Desafio: Draco era amante de Harry e também espionava para a Ordem. Harry consegue matar Voldemort, mas antes ele e seu amante são amaldiçoados. Durante o dia, Draco é uma serpente e Harry humano, a noite Harry é um lobo e Draco humano. E somente contam com a ajuda de Severus Snape e sua esposa Hermione... No maior estilo " Feitiço de Áquila – desafio proposto por: Ana G Potter

Título: SPATIUM

Ficwriter: Felton Blackthorn

Beta: Paulili

Classificação: M (apenas por precaução)

Personagens ou Casais: Draco Malfoy e Harry Potter

Resumo: Uma terrível maldição destrói todas as chances de felicidade de Harry Potter e Draco Malfoy, porém a perseverança de Hermione e as habilidades de Snape podem dar um fim ao destino malfadado.  É então que A Jornada tem início.

Status: Incompleta.

Disclaimer: Harry Potter e seus personagens pertencem à J.K. Rowling e empresas associadas.  Este é um trabalho feito de fã para fãs sem fins lucrativos.

Avisos: conteúdo inadequado para menores de 16 anos e pessoas de mente pequena: relacionamento amoroso entre dois homens.  Se não gosta, não leia.  Simples assim.

 


 

Spatium

 

Prólogo

Aquele cenário devastado um dia fora conhecido como Hogsmeade.  No presente, era um terrível e sangüinário campo de batalha onde, finalmente, dezenas de bruxos se enfrentavam no que parecia ser o último de todas as batalhas.

O mais feroz dos combates, que reduzira a cidade a nada mais que um amontoado de destroços e entulhos carbonizados.  Corpos espalhados davam um aspecto aterrador, tornando muito real um pesadelo de guerra.

Maldições iluminavam o céu noturno, cruzando de um lado para o outro, enquanto Aurores e Comensais da Morte duelavam com feracidade, tentando defender suas vidas e acabar de vez com os conflitos.

As baixas eram muitas, em ambos os lados.

Mas Harry Potter estava alheio a tudo isso.  Pra ele nada importava, a não ser aquele Lorde Diabólico, responsável por toda a guerra, gerador da discórdia e idealizador da destruição dos Muggle e sua cultura.

Voldemort.  Ambos estavam frente a frente naquele exato momento.

O maldito não mudara nada nestes últimos quatro anos.  Quatro anos desde a formatura em Hogwarts, quatro anos desde que decidira se tornar um Auror, para que a batalha contra Voldemort fosse mais eficiente.

E tanta coisa acontecera nestes quatro anos...

Dumbledore caíra, e levara Hogwarts com ele.  O lugar que antes fora considerado como o mais seguro do mundo bruxo não resistira, sendo destruído pelos ardis inescrupulosos do Lorde das Trevas.  Não sem dor, o Garoto Que Viveu assistira o colégio desaparecer, sem conseguir evitar.

E a perda de Dumbledore e Hogwarts não era o pior.

Vidas haviam sido perdidas.  Vidas importantes, de pessoas que conhecia.  Ronald, George e Ginny Weasley, Seamus Finnigan, Parvati, Angelina... tantos amigos e companheiros, tantos outros...

Mas agora teria um fim.  Harry estava disposto a levar a término de uma vez.  E ele queria vencer.  Ele desejava com toda a força de seu coração vencer Voldemort e poder seguir em frente, ter uma vida sua, para dividi-la com Draco.

Draco Malfoy, uma das coisas que mais mudara nesses últimos anos.  O ex-Slytherin, que desde o quinto ano espionava o círculo íntimo para a Ordem da Fênix, que desde o sexto se tornara amigo e amante de Harry Potter, conseguindo quebrar a barreira que existira entre ambos e insinuar-se de modo sedutor no coração do moreno.

Draco Malfoy que, assim como Harry, amargara duras decisões.  Enfrentara o próprio pai em um duelo de morte, e vencera.  Assistira a mãe enlouquecer, e seguira em frente, sendo forte por Harry... sendo corajoso por Harry.

E em troca, o ex-Gryffindor queria vencer.  Queria que Draco também conhecesse um pouco de felicidade, que pudessem construir um futuro juntos.

Esse era o motivo de tanta decisão estar refletida nas íris esmeralda.  A decisão de aceitar apenas a vitória e nada mais.

Harry não queria nem lembrar que seu amante também estava ali, no meio da luta, enfrentando Comensais que antes haviam sido companheiros de Lucius Malfoy, e queriam vingança a qualquer peço.

Se o Garoto Que Viveu pensasse isso, acabaria dando as costas ao real inimigo e procuraria Draco onde quer que ele estivesse.  No entanto a melhor maneira de proteger quem tanto amava era terminando a luta e eliminando a real ameaça.

Chegara o momento de provar que o Garoto se tornara um Homem.

Como se fosse combinado, as mãos de dois dos bruxos mais poderosos da atualidade voaram para suas varinhas gêmeas, sacando-as no mesmo instantes, sem o floreio usual de um duelo.

A maldição de morte foi pronunciada e os feitiços esverdeados se chocaram a meio caminho.  A energia incandescente formou uma enorme esfera de pura magia que aumentava a cada segundo.

Hora pendia para o lado de Harry, parecendo que acertaria o moreno, e hora pendia para o lado de Voldemort, parecendo que o bruxo seria derrotado, mas logo a magia se equilibrava, levando a crer que a luta nunca teria fim, que talvez se enfrentassem para sempre, sem jamais decidir o vitorioso.

Porém Harry não desejava lutar para sempre.  Queria descansar, queria voltar para o lado de Draco e findar aquela terrível guerra de uma vez por todas.

Fechando os olhos, o ex-Gryffindor concentrou-se.  Trouxe à mente lembranças de seus queridos amigos, tentando reunir a força que precisava para tornar-se forte o bastante para garantir um novo futuro.

Imagens de sua adolescência em Hogwarts, dos momentos felizes ao lado dos amigos afloraram com força total em sua cabeça.  E ainda não era o suficiente.

Foi apenas ao lembrar-se de Draco, que Harry pôde realmente reagir.

Sua magia natural atingiu um nível muito superior ao de Voldemort... a magia de espectro esverdeado voltou-se contra o Bruxo das Trevas que não teve chance de usar um feitiço protetor.

Vendo que estava perdido, e dessa vez não haviam horcruxes, Voldemort moveu a varinha e sussurrou um último feitiço.  Durante todos aqueles anos, Tom Riddle lutara usando todo e qualquer artifício para vencer, ou pelo menos não perder a vida completamente.  Havia sempre um plano B, para que pudesse voltar e recomeçar seus objetivos maléficos.

Mas se tinha uma coisa que ele sabia era a hora em que o fim seria inevitável.  E o seu fim estava próximo.  Soubera disso no instante em que vira o brilho determinado nas íris de seu terrível inimigo.  O dia da derrota chegara.

Ótimo.  Voldemort perderia, mas... jamais permitiria que Harry Potter fosse feliz.  Ele nunca teria um futuro pela frente.  Se não era forte o bastante para matá-lo, seria para amaldiçoá-lo...

Usaria uma das magias negras mais devastadoras de todas, que era murmurada nos últimos instantes de vida, para destruir o Garoto Potter, eliminando suas esperanças.

- Vertere Bestia... - sussurrou Voldemort com sua voz guturaal.

E ele foi atingido em cheio por um indefensável Avada Kedavra.

Harry viu sua Maldição Imperdoável acertar o Lorde das Trevas e o inimigo sucumbir, tombando ao solo como um boneco desarticulado, ao mesmo tempo em que o jovem bruxo caía de joelhos no chão, esgotado pela imensa perda de energia mágica.

Quando o corpo sem vida de Voldemort tocou a terra, explodiu em mil pedaços ressequidos, como uma espécie de múmia, e uma luz lilás saiu a alta velocidade de onde um dia fora seu tórax, disparando na direção de Harry.

Pego de surpresa, e sem forças para sequer defender-se, o ex-Gryffindor apenas fechou os olhos tendo a certeza de que a maldição o colheria em cheio.  Vida injusta...

Mal teve o pensamento pessimista e percebeu uma presença junto a ele, tendo seu corpo envolvido por braços protetores que conhecia muito bem.  Arregalando os olhos, Harry viu que seu amante o abraçava, visivelmente tentando protegê-lo com o próprio corpo.

Um segundo depois de ser enlaçado pelo amante surgido do nada, Harry sentiu a maldição sinistra, que Voldemort lançara nos últimos instantes de vida, alcançá-los, envolvê-los e fazê-los sucumbir.

Gritos de agonia se fizeram ouvir por toda devastada Hogsmeade, mas aquilo não importava de verdade.  Não mais.

O ambiente se aqueceu de modo insuportável.  As imagens se desfocaram num borrão sem sentido ou forma.  Os sons desapareceram dando a impressão de que restara apenas o vazio.

Harry podia sentir as últimas forças se esvaírem de seu corpo com rapidez assustadora.  Aquilo era morrer?  Sua derradeira visão foi seu amante, também sucumbindo e caindo ao solo.

A vida é mesmo... injusta...

Harry Potter perdeu os sentidos.

HPDM

Vivo.  Estou vivo...

Foi o primeiro pensamento do Garoto Que Viveu, ao abrir os olhos e reconhecer o tão familiar teto do St. Mungo.  Quantas vezes essa cena se reprisara nos últimos anos?

Muitas.

Tantas e tantas, que Harry havia perdido a conta.

Apesar de ter aberto os olhos e despertado por um segundo, o moreno acabou voltando para a inconsciência, tão fraco e afetado que estava.

Antes de apagar, Harry percebeu uma segunda cama ao lado da sua, mas aparentemente não havia nada além de lençóis brancos levemente bagunçados.

Da segunda vez que despertou, Harry estava muito melhor, sua mente recuperara-se com rapidez surpreendente.

Suspirando, sentou-se na cama, encostando-se na cabeceira do leito.

- Harry!  É tão bom vê-lo acordar.  - exclamou uma voz conhecida - Esteve inconsciente por uma semana.

Harry virou a cabeça e olhou para sua amiga Hermione.  A jovem bruxa estava sentada em uma cadeira que fora colocada próximo a cama, tinha um grosso livro aberto sobre suas pernas e outros dois tão grossos quanto o primeiro permaneciam no chão.

Hermione tornara-se uma bela mulher.  Os cabelos continuavam tão armados e castanhos como sempre, mas o rosto adquiria a feminilidade de uma adulta, os olhos eram sábios e sagazes, refletindo toda a experiência adquirida pelas alegrias e dores que vivera até então.

A presença da garota trazia tranqüilidade ao ex-Gryffindor.  Ela era uma das poucas que acompanhara a luta desde o princípio e sobrevivera até o final.

O final.

O pensamento fez Harry fechar os olhos com força.  A guerra acabara, as lutas haviam findado... finalmente poderia seguir em frente, mas... tinha medo do que o esperava.  As memórias do confronto contra o Lorde das Trevas foram marcadas a fogo em seu coração, em sua alma...

Por outro lado, se ele próprio sobrevivera podia significar que Draco também sobrevivera.  Sim, o loiro que fora atingido pela mesma maldição...

Imediatamente arregalou os olhos e virou a cabeça na direção do segundo leito, mas ele ainda estava vazio.  Nada além de um lençol estava sobre o colchão.  O coração de Harry Potter doeu.  A sensação piorou ao se concentrar e não sentir a presença do garoto que amava em lugar algum.  Isso significava que...

- Hermione...

- Tudo acabou, Harry.  Dessa vez acabou de verdade.  O Ministério tomou providências para que o Lorde das Trevas nunca mais possa retornar.  Quando você o derrotou, todos os Comensais da Morte perderam suas vidas.  Pelo que a Ordem investigou, eles estavam vinculados por uma maldição kamikaze.

Harry voltou a fechar os olhos no momento em que ouvira a primeira palavra de Hermione.  Sabia que Voldemort estava eliminado.  Podia sentir isso.  E pouco se importava com o destino dos Comensais da Morte, porque eram os piores bruxos do mundo da magia, e mereciam o destino que receberam.

No momento, o que realmente importava era Draco.  Onde estava o loiro, que conseguira conquistar o coração de Harry Potter?  O que acontecera com aquele que se tornara o único incentivo para que Harry continuasse lutando e desejando uma chance, um futuro?

- Hermione... - começou, fitando-a com as íris de jade.

- Felizmente não tivemos muitas baixas, Harry - a bruxa continuou como se não tivesse sido interrompida - Hogsmeade está sendo reconstruída aos poucos... ela foi tão afetada que é necessária muita magia para voltar a ser o que era.  Mas voltará, tudo ficará bem outra vez.

- Hermione!

Hermione fechou a boca e desviou os olhos.  Chegara o momento que tanto temera.

- Hermione... onde está Draco?

Ficando em pé, Hermione aproximou-se do leito de Harry e segurou uma das mãos dele, dando um apertão confortante.

De repente ficou muito difícil respirar.  O ar parecia pesado e intragável.  Um gosto amargo tomou conta dos lábios do ex-Gryffindor.  Não.

- Sinto muito, Harry.  Sentimos muito mesmo...

Não... aquele discurso... Hermione só usava antes de anunciar uma nova desgraça na vida de Harry.

“Sentimos muito, Harry.  Rony... ele foi morto por um Comensal...”

“Sinto muito, Harry... a missão de Finnigan... foi uma cilada.”

“Oh, Harry, sentimos muito lhe dizer... Ginny e George... eles lutaram muito... até o fim...”

Harry não suportaria ouvir aquilo.  Não, ele não estava preparado!

Por que lutara tanto?  Pra que arriscara tudo?  Se suas chances estariam destruídas para sempre?  Não haveria futuro sem Draco Malfoy.  Não podia simplesmente se levantar e seguir em frente, não dessa vez.

Por que sua vida era tão desgraçada?

Lendo a tragédia no rosto do moreno, Hermione apertou-lhe a mão novamente, enquanto respirava fundo.

- Harry, ouça-me com atenção.  Não quero que pense o pior... Draco não está morto...

Imediatamente Harry olhou para a amiga, vendo que a jovem bruxa falava sério.  Mas então, onde estaria seu namorado?  Por que não conseguia senti-lo?  O vínculo entre eles parecia ter desaparecido.

- Antes de ser derrotado, o Lorde das Trevas usou uma maldição em você.  Ele atingiu-o com magia negra que não conhecemos, e que é muito poderosa, de acordo com o que Severus disse, porque usa o último sopro de vida para ser conjurada.  De certo modo é uma maldição de morte, mas de morte para quem a conjura.  Não para a vítima.

O moreno analisou seu corpo longamente.  Estava coberto por um lençol, mas mesmo assim não parecia haver nada de errado com ele, fora o fato de estar completamente nu, tendo apenas o fino tecido branco para protegê-lo.

- Vocês não conhecem a maldição?

- A maldição exata não.  Mas entendemos como funciona seu princípio fundamental.

- No que ela me afetou?  Onde Draco está?  O que houve com ele?  Por que não está aqui comigo?

Atordoada com as inúmeras perguntas, a bruxa de cabelo castanho olhou para o relógio preso a parede por magia.  O único ponteiro estava quase chegando ao indicador de ‘pôr-do-sol’.

- Não temos muito tempo, Harry!  Não temos quase tempo nenhum.

- O que quer dizer com isso? - a urgência na voz de Hermione era alarmante.  Harry nunca a vira tão nervosa antes.  Nem mesmo no dia de seu casamento, quando se tornara a senhora Snape.

- A maldição que o Lorde das Trevas usou funciona basicamente como um feitiço transfigurador.  Ele age na vítima e descobre o lado animal do bruxo, convertendo-o completamente em uma fera.  A intenção, era que você deixasse de ser humano, Harry, para sempre.

Hermione olhou para o relógio.  O ponteiro estava perigosamente próximo ao ‘pôr-do-sol’.  A agitação da garota contagiou Harry, que começou a se preocupar, ao mesmo tempo em que tentava entender o que ela lhe explicava.

- O que?

- Você se tornaria um animal irracional.  Perderia sua consciência humana, esqueceria de sua vida, seus amigos, de tudo.  Oh, Harry.

- Mas... não entendo! - ele passou a mão pelos cabelos - Não me transformei em um animal...

- Severus viu tudo.  Ele assistiu quando o Lorde das Trevas lançou a maldição contra você, mas ele estava longe demais... longe demais para ouvir que maldição era, ou tentar usar um contra feitiço.  Ele não pôde impedir que Draco entrasse na frente do feitiço.  Vocês dois foram atingidos em cheio Harry.

Sim!  O moreno lembrava perfeitamente disso.  A sensação dos braços protetores de seu namorado ainda permanecia em sua memória.

- Quando a maldição os atingiu, se dividiu em duas, metade pra você, e metade para Draco.

- E o que isso quer dizer?

O relógio começou a apitar loucamente.  Hermione largou a mão de Harry e saltou para trás, já sacando a varinha do bolso do vestido.

- Hermione!  - o moreno arregalou os olhos verdes ao ver sua amiga agindo tão estranhamente - O que está fazendo?

- Sinto muito, Harry, é para sua própria segurança.

A bruxa lançou vários feitiços de proteção, que prendiam Harry a cama.  O moreno mal podia se mexer.

- Como você foi afetado por apenas metade da maldição, ela funciona em metade do dia.  A outra metade do dia tornou-se amaldiçoada para Draco.

- Hermione...

- Em você, Harry, ela funciona à noite.  Durante a noite você deixa de ser humano... você se torna...

Calou-se ao ver Harry Potter ser acometido por uma dor tão forte, que seu rosto perdeu totalmente a cor.  Até mesmo os lábios carnudos embranqueceram, liberando um grito que revelava a mais pura agonia.

Céus... quem... lançou esse... Cruciatus?

Durante sete dias, Hermione assistira aquela cena, a única diferença era o fato de que antes, Harry estivera inconsciente, e não parecera sofrer tanto.

Acostumada com o que viria a seguir, a bruxa girou a varinha, e o lençol da outra cama voou para os pés do leito.  Murmurou um Finite Incantatum naquela direção.

Enquanto se consumia na profundidade daquela dor desconhecida, Harry pôde ver, pelo canto do olho, que sobre o outro leito, havia alguma coisa... algo longo e esguio, semelhante a uma serpente.

Serpente de uma espécie que nunca vira antes, revestida por escamas de prata, inerte, mas graciosa.

Horrorizado, percebeu o momento em que o animal estremeceu, e começou a mudar de forma.  Mais horrorizado ainda viu suas próprias mãos mudarem.  Seu corpo pareceu encolher e ganhar pêlos, em uma metamorfose similar a que acontecia a serpente prateada.

Quando a dor pareceu se tornar insuportável, um estalo despertou a mente entorpecida do ex-Gryffindor.  Conhecia aquela serpente... ela estava adquirindo aspecto humano e era de alguém familiar... alguém muito pálido e loiro...

Draco!

Então a dor sumiu de repente.  E levou tudo o mais com ela.  Foi como se perdesse todos os sentidos.

No outro leito, a transformação também se findara.  Sobre a cama, no lugar onde antes estivera a serpente prateada, estava Draco Malfoy.

Mais que depressa Hermione moveu a varinha, puxando novamente o lençol de modo a fazê-lo cobrir o ex-Slytherin, que adquirira forma humana e permanecia completamente nu.  Era sempre assim, tanto com Harry quanto com Draco.

O loiro também estava internado em St. Mungo desde uma semana atrás, quando a guerra terminara.  E não abrira os olhos desde então.  Hermione intuiu que logo Draco despertaria.

Depois os olhos preocupados da jovem bruxa voltaram-se para seu amigo Harry Potter.  Acabou encarando um belíssimo lupino.  Um lobo grande e forte, de pêlo preto como a noite e eriçados, lembrando muito o cabelo do ex-Gryffindor.

A cauda era longa e felpuda, parecendo macia, assim como todo o resto do pêlo.

Era um belíssimo animal.  Um animal selvagem, em cujos olhos verdes, brilhavam a astúcia aguçada e o fortíssimo instinto de sobrevivência.  Não era um ser racional, não possuía inteligência humana.

Harry Potter se tornara um completo animal.

A maldição teria sido perfeita, não fosse a interferência de Draco Malfoy.  O bruxo que, por seu amor, acabara dividindo o destino cruel com o marido.

Durante sete dias havia sido assim, e Hermione não acreditava que mudaria.

Aquele era o terrível legado que o Lorde das Trevas deixara a seu inimigo.

Harry e Draco sobreviveram.  Estavam vivos e em perfeita saúde.  Mas durante o dia, Draco se transformava em uma serpente prateada, uma espécie nunca vista antes, enquanto Harry permanecia na forma humana.

Ao pôr-do-sol, a situação se invertia.  A serpente branca se transformava até adquirir aparência humana, voltando a ser Draco, enquanto Harry Potter mudava e passava a ser aquele feroz lobo negro.

Juntos e, ao mesmo tempo, eternamente separados.

A vida era mesmo injusta.

Enquanto uma lágrima escorria pela face de Hermione, em um silencioso lamento pelo destino tão cruel, ela voltou a cadeira onde estivera sentada antes de Harry despertar, pegou o pesado livro e voltou a folheá-lo, lendo cada palavra como se sua vida dependesse disso.

- Eu juro, Harry... - a voz saiu tremula, porém estranhamente resoluta. - Juro que vou descobrir que maldição é essa.  E então... Severus e eu faremos vocês dois voltarem ao normal.

A promessa foi ouvida com atenção quase predatória, por um par de selvagens olhos verdes, que naquele momento pareciam extremamente entristecidos.

 


 Capítulo 01

Harry Potter entrou na biblioteca e quase praguejou.  O local estava completamente cheio.  Parecia que a maioria esmagadora dos estudantes de Hogwarts havia resolvido tirar aquele fim de período para estudar.

Beleza...

Os olhos verdes correram para todos os lados, observando as mesas silenciosas graças a incansável supervisão de Madame Pince.  Ao canto, Harry visualizou sua amiga Hermione, cercada por duas pilhas enormes de livros.  A mesa dela estava lotada, assim como as outras.

Acho que vou estudar no salão comunal...

Suspirou, sabendo que não poderia fazer sua pesquisa de poções em paz, não com os gêmeos Weasley por perto tramando (e testando) mais uma das Gemialidades...

O moreno ia quase desistir, quando notou no canto mais afastado de todos uma mesa solitária, a única com cadeiras vagas, onde uma única pessoa lia um enorme e pesado livro.

Aliás, o livro era tão ridiculamente grande, que encobria quem quer que estivesse segurando-o.

Por um instante O Garoto Que Viveu se questionou quem seria aquela pessoa e porque que ninguém queria se sentar com ele (ou ela)... depois deu de ombros e caminhou até a mesa vaga.

Sentou-se percebendo que sua presença não fora notada.  Espalhou suas coisas pela mesa tentando não fazer barulho para não incomodar ninguém.

Já tinha separado três livros falando sobre Descurainia (ele precisava descrever 15 poções que eram feitas a base dessa planta – Maldito Snape!).  Respirando fundo, pegou um pedaço de pergaminho, a pena e o tinteiro e ia começar a escrever quando deu uma olhadinha em direção ao enorme livro equilibrado a sua frente e não pode evitar gemer.

Merda.

Duas mãos mantinham o livrão em pé.  Duas mãos de dedos finos e longos, e pele pálida.  Mãos que conhecia muito bem, afinal somente uma pessoa em toda Hogwarts possuía uma pele tão singular.

Draco Malfoy...

Isso explicava o porquê da mesa estar vazia.  Ninguém quisera sentar-se ao lado do Slytherin.  A reputação do loiro sofrera um tremendo abalo, quando o pai fora enviado para Azkaban, a três meses atrás.

O loiro era evitado como uma praga, até mesmo por alunos de sua própria casa.

Enfim, pensou Harry, cada um recebe o que merece.

E Draco Malfoy demorara muito para ter o troco de suas atitudes insuportáveis, infantis e maldosas.

Reparando uma última vez, Harry notou que a barra do uniforme do Slytherin estava maior do que o normal, e deixava-lhe apenas os dedos de fora, seguindo por cima do pulso magro e cobrindo o resto das mãos.  O Gryffindor fez uma anotação mental para rir do loiro, afinal, dessa vez o uniforme não estava perfeito como sempre.

Deixando de pensar no inimigo, Harry começou a escrever e se concentrou totalmente em sua tarefa.

Conforme o tempo passava, os estudantes iam terminando suas tarefas e deixando a biblioteca.  Quando faltava meia hora para fechar, não restava mais ninguém ali além de Harry e Draco.

O Gryffindor esticou os braços e espreguiçou-se.  Surpreendentemente concentrara-se pra valer na tarefa e nem vira as horas passarem.  Agora tinha dor nas costas e no pescoço, e os olhos estavam lacrimejando pelo esforço.

Piscando com força, Harry olhou sem querer para frente, dando com o livro que Malfoy ainda segurava.

Franzindo as sobrancelhas, Harry notou que as mãos dele continuavam na mesma posição.  E pra dizer a verdade, ele não se lembrava de ter visto (ou ouvido) nenhuma página ser virada aquele tempo todo...  Estaria o loiro usando algum feitiço de silêncio ao seu redor?

Ou algum para virar as páginas do pesado livro?

O Garoto Que Viveu sentiu-se intrigado.  Os olhos verdes examinaram as mãos de seu inimigo com mais atenção, olhando os dedos que escapavam pela manga comprida maior do que a medida.  Pôde ver que no dedo indicador esquerdo havia um corte longo e fino, que começava a cicatrizar e que Harry não percebera antes.

Era a única coisa que maculava a pele perfeita.

Aquilo incomodou Harry Potter.

Parecia tão errado que o corte, quase um arranhão na verdade, estragasse a homogeneidade da tez de alabastro.

Por alguns segundos esperou que o loiro se movesse, ou desse algum sinal de vida.  Como não ocorreu, Harry começou a se alarmar.  Teria acontecido alguma coisa?  Poderia Draco Malfoy ter morrido naquela biblioteca sem que ninguém percebesse?

Sem que ninguém desse atenção?

Com o coração aos saltos, o moreno levantou-se da cadeira, fazendo-a arranhar o chão, e recebendo um olhar irritado de Madame Pince por conta disso.

Deu a volta na mesa e observou o outro.  Realmente era Draco Malfoy que estava sentado atrás daquele livro.  Mas ele não estava morto.  Estava apenas...

Dormindo!

Foi o que Harry constatou.  O loiro permanecia com a cabeça ligeiramente inclinada para o lado e os lábios entreabertos.  As pálpebras cerradas eram visíveis através de brechas entre os fios finos e platinados da franja um tanto longa.

A respiração compassada fazia o tórax magro subir e descer num ritmo suave, mas perceptível.

Aliviado (afinal, apesar de tudo Harry não queria encontrar nenhum cadáver na sua mesa da biblioteca), preparou-se para voltar ao seu lugar e recolher suas coisas quando reparou mais cuidadosamente na face do Slytherin.

Draco parecia muito cansado.  Uma palidez nada saudável dominava seu rosto, e ele estava mais magro do que nunca.  Havia olheiras suaves sobre seus olhos, o que indicava que provavelmente não vinha dormindo direito.

Ora, o trimestre nem havia começado direito e o garoto já estava em tal estado? Com certeza adoecera!

Mas por que Harry se importaria?

Draco não passava de um moleque mimado, metido a ser superior a todos, e pior, era cheio de preconceitos e idéias racistas.  Não devia se preocupar com o outro.

Então por que não conseguia simplesmente virar-se e se afastar?

Alguma coisa o mantinha preso ali.

E Harry sabia o motivo, apesar de não assumir para si mesmo.  Se fosse outro, que não Draco Malfoy, teria oferecido sua ajuda e perguntado o que estava acontecendo.

Mas como era aquele Slytherin irritante, o Garoto Que Viveu estava disposto a dar as costas e ignorar uma coisa que parecia errada.

Aquilo incomodou Harry.  Não era nada bom agir dessa maneira.

Parecendo sentir o olhar de Harry sobre si, Draco começou a despertar.  A mão esquerda soltou o livro e foi em direção ao rosto, esfregando os olhos de maneira preguiçosa.

Harry acompanhou o movimento com surpresa.  Não contara que o loiro pudesse despertar e flagrá-lo ali, numa observação quase predatória.  Porém a surpresa se tornou estupefação e em seguida choque.

A manga da blusa correra, enquanto o loiro esfregava seus olhos, deixando o pulso magro a mostra.  E a pele leitosa estava marcada com cicatrizes horríveis de um ferimento que parecia que começara a se curar a pouco tempo.

Cicatrizes como marcas de algemas.

Era um contraste tão gritante contra a tez pálida que fez Harry perder a fala.

O moreno entendeu perfeitamente o porquê do outro estar usando o uniforme com mangas mais cumpridas do que suas reais medidas.

Agindo por puro impulso (como o bom Gryffindor que era), Harry esticou o braço e fechou os dedos ao redor daquele pulso, causando um susto em Draco, e puxando-o para mais perto de seus olhos, para poder analisar direito.

HPDM

Draco acordou com uma sensação incomoda de que era observado.  Antes mesmo de abrir os olhos levou a mão a face e esfregou os olhos, tentando espantar o sono e a tontura.  Detestava dormir durante o dia, mas... dessa vez não conseguira evitar.

Estava ainda preso naquele estado de semiconsciência, nem dormindo, nem totalmente desperto, quando sentiu alguém agarrando seu pulso e puxando com certa violência.

Por um segundo achou que havia voltado para casa e estava frente a frente com seu pai...

Quase entrou em pânico.  Abriu os olhos imediatamente e para alívio imediato, viu que não estava na Mansão, e muito menos em frente a seu pai.  Ainda estava na biblioteca de Hogwarts, onde dormira ao invés de estudar.

Só então Draco viu quem segurava e examinava seu pulso.  Era nada menos que Harry Potter, o maldito Garoto Que Viveu.  E parecia... preocupado...

- Potter!  O que está fazendo? - a voz arrastada e irada ecoou alto na sala vazia.

- Malfoy, o que é isso?

Madame Pince, que agora se encontrava atrás de umas estantes,  limpou a garganta lembrando aos garotos que estavam em uma biblioteca.

- Não é da sua maldita conta! - Draco baixou o tom de voz.

Harry não respondeu.  Ao invés disso esticou a mão e agarrou o outro pulso do loiro, fazendo-o soltar o pesado livro que caiu com um estrondo sobre a mesa.

- Ei! - Draco se indignou.

Harry nem ouviu o protesto.  Os olhos verdes se arregalaram ao encontrar, conforme desconfiara, marcas idênticas no pulso magro.  Pelo visto as férias na Mansão Malfoy não haviam sido nem um pouco divertidas...

- Potter! - a voz denunciava toda a indignação pela atitude do moreno.  Corando de pura raiva, o Slytherin tentou puxar seus braços e soltar-se, mas não conseguiu.  Harry o segurava com força, ainda examinando as marcas arroxeadas com os olhos verdes arregalados.

- Malfoy, como foi que conseguiu isso?

- Ah, que parte do não é da sua conta você ainda não entendeu?

Harry olhou para a face vermelha do outro, parecendo indeciso por um segundo.  Logo a expressão mudou para determinação pura, enquanto soltava-lhe o braço esquerdo e dava-lhe as costas, puxando-o pelo outro pulso.

Draco desconcertou-se ao ser praticamente arrastado para fora da biblioteca.  Olhou para trás, vendo suas coisas e as do Gryffindor sobre a mesa, mas Harry não parecia preocupado com seu material.

- Potter!  O que pensa que está fazendo?! - o loiro lutava para não tropeçar, ao mesmo tempo em que tentava desesperadamente soltar-se das garras de Harry.

- O que você acha, Malfoy?

O loiro ofegou.  Harry andava muito rápido!  Era difícil acompanhar-lhe os passos das pernas longas.

- Me levando para passear?

Harry quase sorriu.

- Nada tão divertido.  Vamos à enfermaria.

- O que? - Draco arregalou os olhos.

- Você precisa cuidar disso.

- E porque você se importa?

Harry não respondeu.  Na verdade nem ele sabia o porquê de se preocupar com o loiro.  O esperado seria que Harry não desse a mínima... mas o moreno dava.  Descobria nesse momento que dava muita importância.

E no fim das contas, o esperado nem sempre era o certo.

Harry ergueu as sobrancelhas divertindo-se ao sentir socos secos em suas costas.  Pelo visto o loiro percebera que era inútil tentar soltar-se das garras apertadas do Gryffindor, e passara a usar a mão livre para acertar golpes nas costas do mais alto.

Golpes que não doíam nada.  Harry já sentira dores muito piores do que aquilo.

- Potter, é melhor me soltar! - Draco ofegava.

- Ou o que?  Você vai começar a gritar?

O moreno riu baixinho de um soco particularmente mais forte que lhe acertou o meio das costas.

Vendo que aquelas agressões não iam levar a nada, Draco resolveu tomar uma atitude mais drástica.  A mão livre foi em direção à capa, com intenção de sacar a varinha e lançar uma azaração no moreno...

Mas Harry pressentiu o movimento e tudo o que precisou fazer foi acelerar ainda mais o passo.  Pego de surpresa, Draco tropeçou outra vez e teve que usar a mão para recuperar o equilíbrio.

Estavam agora no corredor que levava a ala hospitalar, onde Madame Pomfrey sempre ficava em alerta.

O desespero de Draco alcançou um ápice.  Ele não queria que ninguém soubesse!  Não queria que ninguém visse aquelas marcas!  Seria humilhante!  E doloroso!

- Potter, espera!  Pare com isso... - vendo que não seria atendido, o loiro usou uma última cartada - Por favor...

Wow.  Draco Malfoy... pedindo por favor?

O alívio imediato tomou conta de Draco, quando Harry parou de arrastá-lo pelos corredores.  Seu coração estava disparado, a face corada e a respiração acelerada.  Mas mesmo assim, evitara o pior.

Harry voltou-se para o loiro, tendo a precaução de continuar segurando-lhe o pulso com força.  Só porquê parara, não significava que desistira da idéia de levá-lo até Madame Pomfrey.  Mas seria bem melhor se o Slytherin decidisse seguir por conta própria.

Ambos ficaram se fitando, até que Harry percebeu que o outro não tomaria iniciativa para uma conversa.

- Então, Malfoy?

- Então?  Então?! - a fúria fez o corpo magro tremer - É melhor parar de meter esse narigão em coisas que não lhe dizem respeito, Cabeça Rachada!

- Meu nariz não é tão grande assim - Harry franziu as sobrancelhas ao ser chamado de Cabeça Rachada.  Era a primeira vez naquele ano, já que Malfoy parecia ter desistido de provocá-lo.  Nunca pensou que... sentiria falta das ofensas...

- Ótimo.  Então vá para junto dos seus amiguinhos e me deixe em paz.

O moreno levantou o braço e exibiu o pulso de Draco.

- E isso?

- Ah... meu braço vem comigo, se você não se importar.

- Não banque o engraçadinho.  Sabe do que eu estou falando.

- Porque não faz de conta que não viu nada, Potter?  Hum, esqueci que você é Harry Sempre Tenho Que Bancar o Herói Potter.  Mas, nesse caso, saiba que eu não preciso de ajuda.

- Não é o que parece... isso foi presente de férias?  Ou aconteceu aqui na escola?  Dumbledore não vai gostar de saber que uma coisa dessas...

- Não foi na escola. - Draco afirmou desviando os olhos para uma das janelas que havia no extenso corredor.

- Eu imaginei que não...

- Poderia soltar meu braço?  Ou quer deixar outra marca?  Você está me machucando, Potter.

Surpreso, o moreno abriu a mão libertando o loiro.  Imediatamente Draco esfregou a região onde Harry segurara.  Estava mesmo dolorido, e marcas vermelhas manchavam a pele de alabastro, bem embaixo dos sinais das algemas, deixando a marca dos dedos do moreno.

- Sinto muito.

- Claro.

- O que aconteceu?

Draco não respondeu.  Virou as costas para o mais alto, e por um segundo Harry achou que ele ia fugir.  Mas o Slytherin permaneceu parado, observando o pulso enquanto massageava-o tentando fazer o sangue circular.

Diante do silêncio pesado, Harry insistiu:

- Devia ir à enfermaria.

- Não é nada demais.

- Nada demais, Malfoy?  Isso pode infeccionar.  Não está bem curado.

- Ah... é que não sou muito bom em magias curativas... nunca fui.

Harry observou as costas do outro.  Draco parecia ter se encolhido um pouco... não... fora apenas impressão.  Os olhos verdes se fixaram nos cabelos loiros.  Estavam perfeitamente penteados.  Nem um fio fora do lugar indicava que o Slytherin fora arrastado uns bons metros desde a biblioteca.

Por um segundo O Garoto Que Viveu sentiu inveja. Seus fios negros eram tão bagunçados!  Sempre apontavam em várias direções...

- Você não devia se importar... afinal, somos inimigos, Potter.  Ou você se esqueceu?

- Oh...

- Essa é a primeira conversa civilizada que temos desde o primeiro ano...

- E você chama isso de civilizado, Malfoy?  Que eu me lembre, já me chamou de narigão, intrometido e cabeça rachada num curtíssimo período de tempo.

Draco deu uma risadinha debochada.

- Esqueci de mencionar as pancadas em minhas costas...

- Você estava merecendo... merecendo muito mais na verdade.

Então era isso.  Os dois maiores inimigos em Hogwarts estavam se falando, como os seres humanos que eram, e não trocando ofensas e saindo no soco como acontecia de vez em sempre.

De repente Harry sentiu-se em um universo alternativo.  Aquele não era  o Draco Malfoy que conhecia, e sim um substituto parecido fisicamente.  Naquela realidade eles não eram inimigos, não se odiavam e podiam ser...

- Você quer mesmo saber? - a voz arrastada trouxe Harry de volta à realidade.

- Se você quiser dizer...

- Não quero... - Harry deu de ombros diante da afirmação, apesar de que Draco estava de costas e não veria.  Porém o loiro continuou antes que o moreno fizesse qualquer coisa - ... mas vou lhe dizer.  Foi meu pai.

Nada prepara Harry para tal afirmação.  Ele desconfiara que o loiro aprontara alguma coisa nas férias, e estava escondendo as conseqüências porque temia justamente a reação dos pais.  Nunca imaginaria que Lucius Malfoy era o responsável pelos ferimentos do loiro, seu próprio filho.

- Por que? - a voz revelava toda a incredulidade do mais alto.

Diante disso Draco virou-se e olhou para Harry, mantendo seus olhos prateados fixos nas íris esmeralda.

- Não faça essa cara Potter.  Meu pai só queria me incentivar a ser melhor.

- O que? - a incredulidade atingia níveis incalculáveis.

- Para que eu supere você esse ano, no Quidditch.  E Granger nas notas.

- Ele fez isso para incentivar você?  Malfoy, seu pai é doente...

- Não seja ridículo, Potter.  Se você não sabe, a dor é um dos melhores incentivos.

E então tudo fez sentido para Harry.  O porquê do outro estar parecendo tão cansado, e ter parado de implicar com ele e seus amigos.  Provavelmente cada minuto livre era usado para estudar e assim conseguir superar Hermione nas notas e Harry no esporte.

Superá-los porque seu pai o estava incentivando.  E porque Draco não queria mais sentir dor.

Era doentio.

- Malfoy...

- Não fale sobre coisas que você não entende - os olhos cinzentos faiscaram - Meu pai faz essas coisa para o meu bem.  Eu sei disso.

- Usar a dor?  Tortura?

- Eu estou me dedicando mesmo para superá-lo, Potter.  Desde o segundo ano eu me esforço para vencê-lo, mas você é um irritante, e por mais que eu melhore, você é sempre melhor do que eu.  Sabe como é frustrante?

O queixo de Harry caiu.  Desde o segundo ano?  Então aquilo vinha acontecendo há tanto tempo?  Claro, por isso Draco fazia de tudo (até jogar sujo) para superar Harry.  Por isso era tão importante vencer, se destacar...

- Isso não vai me acontecer mais. - o loiro balançou os pulsos na frente do rosto de Harry - Sabe por que?  Esse ano eu vou vencê-lo, Potter.  Nem que eu precise treinar Quidditch todos os dias.  E vou ter as melhores notas.  Se for necessário estudar durante a noite, então eu o farei.  Poder ter certeza!

O queixo de Harry caiu mais ainda diante do discurso inflamado.  Seus olhos verdes se voltaram para as olheiras suaves sob os olhos grises.  Depois desfilaram pelo rosto magro e pálido.  O que Draco andava fazendo a si mesmo?  Estudando durante a noite?  Usando poções para permanecer acordado?  Alimentando-se mal para economizar tempo?

Tempo que seria usado provavelmente para estudar...

Deus sabia o que o Slytherin fazia para que seu pai se desse por satisfeito.

- Malfoy isso é... cruel!

- Não faça essa cara de pena, Potter.  Não preciso dela.  Graças a meu pai estou totalmente... - Draco calou-se e arregalou os olhos.  Potter havia avançado um passo e passara os braços ao redor de seu corpo, puxando-o para um abraço - Po... Potter... o que está fazendo?

- Isso se chama abraço, Malfoy.- Eu... sei... - Draco gaguejava com a característica vvoz arrastada.

- É uma forma de incentivo.

Draco abriu e fechou a boca, desistindo de falar.  A atitude do moreno lhe pegara totalmente de surpresa.  Nunca imaginara que os braços do Gryffindor pudessem ser tão quentes...

Quase se rendeu e encaixou a cabeça na curva do pescoço do moreno, que era mais alto.  Quase...

- É o melhor incentivo que conheço, Malfoy. - Harry soltou o outro, e de repente Draco sentiu frio.  Muito frio. - Faz você realmente querer ser melhor.  Sabe porque?

O loiro balançou a cabeça dizendo que não.  Parecia entorpecido.

Harry sorriu e segurou o queixo do outro com cuidado, parecendo avaliá-lo com profunda preocupação.

- Porque é bom.  E outros abraços virão, cada vez que você se superar.  Isso faz com que seu coração deseje melhorar.  Funciona ao contrário da tortura, onde você se esforça para não sofrer outra vez.

- Por que você se importa? - Draco parecia fascinado, observando Harry com intensidade.

- Talvez seja hora de você saber que existem opções Malfoy.  Você pode escolher o que prefere.  Não é obrigado a aceitar o que seu pai faz.  E você sabe que ele não tem direito de lhe causar dor.  Ninguém tem esse direito.

- Nem você? - perguntou desconfiado, fazendo Harry sorrir outra vez.

- Nem eu... - garantiu, emendando em seguida - Apesar de você merecer umas surras de vez em quando, por ofender meus amigos.

A frase divertida ofendeu o loiro que torceu os lábios e empinou o nariz.

- E agora?

Harry desviou os olhos.  Quando falou, sua voz estava quente, mas decidida e dura.

- Agora?  Você é quem sabe.  É livre pra escolher qual a forma de incentivo lhe agrada mais.  Acha que a dor é eficiente?  Garanto que um abraço é mil vezes mais.  E age mais rápido.  Pode continuar sofrendo os abusos de seu pai (porque isso é um abuso, você admitindo ou não) ou... pode seguir um outro caminho.

- Fala como se fosse fácil. - o loiro resmungou.

- E é.  Mas... vai ter de fazer por sua própria decisão.  Não vou obrigá-lo a ir até a enfermaria.  Você quer saber porque eu me importo?  Não sei... sinceramente não sei, mas me importo... e eu te digo as opções: pode dar meia volta e se refugiar com seus amigos.  E então as coisas nunca vão mudar em sua vida.  Nunca conseguirá fazer nada que não seja resultado da dor... ou...

- Ou...

- Você sabe bem.   Pode usar suas próprias pernas e ir até Madame Pomfrey.  E então... então descobrirá por sua conta.

E pra provar que o dizia, Harry deu meia volta, deixando o loiro sozinho próximo a entrada da ala hospitalar.

Completamente perdido e confuso, Draco observou o Gryffindor até ele sumir no corredor.  Depois os olhos prateados observaram a vidraça da janela.  Um trovão ressoou ao longe, e só então o garoto deu-se conta de que caía uma fortíssima tempestade...

HPDM

- Hermione...?

A jovem mulher largou o pesado livro que lia avidamente e levantando-se da cadeira foi em direção ao segundo leito do quarto, no hospital bruxo.  Acertara em cheio quando dissera que Draco Malfoy acordaria em pouco tempo.

Não havia surpresa alguma em ser chamada pelo primeiro nome.  Há muitos anos era apenas Hermione.  Não mais Granger.  Não mais Sangue Ruim.

- Como se sente, Draco? - os olhos preocupados avaliavam a figura do ex-Slytherin.  O loiro parecia tão frágil... o rosto magro e fino estava tomado por uma palidez cadavérica.  A franja longa cobria os olhos grises dominados por olheiras.

Num gesto extremamente maternal, Hermione correu os dedos pela franja platinada, afastando-a do rosto de Draco.

- Eu... estava sonhando. - o loiro levantou a mão, que Hermione segurou e apertou gentilmente.

- Sonhando?

- Com Hogwarts... o começo do quinto ano...

- Foi quando você e Harry começaram a se dar bem, não é?

- Desde que acordei... não posso senti-lo... onde Harry está? - virando a cabeça, Draco começou a olhar pelo quarto, tentando descobrir a presença de seu amante.

Um forte vínculo unia Harry Potter e Draco Malfoy, ligação que ficara mais forte após o casamento mágico quando tinham se tornado maiores de idade, há três anos atrás.

Inevitavelmente os olhos com íris mercúrio descobriram o enorme lobo preto deitado na cama ao lado, preso ao colchão por inúmeros feitiços de segurança, mas que fitava os dois humanos com olhos verdes muito vivazes.

Sem poder se segurar, Draco estremeceu.

- Hermione...

A bruxa abriu a boca e começou a falar.  Falou durante muito tempo, explicando a Draco tudo o que acontecera desde a derrota de Voldemort, até aquele exato segundo.  Explicou a terrível maldição, que vitimara os amantes, e lhe revelou que aquele lobo negro de olhos verdes era nada mais nada menos do que Harry Potter.

Evidenciou que ainda não sabiam com que maldição estavam lidando, mas que Severus e ela faziam de tudo para descobrir.

O loiro ouviu em um silêncio de morte.  Ao fim da narrativa, ele soltou a mão de Hermione e puxou o lençol, cobrindo sua cabeça.

- Algumas pessoas nascem apenas para sofrer, não é? - a voz tremia um pouco, mas não deu temmpo de Hermione responder. - Estou cansado...

Hermione sentiu um nó na garganta e as lágrimas que segurara até então vieram a tona.  Sem conseguir se controlar, a jovem começou a chorar e soluçar.  E a dor pelo destino daqueles dois, Harry, seu adorado amigo, e Draco, a quem aprendera apreciar e respeitar, foi tão grande que parecia esmagar seu coração.

Os soluços aumentavam, encontrando eco idêntico nos do jovem loiro, que também chorava, escondido embaixo do lençol...

 

 

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HPDM

4ever

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