1ª
RONDA CRIOULA -- UM MARCO NA HISTÓRIA DO TRADICIONALISMO
1. PANORAMA
Houve época em que quase ninguém mais pensava em tradições
rio-grandenses! Procurava-se destruir o que era "velharia".
Quase tudo andava esparso, perdido, vivendo precariamente
em um ou outro rincão. Salvava-se alguma coisa da poesia Taveira Júnior; as
Lendas de Simões Lopes e os escritos do Partenon Literário; fatos escassos do
Instituto Histórico; lembranças dos hábitos campestres revividos por Cezimbra
Jacques; referências aos "Clubes Gaúchos" do passado, parcos
escritores regionalistas e quase mais nada. A Brigada Militar, porém,
reverenciava a figura de Bento Gonçalves junto ao Monumento ao dia 20 de
setembro. A ordem geral dos maiores centros do País, irradiadores da
"moda", era mudar para "melhor", imitar o que vinha de
além-mar ou seguir os "moldes" dos EUA. Para as "novas", o
"pólo irradiador" do nosso padrão "made in USA" valia-se do
cinema, do disco, dos livros best-seller, de revistas, de histórias em
quadrinhos, Super-Homens, etc. Era o norte-americanismo a todo vapor!
Generalizavam-se "modas" que pouco tinham a ver com os nossos
hábitos, nossa maneira de vestir, forma de falar, nossas músicas e com a
psicologia da gente rio-grandense. Na verdade em fins de década de 1940, o povo
gaúcho, parecia ignorar o seu próprio patrimônio histórico-cultural e estava
algo alheio às coisas do passado nativo, acrescido pelo amordaçamento de nosso
vigor cívico, implantado pela ditadura do "Estado Novo" de Getúlio Vargas,
com a queima de nossa bandeira regional (1937) e proibição dos símbolos
(brasão, hino) do Estado. Nem um futurologista poderia imaginar um CTG como
célula social rural. Nem Piquete de Laçadores, nem Rodeios de Danças ou
Eqüestres. Na verdade vestir-se como campesino era motivo de gozação. A própria
sociedade urbana interiorana hostilizava e menosprezava nossa gente do meio
campestre chamando-a de baicuera, caipira. Nosso povo pastoril parecia ter
esquecido suas raízes agrestes. Estávamos numa encruzilhada. A cultura
rio-grandense lograria sobreviver?
2. ANGÚSTIA DE RAIZ
O que deveria ser feito pela geração gaúcha daquela época
"bombardeada" por inúmeros impactos sócio-cultural de um pós Segunda
Guerra? Queriam os jovens, o direito de fixar as coisas de raízes rio-grandenses,
de preservá-las, de valorizá-las, de projetá-las, sem insurgir-se contra o
desenvolvimento, o progresso, a liberdade, o bem-estar social e a evolução.
Estes jovens de 16 a 20 anos não ficaram contemplativos diante das correntes
alienígenas que pretendiam sufocar a alma dos autóctones campesinos
rio-grandenses. Não estavam só cobrando. Queriam dizer: presente, estamos aqui!
Este lugar é nosso! Sabiam o que queriam e tomavam postura, resolutos. Os
crioulos campestres se depararam com a situação de serem "proibidos"
de sair às ruas com roupas pastoris tradicionais, e os estudantes, de verem nas
escolas a nossa própria história, a tradição e a cultura gaúchas quase
ignoradas. Esta rapaziada também trazia uma formação pré-universitária que lhe
permitia equacionar a importância da cultura regional, no contexto da
literatura nacional e universal.
3. O GRITO
Vivia-se 1947. Os veículos de comunicação de massa
mostravam-se saturados de estrangeirismos. Foi frente a este impasse que
iniciou-se em Porto Alegre, em agosto de 1947, um movimento ginasiano de
proselitismo de todas as camadas sociais, de todos os seguimentos étnicos em
favor das tradições. Esse movimento começou no Colégio Estadual Júlio de
Castilhos, onde um grupo de jovens fundou o Departamento de Tradições Gaúchas,
junto ao seu Grêmio Estudantil. A preocupação principal era preservar,
desenvolver e proporcionar uma revitalização à cultura popular rio-grandense,
interligando a nossa História, mais valorizada, no contexto da cultura
brasileira. Esses jovens buscavam uma trilha diante da perda da fisionomia
regional que se processava. A descaracterização necessitava ser combatida. O
Rio Grande precisava reagauchar-se. Eles procuravam a identidade da terra
gaúcha. E assim, no dia 05 de setembro de 1947, saíram às ruas, a cavalo e
pilchados, a desfraldar a sua Bandeira Tricolor Farrapa, quando instituições
estatais e o próprio Governo Estadual se omitiam ou palidamente se dispunham a
colocá-la no mastro, ao lado do pavilhão Brasileiro. Este foi o grito!
4. O DEPARTAMENTO DE TRADIÇÕES FINCA ESTEIOS
O então estudante do Colégio Júlio de Castilhos, João
Carlos Paixão Côrtes, reunindo com a diretoria do Grêmio Estudantil, apresenta
um proposta de ação fundamentada nos seguintes itens: a) Realização de bailes
gauchescos com concursos de danças e trajes; hora de arte; b) Concurso
Literário de prosa e poesia; c) Publicação de artigos no jornal do
"Julinho"; d) Palestra culturais por intelectuais gaúchos; e) Ronda
Gaúcha; assembléia; f) Provas campeiras, concurso de laço e boleadeira; g)
Concurso de fotografias e de desenho; h) Biblioteca e discoteca. Surge o
Departamento de Tradições Gaúchas, assim definido na época: "destinava-se
a estimular o desenvolvimento, por meio de reuniões culturais, sociais e recreativas,
da belíssima tradição de nossos heróis do passado, incentivando a nossa
juventude a que eleve sempre, e cada vez mais alto, a chama do amor à
pátria".
5. RONDA CRIOULA, ORIGEM DA SEMANA FARROUPILHA
Dentre os itens programados pelo Departamento de Tradições
Gaúchas, um mereceu especial atenção, à época: a "Ronda Gaúcha" logo
popularizada e consagrada pela gauchada, definitivamente, como a "Ronda
Crioula". Assim desenvolveu-se intensa atividade de 7 a 20 de setembro,
unindo política e festivamente da data da Independência do Brasil ao dia do
início das comemorações alusivas a Revolução Farroupilha. A partir de 1947, e
ainda por longos anos, os Centros de Tradições Gaúchas que foram surgindo,
organizavam, individualmente, suas Rondas Crioulas, porém de forma desordenada
e com uma duração de 13 dias. Somente em 11/12/1964, através da Lei no 4.850, o
Presidente da Assembléia Estadual, Francisco Solano Borges, sancionava a lei
que oficializava a Semana Farroupilha no Rio Grande do Sul - a ser comemorada de
14 a 20 de setembro de cada ano, em homenagem à memória do Herói Farroupilha.
6. LIGA DE DEFESA NACIONAL E O PIQUETE DA
TRADIÇÃO
O Rio Grande estava em grandes preparativos para a Semana
da Pátria, de 1947, coordenada pela Liga de Defesa Nacional. Seriam prestadas
homenagens póstumas aos soldados brasileiros que perderam a vida lutando na
Itália, durante a 2ª Guerra Mundial que acabara em 1945. O Departamento de
Tradições Gaúchas do "Julinho" queria associar-se às homenagens aos
"pracinhas". Paixão Côrtes, que dirigia este departamento, visitou o
Major do Exército Darcy Vignoli, Presidente da Liga de Defesa, no Rio Grande do
Sul e disse-lhe, de viva-voz, do desejo de retirar, no final do dia 7 de
setembro, uma centelha do fogo simbólico que vinha de Pistóia, do cemitério dos
soldados brasileiros na Itália, para transportá-la até o Colégio Júlio de
Castilhos, onde iria iluminar um candeeiro típico, a representar um
altar-cívico, dentro das comemorações da 1ª Ronda Crioula desse educandário.
Acertada a concordância por parte da Liga, seu secretário, Dr. Fortunato
Pimentel, solicitou ao Departamento de Tradições do "Julinho", um
piquete de gaúchos para montar guarda à urna com os restos mortais do General
David Canabarro, que seria transladado de Livramento para Porto Alegre. Assim,
depois de múltiplas peripécias, reuniram-se 8 gaúchos bem pilchados, arreios
autênticos e pingos-de-lei (cavalos especialmente cedidos pelo Regimento
Osório), e à 5 de setembro de 1947, estava formado o Piquete da Tradição, que tomou
parte nas referidas solenidades, numa cavalgada cívica, pelas artérias da nossa
capital, num cenário eqüestre inusitado para a época. Eram estudantes do
"Julinho" e de outros educandários. As comemorações da 1a Ronda
Crioula do "Julinho" foram antecipadas para esse dia. Governador do
Estado, autoridades militares, mundo diplomático, Assembléia do Estado,
escolas, desportistas, Brigada Militar, Guarda Civil e o povo em geral,
prestigiaram as homenagens ao velho cabo de guerra farroupilha. O Piquete da Tradição
acompanhou os despojos de David Canabarro até a sua última morada: o Panteon
Rio-Grandense. Missão cumprida.
7. NASCE A CHAMA CRIOULA
Paixão Côrtes relata:
"Era quase meia-noite do dia sete de setembro. Na
Avenida João Pessoa, festivamente iluminada, ardia a Pira. Uma multidão ansiosa
esperava os atos de encerramento de mais uma Semana da Pátria. Eu, Cyro
Ferreira e Fernando Vieira, estes embandeirados pelos símbolos do Rio Grande do
Sul e do Colégio Júlio de Castilhos, aguardávamos montados em nossos
"pingos" as ordens da Comissão Central, que dirigia a solenidade de
apagamento do Fogo Simbólico. Pouco antes do Fogo da Pátria ser extinto, veio o
comunicado para assomar-me à Pira, subindo um frágil escada de madeira. Minha
ascensão ao topo da Pira se fez com alguma dificuldade, já que botas, esporas,
mango, boleadeira, chiripá e mais improvisado archote (feito de estopa embebida
em querosene e preso à ponta de um de cabo de vassoura) atrapalhavam, de certo
modo, minha locomoção na íngreme escada com cerca de 6 metros de altura. Mas
persisti e alcancei o pedestal superior do monumento. E, diante de mim, a Chama
da Pátria Num gesto solene meu, estava acesa a Chama Crioula! Transportamo-la,
acompanhada de meus companheiros embandeirados, a galopito, até o salão do
"Julinho", onde foi acender o Candeeiro Crioulo, pioneiramente. Pela
primeira vez na história dos acontecimentos cívicos da Semana da Pátria, isso
acontecia no Rio Grande do Sul: brilhava a centelha que iria iluminar o
Movimento Tradicionalista que estava nascendo."
8. ATIVIDADES DA RONDA
O diretor do Departamento de Tradições do
"Julinho", Paixão Côrtes, desenvolve, na época, um programa
intensivo, criando a "Chama Crioula", o "Candeeiro
Crioulo", o "1º Baile Gauchesco" e uma série de momentos eqüestres,
que integrariam-se aos aspectos sociais e culturais. Atividades
artístico-culturais seguem-se durante a 1a Ronda Crioula. Muita gente junta-se
ao "Piquete". Barbosa Lessa - que integrara-se ao Departamento de
Tradições do "seu julinho", logo após a cavalgada do Piquete da
Tradição e que já escrevia sobre feitos e fatos históricos sobre a Revolução
Farroupilha - publica "No Subterrâneo da Laje"; pega violão e canta
temas do nosso folclore musical; está presente em momentos artísticos no Baile
Gauchesco e participa de eventos culturais que foram-se desenvolvendo. O
"julinho" Ivo Sanguinetti - profundo conhecedor do esperanto -
assessora toda a infra-estrutura do Departamento de Tradições e participa
ativamente das suas realizações. Rubem Xavier segue seus passos. O nascente
poeta Glauco Saraiva, incorpora-se ao Movimento do Colégio Júlio de Castilhos,
e com sua sensibilidade artística, monta especial programa gauchesco na Rádio
Farroupilha e lança seus primeiros poemas, que o consagrariam na literatura
gauchesca, e viriam a projetá-lo no Movimento Tradicionalista. Geraldo Xavier
Krebs abre as páginas do "seu" jornal do "Julinho". O
escritor Manoelito de Ornellas faz brilhante conferência sobre literatura
regional.
9. BAILE GAUCHESCO, A CHAMA E O ENCERRAMENTO DA
1ª RONDA
Embora Porto Alegre fosse a capital gaúcha, há muitos anos
tinha banido dos seus bailes o uso da roupa campesina, vivendo os padrões das
modas européias ou dos "bailes caipiras". Algo semelhante acontecia
com a sociedade rural-urbana do interior, que, embora seus moradores fossem
ligados à vida pastoral, não lhes permitia, até mesmo em dias não festivos, que
entrassem na sede do clube local de bota e bombacha. Daí que baile gauchesco
com música regional era um fato inusitado em entidades sociais do Rio Grande.
Porém, assim foi feito. Durante o Baile Gauchesco da Ronda de 1947, no
"julinho", fez-se uma hora de arte espontânea, versos improvisados,
trovas, declamações, gaitações e músicas cantadas por voluntários
entremeavam-se artisticamente aos números bailáveis (chotes, rancheira,
meia-canha, mazurca). Serviu-se "pastel-de-carreira" e
"café-de-chaleira". Concursos de trajes gaúchos e de prendas foram
realizados, com prêmios. Num cenário de ramada, com pelegos, fogo de chão,
churrasco e chimarrão bailou-se até o clarear do dia. O tradicionalismo estava
aparecendo, definitivamente, como uma força viva, social e popular. Neste
baile, é que se ventilou, entre outros assuntos, a idéia de fundar-se uma
agremiação civil gauchesca, cujo líder expositor e defensor desta causa era
Barbosa Lessa, mais tarde o criador da importante tese "Sentido e Valor do
Tradicionalismo". Encerrava-se a meia-noite do dia 20 de setembro de 1947
as solenidades da 1ª Ronda Crioula. O candeeiro que viera do altar-cívico do
"Julinho" entrou salão a dentro do Teresópolis Tênis Clube conduzido
por gaúchos e prendas sob o aplauso da gauchada. Foram recordados os feitos
heróicos do Rio Grande; nossas origens; nossos princípios de liberdade e
justiça, que transmitiram-nos os bravos Farroupilhas. A Chama estava extinta.
Hoje, de forma simbólica, todos os anos uma amena chama de fogo-de-chão
existente em algum galpão pastoril rio-grandense, reativa-se ao sopro dos
ideais daqueles jovens da década de 40, a iluminar, num sagrado candeeiro às
gerações que vêm formando-se neste últimos 50 anos no Rio Grande do Sul,
integrando o espírito gauchesco a uma brasilidade maior. Assim, o surgimento da
1ª Chama Crioula e a criação das Comemorações da 1ª Ronda Crioula em 1947, são
marcos históricos na causa do atual Movimento Tradicionalista, que
cristalizou-se com o nascer do nome do 35 Centro de Tradições Gaúchas, em 3 de
janeiro de 1948.