Franz Kafka é considerado um dos maiores gênios da história da literatura universal e esse é precisamente um de seus romances mais famosos. O autor via diversos problemas em sua obra, mas também reconhecia nela momentos de perfeição, aos olhos dos críticos modernos, por outro lado, há brilhantismo e perfeição na obra como um todo.
A história de Josef K. é um conto de horror no “Estado Democratico de Direito”, é o homem que se vê desvalido em meio a sua própria sociedade. K. era próspero funcionário de um banco até ser surpreendido em uma manhã comum pela estranha visita de agentes policiais que lhe informam ser réu em um processo que, no entanto, não podiam comentar.
O absurdo do acontecimento impele Josef K. a se rebelar, a denunciar abertamente a ridicularidade do tribunal que o acusa sem informar de quê, que manda agentes para o deterem sem que se saiba o motivo. Não obstante, K. não deixa de ser perturbar e preocupar com esse julgamento tão estapafurdio, pois, apesar de sempre desejando demonstrar a loucura de seus inquisidores, o envolvimento com o tribunal é sempre imposto à sua mente pelas demais pessoas, sempre os homens lhe forçam a aceitar a distorção social como força natural e fazem o humano individual abdicar da razão crítica e interiorizar cada vez mais o processo, ou seja, se o gênero humano como um todo crê no crime, logo ele é real e K. se torna cada vez menos capaz de acreditar em si mesmo.
K, por seu turno, não é comumente mais humano do que seu mundo: sempre consegue aliciar colaboradores aparentemente dispostos a ajuda-lo até o limite, porém seus juízos sobre eles, especialmente quando são mulheres, é sempre peremptóriamente maldoso, em sua mentalidade sempre parece haver motivo para ser cruel com eles, castiga-los como merecem por suas faltas, ademais, se permite objetificar sexualmente qualquer moça, exergar sempre conotação sexual em suas relações com o sexo oposto.
A história se desenvolve de maneira crescentemente angustiante, Kafka mostra uma das percepções mais agudas a respeito do que Adorno chamou de “esquizofrenia da sociedade moderna”. O autor também parece estranhar o fato da humanidade toda estar imersa em algo que cada sujeito individual odeia. O mundo dos homens adquirindo completa autônomia em relação ao homem real e se impondo contra a vontade de todos. É, no famoso dizer de Marx, o aprediz de feiticeiro que se desespera ao não poder controlar as potências que pôs em ação.