“Quem tem medo de escuro?” é um recente livro de Sidney Sheldon, autor muito comemorado pela imprensa estadunidense e que sustenta a marca de ter todos ou quase todos os seus romances no topo da lista dos mais vendidos daquele país. Sua fama deriva não só de seus talentos como romancista, mas também como roteirista de vários filmes famosos e da divertidíssima série Jeannie é um gênio.
Para tentar clarear as idéias dessa pequena resenha e de todas as outras desse sítio peço a paciência do leitor para acompanhar as curtíssimas considerações sobre o que julgo importante no comentário sobre esse tipo de livro milionário.
Dados como os desse livro podem suscitar duas reações: a primeira é a limitada celebração do “sucesso” e a completa ausência de crítica; a segunda é o vazio discurso acadêmico de que livros populares são descartáveis e não possuem nenhum mérito literário. Um é o senso comum, o outro o “intelectualmente correto”. Tentarei evitar as dois.
O problema do senso comum é óbvio, é ignorar todo um universo de maiores sutilezas, esquecer que o que parece nem sempre é e o que inicialmente só pode causar dificuldade e antipatia comumente esconde nuances profundas e desperta sensibilidades mais recompensadoras do que o apenas vistoso.
Já o problema do academicismo não é muito mais sofisticado, contudo mereceria considerações bem mais longas por manter-se ainda hipocritamente dissimulado. Para resumir, eu diria que os acadêmicos meio por convicção meio por teatro deixam de perceber que não há um critério objetivo e não-social para que julguem as qualidades de uma obra seja de entretenimento ou arte. Ou seja, me parece que cada autor e cada livro devam ser julgados de acordo com seus fins e o grau de sucesso ao alcança-lo e não por um único padrão universal.
Ignorar isso é ou estar ideologicamente comprometido com a separação da “boa” e da “má cultura” ou estar impregnado com o vírus de uma absurda racionalidade legislativa. Acho que, no máximo, podemos inter-subjetivamente hierarquizar os autores na satisfação em realizar o que se propuseram ou subjetivamente na predileção pelos diversos objetivos. Admito que não me agrada o estilo de objetivo “escrever, divertir e ganhar dinheiro” e que li “Quem tem medo de escuro?” meio por obrigação, porém não tenho a pretensão de legislar sobre o que as pessoas devem ou não gostar. Saber se há ou não um rumo unívoco na relação conhecimento-gosto é mais complicado do que se gosta de fazer parecer...
O nosso livro conta em ritmo acelerado a história de Diane Stevens e Kelly Harris que lutam para desvendar um mistério assustador: qual o motivo de quatros brilhantes cientistas do “Kingsley International Group” (KIG) terem sido assassinados em diversas cidades do mundo de maneira misteriosa e suspeita. E dentre eles, seus esposos Richard Stevens e Mark Harris.
As heroínas do romance vivem várias experiências muito perigosas em sua busca de respostas e se tornam a caça dos mesmo caçadores que acabaram com a vida de seus maridos e quanto mais penetram nos reais motivos dos crime, mais são perturbadas emocionalmente pelas lembranças de seus maridos e pela barbaridade das intenções do inimigo. O livro é também uma denúncia e um alerta quanto as conseqüências e causas das mudanças climáticas que atualmente preocupam o planeta.
O que há para se destacar sobre esse romance é a perspicácia com que Sidney Sheldon entrelaça os elementos dessa história tão simples. O defeito é a fraqueza no argumento, a superficialidade das personagens e a exagerada inverossimilhança em certos trechos do livro que se fazem necessários para manter um ritmo de narração bastante rápido e fácil.
É um livro divertido e aconselhável, mas limitado.