O Rapto da Macaca
(Joaquim Ribeiro Chaves, Porto Académico, n.º único de 1962,
pág. 6)
Por intermédio do amigo comum Arlindo Soares, chegou até mim o pedido de um artigo, para o número comemorativo das bodas de ouro da Universidade e Orfeão Académico nortenhos. Do que foi a mocidade de então, irreverente e folgazã, falam-nos o documentário fotográfico e a memória viva, a todo o instante remoçada, nos contactos de uma geração que teima em não envelhecer.
Falar do Porto, da vida académica, dos laços de amizade,
dos ângulos da vida citadina do velho burgo, com todas as virtudes e defeitos,
é para mim transportar-me a paisagens edénicas, muito alto, pelas fantasias
do sonho, é dar-me intensas tremuras de comoção. Aquele Porto, que eu conheci
há tantos anos, quando abri pela primeira vez as tenras pálpebras, aquela
cidade buliçosa no seu trabalho exaustivo, aquele casarão – o Hospital da
Misericórdia[1]
– que me apresentou ao Mundo, a nova mole de pedra, em frente, que me deu
um título, os genuínos pregões que tantas vezes me acordaram, o deambular
noctívago pelos meandros da luz e da penumbra, tudo isso pertence ao passado,
mas vive da perenidade de uma memória que não se dissipa. Ainda hoje, longos
anos volvidos, visito com saudade aqueles recantos, que me deram a felicidade
por conta-gotas e fizeram de mim um romântico, um sonhador impenitente,
uma hercúlea força de vontade, apostado em vencer as maiores crises, com
que a madrasta da vida teima em mimosear-me.
À
parte raras excepções, não teremos neste número, como no anterior, crónicas
dedicadas a astros na medicina e nas letras, de primeira grandeza, da larga
envergadura de um Ricardo Jorge, um Ferreira da Silva, um Camilo e outros.
Esses grandes, em qualquer parte do Mundo, não se repetem nos séculos, mas
iremos reviver a nossa hora de saudade ateando o fogo sagrado de uma convivência
feliz, despreocupada e alegre, nos artigos que as musas derem à luz. Lamento,
no entanto, a lembrança e não mereço a honra que me deram, em participar
nesse número de uma tal projecção académica, ao trazer o pequeno tributo
da minha desataviada prosa. Caem sobre mim os primeiros flocos de neve, mensageiros
indesejáveis dos estragos do tempo, meio século já passado de uma luta sem
tréguas, e a caneta indecisa e tímida a custo vai dizendo o pouco que sabe
do muito que viveu. E assim, como quem não quer a coisa, chegamos ao célebre
episódio da «macaca» incidente ou fasto que teve foros de audácia, nas irreverentes
manifestações de sangue na guelra.
Corria branda a manhã e nos claustros do senado
académico, uns tantos conspiradores davam os últimos retoques no plano do
mais sensacional rapto, executado pela turba académica. O caloiro, a vítima
escalonada para o efeito, ordenança de cega obediência, devia embrulhar o
símio no negrume da capa e em fuga rocambolesca entregá-lo ao supremo tribunal
académico, na Associação Académica, paredes meias com o velho liceu de Rodrigues
de Freitas.[2]
Perante a estupefacção da clientela embasbacada, das mil e uma bugigangas
oferecidas à pasmaceira do público e num lance de prestidigitação, a dócil
macaca atónita e trémula deixou-se enlaçar, para um julgamento sumário.
E
a Praça da Liberdade, a tipóia e a vendedeira de um sem-número de panaceiras
desgrenhadas e a gesticular permanecem na minha memória, como quadro vivo,
da nossa vida académica. Seguiu-se um julgamento em forma, o qual terminou
pela absolvição da ré, após a defesa brilhante do Dr. Alcino Pinto, que achou
indecoroso trazer ao pretório um inocente primata, dinâmico reclamo da banha
da cobra. E eu que estava como Pilatos no Credo, fiquei condenado nas custas,
como adiante se verá. Distribuiram-me – pobre caloiro! – um balandrau, uma
corneta e uma cartola, indumentária que, depois de enfiada no cabide, me
tornava irreconhecível como convinha. Um veterano comandava o pelotão de
quantas vítimas acaloiradas encontraram à porta de Minerva e eu dava o toque
de cornetim, segundo as ordens do chefe. E então, a dois formar, descemos
à Praça, todos com os fatos ao invés e calças arregaçadas, para gáudio da
multidão.
Depois de uma série de manobras da real gana do chefe, seguimos para a então Faculdade de Letras, a qual tomámos de assalto, estabelecendo aí o pânico, para depois, senhores da situação, nos entregarmos a exercícios estratégicos, os mais variados. Descia a noite e quase todas as vítimas da folia estavam com o café da manhã, mas aquele bando de andorinhas, chilreando e a dar largas à sua mocidade exuberante, voltou aos beirais do último andar, a preços módicos, das típicas ruelas do meu saudoso Porto. E desta maneira ficou encerrado um episódio genuinamente académico, mais uma brincadeira inofensiva a marcar uma época de efervescente bom humor.
[1] Isto é, o Hospital de Santo António.
[2] O Liceu Rodrigues de Freitas funcionava então na Rua de S. Bento da Vitória, no edifício onde está hoje instalada a Polícia Judiciária.