Marcelo Mercedo do Impar.
Nunca o Brasil esteve tão próximo de forjar sua �banda power pop�. Dentro de um conceito ainda vago e abstrato em terra brasilis, o Impar revela sua intenção deliberada em formatar seu som dentro do tal rótulo. Liderado pelo talentoso compositor e guitarrista mineiro Marcelo Mercedo, o Impar passou de �projeto solo de gravações caseiras� a banda respeitada no circuito indie. Completada por Marcos Rosa (guitarra), Yan Vasconcellos (baixo) e Bruno Faria (bateria), a banda de BH vem traçando seus planos de dominação nacional, percorrendo o país e aparecendo seja em programas de rádio ou festivais de música independente. Preparam para breve seu primeiro álbum, onde pretendem oferecer sua pegada rocker de melodias inspiradas amparadas sob o rótulo �power pop contemporâneo�. Que o disco seja o ponta pé inicial, no Brasil, para a descoberta de um estilo, que como bem disse Mercedo na entrevista �muita gente gosta, só não sabe o nome�.

1. Você fuçava a coleção de discos dos seus pais? Encontrava Beatles, Beach Boys, Clube da Esquina...?
Infelizmente meus pais nunca tiveram o costume de comprar discos. Meu primeiro contato direto com a música foi aos 14 anos, quando meu irmão mais velho trouxe pra casa o álbum Appetite for Destruction do Guns N' Roses. Aquilo mudou minha vida. Passei a ouvir e pesquisar música todos os dias. E descobrir sons que de alguma maneira me emocionassem virou meu grande prazer.
Agora... essa história de Beatles e Beach Boys é engraçada. Fiz o caminho inverso. Fui dos influenciados até os influentes. Ouvi primeiro Jellyfish e só depois Beatles, Beach Boys e Queen, por exemplo. Acho que minha resistência em ouvir Beatles era um típico caso de "Não gosto da banda porque não gosto dos fãs". Calma, minha gente. Eu explico. Acho saudável estar aberto ao novo. E nunca entendi aqueles fanáticos, que ouvem só um tipo de som e acham que todo o resto é inútil e desnecessário. Mas o que a banda em si tem a ver com isso, né? Pois é. Talvez eu deva dar mais uma chance ao Led Zeppelin... Quem sabe ao The Doors também... Hahaha.
2. Quando descobriu que queria e podia compor?
Isso foi em 1996. Eu tinha 18 anos. Tirava músicas de artistas dos quais eu gostava e tocava com amigos de escola. A gente fazia tudo mais por diversão mesmo, pra aprender como funcionava uma banda e tal. Comecei, então, a sentir quase que uma necessidade de compor. Reproduzir algo já criado não me satisfazia mais. Queria me expressar através de canções, mesmo que fosse pra guardá-las numa gaveta depois de prontas. Foi aí que escrevi minha primeira música que, de acordo com meu pai e pra manutenção da minha baixa auto-estima, é a melhor que já fiz até hoje. Hahaha.
OK, prometo parar com os hahahas daqui pra frente.
3. Como funciona seu processo de composição?
Não tenho um processo fixo. Mas normalmente o que acontece é o seguinte: Ou eu tenho uma sequência melódica e então faço a harmonia. Ou tenho uma sequência harmônica e então faço a melodia. De um jeito ou de outro, a melodia vocal acaba sempre ditando o rumo da canção, chamando o acorde seguinte ou ligando uma parte à outra. E depois que eu tenho base e voz principal prontas, fico pirando (e às vezes literalmente) na produção e nos arranjos dos instrumentos e vozes.
4. Quais suas principais influências musicais do passado e presente?
Sempre tenho dificuldades em responder sobre influências. Eu realmente não sei até que ponto o que ouço influencia no que componho. E até acredito que isso possa ser positivo. Mas enfim, ouço e curto muita coisa. Do rock progressivo do Electric Light Orchestra, passando pelo folk de artistas como Aimee Mann, Glen Phillips, Jonatha Brooke, Michael Penn e Sheryl Crow, até o punk atual do Fall Out Boy. E não posso esquecer de citar Jon Brion. Ele e qualquer coisa em que ele colocar as mãos.
5. Vocês assumem o rótulo �power pop contemporâneo�. O que quer dizer exatamente?
Quer dizer que fazemos e tocamos canções power pop, que vão direto ao ponto. Vivemos no ano de 2006, sob todas as condições do presente e inseridos no contexto atual. Nada mais natural do que soar contemporâneo.
6. O conceito de �power pop� no Brasil é tão consistente quanto maria-mole e tão transparente quanto coca-cola. Você não tem medo de restringir a audiência do Impar abraçando o rótulo?
Não. Acho até que isso pode gerar uma certa curiosidade nos possíveis ouvintes. É claro que estou pensando positivo e supondo que as pessoas têm um mínimo de interesse e atitude. Eu sou assim, otimista. Sei de gente que quis ouvir o IMPAR exatamente por não saber o que significava power pop. E outra... É como um amigo meu me disse, depois que lhe mostrei o álbum do Shazam, Godspeed The Shazam. "É o tipo de som que eu sempre gostei e quis ouvir. Só não sabia o nome. "Acredito piamente que todas as pessoas do mundo são fãs de power pop. Há os que gostam e têm consciência disso... Há os que gostam mas ainda não descobriram... E há os que gostam mas não admitem. Mas aí já são outros quinhentos e o problema é todinho deles.
7. Se o power pop é tão radiofônico, assobiável, agradável e pop, porque vive à margem do mainstream do mercado musical?
Essa é uma das perguntas que mais me tiram o sono. Perdendo só pra "Qual o sentido da vida?" e "O que fazer em Belo Horizonte num domingo à tarde?". Admito que mesmo depois de ter refletido muito, por anos e anos a fio, continuo, infelizmente, sem respostas satisfatórias e muito menos definitivas. Nas linhas que se seguem, compartilharei com vocês, caros leitores, um pouco do meu tormento causado pelo assunto. Mas antes preciso dizer que, às vezes, penso em power pop mais como um formato do que como um gênero musical propriamente dito. Pois bem. Vamos lá.
O power pop não tem uma cara específica. Não há um visual que possa ser automaticamente relacionado a ele. E também não há uma linha de comportamento padrão que possa ser identificada nos seus fãs. Portanto, não tem um público-alvo.
Tomemos o Grunge como exemplo. Pense em meados dos anos 90. Você vê, passando pela rua, um menino de botas pretas, bermudas largas, camisa de flanela e cabelos longos. No que você pensa? "Lá se vai um grunge. Provavelmente ele deve ter em casa CDs do Nirvana, Pearl Jam, Alice in Chains e Soundgarden." E provavelmente você estaria certo ao fazer tal dedução. É claro que sempre haverá exceções. Mas uma coisa é certa: não sabemos, de cara, quem é ou deixa de ser um consumidor de Power Pop. E isso, sob uma ótica imediatista, o torna um produto difícil de se vender.
Agora sobre a questão do comportamento. Além de não conseguirmos identificar a aparência de um power popper, não conseguimos identificar o seu comportamento padrão. O que ele pensa? Qual sua posição frente ao mundo em que vive? Do que ele discorda? Ele costuma sair, beber todas e arrumar confusão? Ele vai a shows e fica de braços cruzados, com ar blasé, como se nada no mundo prestasse além de sua própria bandinha? Ou será que ele compra abadá, vai à micaretas e procura a "mulher da sua vida" por lá? Não sabemos. E se não sabemos o perfil de quem compra, não sabemos pra quem vender.
Sim, sei que a coisa toda deve ser muito mais complexa do que isso. Sei também que esse assunto dá muito pano pra manga. Mas enfim, é nisso que eu e meus amigos andamos pensando ultimamente.
Depois de escrever e reler tudo isso, me veio à cabeça, juntamente com uma súbita e breve sensação de Eureka, o seguinte pensamento:
E se o power popper for aquele cara que só quer ouvir ótimas canções e cantarolar lindas melodias sem se preocupar com muitas coisas além disso? Tudo bem... tudo bem... ainda assim temos que saber como achá-lo e fazê-lo comprar discos.
E lá fui eu, de volta ao meu tormento.
8. Atualmente, qual seu top 10 de álbuns power pop?
Brad Jones - Gilt Flake
Brendan Benson - Lapalco
Jason Falkner - Author Unknown
Jellyfish - Spilt Milk
Jim Boggia - Fidelity Is the Enemy
Jon Brion - Meaningless
Merrymakers - Bubblegun
Roger Joseph Manning Jr. - Solid State Warrior
Shazam - Godspeed The Shazam
Wondermints - Mind If We Make Love to You
9. Como você vê a cena independente hoje no país?
Vejo tudo com bons olhos. Acho que a cena independente está crescendo e se fortificando cada vez mais. E acredito que muito se deve à internet, que facilita a divulgação do trabalho e a comunicação entre artistas, fãs e mídia. É claro que independência é sinônimo de trabalho duro e muitas vezes solitário. Mas fazendo nossa parte com sinceridade, dedicação e esperteza, muita coisa boa pode rolar. Acredito também que fazer esse circuito independente alternativo é de extrema importância. É nele que estão as pessoas interessadas e abertas a novidades. Somos a minoria, mas fazemos a diferença.
10. Existem bandas de power pop no Brasil?
Poucas mas existem. Acho que a Wonkavision seria nosso maior e mais óbvio exemplo. Poderia citar também Brinde e Drosophila. Apesar de diferentes entre si, as três bandas andam por esse caminho. Mas o que eu percebo fuçando o site tramavirtual, por exemplo, é que nem as bandas que usam o termo sabem do que ele se trata. Em quase tudo que ouço, sinto falta de uma noção, mesmo que básica, do que seja produção musical. E por falar nisso, onde estão os bons produtores de discos no Brasil? Será esta uma espécie inexistente no país?
11. O Ímpar segue a tradição estradeira das bandas americanas de cruzar o país em vans. A diferença é que vocês vão de Pálio 1.0...
Pois é. Certos costumes nunca devem ser perdidos. Sempre fui de botar a mão na massa. Na hora de compor e gravar uma demo, fiz tudo no meu quarto, num PC caindo aos pedaços. Na hora de montar a banda e ensaiar as canções, eu e o Bruno construímos um estúdio, quase que com nossas próprias mãos. Na hora de gravar e lançar o EP, comprei o mínimo necessário de equipamentos e aprendi a mexer naquela tralha toda, relativamente em pouco tempo. É claro que na hora de viajar e mostrar o trabalho para os outros não poderia ser diferente. E se isso quer dizer colocar quatro caras, uma porrada de instrumentos, malas e biscoitos dentro de um Pálio 1.0, dirigir o dia inteiro e ainda tocar na mesma noite, que seja. E ainda fazemos tudo com um sorriso estampado no rosto.
12. Vocês já declararam que querem viver de música e estão dedicando 100% do seu tempo a esse objetivo. Aonde o Ímpar quer chegar?
Existe o mínimo e existe o ideal. No nosso caso, acho que um não fica muito distante do outro. Queremos ganhar o suficiente para trabalhar em condições dignas e não termos que nos preocupar na hora de pagar nossas contas no final do mês. Queremos continuar fazendo música, nos nossos termos, e ganhar pra isso.
13. O material para o primeiro álbum já está pronto? Qual a estratégia para encontrar um selo que se interesse em lançá-lo?
Como eu mesmo cuido de toda a parte técnica e de produção, a coisa vai um pouco mais devagar do que gostaria. As músicas já estão prontas mas ainda estão sendo gravadas. A hora agora é de pensar no álbum e em como fazê-lo da melhor maneira possível. Se no futuro não houver o interesse de um selo ou uma proposta que nos interesse, o lançamento será feito por nós mesmos. Afinal, quem tem medo do independente?
14. O Ímpar quer:
A) Tocar no Faustão
B) Abrir para o Jason Falkner no IPO 2007
C) Ter o hit nº1 da Jovem Pan
D) Vender 1000 cópias do álbum no site da Not Lame
E) Nenhuma das anteriores
Você esqueceu da alternativa F) A, B, C e D.
Hahaha.
Ops.