Muito além do cidadão Kane

“Muito além do cidadão Kane” é uma produção britânica, de Simon Hartog, sobre os absurdos cometidos na mídia brasileira. Seu principal foco de crítica é a Rede Globo. O documentário registra a histórica manipulação política da emissora. Na realidade, ele é simultaneamente vítima e testemunha do monopólio global, considerando que o filme está proibido no país desde seu lançamento, há mais de 13 anos.

Simon Hartog em seu último e mais polêmico documentário fez algo que, para espanto dele, nenhum brasileiro havia feito: denunciar a Rede Globo e seu temido e poderoso comandante, Roberto Marinho. A luta não foi fácil, porque além de obviamente não ceder nenhuma imagem ou entrevista a empresa iniciou um processo jurídico para proibir a exibição do filme não só no Brasil, mas em qualquer outro país do mundo. Nisso eles falharam e o documentário foi ao ar em 13 de março de 1993, na Inglaterra. Mas, infelizmente, o povo brasileiro, maior interessado, é refém da censura judicial, ou deveria dizer global? Assim como eu, os poucos brasileiros que puderam assistir ao filme o fizeram por intermédio da ‘internet’.

O filme faz um excelente panorama sobre a história da televisão brasileira ressaltando ponto-a-ponto da constituição das emissoras do país, desde a formação da Rede Tupi até o início dos anos 90. Há um enfoque especial na Globo e no SBT, entre os quais a concorrência curiosamente baixa ainda mais o nível dos programas. Os exemplos citados são: “Xou da Xuxa”, “Fantástico” e “Porta da Esperança”. Em todos eles é destacado um ar pitoresco que, ao mesmo tempo, é manipulador e alienante.

Outra das mais importantes facetas do filme é denunciar a constante articulação da Globo com as forças políticas dominates como sua cumplicidade com o regime militar ou seu criminoso envolvimento na eleição ex-presidente Fernando Collor, onde além de fraudar informações e editar o debate para comprometer o então candidato Lula ainda tentou abafar os escandalos que depois vieram a causar o impedimento de Collor. Como complemento para essas informações há depoimentos como o de Chico Buarque e Leonel Brizola.

A entrevista de Chico Buarque é, por sinal, um excelente ícone da aliança do governo com a empresa: após a censura, imposta pelo governo, as músicas do cantor a emissora, por iniciativa própria, proibiu qualquer menção ao nome dele em seus telejornais e programas. Dentre esses jornais destacava-se o Jornal Nacional (de maior audiência no país) e que, segundo nos mostram as várias entrevistas, dispunha de total confiança entre os populares.

Para quem tem os olhos abertos esse filme não será tão surpreendente, afinal esses fatos se afirmam e confirmam todos os dias diante de nossos olhos, geralmente acompanhados de um ’plim-plim’. Mas, ainda assim, esse filme é um importante registro dessa história de telealienação.

Ressalva

Ao meu ver, o único(e que não é pequeno) pecado do filme é sua visão esteriotipada e caricaturizada do brasileiro. Algumas passagens serão difíceis de engolir, como: “Por vezes a propaganda brasileira é melhor que o próprio país”, além de criticas a construção de Brasília e pasmem ao estilo de “novela latina”. É também conveniente atentar para as possíveis segundas intenções da produtora inglesa, BBC.

Por: Sesshoumaru
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