CARLOS LEAL
«O ROUXINOL DO AVE»
(Amândio Marques, Porto Académico, n.º único de 1962, págs. 44
e 46)
Já lá vão umas dezenas de anos, e o tempo passa sem
dele se dar conta!... Tempos melhores, mais tranquilos e
despreocupados, quiçá, mais felizes! Todos nós usávamos capa e batina,
e a boa gente tripeira gostava de a ver e acarinhava-a, passando a ser
um elemento decorativo da Cidade, e um cartão de visita e de entrada
onde quer que se apresentasse! A vida decorria tranquila, simples,
leal, cheia de franqueza nas relações comuns. Tínhamos a Associação
Académica - escola de convivência e de oradores - o Orfeão e a Tuna e,
não podia faltar, a nossa Imprensa. A estima e a amizade eram
construídas e alicerçadas na sinceridade, alheios de todo em todo, a
qualquer concorrência descortês ou egoísta. Tínhamos atravessado a
Grande Guerra - 1914-1918 - e esse movimento sacudiu-nos profundamente,
e mais nos aproximou para melhor nos compreendermos. Era como se
fôssemos uma grande família! O estudante procurava manter e reforçar um
costume, quer pela sua vida académica própria, quer e principalmente na
realização das suas festividades - bem notáveis, vemo-lo agora mais do
que nunca! - às quais fazia associar o povo portuense, a Cidade, e até
o Norte, e criar assim uma tradição estudantil. E conseguiu-o. Passou a
ser «o menino querido da cidade», pela sua graça inofensiva, esfuziante
com seus «chistes» graciosos que provocavam íntima satisfação e o riso;
as suas «partidas» tinham espírito, eram engraçadas, não molestavam e
muito menos ofendiam ninguém, nem prejudicavam. Brincava-se sem
atrevimentos, sem audácias, sem a prática de actos censuráveis ou
condenáveis.
Muitos nomes me ocorrem, neste momento, e gostaria
de os inscrever aqui, mas é impossível, tantos são! Limito-me a alguns
e neles recordo-os a todos. Havia poetas como Carlos Cochofel - famoso
autor de «Lírios» -, e Figueira Lopes; escritores teatrais como
Adalberto Mendo, Augusto Farinas, Perry Garcia, Zeferino Moura, Tito
Lívio de Santos Mota, Sousa Santos, Luís de Pina; «actores e piadistas»
como João Ribeiro, António Mendes, Joaquim Bravo, Petronilho, José
Moreira, Elísio Sobrinho, etc., etc.
Não faltavam guitarristas e cantores magníficos de
fados e canções, como Aires Pinto Ribeiro, guitarrista exímio, Ernesto
Brandão, Cícero de Azevedo, Manuel Pereira Leite e, dos mais modestos,
o autor desta recordação. Óptimos cantores de fados e canções,
«autênticos rouxinóis» como José Taveira, Mário Delgado Viemonte,
Cabral Borges, Carlos Alberto de Carvalho, «O Passarinho», e Carlos
Alberto Leal!
Tempo de existência gloriosa do Orfeão e da Tuna - a
melhor da Península que tanta admiração causava! -, cujos tunos na sua
maioria tocavam por sinais especiais, a chamada «música de
carpinteiro», imaginada e classificada pelo saudoso regente Modesto
Osório, e também pelo sapiente e bondoso regente do Orfeão, o Padre
Clemente Ramos. Cultivando a Arte e a Camaradagem, a Tuna e o Orfeão
levavam o bom nome da Cidade e de Portugal, através do País e da
Espanha, em passeios triunfais! A arte e a graça irmanavam-se, e as
amizades tornavam-se cada vez mais consistentes. José Taveira e Carlos
Leal, eram os solistas admiráveis - sem favor e sem amabilidade - pela
sua voz melodiosa, forte, encantadora e sentimental, do Orfeão e da
Tuna. E eram, também, os cantores dos lindíssimos fados de então, que
causavam a admiração e o encantamento a quem tinha a felicidade de os
ouvir!
«Óh capas
negras que andais
Ao luar pela noite
fora...»
Carlos Alberto Leal veio de Vila do Conde, terra da
sua naturalidade. Seu pai, e sua família, que eu conheci, era um músico
e tinha uma bela voz. Carlos Leal, seu filho, ultrapassou-o. Veio
frequentar o Liceu Rodrigues de Freitas, onde eu andava, e logo nos
fizemos amigos até... à morte!
Carlos Leal, como era mais conhecido, Luís Canto
Moniz, Josué da Silva, o autor desta recordação, formavam um grupo,
cuja amizade com estes últimos vinha já de criança e se foi cimentando
pela vida fora.
Em pouco mais o grupo aumentou - ou melhor, ele já
existia - com mais unidade, com Francisco Fernandes, José Fernandes,
outro escritor, Alberto de Serpa, escritor e poeta, Pereira Leite,
outro guitarrista, Carlos Alberto de Carvalho «O Passarinho», de linda
voz, cantava os fados com sentimento, Alberto do Carmo Machado, então
Sargento Cadete, nosso saudoso companheiro para toda a parte, o António
Abrantes, o «Abrantes do Cavaquinho», o Jorge Alcino Morais, etc.
Ensaiávamo-nos nas guitarradas e fados. Carlos Leal cantava os
lindíssimos fados e canções, na sua voz melodiosa, clara, aguda de um
bom tenor,
Vão se abalando
tão tristes
Meus olhos, por
vós meu bem!
Que nunca tão
tristes vistes
Olhos assim por
ninguém!
As
serenatas faziam-se em qualquer parte da cidade, e fora dela, em Braga,
Vila do Conde, Póvoa de Varzim, Espinho, Viseu, Mangualde, etc., etc. E
raro era conhecermos a «dona» para quem se cantava ou tocava!
Nenhuma autoridade nos interceptava. E as serenatas
faziam-se às 2 e 3 horas da manhã, quando a cidade estava no primeiro
sono! Mas toda a gente gostava, ao ouvir a voz de Carlos Leal, e ao ver
o grupo de capas e batinas, que, silenciosamente, desprendiam os
acordes sentimentais das suas guitarras, e a voz do Leal subia
suavemente na atmosfera e se repercutia nos lados da rua, sem quebrar o
silêncio do ambiente e interromper o sonho de quem estivesse a sonhar.
E era um despertar de sonho. As janelas abriam-se, viam-se os roupões
na semiobscuridade e silêncio que nos envolvia. Nas serenatas cantavam
o Leal, e muita vez o José Taveira e Cabral Borges. Era eu, quem ia ao
então Comissário da Polícia, o saudoso desembargador dr. Lopes
Carneiro, pedir a devida autorização. «Dá-me licença sr. dr.». - Eu
sempre de capa e batina - nunca conheci outro traje - solicitava-lhe a
licença. Quando me via entrar, já sabia... conhecia-me já há muito, e
era velho amigo de meu saudoso Pai.
«Que
queres, ó Marques? já sei, tens serenata, onde é?»
Trim,
trim trim, está? Faça favor de transmitir para a área de... que os
estudantes com o Marques e o Leal vão fazer uma serenata, para que não
sejam interrompidos!. «Pronto, vai-te embora».
E
outras vezes dizia-me: - «Olha, ó Marques, eu vou dar-te uma licença
para sempre». E a serenata ou serenatas faziam-se perante a presença da
patrulha a cavalo da Guarda Nacional Republicana que à distância parava
a ouvir, e tanta vez com os guardas de giro!
Em
pouco mais, tínhamos uma assistência numerosa que nunca mais nos
largava! E os nossos nomes andavam em todas as bocas, especialmente
femininas, da cidade. Terminada a serenata, cada um ia para sua casa,
depois de uma belíssima noite, bem passada, sem o menor atrito para
quem quer que fosse, e todos gostavam deste romântico espectáculo
nocturno! Belíssimos tempos! A voz e o sentimento que Carlos Leal
imprimia aos seus fados, eram cada vez, e de ano para ano, melhor e
mais expressivos, cantando com mais alma! Era o solista do Orfeão e da
Tuna, alternando por vezes com Mário Delgado - um Artista! - e Modesto
Osório, seu regente, compôs expressamente para o Leal «A Tua Serenata»,
que a Tuna tocava num ambiente de luz luarenta. E, Carlos Leal, cantava
«É tão tarde e eu
ainda aqui»
cuja voz dominava o acompanhamento feito pela
Tuna. Era um assombro! Repetida várias vezes, em qualquer palco onde
fosse executada! no Porto, em Coimbra, no País, na Espanha! Carlos Leal
era o ídolo da Academia do nosso tempo, uma maravilha ouvo-lo cantar.
Era um dos maiores cantores de Portugal! Eu conhecia-os, e alguns
acompanhei à guitarra. Por iniciativa dos estudantes que do Porto foram
para a Universidade de Coimbra, como eu, foram o Orfeão e a Tuna
Académica do Porto convidados a ir àquela cidade. Foi uma apoteose!
Nada gastaram, foram aboletados nas «Repúblicas» e em casa de cada um.
Os recitais constituiram um triunfo de artístico e de camaradagem.
Carlos Leal e outros «artistas académicos» tiveram ali a sua
consagração, em Coimbra, terra única de cantores e de Orfeão!! A
«Canção das Rendilheiras» que Carlos Leal cantou acrescentou-lhe o
triunfo! Esta lindíssima canção constituiu depois o «Hino» do seu
Curso, cantado sempre nas suas reuniões.
Carlos
Leal deu fama à Academia do nosso tempo, e mais prestigiou-a em tudo,
no Orfeão, na Tuna, nos Fados e Guitarradas, sem pôr de parte a sua
vida de estudante distinto da Faculdade de Medicina, em que se formou.[1]
E
cantava no seu último ano,
«Oh, capas negras
que andais
«Ao luar pela
noite fora,
«Adeus, adeus
nunca mais...»
«Vos posso usar,
vou-me embora!»
Acompanhado à guitarra por mim e por Francisco
Fernandes - hoje distinto Médico Cirurgião em Moçambique - e viola Pais
da Silva, Carlos Leal gravou diversos discos que, em breve, se
esgotaram, como a famosa «Canção das Rendilheiras», e outros. [2]
Nunca deixava de colaborar nas «Revistas», nos «Cortejos», nos
espectáculos que a Academia organizava, em todos com papel de destaque.
Era estimado e admirado por todos, pelo seu temperamento, bondade,
simples e modesto, sempre bem disposto e amável, satisfazendo sempre os
pedidos de serenatas, ou a sua colaboração em qualquer festa, mesmo
particular. Mais tarde associa-se ao nosso grupo, outro bom cantor de
fados, D. Manuel Távora, fidalgo e amigo fiel, que nos acompanhava e
cantava os seus fados que muito apreciávamos.
Canto
Moniz, apesar da sua grande aspiração de ser marinheiro, depois de
cursar na Faculdade de Ciências os preparatórios para a Escola Naval,
deu novo rumo ao seu futuro e, então, matriculou-se em Medicina.
Estudante distintíssimo, no termo da sua brilhante formatura, a
Faculdade reconheceu-lhe, aliás com inteira justiça, os seus méritos e
não hesita em nomeá-lo assistente. No entanto, Carlos Leal forma-se
também em Medicina, e ambos vêm para a vida prática, a profissão
liberal, a luta... Ambos ilustraram a Universidade, a Faculdade de
Medicina, e ambos passaram a caminhar juntos na luta pela vida. O Leal
era o braço direito de Canto Moniz.[3]
A mesma estima e amizade fraternal que nos unia, manteve-se
inalterável, e manteve-se até ao desaparecimento, que tanta saudade
deixou, de Carlos Leal!! O trinar do «Rouxinol do Ave» deixou de se
ouvir em 9 de Abril de 1960! Na pujança da vida! Este belo rapaz, leal
no nome e nos actos da sua vida, íntegro carácter, profissional
distintíssimo, doente, desgostoso, sofrendo a perda da sua encantadora
mulher, falecida oito meses e poucos dias antes, que ele tanto adorava,
morre apaixonadamente como um romântico, um sentimental, pelo seu
temperamento e formação psicológica, deixando-nos um vácuo e profunda
saudade!
Canto
Moniz, brilhante cirurgião portuense, perdeu um prestimoso colaborador,
e ambos nós o querido amigo de sempre, de amizade fraternal, como se
três irmãos fôssemos!
A
sua melodiosa voz que tanto ecoou pela cidade, deixou de se ouvir, mas
no silêncio da noite parece ouvir-se, ainda:
«Adeus, adeus
nunca mais
«Vos posso usar,
vou-me embora!»
E
enquanto me passa pelo pensamento a imagem daquelas capas
«Óh capas
negras que andais»
«Ao luar pela
noite fora»
como que a quebrar a monotonia do silêncio, é
nesse silêncio luarento, de tanta e tanta saudade e recordação, que
aqui deixo a minha modesta homenagem e de saudade de Carlos Alberto
Leal, um dos estudantes que mais prestigiou a academia do nosso tempo!
Janeiro
de 1962
AMÂNDIO MARQUES
[1] A distinção de Carlos Leal como aluno da Faculdade de Medicina não deve ser exagerada: tendo-se matriculado no primeiro ano em 1924-1925 (Anuário da Fac. Med. Porto, vol. XIV), deveria ter terminado o curso em 1929; no entanto a sua caricatura aparece no Livro de Quintanistas de Medicina do Porto 1932-1933.
[2]
Pelo menos quatro discos para a Parlophon: B33300 - Fado Alemtejano ("Fechei a porta à
desgraça") / Fado da Descrença
("Eu não creio por não crer"); B33301 - Um Fado ("Passam-se noites
inteiras") / Fado da Nostalgia
("A vida é negra, tão negra"); B33303 - Minha Mãe (Fado) ("Minha Mãe é
pobrezinha") / Fado de despedida
("Uma despedida no dia"); B33308 - Melancolia
("A saudade faz lembrar") / Canção das rendilheiras de Vila do Conde
("Rendilheiras que teceis"). Acrescente-se que Amândio Marques também
gravou pelo menos dois discos de guitarradas, igualmente para a Parlophon, e igualmente com o
acompanhamento de Francisco Fernandes e Pais da Silva: B33016 - Variações em ré menor / Fado em lá maior; B33017 - Fado em dó sustenido menor / Capricho.
[3] Luís Canto Moniz era cirurgião, e Carlos Leal era (creio) anestesista.