da
cidade, a Koubba de Sidi Aissa. Bab el Khemis, bela porta flanqueada por dois
torreões arruinados. Bab Mansour El Aleuj, enorme porta decorada com colunas
romanas de Volubilis. Imponente Place El Hedim, com fila de fontes forradas a
mosaicos. Bab en Nour, vizinha da última, é mais elegante. Bacia do Aguedal,
vasto reservatório de água; Dar el Ma, cisternas profundas com cerca de 40 m
de fundo, monumental (manhã e final de tarde, 5 DH); cavalariças de Moulay
Ismail, em ruínas, e que podia albergar 120 000 cavalos. O telhado deste
cavernoso celeiro ainda hoje suporta um miraculoso café, localizado no meio de
um olival. No antigo local dos estábulos, há o parque de campismo. Bab er Reth,
porta monumental de entrada para a nova cidade imperial construída por Moulay
Ismail. Túmulo de Moulay Ismail ( é o único santuário de Marrocos que pode
ser visitado por não muçulmanos. 9-12 e 15-18. Fechado sexta de manhã); antes
de chegar ao pátio da fonte, o visitante tem de passar por três grandes pátios
cobertos de azulejos. Os turistas devem tirar os sapatos respeitosamente, antes
de avançar para o átrio mouro, decorado, e onde se pode ver o túmulo de mármore
do sultão. Prisão dos cristãos, vastos subterrâneos com dimensões de 7 x 7
km, parte dos quais destruído. No séc.XVII foi construído o magnífico palácio
de Dar el Kebira. A cidade está rodeada por uma enorme muralha tripla- 40 km de
ameias e torres- dentro da qual se situam a Medina e o palácio. Praça de Hédime,
com grande animação, dominada por duas portas monumentais: Bab Jema e a célebre
Porta de Bab Mansour, de proporções magestosas, é o arco triunfal de acesso
à cidade imperial. Os souks rodeiam a Grande Mesquita, são extremamente
animados e cheios de imprevistos: vendem- se tapetes e objectos de arte local…
Médersa Bou Inania, séc. XIV, com belo pórtico.População: 320 000
habitantes. Procurar parque de campismo de Aguedal.
28º
Dia: extensão - 111 km
Meknés-Moussaoua-
Moulay Idriss- Volubilis- Fés
Observações:
Saindo de Meknès,
atravessa- se uma zona de culturas muito irrigadas, e algo acidentada. Virando
à direita, após 10 km, aborda- se o Jbel Zerhoun, o mais elevado desta cadeia
de montanhas, com 1118 m de altitude. A erosão esculpiu desfiladeiros, falésias
e picos rochosos. As águas são abundantes. Após estrada muito sinuosa, por
zonas algo selvagens, panorama da estrada de El- Merhasiyne, sobre Moulay-Idriss,
a 1,5 km; próximo um vale com uma depressão circular, antiga piscina romana.
Moulay -Idriss aparece de repente sobre uma eminência. MOULAY IDRISS: 11128
hab. Souk ao sábado. Cidade a 50 km a W de Fez na orla de uma zona de colinas
rochosas entre olivais e cactos, a 550 m de altitude. Pelo seu lugar fantástico,
situada entre dois esporões rochosos, e pelo prestígio de cidade santa, esta
atrai muitos turistas. As casas cúbicas encostam- se umas às outras, deixando
apenas entre elas pequenas vielas. A população é unicamente constituída por
muçulmanos, e conserva assim intacta o seu carácter de cidade religiosa islâmica.
Todos os anos, a partir da primeira 5ª feira de Agosto (antes das monções),
organizam o grande moussem, o mais importante de marrocos, atraindo milhares de
peregrinos. Junto da cidade, na encosta, surge uma cidade de tendas. Sobre a
esplanada de Khaibar, desenrolam- se as “fantasias”; enquanto dura o moussem
alternam os festejos com os sacrificios e as preces ( eles aconselham a visitar
a cidade com um guia oficial). Do bairro de Khiber, situado num rochedo abrupto,
o panorama é muito belo sobre a cascata de casas que constitui a cidade. Ali se
encontra o túmulo de Moulay Idriss I, fundador do reino de Marrocos, falecido
em 791. O minarete do santuário é moderno (1939), com forma cilíndrica, único
em Marrocos, possui inscrições estilizadas retiradas do corão. A mesquita e
os edíficios que rodeiam o túmulo estão assinalados por uma barreira de
madeira e são estritamente proibidos a não muçulmanos.
Próximo ficam os vestígios de Volubilis. VOLUBILIS:
Ruínas da capital da antiga província romana da Mauritânia, situada 30
km a N de Meknés. Estas ruínas, com 1800 anos, são as mais importantes ruínas
romanas de Marrocos, e distam 3 km do Moulay Idriss. Ocupam, a 390 m de
altitude, um planalto nos primeiros contrafortes do maciço de Zerhoun. São as
mais notáveis em Marrocos e incluem um capitólio, um fórum, uma basílica,
termas,um arco do triunfo, várias casas- muitas com mosaicos intactos-uma
padaria e muralhas do séc.II. Museu lapidar ao ar livre (pedras tumulares, estátuas,
capitéis, inscrições). Encontrava-se rodeada de muralhas (20 DH).
A
estrada desce agora para um plano a cerca de 200 m de altitude.
FEZ:a 415 m de altitude. A 200 km SE de Tânger, num vale a N dos montes do
Atlas Médio, na extremidade oriental do planalto de Sais, junto do oued Fès.
Capital cultural, artística e espiritual de Marrocos, possui uma das maiores
mesquitas do mundo- Karaouyine- que é também uma das mais antigas
universidades do mundo, fundada em 850, a mais antiga da cidade; o minarete data
desta época e possui o maior oratório de África do Norte. Possui inúmeras
mesquitas, santuários, palácios e mercados. Fès el Bali, a cidade velha, é a
cidade muçulmana medieval mais bem conservada do mundo. É um local espantoso e
confuso, onde a elegância e a miséria se misturam à vontade. O palácio real,
Dar el Makhzen, data do séc.XIII; a Place des Alaouites é um enorme espaço
aberto que constitui acesso aos portões de bronze brilhante do Palácio Real. A
Medina, com o seu labirinto de ruas, nas quais se penetra através dos arcos das
suas muralhas, é a maior de Marrocos. População: 448823.
É
a mais tradicionalista das cidades de Marrocos. O artesanato foi reactivado pelo
turismo: trabalhos em couro, bordados, cerâmica.
Bastião sul, abandonado, que domina um
bosque de oliveiras. Os mausoléus em ruínas dos sultões merínideos dominam Fès
a N, oferecendo uma vista espectacular sobre a cidade. Bab Dekakène, situada em
Fès- El- Bali, do séc. XIV, é uma das mais imponentes portas de Fès, com as
suas torres ameadas. A rua Talaa Kebira é a artéria principal desta zona,
bordejada em grande parte por lojas e casas de artesanato, e com numerosos souks.
Mèdersa Bou Inania possui carrilhão com 13 sinos de bronze, é a mais vasta e
sumptuosa de Fès, remontando ao séc. XIV; na rua em frente, famoso relógio de
água da medersa . Mèdersa Attarine, próximo do souk. Fundada no séc. X,
possui dimensões modestas, mas é considerada a mais bela, entre as muitas
existentes em Fès, possuindo uma porta monumental, uma pérola da arquitectura
Hispano-mourisca. Mèdersa Cherratine, vasto edíficio de 1670. Zouia de Moulay
Idriss, um dos mais santos de Marrocos; abriga o túmulo de Idriss II, possui
porta principal ricamente decorada, um minarete muito alto, datado do séc. XIX
(os não muçulmanos devem ter particular descrição). Praça Nejjarine, ao
fundo do Foundouk com o mesmo nome ( finais do séc.XVIII), possui porta
monumental, muito decorada e a célebre fonte com igual nome. Mesquita dos Andaluzes, fundada no séc.IX, com porta
monumental.
Tinturarias, arcaicas, no bordo do oued Fès, oferece um espectáculo de cor,
com grandes covas repletas de líquidos de cores vivas. Procurar parque de
campismo Moulay Slimane.
29º
Dia: extensão - 137 km
Fés-Karia
Ba Mohaed- Ouazzane
Observações:
A estrada atravessa um
vasto planalto, serpenteando através de cumes rochosos com 632 m e 726 m
respectivamente; depois desce-se para atravessar o oued Sebou.
A
estrada volta subir para cotas de cerca de 400 m de altitude. De Pont du Sebou
voltar para Karia-Ba-.
Passando
o vale do oued Ouerrah, volta-se a subir até cotas de cerca de 335 m de
altitude.
Ouazzane- 40 485 hab. Linda cidade de
montanha, a 320 m de altitude. Cidade situada no limite do Rif, num local
verdejante, na encosta do jbel Bou-Hellal. Paisagens de colinas cobertas de
oliveiras, campos de cereais e de árvores de fruto. Praça da Independência,
muito animada nos dias de souk possui um belo panorama sobre a cidade. Mesquita
Moulay Abdallah Chérif. Notável torre do relógio.
À direita, na parte baixa da rua alinham-se as curiosas barracas
cobertas de colmo do souk dos Forgerons. Mesquita S`Ma dos zaouia ou “mesquita
verde”, pela cor da decoração do seu minarete octogonal. Existe mapa.
Fazer
acampamento junto da estrada, fora da cidade, em lugar discreto.
30º
Dia: extensão - 131 km
Ouazzane-
Chefchaouen- Tetouan- Martil
Observações:
A estrada percorre um
plano, acompanhando um vale apertado até cerca dos 273 m de altitude, donde se
começa a subir até Chefchaouèn.
Chefchaouèn, a 610 m de altitude, é
uma cidade com 23 563 hab. Vindo do sul, aparece bruscamente numa curva da
estrada, um burgo bem enquadrado, que contrasta com a nudeza do solo calcário
onde se situa, e o campo verde do oued Laou. O aglomerado é dominado por um
monte. Prevalecem as actividades ditas tradicionais, como a manufactura de
tapetes de lã. Visita à cidade: Praça El Maghzen com pequenas lojas, coroado
por um minarete; praça central Uta
el Hammam, bordejada por minúsculas lojas, com grande mesquita, que possui um
belo minarete, hexagonal finamente decorado. Velhas muralhas do Kasbah, de
aspecto europeu; no seu interior muitos jardins, com imensas palmeiras,
figueiras, roseiras e flores. No 1º jardim, sob torre menagem à direita, as
antigas masmorras, com túneis secretos subterrâneos. A Medina não se parece
com nenhuma outra, possuindo casas de muitas cores, entre as quais surgem, de
longe a longe, minaretes maciços, de pedra ocre ou cinza, pintados de branco e
delicadamente decorados. O mercado, situado à entrada da cidade, com grande
animação todos os dias. Pequena e atraente cidade alcandorada numa proeminência
rochosa da cadeia do Rif, 60 km a sul de Tetuão. Chamam-lhe a Cidade das Fontes
por causa das muitas nascentes de águas medicinais. Centro dos Berberes do Rif,
remonta ao séc.XV,de que resta o centro da cidade. Com as suas muitas mesquitas
e santuários, é uma cidade santa. A estrada segue agora o vale do Hajera,
atingindo os 590 m próximo da sua nascente.
TETUÃO: Cidade branca que se encontra
num anfiteatro rodeado de montanhas, a 90 m de altitude. Possui uma bela medina
( bairro residencial muçulmano antigo), que conserva as suas reminiscências
andaluzes, que faz dela a mais espano- mauresca das cidades de Marrocos. Souk El
Hots, junto de um ntigo forte, dominado por uma torre poligonal. Place el Yalaa,
de forma triangular, onde se pode ver uma exposição de canhões europeus
capturados pelos corsários séc.
XVII. Os souks rivalizam com os mais animados de marrocos. Palácio Real, do séc.
XVII, situado na Place Hassan, uma grande praça ornamental. Mesquita Sidi Saidi,
com belo minarete, junto da porta do mesmo nome. Bab El Okla, bela porta da
muralha. Bab Remouz, oferece belo panorama, domina o jardim Moulay Rachid,
ornamentado à maneira andaluza, de quiosques e lagos, com as suas fortificações.População:
200000. Bab Ceuta, com belo panorama sobre o cemitério muçulmano e o velho
bairro judeu, a Mellah.
Em Martil, a 11 km existe uma praia muito movimentada, na costa mediterrânica de Marrocos. Estância balnear para os habitantes de Tetuão. Kasbah do séc. XVIII. Procurar parque de campismo.
31º
Dia: extensão - 58 km
Martil-Ceuta-Algeciras-Gibraltar
Observações:
Smir-Restinga possui uma
longa praia de águas límpidas e frescas.
Bilhetes
para a travessia do estreito de Gibraltar em Muelle Canonero Dato, 6 (Ceuta).
Regresso
a Espanha e a Algeciras, com as longas despedidas de Marrocos a serem feitas nas
praias e nas longas esperas na alfãndega.
GIBRALTAR: Colónia britânica situada num promontório sobranceiro à entrada
do Mediterrâneo, ergue-se num alcantilado rochoso de 425m de altitude. Os
gibraltarinos são mestiços e falam tanto Inglês como Espanhol. Ganham a vida
graças ao porto, às docas e às bases da NATO. O rochedo é conhecido pela sua
colónia de macacos berberes, num número de 53 em 1985. População: 31200.
Deverá haver parque de campismo?!
32º
Dia: extensão - 147 km
Gibraltar-
Jimena de la Frontera-Algar- Arcos de la Frontera- Espera- Cruz. estrada para
Sevilha
Observações:
Saindo de Gibraltar, ao
cabo de 10 km e dois cruzamentos, a estrada sobe e penetra no Parque natural de
los Alcornocales. Passando Jimena de la Frontera, vira-se para a montanha, onde
se irá atingir os cerca de 800 m
de altitude, baixando em Pto. de Galis para os 417 m. A estrada entra agora na
vasta planície, passando pela Embalse de Guadalcacín, até Arcos de la
Frontera. O caminho segue por Espera, virando-se depois para Las Cabezas de S.
Juan. Chegados ao cruzamento da estrada para Sevilha, acampar aí próximo em
local discreto.
33º
Dia: extensão - 158 km
Cruz.
estrada para Sevilha- Los Palacios y Villafranca- Camas- Sanlúcar la Mayor-
Trigueros- Gibraléon
Observações:
O percurso é agora extremamente plano e monótono. Passagem pelas vias rápidas
dos arredores de Sevilha, até Camas. Procurar estrada para Sanlúcar la Mayor.
Chegada a Gibraléon, situada junto do rio Odiel. Acampar, talvez junto do rio.
34º
Dia: extensão - 147 km
Gibraléon-
Sanlúcar de Guadiana- Alcoutim- Mértola- Beja
Observações:
A estrada torna-se mais ondulada à medida que nos aproximamos da fronteira, e
menos frequentada. Passagem do rio Guadiana em Sanlúcar de Guadiana, de barco,
espectacular entrada em PORTUGAL. Alcoutim: Edificada em sítio alto, constituiu
a guarda da fronteira portuguesa nesta região. Ruínas do castelo, de fundação
Árabe. A vila é um dos mais puros exemplares da arquitectura urbana algarvia,
igreja matriz; População: 245 habitantes.
A
estrada segue pelos contrafortes da serra do Caldeirão até à região semiárida
de Mértola.
Situada na margem direita do Guadiana,
num rebordo do planalto elevado que se debruça sobre o rio.
Panorama
espectacular da povoação, a partir da margem esquerda, junto da ponte.
Devido à sua posição estratégica, Mértola
conheceu grande prosperidade e importância em tempos muito recuados. Muralha
romana na margem do rio, um conjunto de ponte-cais. Mas é a ocupação moura
qque mais se nota em Mértola, desde a estrutura da povoação, o tipo de casas,
a Kaba ,igreja matriz, uma antiga mesquita Árabe do séc. XI. População: 1104
habitantes. Castelo imponente, um dos mais belos de Portugal
Percorre-se agora a vasta planície alentejana, por estrada muito monótona até
Beja, a 250 m de altitude, onde se acampará no parque de campismo, e se fará
os necessários preparativos para a grande chegada, que acontecerá no dia
seguinte.
35º
Dia: extensão - 169 km
Beja-
Ferreira do Alentejo- Grândola- Tróia- Setúbal- Amadora
Observações:
Última etapa desta
expedição que deixará grandes recordações e muitas saudades. Percurso análogo
à 1ª etapa, muito vasto, monótono e rápido por boas estradas. Depois de
passar o Sado em ferrie, últimas subidas nos contrafortes da Serra da Arrábida.
Chegada a Lisboa, através do ferrie de Cacilhas. Subida para Alfragide, onde se
culminará esta aventura única. Regresso a casa para um merecido banquete, e
descanso… até à próxima !…
TOTAL: 3543 km
O QUE LEVAR
Bicicleta:
2 mochilas para trás + uma para o volante 13600$00 + suporte
Ferro para o selim
Bomba de encher pneus 500$00 + bomba boa 1500$00
1 pedal sobressalente + pedais de alumínio 1550$00
Corrente sobressalente 1400$00
2 remendos 300$00 + cola
3 câmaras de ar (600$00) 2
2 cabos sobressalentes travões e mudanças
“conta- quilómetros” -3250$00 + 2 pilhas
“cornos” 2600$00
2 botijas de água + suportes
2 calços de travões suplentes
Ferramentas diversas (afinador de raios) + chave de grifos
10 raios
Eixo para os pedais e para as rodas
Rolamentos
Corrente para prender a bicicleta 1300$00
Massa consistente
Óleo
Petróleo
Óculos para proteger dos raios UV
Panos
Luvas
Capacete
Calções de licra, de preferência com esponja 6000$00
Pneu sobressalente kevlar
Revisão total próximo da viagem 4500$00
Objectos do dia a dia:
1 mochila
A poeira é um elemento a ter em conta: só os sacos de plástico preservam os objectos no interior das bagagens.
Tenda
Saco- cama
Toalha pequena
Camisola de manga comprida de algodão
Calças de algodão
2 T- shirts
2 pares de meias
2 pares de meias
2 cuecas
Mini- caixa de costura c/ linha, fio de nylon, agulhas
Carteira com documentos
Passaporte 5000$00+ guia
+ livro c/mapas das cidades x + mapas x (todos os possuidores de um
passaporte válido da C. E. E., recebem um visto de 3 meses na fronteira
marroquina)
Mapas reduzidos para bicicletas
60 000 escudos em moeda portuguesa, espanhola e
marroquina (os eurocheques são aceites em pelo menos um banco em cada cada
cidade mais importante, normalmente no Société General Marrocaine des Banques,
e tanto os hotéis como os bancos cambiam dinheiro e “traveller” cheques. Os
horários dos bancos: 2ª a 6ª feira, das 8:30-11:30 e das 15:00-18:30. As
divisas devem ser trocadas no país, nomeadamente à chegada, na gare marítima;
só se tem de declarar o dinheiro que se traz, se ultrapassar um valor de 270
000$00. À saída do país, apresentar os recibos correspondentes às operações
de troca efectuadas. Os dirhams não utilizados podem ser reconvertidos para 50%
do total da moeda estrangeira.
Calções
2 lenços para proteger o pescoço, e do pó
Canivete c/ garfo
Acendalhas + isqueiro
Farmácia
de primeiros socorros com cicatrizante, remédio para diarreias,ligaduras, gaze,
adesivo, pensos rápidos, um analgésico, kit serpentes + protector solar total
+ pomada para queimaduras e picadas de insectos( antialérgico), soro fisiológico,3
aspirinas, . Pinça; tesoura; água oxigenada; 2 compressas anti-sépticas; 2
rolos de adesivo; vitamina C; alfinete de dama; ligadura elástica.
Mantimentos de emergência: 200 g de frutos secos, 200 g de caramelos, 200g de chocolate em pó, 4 sopas em pó, café, 4 barras energéticas + 200 g de leite em pó
Máquina fotográfica + 5 rolos 1
Lanterna + pilhas sobressalentes alcalinas
3 cadeados
Boné de pano
3 rolos de papel higiénico
Pequenos presentes: rebuçados ou lápis
Comida para os primeiros dias
Caneta + diário
Sabão em barra, pasta e escova de dentes, máquina de barbear
2 caixas de purificadores
de água 1
Manta de alumínio
2 caixas de alumínio
Sacos de plástico
Bússola
Pequeno dicionário de Francês
2 garrafa
de 1 l de água, resistente, compressível 2000$00
Saco térmico
2 fita-cola muito resistente
4 metros de corda
ALGUMAS INFORMAÇÕES ÚTEIS:
Embaixada de Portugal em Marrocos: 5, Rue Thamil Mdaour Souissi, Rabat (tel: (7) 75644678/9)
Embaixada
de Marrocos em Portugal: Rua Alto do Duque, 21
Emergências (nºs de telefone):
Polícia - 19
Ambulância - 15
Médico - Farmácia Local
Posto
de turismo em Lisboa: Rua da Artilharia 1, 79/85, loja A, 1200 Lisboa
Consulta
do viajante, no hospital Egas Moniz.
Visitar Marrocos no Verão, sobretudo quando sopra o “chergui”, não é
agradável a não ser ao longo das costas, e sobre as alturas do Atlas. De resto
só se pode circular durante toda a manhã, e ao fim do dia. Vale a pena para
conhecer África e os seus desertos sobre o sol ardente.
Para procurar informações num posto de turismo, ver no mapa as cidades com i.
Formalidades de entrada: como estão sempre a mudar, deve- se informar pouco
tempo antes de ir. Em principio será: passaporte válido;
(ver consulta do viajante). Atravessar a fronteira em Ceuta para entrar
em Marrocos é sempre um processo demorado.
Fuso horário: -1
hora.
A
actividade comercial do dia reporta- se ao final da tarde, mas muitos comércios
abrem as suas portas ao nascer do dia, e fecham à noite. À sexta- feira, dia
da reza solene, um bom número de souks fecham.
Alguns
preços são dados em RIALS, unidade monetária popular utilizada nos souks,
pelos pequenos comerciantes. 1 dirham são 20 rials. Se um preço é dado em
rials, deve- se dividir por 20 para dar a soma em dirhams.
14 de Agosto é feriado nacional. Dia da Aliança.
Fotografia a Marroquinos, só com gratificação! Aqui a luminosidade é
extraordinária; a meio do dia as fotografias ficam brancas. Tirar fotografias
sobretudo ao cair da noite.
A sinalização viária
é feita em árabe e francês. Pedras pintadas de branco no chão do bordo da
estrada delimitam e assinalam o perigo: bordo da estrada a cair; ponto
estreito;ravina, etc. Algumas pistas quase não têm sinalização. Os furos são
muito frequentes, mas podem ser reparados em todas as aldeias.
Calcular
bem o tempo diário de viagem, para sair muito cedo de manhã, fazer uma pausa
no momento de forte calor, e voltar a andar no final do dia. È muito perigoso
rolar de noite, seja em pistas ou em estradas, por causa das pedras.
è aconselhável sobreencher os pneus em trajectos sobre solos cheios de
calhaus; reduzir a pressão dos pneus em precursos com muita areia.
As
regras que se concernem ao campismo são muito brandas em Marrocos. Mas é
recomendado a instalação num terreno guardado. Não é necessário carta de
campismo. Se alguns parques municipais são bem equipados, embora possuam falhas
a nível sanitário, a maior parte, na época alta são deixados ao abandono. No
entanto pode durmir-se numa tenda Berbere, com numerosos tapetes, em certas regiões!
Parques de campismo- 15DH por pessoa
Albergues da juventude em Asni , Casablanca, Fès, Marrakech, Meknès Azrou e
Rabat. 15-30 DH por pessoa.
Nos restaurantes, mesmo nos mais modestos, servem-se refeições típicas do país. Na estrada é raro encontrar um restaurante isolado ou situado numa vila. Em viagem contentar-se com frutas, azeitonas, pão ou amêndoas grelhadas, que se arranja em todo o lado. Por vezes os souks possuem cafés e talhos, onde se podem comprar enchidos, e fazem-se espetadas acompanhadas com salada variada. Nas vilas berberes pode beber-se chá de menta, ou comer enchidos e batatas coloridas de açafrão. No Grande Sul pode comer-se carne de camelo, couscous, leite de camelo e chá de menta. A doçaria é variada, onde abundam doces com mel; sobressaem os “cornos de gazela”(Kaab el Ghzal”). Água mineral engarrafada Sidi Harazem. Os cafés servem grande variedade de pastelaria. Na estrada vêem-se camiões carregados de toda a variedade de frutas da estação. Pode-se comprar pão, tomate, pepino, azeite, atum, sardinhas, laranjas, tâmaras e água mineral nos grandes mercados das cidades. Nas cidades maiores já existem mercados com barracas de charcutarias. Os mantimentos frescos são muito baratos. Cafés de churrascos, com espetadas ou kebabs de fígado ou carne, comidos com pão, ovos cozidos, Harira (uma sopa espessa e alimentícia),… Potes de barro com Tajine, um guisado que é uma das experiências gastronómicas mais sublimes.
Viajar de autocarro: pouco mais de 300$00 por cada 100 km.
Há estações dos
correios (PTT) em todas as cidades marroquinas.
Em todas as cidades há
farmacêuticos competentes que falam Francês, e, por vezes, Inglês.
Polícia marroquina,
de uniforme cinzento que é da Sûreté.
PRECURSOS
ACONSELHADOS PARA TREINAR PARA A EXPEDIÇÃO EM PORTUGAL
PEQUENO
LÉXICO ( EM ÁRABE FONÉTICO )
Saudação a todos: El salem alaikoum
Bom
dia: Sabah el khir
Boa
tarde: Massa el khir
KH= j em espanhol
Obrigado:
Chocran
Benvindo: Ya marhaba
Em nome de Alá: Bismillah
Bom
dia, sejam benvindos: Ahlan wa Sahlan
Como vai você?: Kef el hal?
Bem!: Labas
Adeus: Maa el salama
Se
faz favor: Men fadlak ( Men fadlek, a mulher)
Quanto
custa o quilo?: Kam biyamel el kilo?
É caro!: Ghali!
Existe:
Kan, Amer
Não
existe: Ma kanch, Ma zaal
Não
há problema: Ma kan mouchkel
Ocupado:
Machghoul
Muito: Bil zaaf
De acordo (em bérbere): Ourra (ouakha)
À direita: Ala iamin
À
esquerda: Ala chimal
Encher
os pneus: Nafakh
Fonte ou charco: Ain
Grande
: Akbar
Casa:
Dar
Olá: Labès
Vá-se embora: Êmshee
Léxico
útil (essencialmente berbere)
Caminho: Azlil
Sempre a direito: L`gouddam
À esquerda: Azelmat
À direita: Afassi
Bifurcação: Iberdane
Casa: Tigueme
Vila:
Dovar
Tenda: Guitoun
Montanha:
Adrar
Campismo:
Moukhayyem
Mercearia:
Tahanout
Vaca:
Amougay
Carneiro:
Ahouli
Macho:
Asserdoun
Burriqueiro:
Bousserdoun
Amanhã:
Askkâ
Depois
de amanhã: Nifouska
Ir:
Dou
Nuvem:
Amglou
Sol:
Tafoukt
Lua:
Aiourt
Céu:Ignna
Noite:
Dyied
Faca:
Mouss
Relógio:
Magna
Comer:
Atchi
Água:
Aman
Pão:
Aghroun
Uva:
Adil
Ele
está cansado: Ermi
Quente:
Tému
Sim:
Ouara
Não:
Lalal ( berbere) ouholi (sul)
Adeus:
Bislama
Obrigado:
Choukrane
Em
nome de Deus (agradecer algo que se dá e recebe): Bismilah
Se
faz favor: Arbi
Boa
noite: Lemsk Alakher
Como
se chama?: Ma ismnek. Eu chamo-me: Ismniou
2
- A VIAGEM
1º
DIA
169,6
km (9 horas e 33 minutos.
Velocidade média – 18 Km/hora)
Inicio
exaustivo, com longo percurso mais ou menos plano.
Tempestade
em Grândola que molhou quase tudo (inclusivamente roupa, tenda e sacos cama).
Chegámos
completamente rebentados a Beja e ao parque de campismo devido, principalmente
ás rectas monótonas a partir de Grândola.
A
tenda tem problemas – ficámos sem estacas mas resolvemos o problema prendendo
uma corda a uma árvore.
Chegámos
ás 20:30 a Beja e deitámo-nos ás 22:00 horas.
2º
DIA
144,6
km (8 horas e 30 mins. Velocidade média
– 18 Km/hora)
Início do parque de campismo de Beja, sem grandes problemas físicos à excepção do rabo do Sérgio.
Estradas
boas foram uma constante em toda a viagem. Piso rápido e a direito até à
fronteira, com passagem festejada. As estradas espanholas são uma maravilha.
Bom
almoço em Rosal de La Frontera. A partir daqui travessia de vasta zona de
barrancos, com um aguaceiro à mistura – o jantar foi comprado em Valverde del
Caminho, onde tentámos telefonar sem êxito. Acampamento a alguns Km da vila,
no caminho para La Palma del Condado, junto da estrada nacional. O sítio é
frequentado. Esperamos ter uma boa noite de sono, pois estamos menos desfeitos
do que ontem.
Deitámo-nos
ás 21:30 – 22:30 hora espanhola.
3º
DIA
133,92
km (7 horas e 10 mins. Velocidade média
– 19Km/hora)
Início do dia sem pequeno almoço durante 24 Km, com descida dos barrancos para o vale do Guadalquivir.
Conseguimos
finalmente dar com o sistema dos telefones, o que permitiu a nossa despreocupação
(e a deles).
Estradas
planas, bom piso, propício para rolar a grande velocidade (chegámos a Ter média
de 23 Km/h).
Hoje
o calor apertou (registámos 40ºC em Sevilha).
Passagem
na cosmopolita cidade de Sevilha. Belos panoramas sobre o Guadalquivir e o
recinto da Expo 92, na ilha de Cartuja. Visita ao maior monumento gótico (com
muita influência mudéjar). De salientar o pórtico principal (gótico), e a
torre mudéjar transformada em torre sineira. O castelo, simples, possui pequeno
pórtico monumental e pelourinho. A igreja tinha a torre em obras. Junto dos
monumentos havia grande concentração de coches para visitar a cidade. Existe
grande profusão de edifícios civis de gosto andaluz.
O
capacete do Sérgio desfez-se com o calor.
Esta
região é desprovida de vegetação, com quilómetros de campos de cultura. Tivemos dificuldade em
arranjar onde dormir. Finalmente encontrámos, junto da estrada principal para Cádiz,
um monte coberto de oliveiras, onde arranjámos um refúgio que parece uma sauna.
As
bicicletas ainda não deram problemas. Nós estamos pegajosos com a porcaria que
se juntou nestes três dias, mas conseguimos lavar o rabo!
Existe
falta de locais com água (socorremo-nos quase sempre das bombas de gasolina).
Estamos
cansados, mas as dores diminuem com a prática. Decidimos aumentar o percurso em
mais um dia, em virtude da violência destes últimos três dias na Península
Ibérica. Assim, temos o dia de amanhã para recuperar, e talvez para tomar
banho.
4º
DIA
90,8
km
Saímos de manhã do nosso matagal e recuámos um pouco para tomar o pequeno almoço – sumo de fruta e bolos regionais de Andaluzia, coisa que se torna pouco comum)
A
noite que passou tinha sido um verdadeiro pesadelo, a habituação ainda se
tinha iniciado, a água tinha acabado e a sede era horrível. Havia muitas
melgas que nos picaram. Acordámos sobressaltados com barulhos de animais
nocturnos.
A
saída da estrada principal em direcção a Espera, deu-se com incremento do
ondulado. O Sérgio fez um curativo no tornozelo (ele anda com dores
musculares). Espera é uma típica vila Andaluzia, branca a destacar-se de uma
paisagem árida e quente, e avermelhada da terra, com um castelo espectacular
sobre a escarpa.
Almoçámos
gaspacho gelado em Arcos de la Frontera, cidade turística que vive do seu
conjunto de monumentos, de que se salienta o castelo no cimo de uma escarpa
sobre um vale largo e seco, como todos os vales daqui, e ainda da barragem de
Bornos.
Estivemos
parados a descansar junto a uma levada de águas frescas e limpas (?), mas só
conseguimos molhar os pés para nosso descontentamento, pois encontrávamo-nos
todos cagados.
Em
Paterna de Rivera, pequena vila branca, pudémos refrescar-nos do calor
sufocante e do vento quente e seco. Aqui os povoados são espectaculares, sempre
alcandorados em penhascos. O Sérgio começou a dar sinais de cansaço.
O
vale que se seguiu era de sonho. Vale largo, entre grandes montanhas, apenas com
figueiras do diabo e palmeiras vassouras, pequenos leitos de água sem vale
definido, pequenos ranchos com touros bravos pastando, blocos escarpados que
sobreviveram à erosão devido à sua dureza ... um espectáculo.
O
Sérgio teve algumas dificuldades em atravessar alguns montes (isto é para
variar).
Chegámos
a Alcalá de los Gazules, típica vila alcandorada, vestida de branco, com um
castelo bem alto sobre o vale. Encontrámos um parque de campismo a 4 km da
vila! Um espectáculo: fomos bem recebidos, tinha uma piscina onde finalmente
nos refrescámos, podemos tomar banho, lavámos a roupa ... um paraíso na
imensidão destes lugares!
Estou
a sentir-me agora muito bem e mais moralizado, apesar de termos jantado pouco
num bar impecável. Existe muita água e fresca, o que na nossa situação é um
luxo! Hoje aproveitamos bem a noite (deitámo-nos mais tarde). Estou certo que
vou dormir melhor que nas outras noites, pois a tenda está bem montada, a noite
menos quente ...
5º
DIA
86
km (5 horas e 43 mins. Velocidade média
– 16 Km/hora)
Hoje o dia começou com lentidão, pois iríamos sair daquele local idílico, e porque iríamos apanhar montanha até Algeciras.
O
percurso tinha grandes subidas, alternando com descidas rápidas, sempre em
montanhas muito verdes e quase sem sinal de civilização. Duas enormes
albufeiras davam outra cor e vida à paisagem.
Após
um início fulgurante de Alcalá de los Gazules, vila típica com casas brancas
subindo pelas vertentes abruptas até ao “parador”, onde tomámos o pequeno
almoço, cedo as montanhas nos cansaram. Havia alturas que parecia que estávamos
no Gerês – muito belo.
Em
Los Barrios, cidade satélite de Algeciras, onde estávamos a pensar almoçar, não
havia onde comer comida quente, e assim lá tivemos marchar às penúrias
(sobretudo eu que rebentei nas montanhas) até um restaurante próximo da via rápida.
Aí, junto da mesma, também compramos os bilhetes para o ferry até Ceuta, que
nos saiu mais barato do que pensávamos, e assim não tivemos que levantar
dinheiro.
Como
havia um barco ás 15:30 e só acabámos de almoçar às 15:00 horas, foi uma
correria louca em direcção ao porto. Após umas perdidas rápidas, lá
conseguimos entrar no recinto, com muita gente a indicar o caminho, qual chegada
de qualquer grande prémio. Conseguimos apanhar o ferry mesmo à hora.
O
barco era enorme, com um vasto compartimento para os veículos, onde tivemos de
deixar as bicicletas e subir para os camarotes. Este recinto até lojas e bares
possuía! Viemos para fora para apanhar o vento fresco que me soube muito bem.
De
Algeciras não há nada a dizer: uma cidade movimentada como tantas outras,
rodeada de enormes montanhas escondidas pelas brumas. Para oeste vê-se
Gibraltar, grande promontório a destacar-se da região plana adjacente, e do
mar. Da costa africana para onde nos dirigíamos, apenas se via o Jbel Musa, uma
das colunas de Hércules (como o penedo de Gibraltar) rodeado de densas nuvens.
Começam-se a delinear os contornos de uma costa muito acidentada, e que promete
para amanhã.
Após
cerca de uma hora e meia de viagem, finalmente pisámos solo africano ainda com
sabor a Europa, pois a Espanha está presente por todo o lado. Desde logo
constatámos que o parque de campismo estava encerrado, mas o Sérgio
rapidamente arranjou quem aluga-se um quarto, e por pouco dinheiro.
Foi
tirar as coisas das bicicletas e ir fazer o circuito marginal da Península de
Ceuta, nas calmas, mesmo em passeio, mas que ficou a desejar por não ter muito
que ver: vimos ima grande lixeira, muitos testemunhos militares recentes ( armazéns,
guaritas, etc.), um grande forte no topo do monte Hacho, utilizado por milénios,
etc. De salientar o verde da colina e o azul do mar envolvente, e o pequeno
forte de El Desnarigado, que observámos do topo do monte (situa-se na costa
norte, junto do mar).
Da
cidade de Ceuta, muito movimento e muitos turistas. De salientar a avenida
marginal bem arranjada, junto da qual existem praias, alguns jardins, a igreja
matriz ao gosto provinciano e imperialista espanhol, e ainda o forte de S.
Filipe, construído pelos portugueses aquando da conquista de Ceuta. Trata-se de
um vasto edifício, com trechos de muralha e fosso que parecem obra de artista,
e o famoso e enorme fosso que torna Ceuta numa ilha – obra de engenharia fantástica
e de volume considerável.
O
jantar foi simples, sandes de tortilha e um bolo muito bom, ao qual foi
adicionado uma sopa “Royco” e gelatina líquida feita por nós para melhorar
o volume de líquidos e o “combustível no sangue.
6º
DIA
80,6
km (5 horas e 6 mins. Velocidade média – 16km/h)
A
noite foi longa mas alegre! A meio da noite havia festa tipicamente espanhola
num bar junto da pensão. A nossa janela encontrava-se aberta, pelo que nos
vimos invadidos pelo som inconfundível e pelas palmas ritmadas que se ouviam
pela rua toda.
Tomámos o pequeno almoço ainda em Ceuta. Aí conhecemos um casal de portugueses que ia de jeep para Smir Restinga. Acompanhámo-los até à fronteira.
A
partir da fronteira foi o choque! Havia marroquinos por todo o lado. Demorámo-nos
a preencher os papéis e sobretudo a ser revistados. Tivemos que mostrar quase
todo, inclusivamente as rações de emergência! Ainda houve uma pequena confusão
com o leite em pó!
Assim
que pudémos desandámos daquela zona, mas a primeira aldeia por onde passámos
parecia o Casal Ventoso em dia de intenso movimento. Era horrível, cheia de
lixo e com um cheiro que fomos encontrando em vários pontos do caminho. Após a
aldeia, cedo começou a subida (escalada) às montanhas do Rif.
Hoje
o dia foi praticamente passado entre o mar e as montanhas da região norte de
Marrocos. O dia esteve fresco, mas o vento lateral era incrível; por vezes éramos
lançados para fora da estrada e os meus mapas por pouco não caíram pela falésia
abaixo (ficaram presos nuns arbustos).
O
Sérgio está a descer que é uma coisa parva. A subir estamos a par (não somos
maus escaladores, e estamos a melhorar de dia para dia).
Almoçámos
em Ksar-es-Shegir, restaurante de estrada, numa zona muito concorrida pelos
marroquinos, que aqui acampavam por todo o lado. A refeição consistiu e tagine,
um prato de legumes com carne de borrego, uma salada de atum, pão e azeitonas
com um molho picante.
Esta
povoação possui um castelo português mergulhado nas dunas, muito arruinado.
As
paisagens de montanha são lindíssimas, com afloramentos de rocha nua
insinuando-se na paisagem e com muito verde. Até agora as povoações deixaram
muito a desejar, pois são muito sujas e os sacos de plástico abundam por todo
o lado. Existe recolha de lixo, mas vão deitando tudo pelo caminho.
As
estradas não são más, mas um pouco apertadas, pelo que tivemos de ouvir inúmeras
apitadelas dos senhores emigrantes com os seus mercedes, o carro mais visto por
estas zonas, escolhido até para táxi.
A
entrada e Tânger foi um choque. O Sérgio já acusava cansaço. Havia muita
confusão, muita gente à procura de sacar algum dinheiro. Sempre que parávamos
caiam-nos em cima.
Houve
inclusivamente uma situação caricata. Um miúdo numa bicicleta fingiu ter caído
por causa de mim, e queria ser indemnizado. Que grande lata.
Finalmente
conseguimos dar com o parque de campismo, que não é mau, mas é mais caro do
que pensávamos.
As
casas de banho são aquele horror em termos de higiene, mas encontrámos água
potável nos tanques, onde também lavámos a roupa.
Tomei
banho na piscina, um pouco suja e cheia de marroquinos, o que teve muita piada.
Houve aquelas conversas onde não se percebe nada, e ser ali o único português!
Até agora não vimos nenhum português em Marrocos.
Deixámos
as bicicletas no parque e decidimos vencer o trauma: vestimos a nossa roupa suja
e fomos passear para a zona velha da cidade. Percorremos calmamente o Grande
Soco, apinhado de gente comprando e vendendo; vê-se vender marroquinarias,
frutos e legumes, muita comida e bolos. Tudo isto na rua ou em pequenas
“tascas”. Comprámos uvas a 5 DM (90$00)
Ao
jantar fomos comer a uma “tasca” uma grande sandes de kefta (carne e
temperos), e finalmente provámos o formidável chá de menta: extremamente aromático,
quente, doce, fabulosamente saborosa. Vamos deixar de beber coca-cola, e
elegemos o chá de menta a nossa bebida de eleição.
Voltámos
para o parque sem ver outros pontos de interesse, numa cidade que possui brutais
contrastes entre o velho do centro da cidade e o novo dos grandes hotéis junto
da marginal, que percorre as praias, algumas com os esgotos a despejarem para o
mar a céu aberto.
7º
DIA
141,52
km (7 horas e 24 mins. Velocidade média
– 20 km/h)
Depois de vermos o aguadeiro tradicional no “souk” de Tânger, com o seu típico traje (hoje apenas uma curiosidade), precedido pelos vendedores de sumos de fruta, e de uma noite cheia de ritmos árabes (a musica em altos berros é importante em cada tenda), metemo-nos novamente à estrada, desta feita para realizar um percurso muito extenso, mas plano e regular, e quase sempre por boas estradas.
Cedo
o Sérgio “rebentou”, pois faltou-lhe a energia aos 40 km, mas depois
resolveu-se e chegou melhor do que eu.
O
trajecto de hoje teve de ser alterado pois Larache não possuía parque de
campismo, pelo que tivémos de nos dirigir até Moulay-Bousselham. O percurso
foi realizado entre o verde das florestas e o azul do mar das praias desertas,
sempre a boa velocidade.
Tornámo-nos
fanáticos por chá de menta. Passámos por Asillah, cidade fundada por
portugueses, da qual subsiste o castelo com grandes torreões cercados de
palmeiras. Junto existem salinas num oued. Aí retemperámos forças à custa de
mais um chá de menta.
Pusemo-nos
a caminho de Larache. Vimos os primeiros dromedários pastando calmamente com
burros, muito utilizados aqui como animal de carga (ainda se vê muitas carroças
puxadas por burros e cavalos).
Passámos
por uma das muitas barracas pitorescas de beira de estrada que vendem melancias,
e comprámos uma com 5kg. Foi logo digerida ali próximo, debaixo da sombra
fresca de uma árvore. Fomos muito ovacionados pelos vendedores e pessoas que íamos
encontrando à beira da estrada.
Em
Larache passámos junto da cidade romana de Lixus, onde tivémos ocasião de ver
os armazéns do “garum”. Também aqui o oued Loukkos possui vastas salinas.
Nada
vimos desta cidade que encima um monte junto do mar, coroado por uma torre de
cor escura. Aqui voltámos a apreciar os bons pratos marroquinos: comemos carne
amassada grelhada na brasa, acompanhada com salada muito variada, molho de
tomate e especiarias, e o pão tradicional que é redondo e chato.
Após
nos termos perdido por poucos kms , por não termos virado num cruzamento, saímos
da estrada boa e enfiámo-nos numa estrada secundária, levemente ondulada e
sempre em linha recta, ladeada por vastos campos de regadio muito bem tratados.
Aqui experimentámos um novo tipo de banho, por aspersão, utilizando para o
efeito uma máquina de rega.
Tivémos
o nosso primeiro furo. O pneu anda agora um bocado em baixo (para evitar outros
furos). Outra coisa que me preocupa, é que o pneu começou a ficar com pequenas
gretas. Mas a bicicleta do Sérgio também já faz uns barulhos giros.
Chegámos
a Moulay-Bousselham mesmo ao cair da noite, exaustos (principalmente eu) devido
a um pequeno erro de contas. Fomos ficar no parque de campismo (que estava cheio
de marroquinos a passar férias), situado junto da lagoa Merdja-Zerga, no ponto
de confluência desta com o oceano. Pouco ou nada deu para ver desta pequena
povoação.
Jantámos
uns folhados com mel e amêndoas (pensávamos que eram chamuças), pão e muito
sumo (o Sérgio ficou mal disposto, pois comeu uma grande dose de azeitonas).
Esta
parque de campismo tem uma particularidade: anda um homem com uma máquina com
pesticida a pulverizar as tendas (isto está tudo cheio de melgas), intoxicando
todos, inclusivamente nós.
8º
DIA
134,9
km (7 horas e 43 mins. Velocidade média
– 18 km/h)
Este dia foi horrível.
Estou
a escrever meio acordado meio a dormir, extremamente cansado...
De
manhã demorámos a arrancar. Estivémos a conversar com um professor de desenho
marroquino que queria informações para ir passar féria a Portugal. Não
conhecia nada do nosso país. Comemos umas fatias de um bolo estranho (não
sabia a nada), e mais tarde comemos uma melancia (é aquilo que nos vai
safando!).
Rodeámos
pela estrada o lago Merdja-Zerga, vasta zona deprimida ocupada por explorações
agrícolas. A estrada piorou ainda mais e foi parcialmente ocupada por areia,
possuindo ainda vastas crateras. Passámos por umas aldeias que nos fizeram ver
a África pobre: era tudo muito estranho, olhavam-nos de uma forma estranha, e
tentaram-nos roubar; cada vez que passávamos por uma aldeia tínhamos de
acelerar... um pesadelo!
Eu
e o Sérgio caímos ao saltar uma das crateras, pois as bicicletas encaixaram-se
uma na outra.
Almoçámos
mais uma melancia (poucas paragens pudemos fazer com receio que nos caíssem em
cima).
Chegámos
a Kénitra, cidade moderna e suja, com uma enorme lixeira à entrada da cidade.
As pessoas a que fazíamos perguntas tratavam-nos muito bem porque éramos
portugueses. O Sérgio furou um pneu mesmo no meio da cidade!
Dirigimo-nos
para Mehdyia Plage, onde pensávamos ficar num parque de campismo. Trata-se de
uma vila tipo Vila Nova de Mil Fontes, muito concorrida. Queriam que pagássemos
três noites para ficar no parque de campismo, pelo que desistimos de aí ficar.
O dia esteve quase sempre nublado e com vento contra.
Dirigimo-nos
por uma estrada no meio da vegetação (onde comprámos 2 kg de tomates por 3 DH
que deitámos quase todos fora mais tarde), a caminho do próximo parque de
campismo perto de Rabat. Fomos interceptados pela policia quando tentávamos
comer os tomates. O policia estendeu-me a mão (talvez para me pedir o
passaporte), e eu dei-lhe um aperto de mão. Tivemos que lhe explicar durante
muito tempo, que tal era uma forma de saudação no nosso país, e que não tínhamos
feito por mal. Após as averiguações, indicaram-nos um parque de campismo na
Plage-des-Nations, que afinal não existia. E com isto íamos fazendo kms e a
noite ia-se aproximando (se isto é mau de dia, então de noite...).
Ao
Sérgio deu-lhe uma coisa, e fizémos os últimos kms a uma média de 26 km/h.
Chegámos a Salé vinha eu já delirante de cansaço.
Depois
de nos perdermos na cidade (fomos quase até Rabat), lá demos com o pequeno
parque de campismo junto ao mar, sem grandes condições nem árvores. Não
havia onde comer nas imediações do parque, pelo que tivémos de comer as rações
de emergência.
Espera-se
um dia melhor para amanhã, com muita comida, muitas coisas belas para ver
destas duas cidades vizinhas (Salé e Rabat), e muito descanso... porque amanhã
não andamos de bicicleta.
P.S:
ligámos Lisboa a Rabat, as duas capitais, em oito dias! Grande feito.
9º
DIA
Dia
de descanso
Estamos no parque de campismo de Salé, cujo dono é parecídissimo com o Mário Soares (só que mais escuro).
Começámos
a manhã por procurar um sítio para tomar o pequeno almoço. Perdemo-nos logo,
e entrámos dentro da parte velha da cidade, com ruelas apertadíssimas,
apinhadas de locais para comprar e vender produtos hortícolas, peixe, etc. Aos
poucos vamo-nos habituando a andar nestes antros, pois andamos sujos, rotos, e
até já nos disseram que parecíamos marroquinos, tanto que nos falam primeiro
em árabe. Poucos pobres se metem connosco e não se demoram muito...
Tomámos
um chá de menta e uns bolos de amêndoa muito bons. Visitámos as enormes
muralhas de adobe de Salé, bem conservadas e envolvidas por jardins. O parque
de campismo fica junto do grande cemitério de Salé, com estelas pintadas de
azul e amarelo, que separa a cidade da praia.
De
Salé a Rabat é só atravessar o Oued Bou
Regreg num trecho de certa beleza, com as duas enormes cidades em cada
margem, e a torre Hassan imponente num ponto alto. Pessoas pescam nas margens do
rio, ou descansam na sombra dos jardins. Junto ao mar situa-se o Kasbah de
Oudaias, numa pequena elevação.
Hoje
o dia foi para descanso, revisão mecânica das bicicletas, remendo de furos, e
comida, muita comida. Comemos tabaibos e até um gelado miniatura (o Sérgio
gere o dinheiro com pulso de ferro!)
Tentámos
telefonar, mas em vão. Conseguimos mandar postais para toda a família. Almoçamos
miúdos de frango com cebola, e uma bela salada. Aqui come-se bem e até é
barato.
Rabat
é uma cidade de contrastes: aqui vê-se a miscelânea entre o Oriente e o
Ocidente, a tradição e o modernismo. As mulheres vestem trajes tradicionais, e
andam de mala de pele a tiracolo e cabelo arranjado. Os homens estão trajados
de forma ocidental (só alguns mais velhos não o fazem). Existem grandes e
modernos edifícios, junto aos velhos Kasbah rodeados de muralhas.
O
trânsito nestas cidades é infernal, e vêem-se inúmeros motocicletas muito práticas
nestas zonas.
Visitámos
os souks de Rabat, com venda de artesanato para estrangeiro comprar, como
tapetes, candeeiros trabalhados, roupa árabe ricamente ornamentada e até
alguns fósseis. Uma experiência não mais interessante que a visita ao souk de
Salé pela manhã!
Visitámos
as muralhas e porta monumental de Oudaias, constituindo um burgo sossegado. De
referir o excelente trabalho dos arquitectos marroquinos para erigir tão
preciosas obras de arte.
Por
fim, visitámos o recinto da imponente e esbelta Torre Hassam, castanha, rodeada
de vasta área ajardinada, e onde se impõem os restos dos muros da mesquita
inacabada, e a floresta de colunas que cobrem todo o recinto. Vêem-se soldados
marroquinos a pé e a cavalo, trajados à antiga, uma alegria para o turista
japonês. Contemplámos à sombra desta obra prima da arquitectura, que é a
torre Hassam, a paisagem sobre as duas cidades (que pareciam de longe ser tão
calmas!).
Ao
fundo do recinto erguem-se umas construções mais recentes, de elevada
qualidade estética e muito trabalhados no seu interior. As portas em bronze são
autênticas peças de joalharia (vá lá que aqui não se paga nada!). Trata-se
do mausoléu de Mohammed V.
A
Torre Hassan é o minarete daquilo que era para ser, no século XII, a maior
mesquita do ocidente, espalhando as suas ruínas por 2,5 há, com cerca de 400
colunas. A torre tem 44m de altura.
Chegados
ao parque, lavámos a roupa, e ao final da tarde fomos procurar em Salé um
local para comer. Fomos ao mercado comprar figos e uvas, e jantámos numa
pequena “tasca” umas deliciosas salsichas à moda de Marrocos, acompanhadas
com pão, sem ajuda de garfo, e principalmente, sem faca, a qual nunca tivemos
oportunidade de utilizar em qualquer sitio onde comemos.
Chegámos
quase de noite ao parque.
Estamos
com algum receio da estrada de Casablanca para Marrakesh, pelo que já temos
visto até agora (existem marroquinos por todo o lado).
P.S
– nas cidades erguem-se vários minaretes, donde se houve a determinadas
horas, a chamada para a “missa”.
10º
DIA
102,9
Km
(4 horas e 40 mins. Velocidade média – 23 km/h)
Saímos cedo de Salé para mais um dia, desta feita bem calmo, sem surpresas.
Tomámos
o pequeno almoço num café de rua e derigimo-nos para a estrada junto da costa.
As praias, entre rochedos, não têm grande piada, apesar de serem concorridas,
e algumas delas com clubes internacionais sempre bem vedadas e guardadas. Nunca
tínhamos visto tanta polícia. Um em cada cruzamento, em jeeps, motas, etc.
Passámos
pela estância de férias do Rei, muito verde e sempre bem guardada com soldados
de metralhadora em punho.
A
estrada não tem grande piada, à excepção de alguns fortes em ruínas ou da
polícia, e ainda o azul do mar. esta zona é muito plana. A média até
Casablanca foi de 25 km/h, o que quer dizer que chegámos às 14 horas a
Casablanca!
Mohammedia
é uma cidade do tipo europeu, uma estância de veraneio. Ressalta a limpeza das
ruas e o arranjo das avenidas com palmeiras. Fomos a um salão de chá beber um
chá de menta e comer uns doces.
A
chegada a Casablanca é horrível. Tivémos que passar por uma extensa zona
portuária com bairros degradados. Ao longe, junto ao mar, via-se a torre Hassan
II, a maior mesquita (à excepção de Meca), construída no nosso século.
Trata-se de uma torre com 200 m de altura, que sobressai sobre todos os outros
inúmeros prédios da cidade, que é a quarta maior de África, com 3,5 milhões
de habitantes.
Percorremos
cerca de 10 km nesta moderna cidade, até darmos com o parque de campismo. Tivémos
a preciosa ajuda de um jardineiro local, que vinha a passar de bicicleta e soube
do nosso problema. Disse para o seguirmos, e nós lá fomos atrás dele, devagar
e atravessando cruzamentos movimentadíssimos com o sinal vermelho. Quando
finalmente conseguimos dar com o sitio, o Sérgio quis dar-lhe dinheiro mas ele
não aceitou (aqui ainda há pessoas que fazem boas acções sem interesse monetário!).
Pediu a nossa morada, e deu-nos a dele. Tirei uma fotografia dele com o Sérgio,
e prometemos trocar correspondência. No final apertou-nos a mão e...deu-nos
dois beijos no rosto, para grande surpresa nossa (e levou a mão ao peito como cá
fazem).
Almoçámos
ás 16 horas numa pizaria americana (lasanha com faca e garfo!). Passámos o
resto da tarde no parque de campismo, à sombra de uma árvore, a descansar.
Jantámos
umas coisas que misturam tradição marroquina e pratos franceses (comemos um
doce à base de frango e amêndoas, e sandes de especiarias e pão de Ceuta).
Aqui a tradição já não é o que era!
Vamos
tentar chegar a Marrakesh em apenas dois dias, por forma a dormir apenas uma
noite nesta zona de pesadelo. Espero que tenhamos sorte!
11º
DIA
96,8
KM (4 horas e 27 mins. Velocidade média
– 23 km/h)
Este dia tem pouco para contar. Desmontámos a tenda e fizemo-nos à estrada, num percurso sem sobressaltos e quase sempre plano. Almoçámos em Setat, pequena cidade muito verde e bem cuidada, onde há a destacar o Kasbah de Ismailia de fachadas bem preservadas.
Almoçámos
uma farta salada e tajine (finalmente nos tradicionais tachos de barro), mas não
nos soube muito bem (as especiarias a mais começam-nos a fazer mal ao estômago).
O
calor é cada vez maior à medida que nos afastamos do litoral e m direcção a
uma região demasiadamente plana. Vimos pela primeira vez mulheres com tatuagens
nos pés e nas mãos. Trata-se de uma tradição dos casamentos berberes.
Em
Marrocos somos muito bem vindos porque somos portugueses, é o que toda a gente
nos diz. Somos sempre muito saudados, ou então apedrejados como aconteceu hoje
por um rapaz que se encontrava junto de um poço.
Quando
o calor mais apertava e o terror de passar mais uma noite nesta região sem
locais para nos escondermos se aproximava, decidimos fazer uma paragem num
pequeno café à beira da estrada para nos refrescarmos. Aqui arranjámos um
quarto para dormir, e assim passámos a tarde toda sentados ao fresco e a ver
televisão marroquina (uma série de acção dobrada em francês, musica
tradicional árabe e um programa sobre caligrafia árabe). Evitámos assim uma
noite de terror nesta região, e amanhã, possivelmente conseguiremos atingir a
tão almejada cidade de Marrakesh.
12º
DIA
148,5
KM (7 horas e 7 mins. Velocidade média
– 22 km/h)
Dormimos numas poltronas com grandes almofadas, à semelhança daquilo que havia no interior do café, o que o tornava muito confortável. Saímos bem cedo, pela fresca, para um dia longo mas sempre por boas estradas, e a um ritmo muito rápido.
Descemos
14 km por paisagens ondulantes e áridas até um largo oued, que enchia de verde
toda a região. A partir daqui subimos ligeiramente durante 16 km até
Skour-Rehamma, uma povoação vestida de adobe vermelho, situada num plano junto
a um grande monte de encostas rochosas. Comemos tabaibos, que são muito
nutritivos, e que possuem bastante água.
Em
Ben Guerir, cidade moderna que cresceu à custa dos fosfatos (Marrocos é o
maior produtor mundial), bebemos o nosso chá de menta.
Em
Sidi-Bou-Othman, situada nas faldas de uns pequenos picos que ascendem a 800m,
tomámos o nosso almoço: um excelente tajine com muitos legumes. Estamos a
ingerir líquidos de uma forma monstruosa: garrafas de coca-cola e muita água
Sidi-Ali (porque a Sidi-Akmane é muito calcária, não presta).
Iniciámos
uma lenta ascensão sob um calor tórrido e um vento extremamente quente. A água
ferve dentro das garrafas. A boca seca-nos num instante. Isto é um inferno! Não
se vê ninguém.
Passámos
o palmeiral de Marrakesh (muito seco e abandonado), que domina uma
vasta área plana.
Entrámos
em Marrakesh, uma cidade que nos pareceu calma e com um estilo arquitectónico
moderno, que respeita a construção tradicional, sem se observar os tão comuns
sinais de pobreza.
O
parque de campismo municipal estava fechado, e tinha-se mudado 12 km mais para
norte, de onde tínhamos vindo! O Sérgio ficou fulo, pois já estávamos a
acusar os kms e o forte calor sufocava-nos. Lá voltámos para trás até
chegarmos ao parque ainda em construção.
Fomos comer umas sandes de kefta a uma estação de serviço
que existe ali ao lado.
No
parque de campismo encontrámos um grupo de ingleses que tinham vindo de
Gibraltar de bicicleta, e para lá partiriam amanhã. Tinham feito mais ou menos
o mesmo percurso que nós, e com um dia de avanço (contudo traziam toda a sua
carga num carro de apoio).
Hoje
estamos cá fora a apanhar o vento fresco da noite. O Sérgio pensa dormir cá
fora.
Amanhã
iremos a pé visitar Marrakesh, e andaremos lá todo o dia.
P.S-
Não vi sinais das montanhas do Atlas, nem do tão almejado Jbel-Toubkal, o que
não deixa de ser estranho!
13º
DIA
30
km a pé
Hoje o dia começou bem cedo, calmo e muito relaxante. Um duche para refrescar, roupa para lavar e muito descanso à sombra de uma oliveira.
Deviam
ser umas 11 horas e o calor apertava, quando decidimos pegar nas mochilas e em
duas garrafas de água e ir até Marrakesh, tão ansiada por nós.
O
calor aqui é sufocante! Devem estar uns 50ºC ao sol!! Atravessámos os 5 km de
palmeiral onde não se vêem casas, e um oued que mais parece um caneiro de
esgoto, como é natural por aqui.
Do
parque até Marraquesh são 11 km, mas a cidade é enorme! A entrada é
constituida por um bairro calmo de gente com posses. Existem vários jardins na
cidade, de tal forma apinhados de marroquinos que até faz impressão!
Passámos
as muralhas da velha medina, sem grande interesse, e logo procurámos a famosa
praça Jemaa el Fna. Os turistas são imensos, assim como os hotéis que se
encontram entre os mais luxuosos de Marrocos. Encontramos o famoso minarete da
mesquita Koutoubia, do século XXII, com 70m de altura. Infelizmente
encontrava-se rodeada de andaimes, pois estava a ser restaurada. À volta desta
ruína, a mesquita e os jardins. Prosseguimos por uma avenida que se encontrava
cheia de coches para inglês ver, e entrámos na Jemaa el Fna, quase sem darmos
por isso! À hora do calor encontrava-se quase vazia, se excluirmos os
vendedores de sumos de laranja, tão insistentes (esta zona da cidade torna-se
extremamente movimentada a partir das 17 horas).
Fomos
almoçar brochettes num pequeno café mesmo na praça. De seguida fomos visitar
os souks, sombrios, riquíssimos em diversidade, cheiros, quantidade... é um
nunca mais acabar de marroquinaria e outras coisas para turista levar. Demos
umas três voltas ao souk, sempre insistentemente interpelados pelos
comerciantes (um deles levou o Sérgio para o interior da sua loja para lhe
vender punhais!). Procurámos saber os preços dos fósseis, e vimos as
falsificações (existem centopeias e escorpiões à mistura com trilobites,
amonites, goniatites, ortoceras, quartzo ametista e galena vendida ao quilo,
certamente de minas nos arredores).
Passámos
o resto da tarde de café em café, a beber água e sumos, à espera da hora do
inicio da festa (sem nunca deixar de transpirar abundantemente). E assim
aconteceu. De um momento para o outro a praça encheu-se de tascas e de pessoas
que aqui vendiam as mais variadas coisas. Existem dentistas que vendem placas
usadas, o que foi um desconsolo, tal como o resto! Existem encantadores de
serpentes por todos os lados, e nós fomos bem embrulhados em 4000$00 só para
tirar umas fotografias junto de uma cobra capelo de cor negra, e para ter umas
cobras enroladas ao pescoço! Queriam-nos levar quase 7000$00, mas consegui-me
opor entre o meu, e sobretudo o pasmo do Sérgio que ficou sem saber o que
fazer...
Fomos
comer os famosos couscous, que mais souberam à amargura do engano, e depressa
dali saímos com um grande desconsolo pelo desperdício de energias, e por
termos perdido tão precioso dinheiro. Agora estamos mais apertados, mas ainda dá
para continuar a viver bem.
A
viagem de regresso foi muito cansativa, e feita à noite, o que é muito
perigoso. O Sérgio veio sempre a bufar, e a chatear-me a cabeça (diz que foi o
dia mais cansativo, e que mais valia não ter saído do parque). Às vezes tem
umas reacções chatas, que quase me fazem perder a paciência, mas alguém tem
de se manter controlado! Afinal, ás vezes eu também sou muito chato!
Deitámo-nos
tarde (ainda tomámos banho), e amanhã precisamos de acordar bem cedo por causa
do calor. Espero que estejamos em condições fisicas e psicológicas para levar
esta louca aventura até ao fim!
Apesar
de tudo, gostei muito de Marrakesh, embora seja um pouco diferente daquilo que
estávamos à espera, pois cresceu muito voltada para o turismo. Mesmo assim,
continua a ser uma cidade muito violenta, cheia de pessoas a tentar ganhar
dinheiro de todas as formas.
Finalmente amanhã abandonaremos estas cidades imperiais.
14º
DIA
78,44
km (5 horas e 10 mins. Velocidade média
– 16 km/h)
O dia começou quente tal como todos os outros, exceptuando-se uma madrugada fresca.
Saímos
do parque em direcção a Marrakesh. Sinto-me com dores de cabeça, e estamos
bastante cansados da nossa insólita caminhada de ontem. Andámos perdidos em
Marrakesh (fizémos 20 km nesta zona). É só trapaceiros por aqui! Já
desmoralizados, demos finalmente com o caminho, inicialmente plano, e depois
ligeiramente a subir (estava a começar a ascensão do Atlas).
Tomámos
um banho delicioso numa vala de águas frescas e límpidas vindas do Atlas. Este
começa a aparecer no horizonte, envolto por uma neblina.
Chegámos
a Tahanaoute, vila tipicamente berbere, situada junto do desfiladeiro do oued
Reraia. Comemos sandes de queijo fundido e bastantes tabaibos. Entrámos
finalmente na região mais interessante e bela de Marrocos. As casas, feitas de
adobe, juntam-se em pequenos aglomerados nas encostas e topos das serras. O vale
do oued Reraia é muito belo (aqui tomámos um refrescante banho!).
Começou
a estrada de montanha. O Jbel Toubkal e Asni, situada no flanco de uma montanha,
dominam o vale repleto de pinheiros.
Ao
chegar a Asni, fomos interpelados por dois jovens, que nos ofereceram a
oportunidade de dormir numa casa berbere por um pequeno preço. Seguimo-los por
dificil caminho até um pequeno conjunto de casas de aspecto humilde, próximo
de Asni. O local é sossegado e a aldeia é toda ela constituida por casas em
adobe com telhados de cana.
Sentámo-nos
à sombra numa esteira, rodeados por almofadas. Vem um chá de menta. Ficamos a
conhecer a família toda: o pai é tuaregue e a mãe berbere. Negoceiam roupas
por jóias para ir vender a Marrakesh. Mostram-nos jóias (que esperamos serem
de prata verdadeira), e começa uma negociação típica, com chá à mistura:
acabámos por fazer trocas e dar dinheiro. O Sérgio comprou cinco pulseiras e
eu uma (a minha é de Merzouga, as do Sérgio do Saara e berberes, com contas
para o ramadão). Ficámos com a sensação de sermos enganados, como sempre!
A
seguir visitámos o mercado da cidade, típico da pequena vila que é. Tomamos
todos chá num boteco central.
O
local onde vamos dormir tem só tapetes e almofadas, e temos de entrar descalços.
Hoje
vamos comer couscous como à boa maneira tradicional: amassado à mão.
As
minhas dores de cabeça aumentaram!
O
dinheiro vai-se num instante, mas estamos a curtir à grande, misturando-nos no
meio deste povo afável, mas muito virado para o dinheiro.
Escrevo
estas linhas rodeado de três crianças, num total de cinco irmãos
O
Toubkal desaparece na noite. Já nos avisaram que é impossível chegar até ao
topo de bicicleta. Prosseguiremos amanhã até ao lago Ifni.
O
jantar foi em tapetes, com uma pequena mesa e apenas um grande prato cheio de
comida. Parte dela voltou para trás.
Said Boudall
Marrakesh
Marocco
P.S
– vimos livros escolares em árabe, e tentámos aprender alguma coisa de árabe.
15º
DIA
26,5
km (velocidade média – 5 km/h)
Acordámos bem cedo, ainda o sol se escondia por detrás do anfiteatro imenso de montanhas. Sinto-me muito melhor! Tomámos café com leite e pão com queijo. Já disse que o pão aqui é sempre redondo e espalmado?
Dirigimo-nos
para a estrada a caminho de Imlil, que desde logo começou a subir imenso. O
panorama é fantástico! Seguimos um vale muito encaixado, por onde corre uma
linha de água. A vegetação abunda apenas nos vales ainda cultivados, mas
escasseia na montanha. Passámos por algumas zonas com vegetação abundante e
cerrada, onde existem bastantes fontes e linhas de água, as quais vamos
transpondo. A estrada é cada vez pior, mas ainda vai dando para andar de
bicicleta.
Ao
cabo de 10 km entrámos numa estrada de terra, ainda pior que a anterior. A
paisagem é sublime, com lindas aldeias da cor do local com que se confundem.
Chegámos
a Imlil ainda cedo, e resolvemos almoçar feijão com tripas. Esta aldeia fica a
1740m de altitude, rodeada de árvores e com várias aldeias próximas.
Disseram-nos que o caminho para o abrigo de Neltner é impossível com as
bicicletas carregadas. Tentaram-nos, inclusivamente, alugar mulas. Seguimos por
um caminho que nos obriga a levar as bicicletas pela mão. A paisagem torna-se
cada vez mais agreste e selvagem.
Passámos
a aldeia de Aremd, situada no fundo de um vale por onde corre um rio com
abundante caudal. Atravessámos com dificuldade o “circo” de Aremd, um
amontoado de calhaus numa região onde o vale é muito largo. Aqui começaram as
grandes dificuldades, e a verdadeira ascensão ao Toubkal.
Da
estrada ou caminho, passámos agora para um carreiro de pé posto, com muita
pedra.
O
clima estava bastante agradável; na encosta das montanhas subsiste neve!
O
transporte das bicicletas faz-se agora de empurrão, ou no caso do Sérgio, ás
costas.
Houve
uma pausa para um banho muito rápido, porque a água, proveniente do degelo,
estava de gelar os ossos. Enquanto nos secávamos, apareceu um homem de idade
que quis que fossemos beber um chá ao seu estabelecimento, situado um pouco
mais acima.
Se
as coisas já estavam más, pior ficaram, pois o caminho aumentou de inclinação
e de pedregulhos. Arrastávamo-nos pela montanha acima, cada vez maior aos nosso
olhos, sempre com o Toubkal a fechar o nosso horizonte.
O
trânsito das mulas é por aqui enorme. São utilizadas para transporte de
mochilas e outro material, dos inúmeros caminhantes que ascendem a esta
montanha. Estes vão-nos dando apoio, face ao nosso enorme esforço. Houve um
grupo de franceses que já vinha a descer, que disseram que éramos
completamente doidos!
O
Sérgio teve mais um furo (hoje apenas um, o que na minha ideia foi sorte).
Enquanto descansávamos e remendávamos o pneu, passou no sentido inverso, um
local em cima da sua mula que nos pediu lume e alguns dos biscoitos que estávamos
a comer. Os corvos abundam por aqui.
O
sol começava a desaparecer por detrás destas imensas montanhas. Completamente
exaustos e sem esperanças de chegar a Neltner, resolvemos acampar junto ao rio
que vínhamos a acompanhar.
Lavámo-nos
e montámos o nosso acampamento ao ar livre. Hoje iríamos dormir à luz das
estrelas (não montámos a tenda para passarmos despercebidos). Comemos o nosso
pão com sardinhas e tâmaras de Marrakesh. Não estávamos mal. Na encosta em
frente a nós, subsistem grandes retalhos de branca neve (estamos a cerca de
3000m de altitude). A paisagem é espectacular, neste apertado vale coroado pelo
Jbel Toubkal.
A
noite previa-se fria, muito fria. A temperatura descera bruscamente, e
esperam-se temperaturas da ordem dos 0ºC (que grandes amplitudes térmicas se
sentem aqui).
Um
rebanho de cabras desce a encosta.
16º
DIA
3,53
km
Que noite, meu deus!
Se
o céu estava incrível, completamente cravejado de estrelas, o frio apertava e
um vento gelado não nos deixara dormir. Como se não bastasse, havia calhaus
por todo o lado, e as dores eram enormes!
Levantámo-nos
ainda não era dia. Não havia razão para continuar este suplicio.
Comemos
parte das rações de emergência (não temos mais nada para comer).O Sérgio
começou a dar sinais de estar doente.
Seguimos
pelo caminho que bordeja o vale, cada vez mais inclinado e com mais calhaus.
Atingimos o abrigo de montanha de Neltner, a 3207m de altitude, situado num vale
onde abundam tendas em socalcos.
Cheguei
primeiro. O Sérgio tinha ficado para trás. Fui saber as condições do local,
e depois fui buscar-lhe a mochila. Estendeu-se sobre a vegetação fôfa,
estoirado. Era o principio de uma febre. Montei a tenda e depois fomos comer.
Entrámos no pequeno abrigo de montanha, repleto de montanhistas sentados em
torno de uma grande mesa central, bordejada pela “cozinha” e por camas dos
guardas. Comemos enlatados com vegetais para desenrascar.
O
Sérgio teve que passar a tarde na tenda. Eu decidi ascender ao Toubkal, coisa
que não fiz porque me enganei no caminho. Contudo, fiquei a conhecer o caminho
de amanhã: um pesadelo, e ao mesmo tempo belo. O percurso tornou-se mais
pedregoso, e de inicio mais inclinado. Passei por um desfiladeiro com quedas de
água, e gelo no fundo em grandes mantos brancos. Atravessei um pequeno
planalto, onde corria uma pequena linha de água e onde as mulas pastavam.
Ouve-se o som estridente das gralhas que abundam por aqui (e não corvos!).
Existe aqui muita gente a acampar. Os mantos de neve espalham-se por vários
recantos das montanhas. O vale é largo, como que o de um antigo vale glaciário.
Ascendo
a outro planalto, desta vez maior, a cabeceira da linha de água que vínhamos
acompanhando desde ontem. Grande parte desta água provém do degelo, e como tal
ela é gelada!
A
diminuição do oxigénio com a altitude faz-se sentir: o coração bate muito
depressa e tenho que fazer várias pausas.
Subo
a montanha até Tízi n’Oumbous, a 4000m de altitude, um caminho sempre em S,
muito inclinado e pedregoso. Junto de uma escarpa onde passo, subsiste neve. Do
outro lado a paisagem é fantástica! A montanha deste lado ainda parece ser
mais a pique! O caminho continua em direcção ao lago Ifni (espectacular),
possivelmente um resquício de um antigo glaciar. Vejo ainda ao longe a paisagem
montanhosa e desértica do sub-saara, onde subsistem alguns picos.
Pensando
ser aquele o Jbel Toubkal, começo a subir um escarpado, mas não durante muito
tempo, pois uma parede a pique barra-me a passagem. Com algum receio volto para
trás. Terei talvez chegado aos 4050m.
Começo
a fazer o caminho de volta para o abrigo. Vai ser quase impossível passar aqui
de bicicleta, e com o Sérgio doente...
À
vinda retempero-me de energias com a água fresca do riacho. Chego a Neltner e
procuro saber quanto custa o aluguer de uma mula até ao lago Ifni. Falo com o Sérgio,
e decidimos alugar uma mula, isto se ele estiver melhor. Cá está um sitio onde
o animal domina claramente a máquina (aliás, aqui a máquina não serve para
nada! É um estorvo. Que o digam as pernas e o resto do corpo, todo arranhado
das pedras).
Jantamos
no abrigo, numa imensa confusão (tivémos que estar à espera que um grupo de
ingleses comesse primeiro!). Depois, numa noite escura como o breu, foi
conseguir dar com a tenda ás apalpadelas, e a cerca de 150m do abrigo, numa
paisagem pautada pelas pedras e irregularidades do terreno.
Esperamos
dormir melhor esta noite (dentro da tenda e com uma cama fôfa de vegetação).
Ouvem-se batuques vindos das tendas dos burriqueiros, com ritmos tradicionais da
região.
17º
DIA
15
km pela montanha
Mais uma noite que só visto.
O
frio era intenso e o vento soprava forte. Apesar de o chão ser confortável,
era demasiadamente inclinado, e não tínhamos posição para dormir.
Levantámo-nos
bem cedo (para variar!). O frio não tinha diminuído de intensidade. O Sérgio
melhorou, ao ponto de estar completamente curado!
Fomos
tomar o pequeno almoço à casa abrigo, depois de tudo arrumado e transportado
para perto desta. Pedimos uma mula. Disseram-nos que não havia nenhuma para o
lago Ifni. Conseguimos arranjar quem nos levasse. Desmontámos as bicicletas
(que foram muito maltratadas pelas cordas que as prendiam). A mula ficou pronta,
apesar de a principio não querer levar as nossas bicicletas (as mulas têm
pavor das nossas bicicletas, algumas entram mesmo em pânico, saindo do caminho
para desespero dos condutores). Todo o nosso material ia dentro de dois cestos,
onde as bicicletas e as rodas cabiam a custo.
Começou
a ascensão. O carregador que conduzia a mula, transportava a mochila do Sérgio.
Ascendemos rapidamente aos 4000m de altitude. É incrível como a mula vence
aqueles desníveis em solo tão pedregoso!
Passámos
um grupo de montanhistas vestidos a rigor, andando a passo largo.
Ao
chegar a Tízi-n’Oumbous, começou uma formidável descida que nos levava ao
lago Ifni. O desnível era impressionante (eu caí uma ou duas vezes!).
A
dada altura o quadro da minha bicicleta ia ás costas do carregador, e o Sérgio
ia agarrado ao rabo da mula para a controlar. Ele também transportou a minha
bicicleta ás costas!
A
paisagem era indescritível: seguiamos uma linha de água, que caía em quedas
sucessivas, e onde havia grandes blocos de gelo junto desta. Uma grande fractura
na montanha encontrava-se parcialmente coberta de gelo.
Havia
vezes em que a mula se ia abaixo das pernas, e em que era preciso segurá-la.
Chegámos
à base da montanha, numa paisagem caótica, toda cheia de calhaus. Depósitos
de vertente abundavam por todo o lado. Dois antigos vales glaciários vinham
unir-se aqui, onde agora resta uma passagem na montanha e o lago.
O
lago Ifni é lindíssimo, muito azul, no meio de uma paisagem do tipo lunar.
Possui uma grande extensão.
Comemos
pão com sardinhas (para desespero do Sérgio!) juntamente com o carregador,
numa pequena barraca de pedra, que serve para dar apoio aos poucos turistas que
ali conseguem chegar. Voltámos a arrumar as coisas, e depois eu pude deliciar
me a tomar um banho fresco naquele lago de montanha, a mais de 2500m de
altitude.
Voltámos
ao velho caminho de pedras no meio de uma paisagem caótica de grandes blocos
(que inclusivamente obstruíam o caminho, por onde tivémos de arrastar as
bicicletas. Ficámos desesperados. Só se via blocos e grandes montanhas.
Descansávamos
à sombra de uma rocha, quando o Sérgio disse que ali não se ouvia nada
nem havia ninguém; nesse mesmo instante passou um marroquino, que nos
disse que estávamos próximo da povoação. Ganhámos novo ânimo, que aumentou
quando vimos um rio correndo junto de uma estrada de terra.
Quando
lá chegámos deparámos com uma estrada péssima, cheia de cascalho e grandes
blocos de pedra. Mas o rio lá estava, com as suas
águas geladas onde pudémos saciar a nossa sede e lavar as nossas
feridas (causadas pelos pedais das bicicletas a roçarem-nos nas pernas). Tivémos
a companhia de um jovem que nos pediu lápis (o que é costume por aqui), e se
divertiu com a minha garrafa de água.
Embora
o caminho fosse um pouco inclinado e dificil, já foi possível andar de
bicicleta (finalmente!).
Dirigiamo-nos
para um vale lindíssimo, farto em água e com uma grande cascata. As encostas
das montanhas estavam cultivadas em socalcos, onde existiam aglomerados de casas
em adobe, formando um cenário idílico.
Chegámos
à aldeia de Imlil, onde dois indivíduos nos tentaram vender haxixe!
O
caminho era muito lento, e os miúdos perseguiam-nos e agarravam-se ás
bicicletas, o que é muito chato (chegámos a ter uns 15 miúdos a empurrar a
bicicleta!). Numa aldeia, o caminho estava completamente inundado de água.
O
vale é intensamente habitado, e contrasta com a rudeza e secura das montanhas
envolventes.
Seguíamos
o caminho para Ouarzazate sem saber onde nos encontrávamos. A noite começava a
cair, e não conseguíamos arranjar um lugar discreto para dormir. Os turistas não
abundam propriamente por aqui! Encontrámos um pequeno “hotel” à beira do
caminho. O preço era de 60 DH, mas o Sérgio conseguiu desce-lo para 40 DH.
Pudémos
tomar um banho morno (um luxo!). Prepararam os tapetes e os cobertores para
dormimos no terraço. O dono andava numa grande azáfama para que tudo ficasse
ao nosso gosto. Comemos os biscoitos que tínhamos comprado no lago (comprámos
duas garrafas de água por 30 DH!) e bebemos um belo chá de menta.
A
noite está excelente, amena e sem vento.
Constata-se
que aqui não existe electricidade, pois com tantas aldeias não se vê nada na
escuridão, a não ser a lanterna que me alumia.
Os
meus lábio estão uma lástima; cieiro deu cabo deles (estão inchados e cheios
de feridas).
18º
DIA
13
km
Acordámos
bem cedo. Eu dormi muito bem, mas o mesmo não se pode dizer do Sérgio. Passou
a noite toda a tentar ver que bicho corria por cima das nossas almofadas. Quando
eu acordava, lá estava ele com a lanterna a observar atentamente o terraço.
Vieram
dar-nos o pequeno almoço: chá e pão com ovos.
Quando
estávamos a arranjar as nossa bicicletas, verificámos que a minha tinha um
raio partido, e ainda por cima numa zona para onde não tínhamos ferramentas. O
Sérgio esforçou-se, mas a dada altura quase toda a aldeia já nos tentava
ajudar. Foi então que foram chamar alguém que eles diziam ser “o
ciclista”. Quis tirar as peças à força, e a certa altura já os rolamentos
rolavam pelo chão! Finalmente reconstruíram (mal) a roda, e nós,
completamente estoirados lá nos pusemos a caminho. Parámos poucos metros mais
à frente, para o Sérgio poder arranjar a roda.
O
caminho mostrava-se muito lento e de dificil progressão, devido ao excesso de
calhaus e de areia.
Chegámos
famintos a uma aldeia. Contudo, um merceeiro (já velhote) abriu a porta do seu
estabelecimento e ofereceu-nos pão, sardinhas, azeite e fruta fresca. Não nos
deixou pagar a refeição!
Voltámos
ao caminho para logo sermos assediados por um bando de miúdos, que nos
acompanhou por alguns kms. Fomos inclusivamente acompanhados por homens, o que
nos fez ficar alerta.
Pudemos
descansar finalmente numa curva de estrada, com um vale rico em árvores. O Sérgio
encontrava-se com graves problemas intestinais. Resolvemos desistir, e tentar
apanhar uma boleia até Ouarzazate, num desses velhos camiões Berliet, que
transportam pessoas e os seus pertences. Por azar, coisa que é comum, nenhum
passou, a não ser algumas pessoas com os seus burros.
Resolvemos
passar aqui a noite, sem comida, para arrancar amanhã bem cedo na esperança de
arranjar uma boleia. Vamos tentar chegar a casa de transportes. O Alto atlas
deixou-nos completamente estoirados, e este caminho parece não ter fim. Estamos
a cerca de 49 km do alcatrão mais próximo. Algumas crianças que pastam
cabras, observam-nos ao longe.
Mesmo
no final da tarde, apareceu um homem que inundou todo o vale onde estávamos a
pensar dormir! Tivemos que sair dali.
O
dia acabava e nós fazíamos mais alguns kms entre aldeias cheias de gente, sem
que houve-se um local para dormir. Entrámos numa loja e comprámos o nosso
jantar: duas bolachas para cada um. Era tudo o que havia.
Finalmente
conseguimos arranjar um local isolado, próximo de um charco com água, onde
montámos a nossa tenda.
19º
DIA
108,97
km (6horas e 23 mins. Velocidade Média
– 17 km/h)
O dia começou bem sedo, ainda o sol não tinha nascido. Já havia pessoas a passar na estrada.
Enquanto
arrumava-mos a coisas, entretive-me a arrancar espinhos das rodas: um deles
obrigou-nos a mudar o pneu duas vezes. Contudo o Sérgio também furou um
pneu...
A
paisagem é muito seca, quase lunar, encabeçada pelas altas montanhas do Atlas;
nós seguimos por uma zona deprimida, entre este e algumas montanhas menores a
sul. Aqui e ali aparecem pequenos cursos de água fresca e límpida, que são a
nossa maios diversão, pois saciamos a sede e tomamos um banho refrescante
Em
algumas aldeias ouvem-se mulheres a cantar, e quando passamos os miúdos correm
atrás de nós, pedindo dinheiro ou lápis.
Parámos
numa tasca para tomar o nosso pequenos almoço: muito pão, chá e ovos. Era uma
casa rude mas muito bem conseguida, e o seu dono, um senhor de idade, mantinha-a
funcional.
As
nossa bicicletas são novidade nestas aldeias onde pouco se passa, a não ser a
passagem de alguns jeeps, transportando turistas mais “radicais”. Chegam-se
a juntar grupos de miúdos e graúdos para observar atentamente as nossas
bicicletas.
Fomos
prosseguindo muito lentamente, pois o caminho é muito dificil, com muita pedra,
areia e buracos.
Almoçámos
pão com queijo e duas garrafas de Fanta de 1,5 litros (refrescadas no rio que
corria em frente ao café).
As
aldeias sobressaem do resto, pois são feitas em adobe, e muita vezes o próprio
tecto é também feito neste material. O substrato vai mudando do amarelo para o
vermelho, passando pelo cinza.
Percorremos
cerca de 40 km nesta estrada infinita. O final do percurso foi feito à
velocidade limite, para não desfazer ainda mais as bicicletas.
O
Sérgio pensa ter encontrado uma estação arqueológica à saída de Sour, e
trouxe consigo aquilo que parece ser um biface, havendo também sílex e umas
pedras arredondadas e lascadas.
Alguns
kms antes de Agouim, descobriu uma zona com abundantes ágatas e algum quartzo
ametista, donde aproveitámos para trazer algumas amostras.
Finalmente
em Agouim apanhámos o alcatrão. Bebemos uma coca-cola de litro e fizemo-nos à
estrada. E que estrada! Foram os 67 km mais rápidos da minha vida, até
Ouarzazate. De inicio seguimos um rio, sempre a descer e depois entrámos numa
enorme zona plana e seca, onde existiam inúmeros locais de venda de geodes de
quartzo ametista e outros minerais.
Por
fim entrámos numa zona montanhosa, mas muito rápida. Os últimos 30 km
realizaram-se numa zona onde o deserto do Saara já se fazia sentir. Afinal,
Ouarzazate é a entrada para o Saara.
Ouarzazate
é uma cidade moderna, sem nada a mencionar. Para variar foi dificil dar com o
parque de campismo, sempre escondido no canto oposto da cidade, e sem nenhuma
sinalização.
Chegámos
ao parque de campismo completamente exaustos: eu sinto-me muito fraco, e ainda
por cima está muito calor. Vimo-nos aflitos para montar a tenda, pois o chão
é muito duro.
A
mulher do parque não nos quis fazer o jantar, pelo que comemos três bolachas
cada um. Estamos exaustos, fracos e cheios de fome...
Resolvemos
não desistir (não passou nenhum camião, e felizmente contamos apenas com as
nossas pernas para poder progredir).
Este
esforço para chegar a Ouarzazate vai-nos permitir ter o dia de amanhã para
descansar e arranjar as martirizadas bicicletas (devem ter os parafusos todos
soltos, principalmente a minha!). Vamos ainda preparar um nove percurso, uma vez
que este atraso nos faria chegar muito tarde a casa, coisa que não desejamos
mesmo nada! Vamos procurar um circuito por boas estradas, uma vez que as
bicicletas estão cada vez piores. Vamos tentar evitar o deserto, e manter-nos
próximo das montanhas, pois é mais fresco.
Encontramo-nos
fisicamente e psicologicamente muito debilitados, mas decididos a levar avante
esta aventura (pelo menos, até que um de nós ou as bicicletas quebre).
20º
DIA
Dia
de descanso
Dia de descanso e arrumação.
Acordámos
cedo para ir à cidade tomar um revigorante pequeno almoço, que incluiu sumo de
laranja e iogurte natural.
Arranjámos
as bicicletas, fazendo uma pequena revisão.
Estamos
extremamente cansados, mas é o Sérgio que se mostra mais em baixo.
Fomos
almoçar, mas apenas encontrámos dois restaurantes a 1,5 km do parque, e ambos
muito caros. Gastámos 90 DH numa refeição constituida por tajine de frango,
que soube a pouco.
O
dia tem estado cinzento, e chove de vez em quando. Para quem está ás portas do
deserto do Saara...
O
vento trás muito pó. Ouarzazate é uma cidade muito poeirenta. O centro histórico
é pequeno, mas o seu Kasbah é, de facto, espectacular. É todo feito de lama,
e extremamente bem conservado.
A
meio da manhã entretivémo-nos a comer uma melancia. À tarde, após comprarmos
um jantar de pão e doce de pêssego, e outros bens de primeira necessidade, o
resto desta foi passado a dormir à sombra de uma árvore. Depois seguiu-se a
lavagem da roupa, tão suja, tão suja! Foram sete dias de pó!
Passámos
o final da tarde a descascar e a comer tabaibos. Embora já tivéssemos alguma
prática a descascar estes frutos, não conseguimos evitar de ficar com as mãos
cheias de espinhos.
O
Sérgio preocupa-me: está apático, pensa em desistir... Modificámos o
percurso para o conseguir fazer em 36 dias, sem grandes esforços.
21º
DIA
Dia
de descanso
Novo
dia de descanso, desta feita já com as forças retemperadas. A
noite foi calma.Levantámo-nos bem cedo e fomos tomar o pequeno almoço: iogurte
natural e bolos, em dois cafés diferentes. Desta vez tivémos a feliz ideia de
ir de bicicleta.
Comprámos
postais para escrever à família toda, ao fim de oito dias sem dar sinal de
vida. Fomos cambiar o resto do nosso dinheiro.
Passámos
o resto da manhã a arrumar as coisas, e a deitar fora tudo o que não era
necessário para irmos mais leves.
Almoçámos
tajine de frango bem servido e barato, enquanto víamos um filme antigo
marroquino.
Visitámos
rapidamente Taorirt, principal centro histórico da região, mas sempre com
poucos turistas. É um Kasbah espectacular, todo construído em adobe, com inúmeras
torres decoradas com motivos tradicionais. À entrada existem guardas que
acompanham a visita ao interior, coisa que não fizémos.
Decidimos
ir a uma loja tradicional de bijutaria marroquina. Lá conhecemos dois jovens do
deserto, de M’mahmid, que logo nos mostraram fotografias da sua terra e da sua
família. Começou aqui uma tarde interessante, regada com chá de menta, em
amena conversa de negócios. Nós falámos de Portugal e eles da sua terra. O Sérgio
comprou uma adaga vinda dos artesãos do deserto do sul e uma cruz do sul. Eu
comprei uma pulseira, uma cruz do sul e um punhal dos artesãos das montanhas. O
trabalho em metal, pedra e madeira é fantástico, e uma pessoa com dinheiro
perde aqui a cabeça. Eles dizem-nos que alguns objectos são de prata. Se estes
objectos de arte são realmente feitos deste precioso metal,
então ainda aumenta mais o valor destes destes objectos, trabalhados por
mãos ágeis das famílias de artesãos. Tirámos fotografias todos juntos,
vestidos a rigor com o fato de cerimónia e um longo lenço azul na cabeça,
como os nómadas do deserto.
O
parque de campismo fica junto do parque zoológico. Ao longe vê-se a enorme
massa liquida de uma grande albufeira de barragem, o que dá um tom diferente à
paisagem.
Passámos
o resto desta agradável tarde ao sol, calor e vento poeirento, debaixo da nossa
árvore a remendar pneus (cinco!), e depois debaixo da sombra de um toldo a
atirar abaixo uma garrafa de coca-cola de litro.
Ao
final da tarde fomos jantar ao nosso café habitual, uma grande sandes de
manteiga e mortadela, iogurte natural e sumo de laranja.
Já
montámos as mochilas nas bicicletas. Amanhã o dia começará cedo, e será
longo, em direcção ás montanhas do Alto Atlas.
22º
DIA
41
km
Levantámo-nos bem cedo, decididos a continuar viagem em direcção ao deserto.
Mal
saímos de Ouarzazate entrámos numa paisagem estéril, pautada por pequenos
relevos, onde os feitos do sol já se faziam sentir.
Aos
tinta kms, quando tudo parecia correr bem, o Sérgio para a bicicleta junto de
uma palmeira, próximo de um Ksar. Estava estoirado física e psicologicamente.
O Atlas e as doenças tinham nos afectado profundamente.
Tentou
fazer mais uns kms mas desistiu. Arrastou-se até Skoura, uma aldeia de pequenas
dimensões, situada num palmeiral e com casas em adobe, rodeada por quatro
torres ornamentadas. A nossa viagem de bicicleta terminava nesta vila.
Passámos
o resto da manhã num café, onde comemos brochettes e salada.
Fomos
para a estrada para mandar parar a camioneta que ia directamente para Errachidia.
Aquelas camionetas velhas são castiças, todas cheias de gente e de tralha. As
bicicletas fora no topo da camioneta. De inicio fomos de pé, pois não havia
lugar sentado.
Atravessámos
uma vasta região desértica, pedregosa, por vezes arenosa. De quando em vez, um
passageiro saído do nada, ou alguém cuja casa ficava algures naquele ermo,
mandava parar a camioneta.
Chegámos
quase de noite a Errachidia. Os transportes em Marrocos são a toda a hora,
baratos, desconfortáveis, mas para nosso contentamento, eficientes.
Tivémos
a ajuda de um militar extremamente simpático, que nos orientou e se tornou um
verdadeiro amigo!
Aitoulbazi
L’houssoin
2en
Q.E.G. Errachidia
Tel.
05. 57. 31. 95
Conversámos
muito sobre a vida em Portugal e Marrocos (ele vive numa pequena aldeia do Alto
Atlas, e presta serviço em Errachidia).
Tivémos de abandonar o nosso amigo militar (não sem antes
nos ir oferecer duas coca-colas à camioneta), mas apresentou-nos um outro amigo
seu que também ia na camioneta para Meknés.
A
camioneta melhorou substancialmente, mas era muito desconfortável para dormir.
Sempre que chegava a uma cidade, estava muito tempo parada, e eu pude conhecer
outra pessoa simpática, um brigadeiro do exército real, que servia em Kemesset
e tinha estado quinze dias de licença. Trocámos de impressões.
Não
tínhamos tempo para mudar de roupa, nem para tirar aqueles calções de
bicicleta, na ocasião ridículos.
À
noite é quando estas cidades parecem ter mais vida, com um comércio
efervescente.
Parámos
para jantar numa pequena cidade. Fiquei a conhecer, a partir do meu amigo,
algumas das ruas escuras e duvidosas deste antro regional de prostituição,
onde se tem uma mulher por 20 DH... só visto!
Comprei
o nosso jantar: uma enorme sandes de ovo e muitos condimentos, que destruiu o
que restava do meu estômago!
23º
DIA
Chegámos ás cinco da manhã a Meknés, da qual só tivemos a percepção da enormedimensão, e das avenidas marcadamente europeias.
Tivémos
logo camioneta para Tânger. Foi uma viagem muito desconfortável para mim,
cheio de dores. O Sérgio ia dormindo aquilo que conseguia.
Passámos
numa cidade onde mal consegui come um croissant. Foi tudo o que comemos até
agora!
Em
Tânger, esta cidade pesadelo, quiseram-nos comprar as bicicletas (três
pessoas!).
Os
bilhetes para Algeciras custam 16 contos!
O
Sérgio não conseguiu levantar dinheiro com o cartão visa, em nenhum dos sete
bancos que visitámos. Assim tivémos que apanhar a camioneta para Sebta, a
Ceuta espanhola, um antro sujo de Marrocos. Estávamos desertos por sair deste
país dos sentidos. Porra!
Chegados
a Sebta rumámos rápidamente à alfândega, carregada de gente, e onde ninguém
nos inspeccionou as malas.
Dirigimo-nos
o mais rápidamente para o porto de Ceuta, para apanhar o barco para a civilização...
que bom não termos sempre gente em cima de nós! Que alivio!
Acabámos
o dia, era meia noite a rodar pelas avenidas de Algeciras à procura do parque
de campismo. Foi dormir até de manhã.
24º
DIA
Levantámo-nos bem cedo, com sono e muita fome, e fomos s Algeciras levantar dinheiro. Voltámos ao parque para pagar e arrumar as bicicletas.
Fomos
para a estação das camionetas (Que tivémos alguma dificuldade em encontrar).
Seguimos de camioneta para Cádis, onde esperámos cerca de três horas pela
camioneta para Huelva (almoçámos sandes com chouriço).
Chegámos
a Huelva ao anoitecer. Comemos umas sandes num café e procurámos uma pousada
barata para dormir. Conseguimos negociar com o dono da pousada (afinal tínhamos
estado em Marrocos!), e ficámos os dois num quarto com uma cama pequena.
25º
DIA
Levantámo-nos ao nascer do dia e fomos para a estação das camionetas. Comprámos o bilhete para Faro. Aí tomámos o pequeno almoço.
Chegadas
as nove horas partimos para o nosso país, não sem antes Ter havido alguma
confusão com o motorista, que não queria levar as nossas bicicletas.
A
entrada em Portugal foi bastante festejada por nós.
Em
Faro, o transporte das bicicletas teve de ser feito por comboio, chegando a
Lisboa ás dez da noite. Nós esperámos pelo intercidades que partia ás duas e
um quarto da tarde, e que nos levaria de regresso a casa...
FIM