É com muita consideração, respeito e crença no poder da educação e na importância dos educadores, que o Movimento Tradicionalista Gaúcho dirige estas palavras, convidando todos para uma reflexão sobre alguns aspectos importantes da história do Movimento, esperando, desta forma, estreitar laços e somar esforços para fortalecer o núcleo cultural da sociedade rio-grandense.
Iniciemos a nossa conversa retomando o ano de 1947. 0 país vivia sob o lema "o que é bom para os países vencedores, é melhor ainda para o Brasil". Era a avalanche cultural norte-americana instalada no período pós-guerra, invadindo o país de norte a sul, trazendo marcantes transformações sócio-culturais.
Ali vamos encontrar manifestações de resistência à importação de outros hábitos e costumes por parte de alguns intelectuais rio-grandenses, tais como Walter Spalding, Otelo Rosa, Olinto Sanmartin e Dante de Laytano, integrantes do Instituto Histórico e Geográfico do Rio Grande do Sul, e também nos artigos semanais de Manoelito de Ornellas, no Correio do Povo, falando sobre aspectos da cultura gaúcha. Eram fortes sinalizadores da consciência regional e da necessidade de preservação de nossas raízes culturais.
Em meio a esse contexto, e com a finalidade de atacar de frente tal invasão, um grupo de jovens, a maioria deles alunos do Colégio Estadual Júlio de Castilhos, de Porto Alegre, liderados por João Carlos Paixão Côrtes, deflagrava uma campanha de valorização dos símbolos nacionais e regionais. No seio dessa Escola, desencadeavam-se as primeiras ações que viriam, mais tarde (1948), a culminar com a criação do "35 CTG", o primeiro reduto organizado para fortalecer a identidade cultural do homem sulino.
A partir de então, tais idéias foram germinando em todo o Rio Grande do Sul, ultrapassando fronteiras e abrangendo todo o território nacional, adquirindo características locais, aprimorando se cada vez mais até os dias de hoje, em organizações com maior ou menor atuação. Citamos os movimentos baianos dos Afoxés e Oloduns, entre outros, como eficazes barreiras à entrada de influências externas, havendo notável preservação na música, nas roupas, linguagens e demais traços culturais. Percebem-se linhas de resistência também em Pernambuco, no oeste caipira de São Paulo, e no Rio de Janeiro, onde as Escolas de Samba já são "marcos" de brasilidade.
No Rio Grande do Sul, o Movimento Tradicionalista Gaúcho vem assumindo, há 50 anos, um espaço de destaque, sendo considerado o maior movimento sócio-cívico-cultural das Américas, pela fortaleza de seus princípios, universalidade de seus valores e por sua estrutura organizacional. Sua dinâmica realiza-se através dos CTGs (Centro de Tradições Gaúchas), que são agremiações de cunho popular, dotados de um componente cívico que não se reproduz em nenhum outro movimento, diferenciando-o dos demais e agregando-lhe um valor que explica a sua expansão. Distribuídos por todo o Estado do Rio Grande do Sul, o Movimento Tradicionalista Gaúcho tem como um dos princípios fundamentais a prática e divulgação dos hábitos locais, preservação do patrimônio sociológico, representado, principalmente, pelo linguajar, vestimenta, arte culinária, formas de lides campeiras e artes populares.
Coordenando quase mil e quinhentas entidades filiadas (CTGs) e envolvendo milhões de cidadãos, o Movimento Tradicionalista Gaúcho (MTG) é uma verdadeira "escola informal, de verdade e de verdades", onde o estudo da História, Geografia do Rio Grande do Sul e do Brasil, Folclore, Tradição bem como assuntos da atualidade, forma um currículo sólido e integrador, reforçando o currículo escolar formal. Esta "escola informal", procura, ainda, desenvolver as técnicas de expressão escrita e oral, os aspectos ligados à arte da declamação, da dança, da música, do artesanato regional e das lides campeiras, enfatizando o protagonismo juvenil.
Na área social, é forte a atuação em campanhas assistenciais e de promoção humana, colaborando efetivamente na busca do bem coletivo. Com uma escala de valores bem definidos e vivenciados, tais como: hospitalidade, cordialidade, companheirismo, respeito, simplicidade, cooperação, lealdade, criticidade, diálogo, solidariedade, valorização da família, amor à Pátria, compromisso e compreensão de uma história inacabada, os gaúchos se identificam e, apesar de não existir cientificidade, muitos estudiosos já consideram o gaúcho como uma "etnia". O gaúcho, através do MTG, cruzou as fronteiras do Estado, fez paragens em quase todos os estados brasileiros e ultrapassou as fronteiras do país, instalando-se em Los Angeles e, por último, em algumas cidades do Japão. Nestas, os sanseis, netos de japoneses do oeste do Paraná que emigraram, levaram a cultura gaúcha já integralizada a sua identidade, organizaram CTGs, e, assim como eles, outros japoneses passam a vivenciar os valores da nossa cultura.
Que força tem essa Cultura Gaúcha para ocupar espaço entre outros povos com culturas milenares e ideologia definida?
Todos os fatos revelam que o Tradicionalismo não é, como alguns apregoam, uma estéril tentativa de retorno ao passado. É ponto de partida que favorece o conhecimento do meio para melhor entender a história do Estado, situando e posicionando o cidadão de hoje para melhor viver o futuro. É uma das formas, dentre outras, que entendemos válidas para desenvolver a auto-estima, através da história de cada um, envolvendo a sua família, seu bairro, sua cidade, estado e país, e da retomada dos valores morais, éticos e culturais.
Por ter como berço uma escola, o MTG reconhece seu insubstituível papel, enquanto legítima instituição incumbida de promover a construção do conhecimento e valorização da história e cultura local, para que cidadãos conscientes de seus papéis, enquanto sujeitos históricos que interagem, fazer valer seus princípios e modificar a realidade. Contudo, deseja colocar-se em apoio, complementando tais ações na condição de aliado, através de suas atividades informais, que por certo serão impulsionadas, se incluída a cultura gaúcha: folclore e tradição, nos currículos escolares, como eixo histórico-social e cultural, ampliando a determinação legal, expressa na Lei n.º 8.734 de 04/11/1988, que institui na disciplina de Estudos Sociais, o Ensino de folclore nas Escolas Estaduais de 1º e 2º Graus e no Artigo 220 da Constituição Federal "pelo respeito aos valores culturais e artísticos, nacionais e regionais", agora reforçada pelo Artigo 26 da LDB que ressalta, "para cada currículo, em cada sistema de ensino e em cada estabelecimento escolar, o tratamento das características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia e da clientela".
Para que o grito de Sepé Tiaraju encontre eco noutros brados, noutras lutas e noutros tempos, mas com o mesmo amor a esta terra, queremos estreitar os laços com as escolas para uma ação fortalecida em prol da preservação da identidade cultural do nosso povo.
Aguardamos manifestações das Escolas para, juntos, escrevermos um novo capítulo na História do Rio Grande, servindo "nossas façanhas de modelo a toda a terra".
Porto Alegre, junho de 1997
Dirceu de Jesus Prestes Brizolla
Presidente do MTG/RS