Onde está o patriotismo, afinal?


Enquanto relia o artigo de Mace Windu, O Que é Patriotismo, me senti profundamente estimulado a também escrever sobre o que para mim é o patriotismo. E em especial no caso brasileiro esse assunto parece mais desafiante, afinal não tenho notícias de outro povo com tamanha baixo auto-estima. Ao mesmo tempo, analisando historicamente o nosso país veremos momentos de grandes sobressaltos patrióticos. Mas será mesmo que poderíamos enaltecer um suposto patriotismo na época de Getúlio Vargas ou, ainda mais recentemente, na Ditadura Militar?

Em primeiro lugar, acredito que é necessário fazer uma distinção que Mace Windu não fez explicitamente: pseudopatriotismo e patriotismo são coisas absolutamente diferentes! Afinal, o culto a bandeira nacional, ao hino ou mesmo aos esportistas nacionais são, de fato, uma espécie de patriotismo. Ou seja, de antemão podemos concluir que aquele culto alienado e acrítico dirigido ao próprio país, que foi implantado no Brasil nessas duas ocasiões realmente era, e com toda certeza, um tipo de patriotismo.

E essa idolatria caricatural não é exclusiva e nem majoritariamente brasileira, afinal no caso francês e principalmente estadunidense a ridicularidade atingiu o patamar de doença social. Não obstante, nesses países também há algo que transcende o amor cego pela nação. Isto é, o verdadeiro patriotismo. Esse segundo sentimento diferencia-se muito do primeiro, principalmente por sua abrangência, que é muito mais ampla. Com isso não quero dizer que o culto aos símbolos nacionais seja ilegítimo, mas que, como já o disse Mace Windu, o amor à nação vai muito além dessa pequena demonstração de afeto e inclui o respeito e admiração pela língua, cultura e principalmente ao povo.

Nos casos já citados de Vargas e dos militares o que se via não era de forma alguma um amor à nação, na verdade, era, no máximo, uma idolatria a um número bem restrito de símbolos nacionais e um culto ao crescimento da economia sempre relegando a segundo plano o que de fato é um país, ou seja, o seu povo. Afinal, como se pode amar um país sem ter correspondente afeto ao seu povo? Será mesmo interessante que se cultue apenas uma bandeira, uma música e um território? E esse parece de fato ter sido o pensamento de muitos dos nossos governantes passados que se importaram tão somente em trazer capitais para as mãos de uma pequena elite de pessoas, quase transnacionais, e deixaram de lado as grandes massas que verdadeiramente são o Brasil.

Olhando para as massas de ontem ou de hoje não será menor a nossa tristeza ao constatar que a idéia do nacionalismo também é completamente estranha a elas, afinal como já dizia Marx “as idéias dominantes de uma época sempre foram as idéias da classe dominante”. E a classe dominante atual não é melhor que as do passado e talvez seja até pior, pois antes ainda se revestiam do que acreditavam ser, ou pelo menos tentavam fazer parecer, o amor ao Brasil. Nos dias de hoje até mesmo essa máscara já caiu e tanto para a classe política como para a empresarial a simples menção a idéia de patriotismo e nacionalismo já soa um tanto ridícula e herética. Aos políticos de nossa época a preservação da cultura brasileira ou a reverência a nação não passam de uma piada de mau gosto se contraposta ao beneficio material imediato.

Muitas vezes constatando essa situação voltamos nossas esperanças para a “classe intelectual” e com uma lógica coerente, afinal quem melhor do que a elite pensante do país para perceber que estamos todos no mesmo barco e que se pisamos sobre o nosso povo afundaremos juntamente a ele. Contudo, mesmo no seio desses que nos dão esperança ainda há os que, envolvidos nos torpes e mesquinhos interesses da classe dominante, voltam-se contra o seu próprio povo e fecham um cárcere cruel, que ajuda a criar e recriar a desigualdade e o desamor no país. Há também aqueles que entram no vicioso ciclo da crítica infértil, sem nada fazer para alterar essa realidade e estimulando a cultura da baixa auto-estima, nas palavras de Windu, “vale lembrar que reivindicar é muito diferente de reclamar. O que vemos é uma onda crescente de reclamações do país, sem a reivindicação do mesmo”.

E dito isso, voltamos praticamente a estaca zero, afinal no Brasil de hoje é dificílimo encontrar alguém com consciência do que seja uma nação e qual a importância de nos reconhecermos como tal. Como vimos pouquíssimos mesmo entre os intelectuais se encontram em condições de refletir mais profundamente sobre o tema e isso porque não importando a classe, a erudição ou a boa vontade, estamos todos dentro de uma mesma cultura na qual é costume desvalorizar o que é local e super valorizar o externo. Como se não bastasse, não temos sequer uma identidade bem definida que possa nos auto-referenciar e que nos ajude a sair dessa esquizofrênica prática da reclamação daquilo do qual nos mesmos fazemos parte. Mace Windu também faz uma crítica a falta de visão coletiva: “aliás, não sabemos nem em que país estamos para elogiar ou reclamar dele”.

E essa incapacidade de perceber que todos somos parte de um mesmo conjunto de onde vem? Muitos responderam prontamente que é conseqüência da pluralidade cultural e da miscigenação, mas para mim essa análise é, no mínimo, ingênua e um tanto preconceituosa. O Brasil tem sim sua própria cultura e identidade. Creio que a questão esteja, em parte, além das fronteiras nacionais e seja conseqüência da filosofia individualista do nosso próprio sistema de produção, somada ao secular esforço de alienação das coletividades que vem sendo feito por nossa elite econômica e política. Enquanto lia O que é patriotismo, ficou muito clara para mim a oposição, quase em forma de manifesto, que o autor faz a essa conduta: “cada um por si (...) Mudar essa mentalidade é essencial para a melhoria do país”.

A solução já prevista por Windu não é fundamentalmente diferente da que eu tenho a propor, afinal é vital para a nossa nação que cada um faça a sua parte para a construção de um país mais justo, crítico e consciente de si próprio. Exemplos históricos do que é o patriotismo e consciência coletiva não nos faltam na história e poderíamos citar o povo inglês na primeira guerra mundial, que queimava o dinheiro falso injetado no país pelos inimigos e, aparentemente prejudicando a si próprios, beneficiavam a coletividade em prol de um objetivo menos imediato, contudo maior. Esse caso ilustra perfeitamente o que Silvio Campos quis dizer com: “ser patriota é conseguir enxergar que o dinheiro pode ficar para segundo plano”. E, sendo bastante pragmático, aqueles que aderiram a esse altruísmo não fizeram outra coisa que não garantir a segurança para si próprios e para seu filhos na posterior Inglaterra.

Outra passagem interessantíssima de Windu que eu não poderia deixar de citar é: “claro que vários problemas que enfrentamos nos dias de hoje vem de cima para baixo, mas o principal é a cultura que o Brasil adotou”. Acredito que aqui ele lançou questões de fundamental relevância: qual é a cultura que o Brasil adotou? De onde ele a adotou? Ao que tudo indica, só podemos alcançar essas respostas se analisarmos criticamente a nossa história e buscarmos nossa identidade em nossas raízes. O patriotismo é efetuado não apenas nas grandes manifestações, mas também, e principalmente, nos nossos atos de cada dia onde escolhemos entre nossa cultura ou a estrangeira; entre jogar lixo no chão ou na lixeira; entre ajudar nossos compatriotas ou pisar sobre eles, ignorando-os ou marginalizando-os; entre protestar contra as injustiças políticas e econômicas ou calar-se; enfim, entre atitudes construtivas ou destrutivas. Ser bom cidadão é ser patriota!

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