Mensagem de Xanana
Gusm�o Eu vou tentar aproveitar este peda�o de tempo para dizer algo do que eu pessoalmente gostaria que viesse a ser, mas queria aproveitar a oportunidade para tamb�m dar uma ideia do que j� aconteceu nestes dois anos. Assim, permitam-me que fale e que me alongue um bocado para contribuir assim para este acto que em Lisboa se est� a fazer, a fim de, juntamente com o povo timorense, recordar dois actos significativos que t�m lugar no mesmo dia de hoje. Agrade�o ao Professor Barbedo de Magalh�es, Professor Jos� Leal, ao Dr. Jos� Arez, Prof. Jos� Luis e a todos os timorenses que participam na m�sica e nos cantares e a todos os amigos portugueses, ao Instituto Portugu�s da Juventude, Delega��o Regional de Lisboa deste Instituto, � Dr�. Manuela Costa e a todos os presentes. A vit�ria pela independ�ncia, a vit�ria pelo fim da guerra e da viol�ncia, a vit�ria da luta pela paz, como sempre disse, n�o pertence exclusivamente aos timorenses, esta vit�ria � tamb�m, sobretudo, do povo portugu�s, porque partilh�mos juntos os anseios, partilh�mos juntos os princ�pios universais que nos unem e � por isso que a vit�ria sobre a nega��o dos direitos fundamentais do homem e dos povos foi uma vit�ria de todos os homens de boa vontade, foi uma vit�ria da frente comum pela paz, foi uma vit�ria da solidariedade entre os povos. Assim, foi uma vit�ria da luta pela paz. Nenhuma sociedade nem povo algum se desenvolver�, n�o haver� democracia, n�o haver� justi�a, se n�o houver um ambiente de harmonia e de m�tuo respeito, se n�o houver paz. A paz � fundamental para as sociedades, a paz � a condi��o b�sica para as rela��es entre povos e na��es, promovendo a amizade, solidariedade e coopera��o. N�s os timorenses acab�mos de atravessar a fronteira entre a guerra e a paz, entre a viol�ncia e a toler�ncia. E este estado de ultrapassagem de um p�lo, que foi de conflito, para outro que - todos desejamos - ser� de harmonia, levar� tempo. H� mais de um ano e meio que o processo caminha para esse objectivo e todos estamos empenhados a passar para um outro est�dio: o da consolida��o da paz em Timor Loro Sae. Depois de uma irracional destrui��o, ap�s o 30 de Agosto de 1999, os timorenses est�o a experimentar um per�odo de transi��o pol�tica, da INTERFET � PKF, da UNAMET � UNTAET e depois do gigantesco esfor�o das organiza��es humanit�rias, o processo de reabilita��o f�sica, embora dif�cil, continua a implantar-se no terreno. H� um ano, que uma administra��o transit�ria composta tamb�m por timorenses se estabeleceu e para al�m do papel de governa��o assumiu tamb�m o de recordar e capacitar os timorenses. Caros amigos, eu quero lembrar que o CNRT, o �rg�o supra-partid�rio que durante o per�odo da resist�ncia contra a ocupa��o organizou e mobilizou o povo para a vit�ria, apresentou um plano pol�tico de transi��o, posteriormente adoptado pelo Conselho Nacional e pelo Gabinete de Transi��o. A gradual e met�dica implementa��o deste Plano, permitiu que se chegasse a dois resultados: Um que o CNRT, ao sentir que estava feita a desvincula��o hist�rica do seu papel no processo, tomou a iniciativa de dissolver-se para entregar aos partidos pol�ticos a capacidade real de um maior engajamento pol�tico. Devem ser poucos os casos, queridos amigos, em que depois de uma retumbante vit�ria um movimento de liberta��o como o CNRT n�o reivindicou nem direito nem legitimidade para colocar os seus quadros na administra��o do pa�s. Foi dif�cil mas os quadros do CNRT assumiram com dignidade exemplar este novo sacrif�cio para o bem do processo e para o benef�cio do povo. O outro resultado foi que os partidos pol�ticos assumiram o seu papel no processo. De entre os 16 partidos pol�ticos registados, 14 assinaram um pacto de unidade nacional, como um compromisso para a defesa dos princ�pios democr�ticos, de liberdade e de toler�ncia e como uma ades�o colectiva � n�o viol�ncia. Estamos hoje no dia das elei��es e, todos sabem, estas elei��es ser�o para formar uma Assembleia Constituinte mandatada para trabalhar numa Constitui��o para o pa�s durante 3 meses. Ap�s a aprova��o da Constitui��o, esta Assembleia converter-se-� no novo Parlamento, se assim o acharem, n�o s� legislando o que se torna premente durante a transi��o, como ainda preparando as leia b�sicas necess�rias para o pa�s. O resultado das elei��es ditar� tamb�m a composi��o de um governo provis�rio at� � independ�ncia. A forma��o de uma administra��o eficiente e sustent�vel � extremamente requerida, lado a lado com o imperativo das regras vitais de transpar�ncia e presta��o de contas, combatendo-se assim a mentalidade de corrup��o pol�tica, mental e econ�mica, herdada da ocupa��o estrangeira. Mas, queridos amigos, temos outros aspectos a considerar em todo este processo. A solu��o dos problemas sociais e econ�micos e o pr�prio processo de reconcilia��o fazem parte de todo o esfor�o para se conseguir a paz, a harmonia e a toler�ncia. H� muito que fazer, realmente. Garantir trabalho � camada jovem da popula��o, entre 20 a 30 anos, que constitui cerca de 30 % da popula��o n�o ser� tarefa f�cil. A sua forma��o profissional � uma necessidade de curto prazo para que venha a responder �s exig�ncias de m�o-de-obra qualificada. Uma lei clara sobre terras e propriedades e uma pol�tica que atraia investimento estrangeiro de transfer�ncia de capital e tecnologia para dentro do pa�s, a par de uma estrat�gia de forma��o de uma classe empresarial timorense que possa emergir daqui a 10/15 anos, ser�o passos importantes a serem tomados antes da independ�ncia. Possuir 54%. da popula��o abaixo dos 20 anos de idade e, mais concretamente, 44% abaixo dos 14 anos � uma consola��o em termos de promessa de futuro, por�m � um enorme desafio em termos educacionais. Ser� necess�rio programar bem uma pol�tica de forma��o profissional orientada para poder dar resposta �s futuras exig�ncias do desenvolvimento do pa�s. Depois de 24 anos de uma luta denudada, depois de t�o longo sofrimento, � importante que se d� o verdadeiro valor � independ�ncia. A independ�ncia deve ser capaz de proporcionar os meios pol�ticos para um novo combate met�dico � pobreza, � mis�ria, � ignor�ncia e � doen�a. A assist�ncia m�dica e sanit�ria ser� uma das prioridades importantes para o desenvolvimento do pa�s. Construir tudo praticamente a partir do nada � um desafio gigantesco mas ser� um novo cap�tulo tamb�m empolgante da Hist�ria de Timor Loro Sae. Vai ser exigido a todos os timorenses, pol�ticos e intelectuais, um cometimento pol�tico, profissional e moral para que n�o se atrai�oem os sacrif�cios do nosso povo. Ser� importante que todos os timorenses adquiram a consci�ncia da necessidade de partirmos de m�os dadas para assumir um programa nacional de desenvolvimento por 5 a 10 anos. Torna-se importante que os alicerces do desenvolvimento do pa�s sejam o resultado do esfor�o de todos, desde a participa��o no tra�ado deste plano estrat�gico de desenvolvimento, ao envolvimento das pr�prias comunidades nos debates sobre as prioridades nacionais e sectoriais, desde a implementa��o dos programas, ao controlo e fiscaliza��o dos mesmos � preciso que todos os timorenses, desde as camadas urbanas � popula��o rural, sintam que s�o parte integrante do desenvolvimento. S�o estes os desafios do futuro, ser�o estes os desafios da independ�ncia, a par do estabelecimento de um sistema democr�tico pela defesa dos direitos humanos, pela defesa da justi�a social e pela defesa do estado de direito, o envolvimento dos cidad�os que garantir� o sentido de cidadania e assegurar� a harmonia e toler�ncia t�o necess�rias para consolida��o da paz. Queridos amigos, portugueses e timorenses, quando se fala de Timor � costume as pessoas preocuparem-se com as consequ�ncias trazidas de um prolongada conflito. Pessoas e organiza��es envolvem-se a falar de feridas e a tentar acudir aos traumas. Organiza��es e pessoas dissertam sobre a necessidade vital de se fazer justi�a como a �nica condi��o para o futuro de Timor Loro Sae. � claro que o desenvolvimento de Timor s� pode estar assente em valores universais, incluindo o valor da justi�a. Mas tamb�m � verdade que para se conseguir uma paz duradoura em Timor Loro Sae, a reconcilia��o entre timorenses � de vital import�ncia. Sem negar a necessidade de se fazer justi�a, devo lembrar que os encargos para a educa��o, sa�de e infra-estruturas, v�o consumir muito dinheiro e energia ao incipiente estado que vamos construir. E estes esfor�os h�o-de ir por terra se n�o se adopta uma pol�tica de reconcilia��o que beneficie o desenvolvimento do pa�s. Assim, a reconcilia��o com os timorenses que, defendendo a autonomia, praticaram a destrui��o depois da consulta popular � extremamente importante. O que � necess�rio � encontrar-se uma forma de honrar a justi�a sem aumentar outros encargos como a manuten��o de pris�es quando a popula��o tanto necessita de assist�ncia sanit�ria b�sica e de educa��o para os seus filhos. A comunidade internacional deve compreender a dif�cil op��o dos timorenses entre o realismo da constru��o do pa�s e o desejo de assumir princ�pios � custa de muitos riscos. Finalmente, quero afirmar que temos a plena consci�ncia de que os primeiros anos da independ�ncia ser�o enormemente dif�ceis. A vis�o de umas receitas vindas do petr�leo e do g�s n�o nos deve empurrar a ambiciosos projectos de falso desenvolvimento. O verdadeiro desenvolvimento em Timor Loro Sae deve ser orientado a gradual mas firmemente elevar as condi��es de vida de toda a popula��o. Sem isso toda a luta seria atrai�oada e a independ�ncia n�o teria valor. O desenvolvimento de Timor Loro Sae n�o depender� das receitas do Mar de Timor. A explora��o dos recursos renov�veis como a pesca, o turismo, a agricultura e incluindo o caf�, org�nica e de conhecida qualidade mundial que deve ser bem cuidada, ser� a pol�tica a assumir. E, finalmente tamb�m, para consolida��o da paz interna, as nossa rela��es de amizade e coopera��o com os pa�ses da �rea, sobretudo com a Indon�sia, com a nossa ades�o poss�vel - � ASEAN (*), ser�o de primordial import�ncia. Como disse, a Indon�sia, sendo o nosso mais pr�ximo vizinho e com o qual partilhamos fronteiras comuns, merecer� uma rela��o muito especial. A amizade entre povos e coopera��o entre estados marcar� seguramente a constru��o do primeiro pa�s do novo mil�nio e a consolida��o da paz na regi�o e para isso contamos com a cont�nua solidariedade dos povos de todo o mundo, com a cont�nua fraternidade do povo-irm�o portugu�s. Vamos trabalhar para o futuro de Timor e contamos convosco e temos essa certeza do vosso cont�nuo apoio, pol�tico, moral e do vosso cometimento. Obrigado. Xanana Gusm�o (*) ASEAN - Association of Southeast Asian Nations | Home | |