Eu tive a oportunidade de assistir Gattaca em um daqueles eventos não-obrigatórios da escola que praticamente ninguém ia e não me arrependi. Esse é um dos mais fabulosos filmes de ficção-científica que já vi. O filme tem roteiro e direção por Andrew Niccol que também foi roteirista de “O Show de Truman” e mantém o mesmo apelo humitário.
A sociedade contemporânea, cada vez mais tecnológica, nos traz conforto e segurança, no entanto, até onde essas nossas liberdades poderão ir antes que se tornem nossa escravidão? No mundo imaginado por George Orwell, em 1984, as pessoas eram constantemente espionadas e controladas. E não haveria similitude entre esse mundo e o nosso onde, nas grandes metrópoles do planeta, as câmeras de segurança se multiplicam dia-a-dia?
A distopia de Niccol se assemelha a de Orwell justamente na previsão do “mau uso” da tecnologia no futuro. Em Gattaca, o mito cientifico se torna tão presente que aqueles que são considerados geneticamente inferiores não tem chance alguma de elevarem sua condição de vida. E aí se encontra mais uma semelhança entre as tramas. E essa é mais perigosa. É o visível parentesco dessas sociedades imaginárias com o mundo que estamos construindo. Para comprovar aí já está o projeto Genoma Humano que mapeou nossos genes.
Este é um filme recheado de significados camuflados. É interessante notar, por exemplo, que as letras que compõem o nome do filme são as mesmas das bases nitrogenadas componentes do código genético. G, A, T e C. Respectivamente: Guanina, Adenina, Timina e Citosina. Outros pontos significativos se espalham pelo filme como a escada em forma de ADN. E, ao final, a seleção de astronautas de todas as raças. Acima de todos esses pequenos emblemas está levantada uma bandeira muito maior contra uma espécie de nazismo futurista e que já é muito presente entre nós.
Nessa sociedade as crianças são geradas em laboratório a partir da melhor combinação possível dos genes de seus pais, para que assim possam ser praticamente perfeitas. Do outro lado da sociedade existem os chamados “filhos de Deus”, que são concebidos à maneira antiga e por isso possuem combinações genéticas casuais e menos perfeitas, sendo assim são suscetíveis a várias doenças, menor expectativa de vida, capacidade física e mental inferiores. Os primeiros compõem a elite e os outros, ditos “Inválidos”, pertencem a casta mais baixa, sendo a eles destinados apenas trabalhos braçais e de baixa remuneração.

A história do filme gira em torno do inválido Vicent Freeman(Ethan Hawke) que tem o sonho de ser astronauta e viajar para Titã, uma das luas de Júpiter. No entanto, esse sonho é aparentemente irrealizável já que nunca lhe seria permitido ter acesso a esse tipo de emprego. Além disso, ele sempre tem doenças e perspectiva de vida mais baixa que o normal. Como a maior comprovação de sua “inferioridade” existe seu irmão que foi planejado em laboratório e sempre o superou em todas as atividades que praticavam juntos.
Tentando alcançar seu sonho Vicent procura um “pirata genético” que lhe fornece métodos para que ele possa se passar por Jerome Morrow(Jude Law)que era uma válido, mas havia ficado paralítico em um acidente e por isso aceita participar desse crime. Os meios para entra para a Corporação Gattaca e se tornar um astronauta não são fáceis e Vicent é obrigado a adulterar seus exames de sangue diariamente e levar seu corpo para além dos limites de um “inválido”. Cada fio-de-cabelo de sua cabeça era um prova contra ele da qual precisava se livrar.
Depois de finalmente conseguir ser escalado para a viagem, o misterioso assassinato de seu superior o torna um dos suspeitos e daí em diante o cerco começará a se fechar de forma muito rápida. Irene(Uma Thurman) companheira de trabalho e amada de Vicent também se tornará cúmplice de seu segredo. Notem também que o sobrenome Freeman significa, em inglês, homem livre.
Não devemos nos contentar em sermos reacionários e negarmos a importância da tecnologia em nossas vidas. Afinal, sem as câmeras onde poderia chegar a violência nas nossas metrópoles? E sem a evolução da engenharia genética como ficarão os doentes? No entanto, a questão não é parar o desenvolvimento, mas refletirmos mais profundamente sobre os caminhos pelos quais devemos conduzi-lo e com que fins usa-lo.
Por: Sesshoumaru