Elefante

Devo blasfemar algu�m que arrumou meu quarto sem o devido cuidado (e com "sem o devido cuidado" entenda: sem minha autoriza��o)? Devo culpar-me a mim mesmo? Talvez se puser a culpa na cretina da escola. Ou quem sabe essas pastas e esses pl�sticos de inserir pap�is mil, pouco confi�veis. Sim, um desses entes leva a incumb�ncia de explicar o sumi�o de uma resenha que fiz h� cerca de um ano e meio sobre o filme Elephant, de Gus Van Sant. �, n�o...

Se n�o me falha a mem�ria, foi a professora (sic), que provavelmente gostou tanto que ficou com o manuscrito original.Se minha intui��o � ou n�o das melhores para apontar homicidas de id�ias ou seq�estradores de resenhas, n�o sei ao certo. Mas � bom que confiem no meu senso quando o assunto � um bom filme: Elephant cumpre todos os requisitos e merece ser o primeiro analisado em, curiosamente, um ano e meio de vida, tamb�m, do querido X-TudoTudo.

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Elephant (Elefante). Estados Unidos, 2003. Colorido. 81 minutos. Dire��o e roteiro de Gus Van Sant. Elenco composto por atores amadores, entre eles Alex Frost, Eric Deulen, John Robinson. Drama. Warner.
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Elefante (n�o refletiremos aqui sobre a origem do nome, mas deve ser enaltecido o fato de finalmente n�o terem mexido no t�tulo da obra estrangeira na localiza��o para o Portugu�s) pode ser tomado como um remake ficcional do massacre de Columbine, famoso crime de uma dupla de adolescentes que transformaram uma manh� banal de estudo em inferno e depois se suicidiram, epis�dio que insiste em reaparecer esporadicamente envolto em nova roupagem em algum canto dos Estados Unidos da Am�rica. N�o se trata de uma recria��o documental, ou seja, o diretor n�o compilou os dados da trag�dia mencionada e modelou seus personagens de acordo com a ficha da Pol�cia e os jornais. Tal reconstru��o teve um grau de liberdade impressionante e o ambiente pelo qual se optou foi a Portland High School, no estado de Oregon. O que permite associar Elephant t�o claramente ao massacre de Columbine, al�m das declara��es de Gus Van, � que os adolescentes assassinos executaram seus atos de forma premeditada, com armas adquiridas em lojas sem endere�o que n�o exigiam mais do que um n�mero de cart�o de cr�dito para a concretiza��o do neg�cio e cultuavam o Nazismo, o qual pareciam conhecer apenas superficialmente, entre outros elementos do background. Nuances mais consider�veis para efeito de conversa foram completamente imaginados por Gus Van do zero (quanto aos nomes, Alex e Eric, os infratores, assim como os demais do elenco, conservam seus vocativos).

Como credencial, Elephant apresenta o "ar cult" apreciado por cada vez mais dos ditos cin�filos politizados. Verba modesta, um cast sem estrelas, script "cabe�a" e, para coroar as caracter�sticas anteriores, reconhecimento: Elefante levou a Palma de Ouro e rendeu o pr�mio de Melhor Diretor a seu mentor no Festival de Cannes Edi��o 2003.

O principal recurso utilizado para se contar a est�ria � eliminar qualquer apego entre o expectador e personagens em espec�fico. Todos possuem a mesma import�ncia na medida em que os eventos da manh� escolar v�o sendo mostrados sem compromisso cronol�gico, cada vez de uma perspectiva diferente. Nenhuma a��o � mais glorificante que a outra, ningu�m recebe luzes, c�meras e takes por mais tempo. Todos s�o meros alunos reprisando suas vidas corriqueiras: a nerd, as patricinhas, o casal mais bonito da escola, a invejosa, o descontra�do, os engajados, quem vive um p�ssimo dia (est� de castigo e n�o ir� sair � noite) e quem tem problemas (pai b�bado; colegas de turma que, enquanto o professor responde uma pergunta capciosa de um deles, viram-se para achincalhar com ovos - isso mesmo! - um rapaz que sequer tem trejeitos de estudioso e que, ali�s, senta na �ltima carteira da classe; anor�xicas; etc).

Portanto, ao mostrar alguns dos minutos dos garotos em c�rculo, o expectador imerge em certa letargia. N�o � enfadonho, e sim excitante justamente por se saber que um filme nunca tem a pretens�o de ser enfadonho por si s�. As longas tomadas com a tranq�ila passada dos jovens pelos corredores monumentais da institui��o instigam mais do que chateiam. A �nsia pela seq��ncia que quebrar� o ritmo moroso da narrativa sustenta os minutos iniciais.

Quando as c�meras saem da escola elas v�o diretamente para a casa de um caucasiano, loiro, alto, onde est� sendo servido o caf� da manh�. Os consumidores s�o este e seu pressuposto melhor amigo, que j� tem intimidade suficiente com a m�e do primeiro para a reportar do estado do omelete. Seja porque n�o se importam com o desempenho letivo do filho tanto assim ou porque pensavam que fosse semana de provas e os rapazes se deslocariam somente mais tarde para o col�gio, os pais v�o trabalhar e ignoram a indol�ncia com que ambos trancam-se no quarto. Assistem a filmes totalitaristas, fazem o gesto popularizado por Hitler, louvam uma bandeira com a su�stica e finalmente atendem � campainha para receberem a entrega do dia: um rifle e muita muni��o. N�o foi a primeira compra do tipo para os garotos, que sempre usaram o E-Bay para conseguir o que h� 10 anos s� seria imposs�vel sem um maior de idade ao lado e muita coragem.

A dupla de estudantes � deslocada socialmente. Muito por isso, acabam experimentando um beijo homossexual na ducha do chuveiro. Descarregam todas as armas de fogo em sacolas e mochilas no carro e partem para mais uma fra��o da rotina de aprendizado, embora tudo leve a crer que a li��o dessa vez poda ser destoante do cronograma tra�ado para a s�rie: quem teria imaginado uma experi�ncia com sangue fora do laborat�rio? Planejaram o ataque com anteced�ncia, com maquetes das instala��es em m�os. Mais do que descontar sua f�ria pelo status de incompreendidos em seu meio ou pelos professores e diretor negligentes, suas motiva��es parecem ser mais esquizofr�nicas, desligados que est�o das conseq��ncias das megalomanias praticadas. Entram armados na escola e come�am a matar um por um todos que v�em mais por esporte e por considerarem que t�m o direito de faz�-lo do que por desgosto do que por avers�o ao sistema. � uma s�ndrome de deus.

Entre as cenas finais, que n�o precisam ser escrutinadas na mat�ria, salvadores, pedidos de clem�ncia, fatalidades que viram risadas, escapadas por um fio e um desfecho infantilizado (no sentido n�o-depreciativo), que condensa o esp�rito da chacina.

A m�gica est� em que Gus Van Sant se aproxima dos expectadores jovens por abdicar de estere�tipos que simplifiquem sujeitos, e na sua ponderada decis�o de n�o atribuir a rea��o dos anti-sociais recalcados diante de seus convivas e superiores hier�rquicos a algo em especial. O ideal � refletir naqueles minutos ap�s as letras subirem, estirado na cama. Nada melhor.

A responsabilidade por infra��es dantescas da lei no pr�prio ber�o da democracia deve ser dilu�da entre Estado, fam�lia, educadores, grupos sociais herm�ticos, mercado, m�dia. � injusto imputar todo o �nus a pais desatentos ou a "sandices" como os videogames de tiro, os besteir�is veiculados na TV paga ou mesmo ao estado cl�nico eventualmente insano dos autores da barb�rie (um xiita diria, outrossim, que esse fen�meno s� se d� nos EUA, o que � mentira). Cinema � entretenimento. Gus Van Sant � pensamento.

Adendo - onde vi esse filme, o que falaram dele depois da sess�o...

...foi exatamente que o dano provocado pelos maus elementos (que seriam, claramente, de m� �ndole, "do Satan�s", ignorando os emissores do discurso qualquer no��o de Direito) era revers�vel mediante o desligamento de aparelhos insidiosos como "o Nintendo e o computador conectado". Suas caras ao ditar suas verdades hip�critas eram de nojo. N�o entendi. Cara de nojo tais personas deveriam fazer caso estivessem fitando um espelho. A imbecilidade sem-tamanho de duas representantes do corpo docente da Funda��o me deixa profundamente preocupado com o futuro brasileiro. As autoras das suspeitas infundadas s�o, pois, as professoras de Artes Pl�sticas e C�nicas Gis�lia e Celina, que atuam no Centro Educacional Gisno, sediado na 907 Norte. T�picas anti-tecnol�gicas que preferem um cigarro de maconha (quando n�o o mais fedido, aquele de palha), um pincel, uma tela, a natureza... Odeiam fios, n�o sabem o que � a nanotecologia. Como podem entender aparelhos "complexos" como um televisor de tubo? Vamos respeitar os mais velhos. Outra gera��o, outros ideais. �quela �poca pessoas morriam pelo Socialismo! � at� compreens�vel que seus pontos de vista anacr�nicos n�o se adaptem �s circunst�ncias t�o depressa quanto deveriam...

O mais curioso � que a despeito da pouca leitura e do excesso de sess�es de cinema maioria desses aficionados fundamentalistas n�o sabe analisar uma obra do g�nero drama menos mainstream como Elephant. Pessoas que adoram o audiovisual a pretexto de fugir das p�ginas inanimadas, aten��o: o que � r�pido, complicado e m�vel precisa de base (est�tica, mais linear e que respeite ritmos individuais de aprecia��o) para ser compreendido. Gus Van Sant l� muito mais do que voc�s. O pior � que professores � que ensinam a ler. E a boa leitura � fundamental para se entender e gostar de filmes de qualidade. E, como acabamos de ver, os professores brasileiros da rede p�blica, em m�dia, n�o entendem os filmes... Onde vamos parar? Tenho esperan�a que n�o sairemos do lugar (j� seria bom demais!); por enquanto, engatou-se a marcha r�!

Por: Wormsaiboty 1

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