Uma época na qual os homens fracos venceram os fortes, na qual a tragédia foi extirpada da própria natureza humana: o consumo foi elevado a fundamento da existência, a diversidade cultural anulada, as leis morais esquecidas e o lazer universalisado e consatante.
As pessoas são separadas em castas ainda quando são embriões, biologicamente adaptadas a ela e psicologicamente condicionadas a deseja-la, quere-la. Alfas, Betas, Gamas, Deltas, Ipsilons, alguns com mais liberdades de movimentos outros com menos, uns contentes com sua inteligência superior outros com a inferior, todos escravos.
Esse mundo admirável aboliu, dessa forma, a tristeza. Cada indivíduo aprende a se refugiar do sofrimento no consumo desenfreado e despropositado, no intenso contato social, na exaltação dos sentidos através da música, dos esportes, do cinema e, quando o pensamento insiste em se impor, ainda resta a droga mais potente, anestesiante e prazerosa que jamais existiu, o soma.
Apesar de todas essas vedações, esse mundo acabou criando Bernard Marx (nome que não é aleatório), homem rebelde ao não-pensamento, amante da solidão, indiferente aos estímulos sensíveis exagerados, cioso de seus dramas e tristezas, descontente com o soma e com seus condicionamentos psicológicos.
Bernard, contudo, não é ainda o homem mais trágico que essa época das não-tragédias conhecerá. Em seus descaminhos, ele conhecerá um “selvagem” pertencente a uma reserva e o levará para Londres consigo e aí se verá a máxima antinomia possível entre um indivíduo e uma sociedade, John é o mais vivo contraste possível com os civilizados, com a nova humanidade.
Huxley magnificamente expõe as diversas formas de controle e dominação que não são de um mundo imaginário, mas sim a nossa realidade olhada com estranhamento e dissecada em seus absurdos. Denunciando todas a múltiplas formas de negação da vida que nossa sociedade desenvolveu, da televisão às drogas, o autor nos faz refletir sobre as questões mais profundas da existência e, em especial, de nosso tempo. Será a alegria permanente igual a felicidade? Não é a felicidade a liberdade de assumir a vida com seus riscos e vicissitudes, com suas altas e baixas? Não é sentir-se satisfeito com a consciência, ao invés, da incosciência, com os caminhos que se trilha criticamente, ao invés, do deixar-se levar? Qual mundo queremos, afinal?
Admirável Mundo Novo é uma essêncial interrogação posta sobre o destino do nosso mundo. É um brilhante desvelamento do poder em todas as suas diversas dimensões e um convite a mudança crítica.