AS "COBRAS PINTADAS DE PENHA GARCIA: MARCAS DE VIDA ANCESTRAL, SÍMBOLOS ACTUAIS DE UM PATRIMÓNIO A VALORIZAR
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por
C. Neto de Carvalho 2, Mário Cachão 1,2 e
Joana
Ramos 2, 3
1-
Departamento de Geologia, Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. Rua
da Escola Politécnica, nº 58, 1294 Lisboa CODEX.
2
- Grupo PALEO - Grupo de Paleontologiaa do Museu Nacional de História Natural de
Lisboa.
3
- Escola Secundária da Ramada. …..
INTRODUÇÃO
Penha Garcia terá sido, em tempos remotos, um povoado neolítico, substituído posteriormente por um castro lusitano e depois povoação romana, ao que parece, de certa relevância. No séc. IX, com a instauração do domínio Árabe na Península, toda a civilização romano-visigótica obscureceu. Foi tomada aos “mouros” por D. Afonso II em 1220, tendo sido doada aos cavaleiros da Ordem de Santiago com a condição de reconstruírem o castelo e a cerca amuralhada e providenciarem a sua defesa e repovoamento. D. Afonso III deu-lhe foral, no ano de 1256, em Proença-a-Velha, com os usos e costumes da vila de Penamacor. D. Dinis doou Penha Garcia, no ano de 1300, à Ordem do Templo. Depois desta ser extinta passou para a Ordem de Cristo onde permaneceu. Foi couto do reino e de homiziados até ao séc. XVIII. A vila terá perdido a sua autonomia municipal e importância para Idanha-a-Nova em 1836, na mesma época em que o fizeram outros povoados, como Idanha-a-Velha e Monsanto, que agora integram o seu concelho.
A história milenar de Penha Garcia, acima resumida, foi fortemente condicionada pela posição estratégica ocupada, no alto das fragas da Serra do Ramiro, dominando os vastos planos que caracterizam a fértil Cova da Beira e a campina raiana, tendo-lhe sido conferido durante séculos o estatuto de praça de guerra. O ouro deverá ter sido a outra razão pela qual as comunidades humanas aqui se fixaram e permaneceram por largos séculos. Assim, a evolução de Penha Garcia como espaço humanizado confunde-se com o substrato alcantilado sobre o qual assenta. O próprio nome do povoado que chegou aos nossos dias, bem como a toponímia de algumas ruas (e.g., Rua do Penedo ou Rua do Mirante) salientam a omnipresença dos cumes fragosos. Mas estas rochas, de natureza sedimentar, têm para revelar uma história bem mais antiga do que aquela que as ruínas ou os documentos possam contar.
A origem das rochas quartzíticas que formam a crista que, desde Aranhas se estende muito para lá das Termas de Monfortinho, atravessando as províncias espanholas de Cáceres e Badajoz, remonta há cerca de 490 milhões de anos, quando os continentes possuíam uma disposição bem diferente da actual, decorrente da dinâmica interna da Terra, encontrando-se quase todos unidos em torno do Pólo Sul, formando um supercontinente denominado Gondwana. Esta região, bem como quase toda a Península Ibérica, encontrava-se então ocupada por um mar pouco profundo na margem NW do Gondwana. Nestas águas turbulentas, frequentemente assoladas por fortes tempestades, viviam abundantes e relativamente diversificadas comunidades de organismos marinhos invertebrados, das quais se salienta a ocorrência de um grupo de artrópodes, extintos há cerca de 250 milhões de anos - as Trilobites (Fig. 1). Estes organismos dominavam os mares de então, vivendo em estreita interacção com os substratos areno-argilosos, onde se deslocavam, procuravam protecção e alimento. Estas marcas de actividade no sedimento puderam, em certas condições, ficar preservadas nas rochas sedimentares quartzíticas posteriormente formadas. Desta forma, os investigadores que se dedicam ao estudo destas estruturas, denominadas por icnofósseis, têm a possibilidade de conhecer as características do ambiente marinho colonizado pelas trilobites, bem como o seu modo de vida, comportamentos e as relações de interacção com outros organismos.
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Fig. 1. Aspecto de uma trilobite fossilizada. As trilobites foram um dos primeiros e mais diversificados grupos de artrópodes que viveram nos oceanos da Terra. Contudo, após um longo período evolutivo de quase 300 milhões de anos, as trilobites foram levadas à extinção há cerca de 250 milhões de anos. O primeiro contacto conhecido do Homem com os fósseis de trilobites deu-se na China, apenas no séc. IV A. C.. |
Desde há muito que se reconhece a presença dos icnofósseis de trilobites nas rochas quartzíticas do vale do rio Ponsul subjacente a Penha Garcia, particularmente as formas denominadas por Cruziana, que as gentes locais, na busca de respostas na Natureza para tudo o pertence ao seu quotidiano físico, popularmente interpretam como “cobras pintadas”. Na literatura dedicada à divulgação turística de Portugal podem ler-se passagens que testemunham uma certa popularidade que os icnofósseis atingiram nesta região: “Situa-se na encosta sul da serra de Penha Garcia, na qual se pode encontrar, com relativa facilidade, enorme variedade de fósseis animais”1. De facto, é a única povoação em Portugal onde se pode encontrar sinalização indicativa da localização de fósseis, nomeadamente no centro da vila e no acesso à barragem.
No domínio académico os icnofósseis de Penha Garcia terão sido descritos pela primeira vez, em 1886, por um dos maiores geólogos portugueses de todos os tempos, Nery Delgado. No seu clássico e minucioso trabalho2, este autor descreve cuidadosamente algumas amostras ilustradas de Penha Garcia. Contudo, Nery Delgado seguia uma escola de pensamento clássica, então já em declínio, a qual atribuía os icnofósseis como Cruziana (as Bilobites) a vestígios directos de grupos de algas marinhas. Curiosamente, os icnofósseis de Penha Garcia virão a ter, praticamente um século mais tarde, um papel importante no conhecimento do modo de formação de Cruziana3 e sua consequente atribuição a icnofósseis de alimentação de trilobites e de outros artrópodes morfologicamente similares, produzidos no substrato marinho.
Nestas cristas quartzíticas o Homem não procurou apenas defesa. As explorações a céu-aberto de ouro, provavelmente romanas e/ou medievais4 têm, ainda hoje, vestígios ainda bem patentes na região das Termas de Monfortinho, nos depósitos aluvionares cascalhentos contemporâneos do início da exposição e consequente desmantelamento dos quartzitos face à acção erosiva do sistema hidrográfico do Erges. Ainda no séc. XX, estes depósitos de base das denominadas Formação de Torre e Formação de Monfortinho foram alvo de exploração aurífera, cuja intensidade relativa é bem evidenciada pelo número de concessões mineiras agora abandonadas5. O rio Ponsul, após atravessar a crista quartzítica junto a Penha Garcia, concentra ouro nos seus depósitos aluvionares. Ainda em meados dos anos noventa era possível observar junto ao rio, com movimentos pacientes e olhar atento, os velhos e talvez últimos garimpeiros de Portugal. O aumento da eficiência do rio Ponsul à passagem pelo apertado vale escavado nos duros quartzitos permitiu a utilização da energia hidráulica nas azenhas. Mais recentemente, o estreito vale, de vertentes rochosas, propiciou a instalação estratégica da Barragem de Penha Garcia, cuja albufeira permite servir de água toda a região envolvente. O tempo do ouro poderá ter passado, mas as águas das inúmeras nascentes existentes ao longo de toda a serra, particularmente as águas termais da Estância Termal de Monfortinho, vieram constituir uma nova fonte de riqueza na região e são actualmente um pólo turístico em franca expansão.
Outrora como ponto de defesa estratégico, fonte de matéria-prima para a construção das fortes e protectoras paredes do castelo, das toscas habitações, dos muros e das eiras para os animais, das azenhas no apertado vale do rio Ponsul ou do empedramento utilizado nos tortuosos caminhos, ontem e hoje como fonte de informação científica, os quartzitos com icnofósseis de Penha Garcia constituem actualmente um potencial pólo de turismo científico-cultural, onde cada pedra relata uma história remota, com milhões de anos, a qual se mistura com um modo prático de utilização humana.
O percurso geológico proposto recentemente ao Instituto de Conservação da Natureza6, organismo estatal que tutela o Património Geológico, ainda que sob a figura de Monumento Natural, segundo o Decreto-Lei 19/93, de 23 de Janeiro7, desenvolve-se ao longo das vertentes íngremes do vale do Ponsul (Fig. 2). Esta Via Geológica permite conjugar o estudo científico-pedagógico das formações rochosas, onde se pode reconhecer as mais variadas estruturas geológicas, com o acompanhamento do processo evolutivo de utilização dos quartzitos como matéria-prima, tudo envolvido por um cenário natural que transcende o sublime. O percurso poderá ser iniciado no centro da vila, com passagem “obrigatória” pelo Miradouro da Igreja Matriz, onde se poderá ter uma ideia geral da estratigrafia que compõe a Formação do Quartzito Armoricano (nome formal dado a esta espessa série quartzítica e quartzo-xistenta), bem como da evolução geomorfológica de toda a região. Nas escadas de acesso ao castelo, construídas em 1995, nas últimas obras de reconstrução do castelo, é possível estabelecer o primeiro contacto com icnofósseis como Cruziana (parte do corrimão e alguns degraus possuem lajes onde ocorrem profusamente estes icnofósseis, resultado da sensibilidade e esforço de protecção demonstrados pela Junta de Freguesia local). Da rua da Lapa parte caminho tortuoso, todo construído com blocos quartzíticos, até à Barragem. Ao longo do percurso os icnofósseis, as figuras sedimentares e outros exemplos geológicos didácticos ocorrem em afloramentos “in situ”, em lajes cuidadosamente dispostas ao longo das bermas e no próprio empedramento que pavimenta o caminho. O outro percurso recomendado (onde se encontram as maiores lajes com icnofósseis e grande parte das mais interessantes), sai do estacionamento junto à Barragem e acompanha a margem esquerda do rio até onde a curiosidade o permitir. Deverá ser realizado ao final da tarde, pois o ângulo de incidência da luz solar com as superfícies das camadas com icnofósseis permite ver até as mais delicadas marcas dos apêndices locomotores do artrópodes marinhos que os produziram, como resultado de um estilo de preservação muito perfeito e raro. A médio prazo, é objectivo da Junta de Freguesia de Penha Garcia melhorar os acessos a esta Via Geológica, nomeadamente o percurso da margem esquerda do Ponsul, criando ainda infraestruturas recreativas e de apoio (leitores de paisagem).
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Fig.
2. Localização Geográfica da Via
Geológica de Penha Garcia (Idanha-a-Nova). O trecho do vale do Rio
Ponsul que atravessa a crista quartzítica situa-se a N da povoação de
Penha Garcia. O acesso faz-se por caminho situado a 75 m W do Castelo,
na zona alta da vila (rua da Lapa) e ainda pela estrada municipal que
liga a EN239 a Vale Feitoso, com ligação à Barragem de Penha Garcia.
O miradouro da Igreja Matriz, de onde se pode perspectivar todo o cenário
geológico envolvente ao circuito proposto, tem acesso directo a partir
do centro da vila, pela rua do Castelo. O circuito geológico
encontra-se assinalado a vermelho (Base topográfica extraída da Folha
258, Monsanto (Idanha-a-Nova), à escala 1:25000, dos Serviços Cartográficos
do Exército). |
PATRIMÓNIO PALEONTOLÓGICO PORTUGUÊS
O Património Paleontológico Português (PPP)8 constitui o conjunto de recursos paleontológicos nacionais que, pela sua relevância a título científico, educativo ou outro, revelem-se um bem patrimonial fundamental que deverá ser valorizado como entidade simbólica de uma comunidade ou de uma região e preservado para as futuras gerações. Para a classificação de uma jazida paleontológica como PPP deve haver um conjunto de critérios, tão diversos quanto sólidos, que permitam reconhecer o seu carácter ímpar e o melhor modo de explorar as suas potencialidades. O trabalho científico exercido nestes últimos anos na região de Penha Garcia permitiu angariar um conjunto de factores de extraordinário interesse nos vários domínios científico, educativo e cultural9, os quais proporcionaram uma proposta de classificação desta jazida no âmbito do Património Paleontológico Português6
INTERESSE PATRIMONIAL
Critérios científicos
Critério
tafonómico
Na Formação do Quartzito Armoricano, onde condicionalismos tafonómicos não
permitiram a fossilização da quase totalidade dos restos esqueléticos, são
as marcas de actividade das populações de organismos que denunciam a presença
fervilhante de vida, em tempos tão remotos. Os icnofósseis são extremamente
comuns nas formações argilo-quartzíticas de Penha Garcia. De entre eles,
ressalta à vista com frequência a forma bilobada e curvilínea, por vezes de
grandes dimensões e forte relevo, classificada com a denominação de Cruziana.
A qualidade de preservação de todos os icnofósseis em geral, e de Cruziana
em particular, é excelente, apresentando-se por vezes em grandes lajes, onde é
possível fazer análises espaciais e estudos de interrelações entre
estruturas biogénicas de origem diversa. Para este registo paleontológico de
elevada e rara qualidade terá contribuído grandemente a granulometria e grau
de consolidação dos sedimentos contemporâneos da actividade dos organismos
produtores das pistas, em íntima relação com as condições paleoambientais
reinantes. Todavia, a exposição dos icnofósseis em grandes lajes foi
favorecida pela estruturação tectónica de toda a sequência, a qual terá
verticalizado as camadas sedimentares, combinada com o encaixe do rio Ponsul
perpendicularmente à direcção das camadas, resultando numa garganta rochosa
sem coberto vegetal importante nem uma cobertura de solo a esconder e deteriorar
as ocorrências fossilíferas. Deste modo, é possível analisar as superfícies
das camadas em ambas as vertentes do vale do Ponsul, ao longo de quase toda a
sequência, como quem espreita, uma a uma, todas as páginas de um livro.
Critério paleoecológico
A diversidade de icnofósseis presente na sequência de Penha Garcia permite inferir um conhecimento mais aprofundado dos ecossistemas marinhos bentónicos, característicos da plataforma continental, de há cerca de 490 milhões de anos. Os icnofósseis permitem determinar o modo de vida das comunidades bióticas e suas adaptações às variações ambientais, como sejam as modificações da composição do substrato face à espessura da coluna de água e à acção das frequentes tempestades que assolavam os fundos marinhos da margem NW do supercontinente Gondwana. Nestas associações de icnofósseis é possível estudar a ecologia de organismos sem estruturas esqueléticas mineralizadas, o que lhes confere um baixo potencial de fossilização. Na condição citada encontram-se igualmente os orgãos da zona ventral, incluindo o aparelho locomotor das trilobites, cuja morfologia, modo de funcionamento e aplicações podem ser conhecidas a partir dos diversos icnofósseis atribuídos a este grupo de organismos (Fig. 3).
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Fig. 3. As “cobras pintadas” de Penha Garcia, cientificamente denominadas de Cruziana e cuja origem se reporta à acção de alimentação/locomoção de artrópodes (Trilobites) no interior dos sedimentos. A fotografia à equerda é clássica e muito divulgada no meio académico geológico. O esquema da direita pretende mostrar uma trilobite a alimentar-se de matéria orgânica contida nos sedimentos, escavando no substrato arenoso até atingir a interface deste com um nível argiloso de elevada plasticidade (a preto). A depressão gerada no nível argiloso por acção dos apêndices locomotores, à medida que o animal avança processando alimento, pôde ser preservada através de certos mecanismos de fossilização, dando origem às inúmeras marcas serpentiformes que hoje podemos contemplar nas imediações de Penha Garcia. |
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Critérios educativos
Potencial pedagógico
A qualidade de exposição dos afloramentos e os excelentes exemplos de estruturas geológicas observáveis nos blocos que constituem os trilhos, conferem a este circuito geológico um interesse singular na divulgação e sensibilização do grande público para as Geociências.
Potencial didáctico
O circuito geológico, de ampla acessibilidade aos pontos de maior interesse, apresenta grandes potencialidades em actividades lectivas de campo, passíveis de serem ajustadas a qualquer grau de ensino. Os alunos poderão aprender os conceitos básicos de Geologia e da Paleontologia a partir, por exemplo, da observação das características morfológicas dos icnofósseis e da caracterização das rochas associadas, bem como da realização de moldes. Estas observações no campo estimularão não só um desenvolvimento a nível cognitivo, como também sensibilizarão o aluno para a defesa e preservação de um património natural que deverá ser considerado seu.
O circuito geológico encontra-se disponível durante o ano inteiro, permitindo visitas de índole científico-cultural, as quais poderão incidir sobre o estudo dos icnofósseis, sua interpretação etológica e extrapolações para o conhecimento da evolução da vida nos primeiros estádios de radiação morfológica e comportamental. É possível ainda apreender conceitos ao nível das Ciências da Terra a partir de exemplos elucidativos e, por vezes, espectaculares e únicos a nível mundial. Poder-se-á relacionar as propriedades físicas das rochas quartzíticas com a sua popular utilização como material de construção das azenhas junto do rio, recentemente reconstruídas, assim como do castelo e das casas tradicionais da vila.
Critérios
Culturais
Valor histórico
A série quartzítica de Penha Garcia é considerada uma jazida paleontológica clássica, conhecida e estudada desde os trabalhos pioneiros de Nery Delgado, datados de 18862. Aproximadamente um século mais tarde, o geólogo inglês Ronald Goldring3 provou a formação interestratal dos icnofósseis do tipo Cruziana, os quais reflectem o comportamento de alimentação manifestado pelas trilobites, tendo para tal seccionado e radiografado, entre outras, algumas amostras provenientes de Penha Garcia. Este trabalho contribuiu para pôr termo a uma longa e por vezes acesa discussão entre reputados especialistas que se dedicam ao estudo do modo de vida das trilobites, um grande grupo de artrópodes há muito extinto. Os resultados obtidos por este autor permitiram um conhecimento mais profundo dos mecanismos biológicos que permitiram às trilobites e a outros artrópodes morfologicamente homólogos realizar estruturas do tipo Cruziana. Desta forma, a jazida deverá ser considerada um marco na história da Paleontologia portuguesa e internacional.
Valor espiritual
A expressão popular Cobra Pintada utilizada em Penha Garcia para designar algumas estruturas do tipo Cruziana parece ser muito antiga e pode ser relacionável com a designação Bicha Pintada de Vila de Rei, estrutura de origem biológica anteriormente interpretada como símbolo de culto ofiolátrico Celta10. O verdadeiro significado socio-etimológico destas variantes e o seu alcance geográfico encontram-se em fase de rastreio.
O circuito geológico de Penha Garcia encontra-se inserido numa área de grande valor patrimonial histórico. Esta povoação enquadra-se na medieval linha defensiva da fronteira beirã, hoje em dia um circuito monumental, de onde se poderá destacar, pela sua relevância e proximidade, as povoações de Idanha-a-Velha, Monsanto e Penamacor. A utilização dos quartzitos como fonte de matéria-prima para construção data nesta região, pelo menos, da construção do castro lusitano precedente ao castelo medieval de Penha Garcia. Em toda a povoação ainda hoje se denota o tipo de substrato onde foram implantadas as primitivas habitações, os resguardos para os animais e as edificações comunitárias. Esta prática, presentemente em declínio, de construção com blocos quartzíticos e com lajes de quartzitos com icnofósseis, comporta uma dimensão cultural, passível de ser compreendida à medida que se vagueia pelas ruas de Penha Garcia e, sobretudo, quando se realiza o circuito geológico que desce ao vale do rio Ponsul.
Neste espaço natural que é o vale do rio Ponsul, onde as Ciências da Terra podem ser estudadas da melhor forma, quer seja ao nível básico e secundário ou ao nível universitário, com excelentes exemplos de fácil compreensão, e onde existem evidências singulares de formas de vida de há cerca de 490 milhões de anos, urge fazer algo mais de forma a dar a conhecer e a dinamizar este verdadeira e monumental sala de aula em plena Natureza. O seu interesse científico encontra-se bem patente na recente visita a Penha Garcia da equipa de trabalho do eminente Paleontólogo alemão, Prof. Adolf Seilacher (Prémio Crafoord 1992, pela Academia de Ciências da Suécia), a qual teve como principal objectivo realizar moldes de lajes com icnofósseis para a sua exposição internacional itinerante Fossil Art11, a exibir no Japão em 2001.
Quanto à protecção e preservação destes espaços e estruturas geológicas, o circuito geológico apresenta características quase singulares em Portugal: é comum encontrar a frase “É PROIBIDO DANIFICAR OS FÓSSEIS” escrita junto de alguns focos de interesse. É frequente a população local, pessoas simples mas sensibilizadas à muito para a preservação de um legado patrimonial que considera seu, indicar espaços onde se podem encontrar icnofósseis em maior quantidade, deixando sempre a advertência “há ali muitas pedras ao pé daqueles eucaliptos, mas não leve as pedras de cá…”. Este é um caso único num país que só agora “acorda” para as elevadas potencialidades do seu património natural, ainda que algo delapidado pela degradação que tem vindo a sofrer através de actos vergonhosos, alguns com a “benção” de entidades estatais.
Estes cumes fragosos que deram protecção durante milénios a populações receosas pela perda das suas vidas e dos seus poucos haveres, vêem-se nesta era de crescente progresso, quando Lisboa se encontra apenas a uma distância de 3 horas por auto-estrada, quase distituídos de uma população cada vez mais envelhecida, face a um modo de vida rude e de poucas oportunidades. Contudo, e mais uma vez, a solução para a desertificação humana nesta região pode passar pelo aproveitamento turístico das construções monumentais e dos espaços naturais inerentes às cristas quartzíticas escarpadas e à profunda garganta do rio Ponsul, onde a um cenário idílico se acresce uma imensa base de informação científica (geológica e biológica) e cultural.
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AGRADECIMENTOS
Os autores desejam expressar a sua gratidão à Junta de Freguesia de Penha
Garcia, na pessoa do Sr. , pela colaboração
entusiástica nos trabalhos científicos em curso no Vale do Ponsul.
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BIBLIOGRAFIA
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Selecções do
Reader`s Digest (ed.), Lisboa: p. 269. (1982).
2-
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Geol. de Portugal. Lisboa. 113 p., 43
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formation of the trace fossil Cruziana.
Geol. Mag., 122 (1): 65-72. (1985).
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7-
GALOPIM DE CARVALHO,
A. M.
- Geomonumentos.
Uma reflexão sobre a sua caracterização e enquadramento num projecto nacional
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8-
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V Congresso Nacional de Geologia, Comun.
Instit. Geol. Mineiro, Lisboa, 84 (2): G22-G25.
9-
CACHÃO, M. & SILVA, C. M. - Património Paleontológico: entidade autónoma,
multidimensional e pluricientífica. I
Seminário sobre “O Património Geológico Português. Instituto Geológico
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10-
Neto de Carvalho, C.; Cachão, M. & Ramos, j. (2000) - A “Bicha
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