Outra forma de VIVER!
O homem

guiava a máquina no trabalho

suava e gritava nos andaimes

e a formiga

construía sem betoneira
silenciosamente

fraternalmente

sem complexos nem diplomas.

Enquanto o homem

invitaminado erguia

casas grandes de cimento e ferro

no chão crescia a obra colectiva

do insecto conscencializado.

E de betão armado

elevador e ar condicionado

para brancos e negros indianos

mulatos e chineses dos andaimes

com retratos obrigatórios

nas chapas das radiografias

as casas grandes razando as nuvens

não chegaram.

Mas no chão

o formigueiro bastou

a todas as formigas.


José Craveirinha
in: Karingana Ua Karingana


Lua de Maputo

Ó lua tu és feiticeira

ó quarto crescente

no céu tão azul

ó lua tu és viageira

barquinha errante

nos mares do sul



Ó virgem negra de mestre Chissano

Como eu gostava de ser teu cantor

hei-de compor um salmo africano

sem esquecer um verso triste

para o pranto e para a dor

aqui a lua não é mentirosa

trás novas cores ao meu violão

um doce harpejo do Chichorro

cimitarra luminosa

e o Craveirinha no poema do futuro cidadão



Sonambulando na terra do Mia

ao sol vermelho do Malangatana

vou-me perder nessa doce folia

embriagado no colorido dessa tua capulana

trago cajú, píri-píri, "laurentina", camarão

o sol nascendo na minha janela

na tua orquestra talvez possa pontear meu violão

num Kanimambo à malta do Mutumbela

(nakurandza!)



in  CD Torna-Viagem

José Medeiros



OS PARTIDOS

Os partidos rimam
com rimas rimadas
com rimas diferentes
aparente
mente

Os partidos rimam
com os deputados
os partidos fazem
dizem
prometem
garantem
sabem a rima de cor
sabem o poder da rima
rima abaixo
rima acima
rima posta no seu lugar
rima bem à portuguesa
cada cor seu paladar

Os partidos rimam todos
com povo
e ovo
no cu da galinha.

Mendes de Carvalho
in "Noite Branca"


E POR VEZES

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos copos encontramos

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
num segundo se envolam tantos anos

David Mourão-Ferreira

2007, Fevereiro, 23

Passam 20 (vinte anos), sobre a data do desaparecimento de José Afonso.
Símbolo da Liberdade, deste país de Abril, ninguém como ele, soube interpretá-la, vive-la e espalhá-la, por toda a parte. A sua vida, foi um constante doar, de sentimentos e de luta, por um Portugal, Livre e Independente. Hoje, 20 anos depois da sua morte, o país está triste e à merçê de oportunistas e de maus caracteres. O ZECA, estaria certamente deprimido, mas a lutar sem quebras contra o inimigo. É isso, meus amigos, é isso que todos, os que nele se revêem, devem fazer sem desfalecimentos, seguindo os seus exemplos.
Nesta data aqui deixo um poema, dos muitos que nos legou, espero que gostem:

«INÚTEIS ERAM AS VOZES»

Inúteis eram as vozes e as palavras
O cativeiro represo dos sentidos
Abre-se uma comporta a nada altera
A matéria dura de que é feita a vida
Ferros pedaços brancura nunca vista
E um rio que não pára nem descansa
Que perfeita modorra não se esconde
Nesta vasa indecisa e aos ouvidos
Chegam silvos cantantes gargalhadas
E tudo dói como se fora  treva
Como se fora vinho nesta névoa

José Afonso
Porquê de costas para o SOL?
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