Poesias Selecionadas

nós três (à trois)

a excentricidade que em ti admiro

é a beleza da lua querer suplantar;

quando as duas se olham, não sei se prefiro

outra coisa no mundo poder enxergar

quando as duas vão nuas andando na praia

numa noite azulada da cor do perdão,

eu só penso na chuva que quero que caia

e me afogue nas mágoas da minha ambição

de querer-te sozinha no mundo pra mim

e impedir que teu corpo se banhe ao luar

pra no fim eu ganhar essa competição

mas que tolo, bem sei que não é nada assim,

se o defeito da lua é querer te amar,

há espaço pras duas no meu coração

Rio, 07/10/2008

Aluízio Rezende


Comentário:

Aluizio, CARAMBA!!! Belíssimo. Além de ser um alexandrino existe uma beleza de sentimentos e imagens riquíssimas.

Parabéns! Parabéns! Parabéns!!! Divulgue muito, muito , muito este poema, pois é lindo.

Abraços,

Nancilia


a guerra e a música

as duas desciam a ladeira
a mesma que tinham subido
depois de terem sabido
que quando chegassem lá embaixo
continuariam andando...

- dizes que és a alegria e que só causo tristeza
- bem sabes que não é verdade
às vezes me acho contigo
- sou necessária, consigo equilibrar meio mundo
quando há gente demais
- se é pra isso que existes... oh, que execrável torpeza
- e tu, o que fazes à mesa dos que não têm o que comer?
- estou por toda parte
no choro do alegre, no canto do triste
- melhor faço eu, que só aconteço quando é necessário
- quem foi o otário que te convenceu?
- não é o que acontece ao longo da vida?
- ou és a ferida que não vai sarar?
- o que te habilita a me criticar?
- não sou eu quem falo, são todos... que sentem
- qual é teu disfarce? será que é a face do lenitivo?
- é um exaustivo exercício esse o nosso
- será que eu posso
saber qual que é?
- ficar decifrando o que somos ou não
- melhor é então continuarmos andando
- chorando e sorrindo pra ver no que dá

e nada cansadas
e agora no plano
jamais de mãos dadas
continuaram o engano
de uma pra outra
ter o que falar...




Aluízio Rezende
ações

me fiz mundo
pra te absorver
me fiz tempo
pra te percorrer
me fiz água
pra te refrescar
me fiz fogo
pra te esquentar

mundo, tempo
água, fogo
fatores de um jogo
existencial

me fiz plural
pro teu singular




Aluízio Rezende

boca maldita

a boca agride
a boca peca
a boca impreca
e até colide

quando progride
em seus impropérios
de seus despautérios
não há quem duvide

da boca escoa
muito veneno
e um pequeno
laivo de humor

porém, se destoa,
a boca se entrega
e então nunca nega
beijos de amor



Aluízio Rezende

"A rosa mesclada"

O amor é uma rosa mesclada

que para dar certo

precisa vir do enxerto

de duas rosas diferentes,

porém fortemente

apaixonadas.

Uma das rosas deve ser clara,

para receber a cor da outra.

Uma das rosas deve ter beleza rara,

para enfeitar a pureza da outra.

O destino, jardineiro,

deve ser cuidadoso

pra formar os enxertos

para gerar lindas raridades,

ou poderá gerar um espinheiro

de visual doloroso,

pois se o futuro é sempre incerto

melhor evitar contrariedades.

Mas eis que um dia

a rosa mesclada se abriu

trazendo ao mundo alegria

e o destino para o amor sorriu.

Toda manchada,

a rosa do amor

à noite acabou ficando molhada

pelo orvalho da dor,

mas ainda resistiu

enquanto o jardineiro sorriu...

Gizele Sanz



"Amor"

É a loucura que vem da saudade,

a saudade que vem da paixão,

a paixão que vem do nada,

o nada que vem da dor.

É a flor que poda a liberdade,

o fogo que inunda a razão,

o desvio incerto na estrada,

o melhor que se extrai do pior.

É a resposta antes da questão,

a força de um laço,

a alma da beleza.

É a eternização da ilusão

resumida num abraço

que traz a paz e a pureza.

Gizele Sanz

Ronda

Negra a noite
negro o olhar
negra a ausência

Radar em busca
da noturna nudez
entre o silêncio
e estrelas
vagueia e voa sedenta
a mamífera

Ao retorno do sol
em cruel desencanto
andeios
da essência
do sorriso
das mãos
recolhidos à caverna



Neudemar Santana

 

Mensagem para o Além

Ah Cazuza
dá vontade de largar tudo
até as coisas mais banais
A falsa democracia
não nos deixa mostrar a cara...
Sabemos quem paga
para ficarmos assim

Sabemos o negócio
o nome do sócio
e de que adianta?

Nossos jovens combinam
cartão de crédito da navalha
com drogas e armas de guerra
Elegem chefe pra tudo
até para o poder paralelo

Dia sim outro também
sobrevivemos com muitos arranhões
da caridade de quem nos detesta

O país
continua cheio de ratos
e as idéias (ainda)
não correspondem aos fatos

E o tempo não pára...

Os inimigos continuam no poder
e tanto quanto você
beija-flor
precisamos de uma ideologia
pra viver


Neudemar Santana

És Negro

Não és
Moreninho
Mulatinho
Ou chocolate

Não és pardo
Pois esta
Nunca existiu
Tu és negro

Real e de fato
Tem uma
História
Uma cultura

Que ao mundo
Resistiu
Não renegue
A etnia

Não amenize
A tua cor
Não despreze
Em ti a virtude

De maior valor


Ana Carvalho

 

Zunido dos Ventos (Pito)

Mulher
Acorda, mulher
Cadê os lábios
Vermelhos?
A flor nos cabelos?

As unhas
O tempero
A vaidade, o esmero?
O furor...
Cadê?

Cadê, a mulher?
A sensualidade
O bem querer
A vontade
A malícia, os olhares
O sorriso de flor?

Cadê a menina?
Não minta
Não culpe o tempo
Não alegue cansaço

Nasceu menina
Vai morrer feminina
Com beleza, astúcia
e gracejo
Não importa a idade



Ana Carvalho
Coxas de Cetim


sugo tua nuca seca
subo nas tuas ancas santas
sumo nas tuas coxas
desarrumo todas as colchas
de cetim
mas, de certo, só o deserto
da cama
e a escama saída
da minha marota manobra
que se amarrota na mesma
rota-peixe
e sinta...
e deixe...
o sulco na tua nuca
que desarruma tuas ancas luciferanas
não mais secas as colchas
sumo, uma vez mais, nas tuas coxas
de cetim

Sérgio Geronimo

Nexus

nó em pingo d’água
é sem sentido como seta interrogativa
pois consideremos que o dia englobe a noite
então desconhecidos são os amanhãs
de concreto sei que o gelo é água
nó em pingo d’água

me cobram nexo
sexo, amplexo

de tudo alcanço o possível
pois não me é dado ter tudo
impossível é ter nada
mas nada é o que me liga a você
abstratamente concreto

o poema e a palavra
nas entrelinhas o significado

me cobram nexo
sexo, amplexo

o centro consome os limites
eles inexistem
ande metade do caminho
a metade de um caminho
será sempre metade
e assim concretizo o limite
o caminho caminho metade sempre

nó em pingo d’água?
me cobram



Sérgio Geronimo

 

POESIA: VOCÊ ESTÁ NA BARRA


A poesia que venta no Rio
está muito bem protegida:
não parará só na fala
não se cala na escrita.
A poesia que venta do Rio
desobedece fronteiras
ela nasce do barro ou da Barra
o poeta derruba barreira.


Dudu Pererê



Do Sexto Andar

que toda criança seja tombada
como patrimônio da humanidade.
que toda infância seja resguardada
contra o vil demônio da atrocidade.

Abortos torturas estupros cárceres
Abusos maus tratos traumas cadáveres
A queda a queda a queda a queda a queda
Azeda os sonhos na falta de alma

Assassinato: um corpo de menina
Atirado no gramado do London;
Alvoroço, hediondo ônus, chacina.

Há de todo óbito ser lembrado
Herdado como um patrimônio histórico.
Hora de impor limite ao fim do poço.


Caio Fidry

Poesia na Barra

Na praia
ondas cantam versos

Pássaros dourados
de crepúsculo
choram o sol que se põe

Denise A. Warbnecke

Mia Mama

Oi, Mama,

Mama Mia,

Mama Giulia

Você e o seu poema bobina... rsrsrsrs...

maravilhoso,

Que gostaria que você repetisse de novo

No próximo Poveb, dia 01/08/2008

Na Bocha, do Novo Leblon

Saiba que foi muito bom

Ter você ao nosso lado

Aqui do outro lado do mundo

Que longe é pra cachorro

Como aí também é daqui

Gostei muito, muito mesmo

E agradeço a sua presença

Que nos alegrou bastante

Pois ela e o seu espírito

São uma só alegria.

Valeu, Mama

Valeu, Mama Mia!

Rio, 13/07/2008

Aluizio Rezende

Um poema em homenagem à poetisa Mamma Giulia, que esteve presente no último Poveb e com sua presença trouxe muita alegria ao evento.

 

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