Capa e Batina: a roupa do estudante
[A primeira versão deste texto, com o nome "A Capa e Batina - O Símbolo da Universidade", foi publicada no Guia do Caloiro da AEFCUP de 1994; a versão aqui reproduzida apareceu no Guia do Caloiro de 1998, mas infelizmente com um sério erro de edição: desapareceu uma linha, alterando consideravelmente o sentido de uma frase; essa linha foi aqui reposta. O texto deve ser lido tendo em atenção que se destinava essencialmente a caloiros e em particular aos da Faculdade de Ciências. Resisti à tentação de reescrever algumas partes, mesmo as que necessitariam de uns ajustes gramaticais.]
Muitas
vezes, quem vê uma Capa e Batina pela primeira vez fica convencido que
aquilo é uma roupa de cerimónia e de luxo, extremamente elitista.
Nada mais falso. A Capa e Batina é para ser usada em (quase) qualquer
situação (na praia não dá muito jeito); pode,
também, ser usada como roupa de gala em certas condições
(v. abaixo). Normalmente é para usar com simplicidade como uma roupa
do dia-a-dia que é. A sua ideia é ser uma roupa para qualquer
estudante, independentemente do poder económico (é barata considerando
a qualidade e as vezes que se pode usar) e da altura do ano: se chover traça-se
a capa, se fizer sol, tira-se o colete e põe-se a capa ao ombro, etc.
A capa dá muito jeito para abrigar do frio da madrugada quando se volta
a casa de uma noite de boémia, e eventualmente também para
abrigar outras pessoas (o que pode ser bastante interessante).
É
provável que ouças muitas regras sobre o uso do traje. Não
podes fazer isto, tens que fazer aquilo, aqueloutro tem que ser em número
ímpar, etc., etc., etc. A maior parte dessas regras são invenção
de gente que não tem mais nada que fazer. Como distinguir as regras
a mais das que têm fundamento? É com certeza muito difícil
para um caloiro (até mesmo para a maior parte dos doutores). O que
é preciso é ter bom-senso, perguntar a várias pessoas,
combinar as várias respostas e tentar seguir as que pareçam
ser mais tradicionais e fazer mais sentido dentro do espírito académico
e praxístico. Ninguém disse que a Praxe era uma coisa imediata,
embora muita gente pareça agir assim.
Mas
pode-se dar já algumas ideias gerais. Fundamentalmente, o traje académico
é para ser usado com sobriedade. Por exemplo, não há
qualquer regra sobre tamanhos de brincos, mas já se sabe que não
são admissíveis brincos que dêem demasiado nas vistas;
brincos discretos não trazem problemas. Objectos de luxo em geral estão
postos de parte.
Há
também questões de boa educação e de bom gosto
no uso do traje académico: por exemplo, é de má educação
não ter a capa pelas costas em alguma ocasião um pouco mais
solene, e demonstra uma certa dose de parolice ter a capa sempre muito
dobradinha ao ombro, mesmo que esteja a chover ou um frio de rachar, mostrando
uma quantidade de emblemas comprados na esquina, como quem diz: "sou muito
académico porque tenho muitos emblemas".
Mas
para quem gosta de regras, mesmo, leiam o seguinte. Nalgumas coisas há
opiniões diferentes, mas em geral se seguirem estas indicações
não devem ter problemas. Algumas não são regras em si
mesmas, mas aplicações particulares de regras gerais, que mudam
se as condições particulares mudarem. Agora, por amor de Deus
(Baco), não tentem interpretar as vírgulas!
Traje
Académico Masculino:
-
Capa preta;
-
Batina preta de formato não eclesiástico;
-
Calças pretas;
-
Colete preto (dispensável em caso de muito calor);
-
Gravata preta;
-
Camisa branca com colarinhos normais;
-
Meias pretas;
-
Sapatos pretos de formato simples;
-
Gorro preto (facultativo), sem borla e sem terminar em bico.
A
batina deve ter um botão na parte de trás da lapela direita
(e a casa correspondente na outra), para fechar em caso de luto.
Há
uma versão de gala, com colarinhos de bico e laço preto em vez
de gravata.
Traje
Académico Feminino:
-
Capa preta;
-
Casaco preto;
-
Saia preta travada;
-
Gravata preta;
-
Camisa branca;
-
Meias pretas;
-
Sapatos pretos de formato simples;
-
Gorro preto (facultativo), sem borla e sem terminar em bico.
Há
divergências quanto à cor das meias: é, no entanto, unanimemente
aceite que as orfeonistas usem meias cor de pele.
Não
existe versão de gala.
Quando
se usa a capa pelas costas, esta deve ter algumas dobras no colarinho. Há
quem indique o número correspondente ao ano do curso em que se está,
mas não se preocupem muito com isso.
A
capa deve ter colchetes no colarinho, para apertar em caso de luto. Há
quem diga exactamente o contrário, mas parece-nos, analisando as suas
razões, que esta é a opinião mais correcta dentro do
espírito tradicional.
Há
quem diga que à noite a capa deve ser traçada ou, pelo menos,
estar pelas costas. Numa serenata, tem absolutamente que estar traçada.
Em qualquer ocasião de maior solenidade ou em que se deve mostrar respeito,
a capa deve ser usada pelas costas e (embora menos importante), a batina
apertada.
Na
Missa, a capa põe-se pelas costas, sem dobras (mas não com os
colchetes apertados).
Há
muitas tradições diferentes relacionadas com os rasgões
na capa. O fundamental é que se refiram a coisas muito importantes
e que são feitos com os dentes (nada de tesouras!).
Pode-se
ter emblemas cosidos no lado de dentro da capa, na parte inferior esquerda,
desde que não se notem os pontos do lado de fora, nem os próprios
emblemas quando a capa estiver traçada ou pelas costas.
Considera-se
que os emblemas se devem referir a aspectos importantes da vida académica,
ou muito importantes da vida pessoal. Por exemplo, um sítio onde se
foi em digressão de algum organismo académico (se a ida foi
mesmo académica), mas não um sítio onde se foi no Verão,
de Interrail.
Os
emblemas deviam ser, em princípio, isso mesmo: emblemas. Não
exagerem nos "penduricalhos"! Em particular os grelos, nabiças, etc.
na capa são dispensáveis.
Insígnias:
-
semente: usa-se (só) nos cursos de cinco anos, durante o segundo ano.
É uma fita pequena de algodão, com um nó, presa por um
alfinete ao bolso superior esquerdo da batina ou casaco.
-nabiça:
usa-se no segundo ano dos cursos de quatro anos, e no terceiro nos cursos
de cinco. É uma fita pequena de algodão, com um laço,
presa por um alfinete ao bolso superior esquerdo da batina ou casaco.
-
grelo: usa-se no terceiro ano dos cursos de quatro anos e no quarto nos cursos
de cinco. É uma fita de algodão que circunda a pasta onde esta
dobra para fechar, terminando em laço.
-
fitas: usa-se no último ano de qualquer curso. São oito fitas
de seda dispostas ao redor da pasta.
(Nota:
estes anos referem-se aos anos do curso e não ao número de inscrições.
Há casos em que é difícil calcular o ano em que se está,
mas apelamos ao bom senso).
Todas
estas insígnias se colocam na Imposição de Insígnias
da Queima das Fitas do ano anterior ao respectivo (se se calcular que se vai
passar de ano). Obviamente só se usa insígnias (excepto cartola
e bengala) estando de capa e batina.
Também
se considera como insígnia a cartola e bengala, que se usa durante
a Queima das Fitas em que se é finalista. Com a cartola e bengala os
homens usam um laço e as raparigas uma roseta na lapela.
A
cor de todas as insígnias é a da faculdade respectiva (no nosso
caso azul claro).
As
insígnias devem ser recolhidas à noite (normalmente exclui-se
da obrigatoriedade a Queima e as Serenatas Monumentais).
Só
se usam insígnias entre o início oficial do ano lectivo e a
Queima das Fitas.
Não
se usam insígnias fora do Porto (enfim, Grande Porto).
João
Caramalho
P.S.:
Antes que ouçam asneiras: os caloiros podem e devem usar traje académico
e podem traçar a capa.