"35"
CTG
Projeto Memória: Gleicimary Borges
da Silva
1ª Prenda Juvenil da 1ª Região Tradicionalista
Revisão: Ivo Benfatto - Patrão do 35"
CTG
maio/1998
1. INTRODUÇÃO
No fim da II Guerra Mundial, o mundo ocidental, encontrava-se com grande influência exercida pela posição dos Estados Unidos. Tornou-se, assim, o principal centro de irradiação da moda, da cultura e as elites urbanas; principalmente os jovens, começaram a imitar o americano "way of life".
Com rapidez, a juventude voltava as costas para as suas raízes culturais, e os intelectuais rio-grandenses demonstravam sua insatisfação com aquele estado de coisas, e tinham a consciência de que as pressões do modismo americano sufocava a cultura local, o Rio Grande, de resto, o mundo todo.
O Brasil estava saindo da ditadura de Getúlio Vargas, que havia amordaçado a imprensa, e que prejudicava o desenvolvimento e prática das culturas regionais. Com isso, perdia-se o sentimento de culto às tradições; nossas raízes estavam relegadas ao esquecimento, adormecidas, reflexo da proibição de demonstrações de amor ao regional. Bandeiras e Hinos dos estados foram, simbolicamente, queimados em cerimônia no Rio de Janeiro e, diante de tudo isso, os gaúchos estavam acomodados àquela situação, apáticos, sem iniciativa.
3.
CHAMA CRIOULA E 1ª RONDA
Como haviam decidido, no dia 7 de setembro, à meia noite, antes de extinto o "Fogo Simbólico da Pátria", Paixão Cortes, na companhia de Fernando Machado Vieira e Cyro Dutra Ferreira, retirou a hoje cinqüentenária "Chama Crioula", que ardeu em um candeeiro crioulo até a meia noite do dia 20 de setembro, quando foi extinta no Teresópolis Tênis Clube, onde se realizava o primeiro Baile Gaúcho, por eles organizado.
Durante a Ronda Crioula, os jovens pioneiros realizaram intervenções em programas da Rádio Farroupilha, entraram em contato com o escritor Manoelito de Ornelas , o qual noticiou os acontecimentos da Ronda pelo Jornal Correio do Povo de Porto Alegre.
Com a Ronda, outros jovens companheiros foram se agregando às comemorações: Barbosa Lessa, Wilmar Santana, Glaucus Saraiva, Flávio Krebs, Ivo Sanguinetti e outros tantos. Após o sucesso da Ronda, tomaram a decisão de manterem-se unidos para matear e prosear , o que se realizava na casa de Paixão Cortes.
4. A
INCLUSÃO DE BARBOSA LESSA NO MOVIMENTO
Especial episódio diz respeito à inclusão de Barbosa Lessa ao núcleo formado por Paixão Cortes. Barbosa Lessa presenciou a passagem da guarda a Canabarro quando encontrava-se na Praça da Alfândega e, tomado de interesse, tratou de saber quem eram aqueles que ali estavam. Soube tratar-se de alunos do "Julinho". Como também era aluno da mesma escola, tratou de conhecê-los. Dois dias após, quando a Chama Crioula chegou ao "Julinho", lá se encontrava Barbosa Lessa como um dos participantes e organizadores da 1ª Ronda Crioula. O entrosamento com o grupo foi acelerado quando o piratinense começou a registrar, num caderno escolar, a assinatura dos interessados na fundação do que chamava " Clube de Tradição Gaúcha".
5. A
INCLUSÃO DOS ESCOTEIROS DA PATRULHA DO QUERO-QUERO
Lessa soube que havia um grupo querendo fazer algo semelhante, e que eram liderados por Hélio José Moro. Buscou articular uma reunião para unificação de idéias. Da conversa mantida, realizada num bar existente no subsolo do Cine Victória, ficou claro o desejo do outro grupo, escoteiros da Patrulha do Quero-quero e da Maçonaria, dos quais participava Glaucus Saraiva: desejavam um grupo fechado, com 35 pessoas, em homenagem a Revolução de 1835. Enquanto isso, o grupo do "Julinho" queria um fogo-de-chão, onde pudessem tomar um chimarrão e uma entidade mais aberta, disponível para a sociedade; também haviam àqueles que queriam o acesso somente de campeiros, mas todos tinham um objetivo comum: defender as nossas tradições.
Como mostram as atas das primeiras charlas, as divergências eram muitas, prolongando-se, umas, por alguns anos. Quando a rapaziada estava com os ânimos exaltados, tinha papel importante as interferências moderadoras do Tio Waldomiro Souza, poeta gabrielense, e de Olavo Fay Macedo.
Apesar das divergências, Lessa afirma que todos tinham vontade férrea para levar as coisas adiante, tanto que produziram um calendário em que definia março como a data da fundação, o que veio a acontecer em 24 de abril de 1948.
6. AS
PRIMEIRAS REUNIÕES E A FAMÍLIA SIMCH
A maioria das reuniões aconteciam aos sábados pela tarde, muitas vezes na casa de Cyro, pois Paixão Cortes viajava com certa freqüência. O grupo começava a aumentar e, num determinado momento, Dona Fátima, mãe de Paixão, disse-lhe que não seria mais possível fazer reuniões em sala e quarto da casa. Nesse momento, José Laerte Vieira Simch, filho do Dr. Carlos Alfredo Simch, cedeu o porão dos Simch, na rua Duque de Caxias nº 704, pois as reuniões não poderiam parar, visto que se reforçava , cada vez mais, a idéia de verem criada uma entidade onde pudessem cultivar e preservar as tradições gaúchas.
7.
SEDE PROVISÓRIA NA FARSUL
Passado o tempo, lá embaixo, no porão dos Simch, o espaço também se tornou pequeno para o número crescente de adeptos e, através do pai de Cyro Dutra Ferreira, diretor geral da FARSUL, possibilitou-se, em maio de 1948, a transferência do grupo para uma de suas salas e no terraço daquela entidade, localizada na esquina da Borges de Medeiros com a Rua Riachuelo, logo após a concretização da fundação oficial da nova entidade em 24 de abril de 1948: o "35" Centro de Tradições Gaúchas. De pronto, o "35" começou a estender suas atividades ao auditório da FARSUL, realizando ali conferências, sessões de estudo, tertúlias e outros eventos artísticos - culturais.
Por estatuto do "35", são seus fundadores os que assinaram a ata lavrada em 24 de abril de 1948, os integrantes dos "Grupo dos Oito", e aqueles que assinaram as atas anteriores à reunião de fundação. Presentes à reunião para a fundação, realizada em 24 de abril de 1948:
· Antônio Cândido da Silva Neto;
Integrantes do "Grupo dos Oito", que não compareceram à reunião de fundação, mas foram considerados fundadores:
· Cilso Araújo Campos
O 43º Congresso Tradicionalista Gaúcho reconheceu todos os fundadores do "35" como Pioneiros do tradicionalismo organizado. Revendo os primeiros livros de atas, livros de presença nas primeiras reuniões, a Patronagem da Gestão Cinqüentenário e o Conselho de Vaqueanos do "35" CTG buscam identificar aqueles que assinaram os mesmos antes da sua fundação, para reconhecê-los explicitamente como seus fundadores, em respeito à determinação estatutária, o que já foi realizado , de forma incompleta, no 43º Congresso Tradicionalista.
Assim, com certeza absoluta, são também fundadores do "35", os seguintes sócios, o que não exclui outros que estão em fase de confirmação, conforme afirma o Patrão Ivo Benfatto:
· Aloysio Lopes Rôa
8. OS
PRIMEIROS MOMENTOS DO "35" CTG
No primeiro ano de vida do "35", este passou por três fases bem distintas: implantação, arregimentação e preparatória, onde foi eleita a primeira diretoria oficial. Paixão Cortes foi escolhido como o Patrão de Honra do "35" CTG, sendo que o primeiro patrão oficial foi o taura Antônio Cândido da Silva Neto, de Dom Pedrito, e na fase provisória, coube a Glaucus Saraiva a tarefa de ser o Patrão por ocasião da fundação.
Em 1956, Antônio Augusto Fagundes assumiu as rédeas do "35" como o seu mais novo patrão, pois tinha, à época, 21 anos.
Os jovens fundadores encontraram, no início, muitas dificuldades; não sabiam elaborar um estatuto e dar estrutura à entidade. Tinham e sabiam quais seus objetivos: estudar e difundir suas tradições. Para isso foi preciso refletir muito, pensar, discutir e depois colocar em prática. Visando servir como elemento multiplicador das suas idéias, decidiram pela criação de núcleos regionais, dando-lhes apoio. Os jovens de 47/48 precisavam de credibilidade, e a foram buscar na comunidade. Cada um era responsável por sua função.
Como os ponteiros do movimento que surgia eram os campeiros do "Grupo dos Oito", era natural que, na fase preparatória, a presença desses era em maior número, se comparado aos cola-finas. Sempre atentos aos seus objetivos, decidiram por utilizar na estrutura da entidade uma nomenclatura que lembrasse a vida na campanha, ou seja:
· Sede principal - a Casa Grande, Estância
No seu início, começou a despontar algumas figuras importantes , tais como: 1º Gaiteiro: Paulo Grosso, apelidado de Paulo Camola, acompanhado por Barbosa Lessa e Jacinto Camargo ao violão.
Outro gaiteiro de destaque chamava-se "Motta", pois acompanhava as atividades de pesquisa do "35", conduzidas por Paixão Cortes e Barbosa Lessa, das danças tradicionais.
Os primeiros declamadores foram Dirceu Tito Lopes, Paixão Cortes e Glaucus Saraiva.
Tio Waldomiro, o mais experiente e com mais idade do grupo de fundadores, era grande poeta e incentivou a gurizada desde as reuniões na casa do Paixão. O grande trovador da época era Wilmar Winck de Souza, o " Provisório". Dentre os cantores estavam Barbosa Lessa e Antônio Cândido da Silva Neto.
9. O
NOME: "35" CENTRO DE TRADIÇÕES GAÚCHAS
Os jovens de 1947/48 sabiam o que queriam e, após a consolidação da fundação, partiram para a escolha do nome que representaria os objetivos que os animava. Surgiram oito propostas, todas em homenagem a 1835, data de início da Revolução Farroupilha. Barbosa Lessa, que ficara calado, sugeriu: "Os 35 - Centro de Tradições Gaúchas", decidindo-se, a seguir que deveria ficar tão somente "35" - Centro de Tradições Gaúchas. Dentre os que apresentaram proposta de nome para a entidade, encontramos Mário Mattos.
10.
SÍMBOLO DO "35" CTG
A nova entidade necessitava de um símbolo e, após a divulgação em um grande rodeio, começaram a surgir várias propostas. Cyro Dutra Ferreira já havia mandado confeccionar cartões de visita, onde aparecia um índio gineteando um bagual, em posição espetacular, e o número 35, entrecortado, da esquerda para a direita e de baixo para cima, por uma lança, numa referência à Revolução Farroupilha. Paixão Cortes apresentou uma cuia de chimarrão, com bomba, onde o contorno da cuia era formada pelo algarismo "35" e as letras CTG.
A proposta de Cyro Dutra Ferreira, após discussões acirradas, foi aprovada e , até hoje, constam nos impressos do "35".
João Machado Vieira, em 1951, ganhou um boisito do estancieiro Nestor de Moura Jardim, da cidade de Guaíba. Como o "35" não possuía "marca", foi usada a do pai do Cyro Dutra Ferreira, que a havia doado ao museu da entidade.
11. AS
MULHERES NO MOVIMENTO
As irmãs Ludmilla e Marília Zarrans são consideradas as primeiras mulheres a entrarem no movimento, antes mesmo da criação da Invernada de Prendas do "35". Ambas participaram de uma recepção a Miss Distrito Federal. Em julho de 1949, foi realizada a 1ª reunião de moças da sociedade, sendo convidadas as senhoritas Maria Zulema da Paixão Cortes, Dirce Paixão Cortes, Sueli Dutra Soares, Sarita Dutra Soares, Lory Meireles Kerpem, Iris Piva, Norma Dutra Ferreira, Nora Dutra Ferreira, Damásia Medeiros Steimetz e Linda Brasil Degrazzia. Outras convidadas não tiveram permissão para comparecer ao encontro, como Lia Eilert dos Santos e Cyra Eilert dos Santos. A patronagem apresentou os motivos da reunião e, de imediato, foi criada a Invernada das Prendas, sendo a Senhorita Lory Meirelles Kerpen.
A primeira excursão ao Uruguai motivou em muito as pesquisas das nossas danças, lideradas por Paixão e Barbosa Lessa. O que era recolhido, de imediato era passado para os demais, na casa do Cyro Dutra Ferreira, ou na de Paixão.. A primeira apresentação de uma invernada de danças aconteceu no dia 12 de maio de 1949, no Instituto Cultural Brasileiro - Americano, onde foi dançada a meia-ccanha, trazida do Uruguai.
12.
CONCLUSÃO
Os fundadores do "35" CTG eram, na maioria, jovens estudantes vindos da campanha para a capital, com o desejo de melhorar e adquirir novos conhecimentos. Procuravam criar um espaço onde pudessem, num grupo de iguais, por momentos, reviver suas origens do campo, trazidas junta a sonhos e livros, mas marcando, também, uma resistência diante da possível deterioração da sua identidade cultural. Por corresponder ao desejo e à índole do povo gaúcho, tão agredidos, no pós II Guerra Mundial, por culturas alienígenas e pelo centralismo do poder vigente no Estado Novo, onde não era possível expressar sentimentos regionais, o modelo de entidade criado e apresentado pelo "35" caiu como uma luva desejo de resgate da identidade ameaçada, e servindo como sementeira que se multiplicava, a cada instante, com a criação de novas entidades.
A importância do "35" no contexto do Movimento Tradicionalista Gaúcho não está por ter sido a primeira entidade a ser criada, até por que muitas outras lhe antecederam na história, mas sim pelo modelo apresentado, o que levou ao desenvolvimento de um movimento social, tradicionalista, de forma organizada, do qual muito se espera, dentro e além fronteiras do Rio Grande do Sul.
· FERREIRA, Cyro Dutra Ferreira