Amores brutos, amores cachorros. A força do amor é, sem dúvidas, o motor dessa bela história. É o sentimento que permite romper a inércia, possibilita todos os movimentos, os dramas, as dúvidas e, conseqüêntemente, todas as superações, reabilitações e redenções. E é o afeto completamente puro, ingênuo e singelo que os cães da história representam, o agente catalisador do processo de mudança que se processa na vida de todos os protagonistas, os animais acabam se tornando não só o estímulo como também a condição para a plena realização dos sujeitos humanos.
As vidas dos protagonistas Octavio, Valeria e El Chivo só se encontram uma única vez, no entanto, os três serão mudados para sempre após esse encontro: seus dilemas são bem anteriores ao fatídico encontro, mas é a partir desse ponto de inflexão, sempre tendo como colaboradores os cães, que eles elevarão suas auto-contradições ao limite e terão de enfrentar a mais difícil decisão entre romper com suas imaturidades ou permanecerem inertes diante de suas vidas.
Esse encontro é um acidente de carro. Em um, Octavio; no outro, Valeria e, como observador, El Chivo.
Octavio
Octavio ama Susana, sua cunhada, e vive as turras com seu irmão e sua mãe.
Toda a seqüência de eventos do filme se torna possível quando Susana deixa Cofi, o cão do seu marido e do cunhado, escapar de casa. Seu esposo se enfurece muito e é seu cunhado quem a protege e causa grande contraste entre seu afeto e o desprezo do marido. É um universo de máxima tensão, em especial, entre os irmãos.
Aí se vê que o problema já estava armado, no entanto, se agravará em função do destino de Cofi: o cachorro quando atacado, mata um cachorro de briga. Aí Octavio enxerga uma oportunidade de lucro e uma esperança para contornar seu presente e mudar o futuro.
Octavio segue em conflito crescente com seu irmão e cada vez mais encantado por seus planos de futuro com Susana. A ambição nascida aparece em contraste com o carinho pelo cachorro. Cofi de sujeito a carinho passa a ser meio, uma motivação, um combustível para a realização de um desejo antigo. Há, em todo caso, uma antítese entre o amor do dono e suas ambições mais íntimas.
Nesse ponto a personagem tem a realização do amor como objetivo que justufica qualquer ação, é um fim egocentrico e hedonista. Só mesmo ao perder qualquer vínculo com os familiares, com Susana, com seu melhor amigo e até Cofi no acidente de carro é que poderá assumir para si a tragicidade da vida e tornar-se adulto.
Valeria
A famosa modelo Valeria, vivia um momento especialmente agitado e feliz, por um lado, sua carreira ia de vento em popa, de outro, sua relação clandestina com o empresário Daniel estava com os dias contado, uma vez que ele estava finalmente disposto a separar-se de sua esposa. Sua posição privilegiada na mídia e o início legítimo de seu romance, o seus sonhos realizados.
Tudo isso muda no instante do acidente automobilístico. A gravidade da batida poderia ter-lhe tirado a vida, ao invés, a deixou com ferimentos graves em uma das pernas. O tratamento para recuperar a perna será longo e doloroso. A modelo que sempre dispôs de uma vida de princesa e de realizações fáceis, pela primeira vez, se depara com dificuldades extremas.
Entre ela e Daniel começam, então, a se desenhar conflitos que dificultam a relação e são estimulados pelo medo, falta de confiança e nervoso. Outro elemento de tensão é Richi, a cadelinha de Valeria, que caiu em um buraco no chão e está perdida em baixo do assoalho da casa e, de tempos em tempos, late e gera sempre um desespero, sempre lembra que está ali e precisa ser salva.
O fato de Daniel não conseguir salvar Richi acirra crescentemente o ânimo entre eles. Se ainda não fosse o bastante, a ex-mulher do empresário se vinga do casal os atormentando com a mesmas ligações mudas de que era vítima anteriormente. O confronto de egos, a desconfiança, o desconforto geral constante e permanentemente trazido à superfície: eis o inferno que a vida do jovem casal se tornou após o acidente.
Ambos já estavam em seus limites e desistindo um do outro. Esse embate só é levado a cabo quando Valeria resolve por si mesma salvar a cachorrinha. O resultado é um drástico agravamento de sua situação. Nessa contexto de desespero, finalmente Daniel salva a cadelinha. Só aí, em meio a desgraça, surge um pequeno raio de esperança para que consigam amadurecer seu relacionamento e findar suas antigas contradições.
El Chivo
A personagem que nos é apresentada durante as outras duas histórias e que é trabalhosamente definida por ações e não diálogos. Seu passado de frustrações e desencantos o tornou um homem completamente à deriva na vida. Ele vi quase como mendigo, puxando sua carroça, cercado de cachorros e esporadicamente trabalhando como matador de aluguel.
Esse homem completamente largado na vida, no entanto, já foi um grande idealista comunista. Abandonou a família para militar em um grupo revolucionário e, como dirá depois, pretendia só retornar quando tivesse ajudado a criar um mundo justo e feliz, porém a revolução não veio e o que conseguiu foi passar duas décadas na prisão.
Sua vontade de transformação cedeu lugar à fútil revanche contra certos membros da classe alta, suas esperanças no futuro ao agudo, porém frouxo sonho de ter sua família de volta. Mesmo nessa situação desesperançada, El Chivo já demostrava, então, uma sombra do seu velho ímpeto de transformação, da sua força de caráter e da insatisfação com a vida que exteriormente se impunha à ele. O momento de assumir as rédeas do próprio destino se mostrava em um horizonte distante.
O ex-guerrilheiro mostrava já alguma resistência a continuar mantando meramente por dinheiro, mas sempre acabava voltando a ceder diante do mais fácil; sua filosofia de vida é explicitada ao justificar o não uso de óculos dizendo “se Deus não quis que eu enxergasse bem, então aceito esse destino”. O máximo de sua coragem diante da vida era espreitar a filha que não sabia de sua existência, mas mesmo essa ação já era tão tímida que só poderia definhar. Só mesmo após o acidente, ele conseguirá se impor diante da vida.
No momento em que cuida do que seria seu último assassinato, El Chivo testemunha o acidente violento e corre até o local com uma intenção mista e duvidosa de ajudar e pilhar, entretanto, lá encontra Cofi bastante machucado e resolve socorre-lo, enquanto a ambulância ajuda os humanos. Nos dias que se seguem, cuida do cão com todo zelo. Após se recuperar, no entanto, o cachorro causará gravíssimo transtorno na vida de seu novo dono.
El Chivo se enfurece e pensa em matar Cofi. Curiosamente se apieda do animal e parece ver nele algum reflexo de sua própria condição, o condicionamento dos dois os havia conduzido a escravidão. Entrementes, El Chivo é um homem, ele possui o poder de escolher seu destino e mudar sua história. O animal não tem culpa por seu atos, mas o humano é responsável por si e pelo resultado de suas ações: não é possível se contentar em se esconder atrás de seus traumas e frustrações, não dá para continuar a vender vidas.
Amores realizáveis.
O conturbado trajeto do cão Cofi ao escapar de casa é o caminho da reconciliação dos protagonistas com eles mesmo para que assim possam experimentar o amor mais verdadeiro, mais maduro e sábio pelos outros. É verdade que é um caminho de aprendizado extremamente doloroso, mas, ao final, é nessa dor permanente que se libertam da vida anestesiada e se deparam com um novo caminho tão assuntador quanto liberto.
Octavio que perde todos os seus amores e só quando a última oportunidade se fecha, a mais desejada é que ele compreende seus equívocos. Foi Cofi seu estímulo para lutar, para romper com a situação falsa em que vivia, mas foi só com a dor que ele aprendeu a valorizar verdadeiramente seus amores e não enxergar neles apensa meios para si.
A situação de Valeria não é de todo diferente. Sua vida de modelo a havia acostumado com o 'glamour', com a onipotência e nunca pôde vislumbrar na vida outro objetivo que não o de sustentar esse estilo de vida. É esse o motivo de tão rapidamente sua relação com Daniel balançar quando surgem os problemas. Por outro lado, essa fragilidade poderia passar facilmente desapercebida por ambos, caso Richi não agravasse constantemente a tensão, não colocasse as dificuldades em esposição. Após a situação chegar ao insustentável e resultar em tragédia, a cadelinha é liberta e o casal supera seus vícios anteriores vendo alguma luz no futuro, unidos.
A liberdade física de Richi é a materialização da liberdade espiritual de Daniel e Valeria.
Por último e mais agravada é a situação inicial de El Chivo. Sua retomada da vida, do futuro, atravessa a reconciliação com um passado de erros antigos, um passado que já se esqueceu dele. Junto com Cofi, arriscará agir por si e deixar sua possível vítima diante de seu próprio problema também. O momento em que abandona sua vida antiga forma uma imponente imagem. Assumir para o último membro da sua família, sua filha, seus erros será o início de sua valentia e o fim de sua covardia.