Desafio:
"Remus e Snape estão
juntos, apaixonados e felizes, mas Sirius volta do
Véu da Morte, lúcido, e com muitas saudades do namorado, Remus.
O que o Lupin vai fazer? Bônus se Sirius
e Snape brigarem em público por 'outro motivo' mas
sendo Remus a razão real da briga". (Marck)
Título:
Voltei para você
Autor: Magalud
Classificação: PG ou maior de 12 anos
Casais: Remus/Severus, Remus/Sirius
Resumo: Sirius vence o Véu para voltar para Remus. Só que Remus não está
sozinho.
Disclaimer: Não, nenhum deles é meu. Um monte de
gente os possui: Jo, Bloomsbury,
Scholastic, Warner Brothers, Rocco, e sabedeusmaisquem. Mas não eu – e justo eu, que faço o
máximo para eles se divertirem às pampas! Não é uma injustiça?
Avisos: Fluff, Mpreg implied
Notas: Essa fic teve uma cena baseada em outra fic que eu li, mas a praga é que não me lembro o autor. Se
você reconhecer a fic, diga para o autor que não ouve
intenção de plagiar nada. E elogie a fic dele!
Notas 1: Amanda
fez a betagem. Se ainda restou alguma bobagem, a
culpa é minha!
Voltei para você
Era um
almoço como outro qualquer em Hogwarts. Os alunos
matraqueavam, e os professores conversavam polidamente entre si, num dia
chuvoso e cinzento. Tudo parecia calmo, até o momento em que as portas se
abriram ruidosamente e um homem entrou, chamando a atenção de todos.
Sirius Black.
Mesmo com
os cabelos mais curtos, penteados para trás e uma expressão ansiosa no rosto, Sirius ainda era um homem atraente. Ele caminhou entre as
mesas, sob os olhares admirados dos alunos. Os mais novos não sabiam de quem se
tratava, mas os mais velhos encaravam espantados o redivivo e controverso
membro da extinta Ordem da Fênix, o primeiro bruxo a escapar de Azkaban e que precisara morrer para ser redimido. Mas todas
essas histórias tinham anos, pois tudo acontecera antes da derrota de Lord Voldemort, nos tempos em que
Hogwarts tinha Harry Potter entre seus alunos. Depois de derrotar Voldemort, Potter tinha se mudado
com sua esposa Ginevra para a Austrália, fugindo da
fama.
Mas não
importava o que os alunos diziam, porque os olhos pretos de Sirius
Black não se desviavam da mesa dos professores. O
recém-ressuscitado ignorou os olhares abismados e concentrou-se em uma só
pessoa. Ele ficou de frente para ele e declarou:
– Voltei
para você, Remy.
Pálido, Remus Lupin ergueu-se para dar a
volta na mesa e ir até o ex-amante.
E caiu no
chão, desfalecido.
A comoção
foi grande. Vários professores acudiram, e ele abriu os olhos, com dificuldade,
para se certificar de que Sirius estava mesmo ali, e
que tudo era real. O ex-morto era um dos que segurava sua mão:
– Voltei,
meu amor.
– Preciso...
ver Severus... – Lupin
ergueu-se, trêmulo.
Sirius o apoiou:
– Você
está delirando. Vou levá-lo à ala hospitalar.
Dumbledore, que observara tudo calado, finalmente reforçou:
– Sirius, escute Remus. Leve-o até
as masmorras. Depois podemos conversar.
Mesmo
achando que talvez Dumbledore estivesse finalmente
ficando caduco, Sirius obedeceu, intrigado. Remus foi caminhando lentamente, ainda sob o impacto do que
acontecera. Ele realmente parecia ter dificuldade em acreditar estar vivendo
tudo aquilo, notou Sirius.
– Wolfsbane – era a senha de entrada nas masmorras, e Sirius ficou surpreso de que Remus
soubesse a entrada para os aposentos de Snape.
Assim que
eles entraram, Sirius ficou surpreendido pelo caráter
amistoso e aconchegante do local. Era uma sala de estar agradável, com um sofá
confortável, duas poltronas em frente à lareira e vários
porta-retratos ali dispostos. Mas a atenção de Sirius
logo se voltou para o chão.
Dois cachorrinhos,
aparentando seis meses de idade, correram em direção aos dois, abanando o
rabinho para Remus. Um tinha pêlos pretos, e o outro
era preto também, mas salpicado de manchas brancas. O que era todo pretinho
aproximou-se de Sirius, cheirando-o, curioso com o
estranho. Remus abaixou-se para acariciar o malhado:
– Estes
são Cástor e Pólux.
Nesse
momento, do aposento seguinte, entrou Severus Snape, de camisa branca e calça preta, descalço, com mais
um cachorrinho no colo:
– Remus, é você? Por que vol... – interrompeu-se,
empalidecendo ao dar de cara com o recém-chegado. – B-Black?
– Snivellus – Sirius rosnou. – Remy quer falar com você.
Percebendo
a tensão no ar, os cachorrinhos começaram a rosnar, arriscando latidos. O filhotinho que estava no colo de Snape
começou a retorcer, e logo foi deixado no chão. O animalzinho encarava Sirius com um olhar penetrante.
– Como
você conseguiu voltar de Além do Véu? – inquiriu Snape.
– Isso – disse Sirius
friamente – só diz respeito a Remy e mim.
– Sirius, Severus e eu estamos
casados – esclareceu o lobisomem. – Faz mais de um ano.
Foi a vez de Black empalidecer. Ele
olhou para um, depois para o outro.
– Remy, eu voltei por sua causa. Só meu amor por você foi
forte o bastante para vencer o Véu. Eu não fiz essa viagem toda só para
desistir de nós dois.
Os olhos
pretos do Mestre de poções adquiriram um brilho gelado de ônix:
– Então, *Remy*, é melhor você fazer logo sua escolha.
Seu marido ou seu antigo amante?
– Severus, por favor...
– Pois eu
não vou ficar aqui esperando para ver se caio nas suas graças. – Ele estava
pálido, os lábios brancos de tão apertados. – Espero que faça a fineza de me
comunicar quando tiver tomado uma decisão.
E sumiu
para dentro de seus aposentos, enquanto Remus tentava
chamá-lo:
– Severus! Por favor, não seja assim! Severus!
– Deixe, Remus. Esse seboso nunca soube ter uma conversa racional em
toda... AI!
Sirius ergueu a perna e, grudadinho nela,
com os dentinhos cravados no seu calcanhar, estava o terceiro cachorrinho, o
mais pretinho deles, que tinha saído do colo de Snape.
O bichinho ficou suspenso no ar, sem largar da mordida.
– Ei, amiguinho! Assim é jogo baixo!
– Nigella! – ralhou Remus. –
Solte-o já!
Ele
retirou a cadelinha, que rosnava, tentando manter os dentes no calcanhar de Sirius. Os outros dois começaram a latir para Sirius, e o lobisomem explicou, pondo a bichinha no chão:
– Ela é
muito agarrada a Severus. Estava apenas tentando defendê-lo.
Remus acalmou os outros filhotes, e Sirius
massageava o calcanhar, sentado no sofá.
– Casamento
estranho, o seu. Um marido temperamental com cachorrinhos mais temperamentais
ainda.
Novos latidos de protesto, e Remus
insistiu:
– Cástor! Pólux! – Os filhotes
obedeceram, mas Nigella ainda rosnava baixinho. Remus respirou fundo. – Talvez seja bom você saber que
esses filhotes são meus. Meus e de Severus.
– Sim, eu
estou vendo que são seus e de... – ele interrompeu-se, arregalando os olhos. –
Como assim? Não quer dizer...! Não pode ser! Lobisomens são estéreis! E eles
não têm... filhotes, têm?
– Em
primeiro lugar, essa história de que licantropos são
incapazes de ter filhos não é inteiramente verdade. O que ocorre é que a cruza
é difícil e a maior probabilidade é que os filhotes sejam lobos. Severus pesquisou durante meses até aperfeiçoar uma poção
que o engravidasse sem riscos. A gravidez precisa ser assistida.
– Ele
carregou os três?
– Sim, e
foi arriscado. A gravidez só durou quatro meses, e foi secreta. Não sabemos se
é exatamente ilegal, mas Dumbledore está nos apoiando
em tudo. Severus está afastado das aulas até que os
bebês se transformem.
– Er, Remy, não é que eu queria ser
exigente, nem nada, mas... como vocês terminaram tendo filhos de quatro patas e
outra espécie?
– É normal
na reprodução dos lobisomens, segundo a pesquisa de Severus.
Ele teve que ir aos Bálcãs para conseguir material. Na primeira fase, eles são
filhotes de lobo. Depois, os pêlos caem e eles viram bebês humanos. A
transformação é arriscada, por isso Severus
desenvolveu a poção. Há grande risco de nem todos os filhotes chegarem à forma
humana.
Sirius
encarou os filhotes, agora com outros olhos. Os bichinhos o encaravam,
desconfiados. Ele chegou a mão perto deles, e os três
foram se aproximando, cheirando-o. Nigella rosnou,
baixinho, e Sirius retirou a mão antes que ela
tivesse chance de mordê-lo de novo.
– Está querendo me dizer que esses filhotinhos vão virar bebês?
– Em pouco
tempo, talvez nessa semana ainda – esclareceu Remus,
sem evitar um sorriso de pai orgulhoso. – Nigella,
por exemplo, já está perdendo os pêlos. É preciso acompanhar de perto a
transformação. Pena que a lua cheia esteja tão próxima.
– Eles são
muito engraçadinhos – Sirius deu
de ombros. – Eu só não consigo acreditar que eles sejam seus com... Snape. Como é que você foi se juntar ao seboso, Remy?
– Você não
faz idéia do que aconteceu depois que você... er, morreu. Fiquei arrasado, Harry
também, e eu não pude ajudá-lo, Sirius. Eu estava com
muita raiva. Com muita raiva mesmo.
– Raiva de Harry?
– Não, sua
anta. Raiva de você!
– Oh – Sirius pareceu constrangido. – É comum ter raiva dos
mortos. A pessoa se sente abandonada.
– No seu
caso, Sirius, foi ainda pior. Você morreu por sua
própria culpa, sua própria estupidez! Porque eu vi você morrer, lembra? Eu
estava lá. Eu vi você desafiando aquela louca, provocando-a! Foi irresponsável,
Sirius, irresponsável e inconseqüente! Fiquei com
raiva porque você não pensou em mim, não pensou em nós, não pensou em Harry, não pensou na Ordem!
Aquilo fez Sirius encolher, envergonhado.
– Na
verdade, a Ordem não sentiu minha falta. Eu quase não fiz nada pela causa.
– Você deu
a casa pela Ordem, Grimmauld Place.
Não foi pouca coisa, pois era muito bem protegida. Mas
não foi só isso. Ao jogar sua vida fora, você quase matou Severus
e comprometeu toda a causa. Cheguei a pensar que ele não sobreviveria.
– Como
assim?
– Quando
você morreu, seu elfo Kreacher se libertou do
compromisso de sigilo a respeito da Ordem. Ele contou tudo à pessoa a quem era
realmente leal, sua prima Narcissa Malfoy. Ela trocou a informação com Voldemort,
poupando Draco de receber a Marca Negra. Não preciso
dizer que foi um milagre termos achado Severus com
vida.
– E foi
assim que vocês... se aproximaram?
– Não na
verdade. Mas isso ajudou. Ambos estávamos furiosos com
você, eu mais do que ele, se quer saber. Fomos nos aproximando muito
lentamente. Severus é um homem muito reservado, e não
confia facialmente nas pessoas, muito menos em mim, com o nosso passado. Mas
terminei descobrindo que eu o amo, e que na verdade ele é uma pessoa
fascinante, Sirius.
– Você... –
Sirius quase sussurrava – Você... me
esqueceu...
Remus
suspirou, e os três filhotes ganiram, sentindo seu desconforto. Sirius ficou admirado de ver como eles eram intuitivos e
sensitivos.
– Sirius, você estava morto. Jamais imaginei que pudesse
voltar. Eu estava muito mal, indo rapidamente para um lugar ainda pior. Não
pode me condenar por querer seguir adiante com minha vida.
– Eu só
voltei por sua causa, Remy. Só por isso pude
voltar... por amor a você. Eu amo você tanto que não consegui ficar lá. Eles me
deixaram voltar, sob uma condição. Ou melhor, duas.
– Eles?
Quem são eles?
– Não posso
dizer. É uma das condições. A outra depende de você.
– Depende
de mim?
– A segunda
condição para eu ficar aqui é que alguém me aceite como parte de sua alma, um
amor incondicional. Se você não me aceitar, eu vou sumir e morrer. Desta vez é
para sempre, porque não vou ter mais ninguém aqui para mim. Sem você, Remy, eu vou morrer.
Remus
empalideceu e nesse momento, um barulho ouviu-se lá dentro.
– Severus... Severus, espere! – Remus se ergueu, os
filhotes latiram e o Mestre de Poções entrou na sala. – Não se precipite.
– Precipitar-me?
– O rosto de Snape era pura fúria. – Como eu estarei
me precipitando se a vida de Black depende de você
escolhê-lo como amor de sua vida?
– Você
estava escutando? – Sirius se espantou.
– É claro –
responderam em uníssono Remus e Severus.
– Sempre um
Slytherin traiçoeiro, hein, Snivellus?
Latidos
altos e furiosos encheram a sala, e Nigella voltou a
morder-lhe o calcanhar sem sequer pensar duas vezes.
– AI! De
novo?
– Boa
menina – riu-se Severus. – Cuidado para não pegar
alguma doença.
– Severus, por que você não leva as crianças para dentro? Sirius e eu vamos até Hogsmeade.
– Muito
bem, então. – Tom gelado. – Se você e esse vira-lata voltarem a ficar juntos, aviso-o de que não abro mão da guarda dos meus
filhos. E você nunca mais voltará a vê-los.
– Não
precisa fazer ameaças, Severus.
– E se você
decidir abandonar sua família, não se incomode em voltar para essa casa –
Abaixou-se para colocar os três filhotes no colo. – Vamos, crianças.
Remus suspirou,
enquanto Severus dava um jeito de, mesmo sem as
vestes longas, parecer estar esvoaçando seus mantos, e sumia para dentro dos
aposentos íntimos. Sirius notou o ar abatido do
amigo.
– Vamos, Remy, vamos visitar Rosmerta.
No Três
Vassouras, Remus só conseguiu pedir uma Butterbeer. Sirius o acompanhou.
– Como você
pôde fazer isso comigo? Deixar uma decisão dessas nas minhas mãos?
– Desculpe,
Remy. Jamais pensei em encontrar essa situação: você
casado e cheio de filhos. Mas nós podemos ter uma segunda chance, se você
quiser.
– Sirius, você mesmo disse. Eu sou um pai de família agora.
Não posso abandonar meus filhos. Você saber o quanto eu sempre quis ter filhos
meus.
– Podemos
ter nossa própria família! Nossos filhos! Ao contrário do sebento, eu gosto
muito de crianças.
– Ao
contrário de Severus, você não engravidaria. Você não
tem esse tipo de compromisso, Sirius. Não quero
ofendê-lo, nem pense que eu o amo menos por isso, mas há certas coisas que Severus tem e você nunca terá.
– Que
coisas? O que está me dizendo?
– Sirius, você é o amor de minha vida. Nunca amei e nunca vou
amar ninguém como amo você, mas a verdade é que Severus
me dá coisas que você não pode me dar.
– É por
causa dos filhos? Remus, eu engravido se você quiser.
– Sabe que
ele fez tudo escondido?
– O quê?
– Severus. Durante meses ele pesquisou sobre a reprodução de
lobisomens, apesar das restrições do Ministério ao assunto. Testou poção após
poção antes de me perguntar se eu queria tentar. Ela ia fazer uma surpresa, mas
terminou me contando, de medo que eu fosse ter um troço. Eu quase tive – Remus sorriu, olhando para a garrafa com um olhar vago,
lembrando-se. – Ele nunca me disse nada, eu nunca pedi, nem sabia que era
possível. Só perguntei se ele aceitaria se adotássemos uma criança, e uma vez
só. Ele disse que não queria adotar, que se ele não podia ter um herdeiro
legítimo, era melhor não ter um. Achei que ele tinha fechado a porta para
filhos e nunca mais toquei no assunto. Ele já estava pesquisando.
– Ele comprou
você. Usou os filhos para prendê-lo, Remy! Você me
ama!
– Sim, eu
amo você. E amo Severus também. Ele é meu marido, e
eu me casei por amor, muito antes de termos as crianças, Sirius.
– Ele se
aproveitou de você. Você estava sozinho, carente, confuso.
Ele se aproveitou de seu luto.
– E porque
ele faria isso?
– Desprezo.
Vingança. Você sabe que ele não perdoa nem esquece. Deve estar planejando isso
desde o quinto ano.
– Eu sei
que ele não perdoa nem esquece. Mas você não sabe de tudo sobre ele.
– Talvez. O
que eu estou vendo é que você vai me deixar morrer por causa dele. Eu nunca
pensei que faria isso, Remy.
– Sirius, você não entende. Eu sou feliz com Severus. Sinceramente. Completamente. Eu ter que escolher
entre vocês dois é cruel.
– E eu não
vou fazer você feliz? É isso que está dizendo? Você não foi feliz comigo antes?
– Eu vou
repetir: eu amo você e fui muito feliz a seu lado. Quando você morreu, eu
pensei que também deveria ter morrido, de tanta saudade. Estou muito feliz por
vê-lo, Sirius. E você sabe que eu faria qualquer
coisa por você. Mas o que está me pedindo... é impossível.
– E Snivellus não ajuda em nada, ameaçando tirar seus filhos.
– São
filhos dele, também. E ele vai ser um bom pai.
– Nossos
filhos serão amados, Remy. Snape
não vai brincar com as crianças, não vai abraçá-los, não vai dar carinho. Que
criança pode viver sem isso?
– Se você
não notou, ele estava com os três no colo. Severus
vai ser um bom pai.
– E eu não?
Está querendo dizer que meus filhos vão se pendurar nos lustres?
– Não foi
isso que eu disse. Mas o pensamento me ocorreu, sim – sorriso discreto.
Sirius
terminou sorrindo também, tomando mais um pouco de sua Butterbeer.
De repente, ele se virou para o seu grande amor:
– Remy, você está feliz? Digo, com... Snape?
Ele faz você feliz?
O lobisomem
fez uma pausa, mas olhou para Sirius e seus olhos
brilhavam quando respondeu:
– Eu nunca
pensei que um dia pudesse ter o que Severus está me
dando. Então eu acho que sim, Sirius, eu estou feliz.
Severus me faz feliz.
– Está bem,
então. Estou vendo que não vou convencê-lo a largar Snivellus
nem para salvar minha vida. Er... Acho que vou passar
os dois dias que me restam com Harry. Sabe onde ele
está?
– Austrália
– respondeu Remus. – Quis afastar-se de tudo e de
todos depois da queda de Voldemort. Ele e Ginny vão gostar de vê-lo.
– Moony, talvez eu não o veja mais. Não sei se vai dar tempo
de voltar a Hogwarts antes de... Bom, antes de eu
partir.
– Sirius, eu... não sei o que dizer. Eu lamento tan...
– Tudo bem,
Remy, eu entendo. Espero que você seja mesmo feliz. E
avise Snape que se ele o magoar, eu volto para
assombrá-lo e azucriná-lo de tal modo que vai se arrepender se o fizer sofrer.
Rapidamente,
ele deixou o Três Vassouras. Remus
suspirou, olhando para sua Butterbeer. Pensando no
passado.
o 0 o
Sirius Black estava fumegando. Seus passos duros
e ruidoso ecoavam pelos corredores de Hogwarts
enquanto ele ia até o Grande Salão, onde Remus e Severus tomavam o café. O elfo que cuidava dos filhotes o
informava que os mestres tinham resolvido sair juntos
pela primeira vez em meses. Sirius aproveitou para
olhar o aposento e viu os três filhotes juntos, ainda adormecidos, todos no
mesmo berço, embora houvesse três bercinhos esperando
que eles fizessem a transformação para bebês humanos. E algo naquela visão fez
o ódio irromper dentro de seu coração. Ele viu o berço. O berço que tinha o
brasão da família Black.
Quando Sirius Black mais uma vez invadiu
o Grande Salão, seus olhos assestaram contra a Mesa Principal. Remus parecia abatido, e Severus
estava a seu lado, no canto direito da mesa. O primeiro a vê-lo foi Snape, que espremeu os olhos.
Ótimo. Era
ele mesmo que Sirius queria ver se espremendo todo.
Ele acelerou o passo.
– Sirius? – Remus estava
espantando.
– Olá, Remy – Os olhos de Sirius, porém,
estavam fixos em Snape. – Passei nas masmorras para
me despedir, mas não havia ninguém lá. Fui ver os... pequenininhos e tive uma
surpresa. O berço é propriedade da família Black.
– Oh, bem,
desculpe, Sirius, mas Severus
sugeriu, porque ele tem muitos feitiços protetores, e eu não pensei que...
– Aquele
berço está na família há centenas de anos – interrompeu Sirius
rispidamente.
Snape se
ergueu, a voz baixa e perigosa:
– Não houve
intenção em desrespeitar a sua mui nobre e antiga família, Black.
– Meu irmão
Regulus dormiu naquele berço! – Sirius
apontava o dedo contra Snape – Você não tinha direito
de pegá-lo, Snivellus.
– Oh, então
queira me desculpar, mas eu pensei que você estava morto. Oh,
espere, não foi erro nenhum. Você *estava* morto.
– Você
tomou algo que não lhe pertencia!
– Eu não
roubei nada seu, Black.
– Roubou,
sim! Você tomou uma coisa que me pertence! Não pense que vou perdoá-lo por
isso, seu Slytherin nojento!
– De onde
você tirou a idéia de que eu pedi perdão a você?
– Pois
devia! Você me tomou uma coisa que não era sua, Snivellus!
– Ainda
estamos falando do berço de seu irmão?
Aquilo foi
pior do que um tapa no rosto de Sirius. Ele chegou a
cambalear, de tão admirado, depois virou-se, incapaz
de agüentar o ar vitorioso de Snape, e simplesmente
saiu do Salão, ignorando os gritos de Remus.
o 0 o
Dois dias
se passaram, dois dias muito especiais. Sirius
conseguiu voltar a Hogwarts depois de quase matar de
susto Harry e sua mulher Ginny.
O jovem ficou muito emocionado por poder ver seu padrinho, mas Sirius não tinha ficado nada satisfeito com o afilhado.
Tudo porque (na visão de Sirius) Harry
deveria ter ficado indignado com Remus por ter
escolhido ficar com Snivellus. Harry
alegara que Remus quase enlouquecera de dor quando
pensara ter perdido Sirius e só Snape
tinha dado um jeito nele. Todos temiam que Remus
tentasse tirar a própria vida, mas Snape tinha lhe
devolvido o sorriso ao rosto. Sirius rosnara diante
da injustiça das coisas.
Ver o
afilhado trouxera a Sirius sentimentos muito
contraditórios. Harry crescera e se desenvolvera, não
era mais o adolescente desengonçado que ele vira na última vez. Agora ele era
um jovem adulto, extremamente parecido com seu pai James. Ao olhar para Harry, Sirius sentia a perda dos
dois: pai e filho. Dar adeus a Harry tinha sido uma
das coisas mais difíceis que ele já fizera em sua vida. Agora ele tinha que
fazer uma coisa impossível.
Dar adeus a
Remus.
Foi Snape quem abriu a porta, trazendo no colo não um cachorrinho,
mas uma menininha de uns oito ou 10 meses de idade.
Ela encarava Sirius com curiosidade, os bracinhos rechonchudos e um cabelinho encaracolado muito
preto.
Os olhos de
Snape se estreitaram ao vê-lo.
– Black.
– Eu... vim
ver Moony – Ele viu os outros dois cachorrinhos se
aproximando dos seus pés, começando a cheirá-lo. Eles pareciam ter perdido
muito pêlo.
– Remus não está aqui. A noite hoje tem lua cheia e ele foi
para o Shrieking Shack.
– Você o
deixou sozinho? – Black sentiu o temperamento se
inflamar. – O que há, Snape? Não agüenta ver o lobo?
– Não lhe
devo satisfações, mas se isso o faz sentir-se melhor, saiba que nunca rejeitei
meu marido durante uma transformação. A idéia de afastar-se foi dele, por causa
de Nigella.
Sirius
olhou a menina:
– Ele não
machucaria uma criança, ainda mais sua própria filha.
– Eu sei
disso, e falei isso a ele. Mas ele alegou que ela ainda é muito novinha e podia
se assustar. Na fase de filhote, ela nunca se assustou, mas como humana, ela
pode não entender.
– Ela é
linda. – Sirius observou que ela tinha os olhos
pretos de Snape, mas o nariz e a boca eram de Remus. Ele engasgou. – Eu... devo partir em breve. Queria me
despedir. Quando eu saí, eu estava um tanto... alterado.
Depois de
uma pausa, Snape ajeitou a bebê no colo:
– Tenho
certeza de que Remus vai lamentar não ter podido se
despedir corretamente.
– É, eu também. Snape... Cuide dele.
– Por que
não vai ao Shireking Shack?
Você é um animago, e o lobo certamente vai
reconhecê-lo em sua forma canina.
– Isso é
muito decente de sua parte. Você não se importa se eu for?
– Estou
fazendo isso por Remus. Ele vai gostar de vê-lo. Vai
sentir sua falta.
– Posso lhe
fazer uma pergunta? Se ele tivesse me escolhido... você teria mesmo sumido com
as crianças?
– É melhor
não desperdiçar energia em sentimentos inúteis. Se isso lhe serve de consolo,
saiba que sua morte não me dará qualquer tipo de prazer.
– Isso é
surpreendente, vindo de você.
– Mostra o
quão pouco você me conhece, mas ainda assim me julga.
Sirius
preferiu não responder ao insulto velado.
– Você o
ama?
– Sim.
– Cuide
dele.
– Farei
isso. Boa sorte, Black.
o 0 o
Normalmente,
Remus Lupin acordava
abatido após uma noite de lua cheia. Mas aquela manhã parecia especialmente
dolorosa. Moony e Padfoot
tinham mais uma vez assombrado o Shrieking Shack, como nos velhos tempos. Se durante a noite ele
ficara feliz com a presença de seu amigo, no amanhecer sua ausência lhe
trouxera um vazio bem maior do que ele previa.
Sirius
não estaria mais ali, nunca mais. Dessa vez era para sempre. Sirius só precisava que ele concordasse, e ele teria seu
amigo de volta. Mas não tinha sido assim, ele escolhera Severus!
Era como se ele tivesse traído a amizade de Sirius,
mas ele não podia dar as costas a Severus, a quem
também amava.
Era
estranho. Por um instante fugidio, ele imaginou se seu ex-amigo Peter Pettigrew passara por esses dramas de consciência.
Mal ele
pisara o pé em Hogwarts de volta, recebeu um recado
para ir ao escritório de Dumbledore. Arrastou-se até
lá, deprimido. Qual não foi sua surpresa ao ver Severus
ali, esperando-o, com um carrinho de bebê para trigêmeos. O peito de Lupin se encheu de calor e amor ao olhar as três
criancinhas no carrinho: Nigella olhou para ele e
sorriu, Cástor tinha cabelos castanhos e olhos também
castanhos com o nariz pronunciado dos Snape, e Pólux tinha cabelos castanhos, olhos bem pretos e feições
de um Lupin legítimo.
– Oh, Severus... Eles são tão lindos... – Ele se agachou e beijou
cada um no topo da cabeça.
Mas seu
marido não parecia nada feliz. Na verdade, ele estava até um tanto pálido. Nesse
momento, Dumbledore emergiu da alcova, trazendo, a
seu lado, um conhecido cão preto enorme, quase do tamanho de um urso.
Foi a vez de Remus perder a cor e virar-se
para Severus. O Mestre de Poções estava ligeiramente
lívido. As crianças, por sua vez, bateram palmas para o bicho.
– Parece
que, no último minuto, você fez sua escolha, Remus –
ele disse, de cada palavra pareciam cair pingos de gelo.
– Não, Sev, eu escolhi você! Minha escolha foi
por você, eu juro!
– Fui eu
quem disse a Black onde você estava. Eu queria que
você tivesse uma chance de se despedir corretamente. Aparentemente, você fez
bem mais do que apenas dizer adeus.
Percebendo
a tensão, Nigella começou a chorar, e Severus a pegou no colo, afastando-se de Remus, que tentava dizer:
– Não, Severus, por favor, me escute. Eu não sei por que Sirius está aqui, mas não tenho nada a ver com isso.
Dumbledore
pigarreou antes de dizer:
– Na
verdade, Remus, você tem muito a ver com o que aconteceu.
Sirius
voltou a sua forma humana e tentou dizer ao indignado Mestre de Poções:
– Mas não é
nada do que você está pensando, Snape.
As crianças
se agitaram diante da transformação de Sirius, e Remus tentou acalmá-las. O lobisomem, contudo, continuou
tentando entender:
– Mas se
você ainda está aqui... Sirius, você encontrou outro
alguém?
– Não, seu
tolo. Foi você mesmo. Seu amor me deu condições para ficar.
Snape
inspirou fortemente, contendo uma obscenidade, e ninando Nigella,
que ainda choramingava.
– Mas não é
mais a mesma coisa – insistiu Remus. – Eu lhe disse
que amo Severus.
– Eu sei
disso – Sirius sorria.
Dumbledore
interveio:
– Talvez eu
possa esclarecer. Uma das condições da permanência de Sirius
nesse plano era de que outra pessoa o aceitasse em sua alma, ou seja, que Sirius fosse marcado dentro dessa outra pessoa
profundamente, para sempre. Remus perfez essa
condição.
– Mas eu
amo Severus – repetiu o licantropo. – Já lhe disse, Sirius: lamento, mas não vou deixar minha família. Não vou
deixar meu marido. Amo Severus.
– Mas você
me disse que me amava também, não disse?
E que nunca deixaria de me amar.
– Não do
mesmo jeito que Severus – Remus
temia que seu marido simplesmente pegasse as crianças naquele momento e o
abandonasse ali mesmo. – Severus, por favor, me
escute. Não vou negar que Sirius é uma pessoa muito
especial na minha vida, mas é a você que eu quero. É com você que quero
envelhecer e criar nossos filhos.
– Eis sua
resposta, Remus, meu rapaz – garantiu Dumbledore. – Basta seu amor sincero e incondicional por Sirius, mesmo que você não o veja com os mesmos olhos da
juventude. Um sentimento tão profundo como o que vocês tiveram deixa marcas na
alma.
– Mas como
eu posso amar duas pessoas ao mesmo tempo?
– Você ama
bem mais do que duas pessoas. Você ama Severus e ama
suas crianças. Ama Sirius, ama Harry
como a um filho, ama Ginny por causa de Harry e por aí vai. Ao contrário do que a maioria das
pessoas pensa, amor é amor, seja de que forma for. E se for sincero e
verdadeiro, não se acaba nunca. Vence até a morte – por isso Sirius pôde voltar de Além do Véu.
Remus
colocou Cástor de volta no carrinho junto com os
irmãos. Severus o encarou, os olhos negros brilhando.
– Bom, isso resolve um problema.
– Qual?
– Com Potter na Austrália, as crianças vão precisar de um tio que
more mais perto. – Severus deu de ombros. – E Pólux precisa mesmo de um padrinho. Albus
não pode ser padrinho de dois, e Nigella está
prometida para McGonagall.
Sirius
arregalou os olhos:
– Vai me
deixar ser padrinho de um filho seu?
– Oh, bem.
Eu poderia deixar Remus me "convencer"
através de sexo e chantagem, durante semanas a fio. Mas isso é o mínimo que
posso fazer para deixar claro e sem sombra de dúvidas que você é bem-vindo em
nossa casa.
O animago não sabia o que dizer, abismado. Aproveitando o
silêncio de Sirius, Remus
cochichou a Severus:
– Essa
noite mesmo você vai ter uma recompensa...
Os olhos do
Mestre de Poções de Hogwarts se voltaram para Remus, e brilhavam com uma intensidade que surpreendeu Sirius. O animago pigarreou:
– Eu...
fico honrado além das palavras, Snape.
Dumbledore
bateu palmas:
– Excelente!
Eu já convidei Sirius para substituir Minerva, que
pretende passar o próximo ano fazendo pesquisas sobre entidades metamorfas na Floresta Negra alemã. Até tomar posse como
Professor Interino de Transfiguração, Sirius será um
convidado de Hogwarts.
Remus
indagou, com um sorriso:
– Isso por
um acaso quer dizer que nós ganhamos uma babá?
– Oh,
claro. – Sirius ofereceu-se de bom grado. – Sabe que
eu adoro crianças. Até trocava as fraldas de Harry.
– E eu
também quero me oferecer – disse Dumbledore,
inclinando-se para brincar com Pólux, que se esticava
todo para puxar-lhe a barba. – Se puder ajudar... Oh,
que gracinha! – Pólux agarrou-se nas barbas de Dumbledore e soltou um gritinho de satisfação.
– E você já
tomou seu banho antipulgas?
– Severus!
– Só
checando. Bem, nesse caso, tome aqui – Ele passou a pequena Nigella
para o colo de Sirius, que de tão surpreso nem reagiu.
– Nós os apanharemos na hora do jantar. Eles estão de fralda trocada, e
qualquer coisa pode chamar o elfo chamado Tibby.
– O quê, *agora*?
Mas... mas...
– O que
foi, Black? Não dá conta de três bebezinhos?
– Claro que
sim, mas... vocês não têm aulas para dar?
– Eu estou
de licença-maternidade e Remus hoje está indisposto
com a lua cheia.
– Eu estou?
– Você me
prometeu uma recompensa. Não quero esperar até a noite.
Agora os
olhos de Remus estavam brilhando,e ele avisou aos outros:
– Não nos
esperem para o almoço.
Sirius ia
fazer um comentário, mas teve que se contentar em gritar mais um:
– AI! –
Mais uma vez, Nigella tinha cravado os dentinhos
em seu dedo, e Sirius olhou para ela, incrédulo: – Como
pode ter tanta força? Mas você nem tem todos os dentes ainda!...
A menina
sorriu com o canto da boquinha, um sorrisinho sarcástico típico de um Snape. Seus dois papais aproveitaram para sair
sorrateiramente, e Sirius suspirou, imaginando que
iria pagar todos os seus pecados até a hora do jantar com os três herdeiros Snape-Lupin.
THE END