Estudo Sociologico da Discografia do Megadeth

Definição de Metal

Estilo definitivamente focado em harmonias de duas guitarras, riffs* agressivos, poderosos porém claros vocais (o que seria alterado na década de 90 com as chamadas Extreme Metal Bands), dando ênfase a toda a gama de tons que qualquer instrumento ou a voz humana podem produzir. Diferencia-se do rock, ou dele é considerado um ramo, ao adicionar mais teatralidade nas performances e distorção nos instrumentos. Duas origens ou marcos zero para o Metal são apontados, com controvérsias: a canção Born to Be Wild, do Steppenwolf e o primeiro álbum da banda Black Sabbath. As datas são bem próximas: 1968 e 1970, respectivamente. Apesar de figurarem como os inventores do gênero as duas bandas migraram para sons alternativos em seus trabalhos seguintes. O Black Sabbath existe até hoje com a mesma formação (são 38 anos na estrada).

(*) RIFF – "Frase melódica" da canção, repetida inúmeras vezes durante a execução da música. É o acompanhamento natural ou parte do acompanhamento natural dos solos.

Definição de Heavy Metal ou Metal Tradicional

Comumente denominado "True Metal", de vez em quando "Classic" ou apenas "Heavy Metal", é o precursor. A proliferação do Metal variado como ele é hoje não se deu senão depois de uma grande onda True no meio dos anos 80. Até esse ponto tudo que era banda só podia ser Heavy Metal. Sons mais "duros" e realmente rápidos eram difíceis de se encontrar por aqui. As bandas mais tradicionais do Metal Tradicional sem dúvida foram Iron Maiden, Judas Priest e Manowar, que vieram a inspirar dezenas senão centenas de outras de alcance nada menos que mundial. A definição para o que eles tocavam pode ser considerada a mesma da Definição de Metal, afinal esta é a raiz do gênero.

"Barbarian" e "Metal" eram termos comuns nos títulos das músicas. A metalingüística [falar do próprio tema pela arte produzida, ou seja, o Metal falando dele mesmo] estava em alta. Uma exceção para tal abundância era a pioneira porém consideravelmente obscura banda Manilla Road, inauguradores de um subgênero do True que inclui nomes como Omen e Ironsword. Usam uma produção crua e algumas vezes vozes rudes. Esse último grupo era pequeno mas respeitado dentro do universo True.

Mais um lado da vertente "conservadora" é a NWOBHM (New Wave of British Heavy Metal), a Nova Onda de Metal Tradicional Britânico, do início da década de 80. Um verdadeiro pipoco de bandas, quase todas da própria Inglaterra (sem contar, portanto, outras congregações do Reino Unido ou mesmo alguns grupos dos Estados Unidos da América), como Iron Maiden, Judas Priest, ou mesmo Def Leppard, realmente populares (daí o nome "onda"). Ainda há bandas do NWOBHM ativas e outras mais recentes que seguem as mesmas tendências (não são fáceis de definir, pois costumam ser só uma variação "rockeira" daquele primeiro metal).

Podemos situar, logo aqui, algumas linhas que estão entre o Tradicional e o Power ou o Tradicional e o Doom ou Thrash. Apesar de divagar sobre isso parecer meio embaçado e condutor ao erro, devemos dizer que mesmo as mais frágeis fronteiras podem ser subdivididas. Na verdade, atualmente (sempre falando de bandas de renome mundial), pode-se destacar três ou quatro bandas que se aventuram por esses cruzamentos do Heavy com outro gênero do Metal, geralmente mais de um ao mesmo tempo. O carimbo final, o rótulo dado a essa banda, fica por conta do ouvinte, ou em última análise dos próprios integrantes da trupe. Dica preciosa: se um grupo devota uma ou mais canções para dizer como o metal é legal, você pode ter razoável certeza de que eles próprios se consideram True Metallers.

Pioneiros: Iron Maiden, Black Sabbath, Judas Priest, Manilla Road. Notáveis da geração*: Manowar, Omen, Ironsword, Wizard, Pegazus, Twisted Tower Dire, The Lord Weird Slough Feg, Cage, Primal Fear [que se misturou muito com estilos não-metal], Steel Attack, Paragon, Skullview, Battleroar, Running Wild, Cauldron Born, Tarot e Hanker, dentre outros.

(*) Geração - digamos que não seja possível dividir um gênero temporalmente, mas a tendência é que cada vez menos bandas sigam os parâmetros iniciais do Heavy Metal.

Definição de Thrash Metal

Pegou mesmo entre meados dos anos 80 e ainda o começo da década seguinte, com um vasto contingente de bandas do estilo atuando como um verdadeiro relâmpago: sumiram de uma hora para a outra. Sua invenção é atribuída a Metallica, Megadeth, Slayer e Anthrax, os Quatro Grandes da era. A popularidade de nomes tão pesados atraiu muitas outras de menor porém ainda robusto porte, numa curiosa tendência facilmente perceptível nas ruas de San Francisco, sozinha a cidade-natal de talentos como Forbidden, Dark Angel, Exodus e Testament. Juntas, as quatro primeiras e as quatro últimas definiram o tipo de som desse metal, atraindo - como sempre num efeito dominó - inúmeras cópias. O Thrash é basicamente a composição de riffs rápidos, "instáveis" e agressivos. Sempre usaram a aparelhagem mais avançada disponível para produzir faixas como uma metralhadora queima o cartucho. É considerada a música sintomática da frustração urbana, o "primo branco" do rap, embora não guarde relações – é uma evolução técnica, agregada ao Metal, do movimento Punk. Vocais são uma variedade de gritos rudes, mas não é uma regra obrigatória: Forbidden, Heathen e Agent Steel usavam cantores melódicos. Bandas como Metallica e Megadeth foram se tornando melodiosas aos poucos.

O declínio do Thrash coincide com a emergência do Death Metal no final dos anos 80, fato que fez com que aquele estilo parecesse mais um "lugar-comum". O que foi dito para o True é válido também aqui: apesar de um ou outro grupo reaparecer trabalhando o gênero (especialmente no Velho Mundo), o normal é que o número se reduza com o tempo. Na verdade as bandas, espertas do jeito que o mercado exige, não são extintas, apenas se "repaginam", transformando seus estilos e vendendo ainda mais com seu novo material. Nos anos 2000 o ideal é o "Metal Crossover", que mistura o Thrash a inumeráveis outras tendências e viram sucesso de público.

Era reconhecido também por "Speed Metal" para bandas ultra-rápidas, particularmente Megadeth, mas atualmente o termo seria entendido de forma equivocada, já que é mais empregado para bandas velozes do conceitualmente distante Power Metal.

Pioneiros: Metallica, Slayer, Megadeth, Anthrax, Sodom. Notáveis da geração: Forbidden, Testament, Destruction, Heathen, Agent Steel, Devastation, Dark Angel, Death Angel e Onslaught.

A Moda Metaleira

Jaquetas de couro, tênis de basquete ou botas de motociclista, adereços baseados no uniforme militar, jeans azul ou negra. Essa é ou ao menos era a composição básica de um headbanger (pessoa que balança a cabeça, o passo de dança mais executado pelos metaleiros nos shows), altamente influenciada pelo figurino de Rob Halford, líder do Judas Priest, a partir de 1978. Iron Maiden e Motörhead muito fizeram para expandir e fixar essa body art.

As raízes da Estética do Metal podem ser consideradas a convergência das estéticas Punk, Gótica (especialmente as mulheres), militar e inúmeras outras (influências difusas – cada gênero e cada banda procurava se diferenciar visualmente). A razão da inclusão de trajes de milico em uma cultura eminentemente contestadora, muitas vezes contra o Estado e o exército, se relaciona à Guerra do Vietnã e ao impacto causado na opinião pública e nos jovens de todas as nações, mas principalmente nos EUA. Os integrantes de bandas Thrash, por exemplo, são comumente vistos ostentando cintos de cartuchos de bala.

Em geral, ocorre uma valorização da independência e da masculinidade e a rejeição de padrões metrossexuais e consumistas. Abaixo, descrições mais detalhadas em tópicos:

§Camisas de bandas – é a "porção mínima" do uniforme metaleiro, praticamente obrigatória em eventos relacionados. Quase todas as bandas lançam suas camisetas na cor preta. Apenas grupos altamente consagrados apostam em outras cores, normalmente o branco, como crítica justamente à tendência esmagadora ao uso do preto (na sala temos o Renato e sua camisa surrada do Metallica como exemplo-mor de banda de renome que lança camisas brancas!). A composição natural é: frente com logotipo da banda e uma imagem, que pode ser a mais típica da banda, a capa de um CD ou uma arte qualquer; atrás, somente o logotipo ou, quando muito, a track list do álbum tematizado na frente.

§Outras camisas – É aceito que o metaleiro apareça com camisas que não a de uma banda, desde que associadas ao universo do Heavy Metal de algum modo: marcas de bebida (Jack Daniel's, Budweiser, Heineken), marcas de cigarro, tributo a motociclistas ou personagens dark de HQs ou do Cinema ("O Massacre da Serra Elétrica"), tiradas bem-humoradas e obscenidades. Mas atenção: respeite a cor preta!

§Alternativas às camisas – Em último caso, para uma vestimenta fora dessas categorias ser aprovada, somente sendo um dos seguintes casos: camiseta cavada (preta, por favor), camisa social (de preferência, escura, sóbria) ou mesmo sem camisa (dependendo dos gostos pessoais e da localização geográfica).

§Jaquetas – De couro, pretas; jeans, azul-escuras; militares (verde-marrons ou pretas). No Thrash as mangas costumam ser cortadas.

§Calças – Relacionadas ao Exército; de couro e pretas; ou jeans, pretas ou azuis. Não são usuais as calças largas, folgadas ou frouxas. Bermudões negros, cinzas ou marrons são uma alternativa viável.

§Cabelos – O mais freqüente é o estilo longo e soltos, de modo a permitir uma boa performance no headbanging e transmitir o inconformismo social inerente aos partidários da cultura metaleira. Há variantes dessa visão clássica, no entanto:

1.Power Metal – Cabelos longos e encaracolados, lembrando as perucas da nobreza na Idade Média;
2.Black & Gothic Metal – Cabelos extra-crescidos e tingidos de tons fúnebres como o roxo. O look típico do gênero feminino.
3.Thrash Metal – Alguns subgrupos adoradores do Thrash adotam o corte militar (máquina 2.
4.Outros metais – Dreadlocks (inspirados em Rob Zombie e Max Cavaleira do Sepultura).
5.Todos os metais – Uma alternativa para quem não gosta de cultivar a cabeleira é raspar a cabeça totalmente. Ídolos como Rob Halford do Judas Priest e Kerry King do Slayer atestam a validade da escolha.
6.Heavy Metal – Na década de 80 apresentar costeletas era meio-caminho para ser definido como metaleiro.

§Acessórios – Braceletes de spikes para ambos os sexos e maquiagem para a mulher, afora muitos outros.

A respeito da jaqueta de couro e do "poserismo" (o ato de se vestir para parecer metaleiro como prioridade em relação à apreciação do som em si), Dave Mustaine (líder da banda que será descrita abaixo) cunhou os seguintes versos em uma de suas canções: "[ser metaleiro] não é vestir couro para parecer maneiro / pôr spikes para ser descolado / querer mulher do lado o tempo inteiro, / é apenas fazer [metal] rápido, alto e rude" (tradução do Inglês).

Banda Analisada – Megadeth

Em 1981 surgiu um dos maiores ícones musicais de todos os tempos, o Metallica. Após o primeiro CD e algum caminho andado até a segunda produção, o co-letrista e guitarrista da banda, Dave Mustaine, foi mandado embora por problemas com o alcoolismo. Sua vingança seria esquecer os ex-companheiros e formar uma nova banda, mais rápida e pesada que a anterior. As opiniões divergem quanto ao êxito de sua missão, mas Mustaine conseguiu imprimir ao emergente Megadeth (fundado em 1983) um Thrash de primeira linhagem, tão representativo quanto o do Metallica. No Megadeth (que significa "um milhão de mortes"), Dave Mustaine acumulou as funções de autor de praticamente todas as letras, guitarrista e vocalista. Nunca havia cantado na vida. Até hoje é tido como taquara rachada por muitos desafetos e até por admiradores, embora seu estilo seja inegavelmente original.

Tendo completado 24 anos de atividade em 2007, foram contabilizados: 18 trocas de membros (Dave Mustaine é o único integrante fixo), 11 CDs de estúdio, 3 EPs, duas coletâneas em CD, quatro DVDs, 25 milhões de cópias vendidas juntando todas essas mídias, cinco discos de platina consecutivos e sete indicações seguidas ao Grammy na categoria "Melhor Performance de Metal". O CD mais recente é do mês de maio de 2007 e se chama United Abominations (Abominações Unidas).

Durante a década de 80, no auge do movimento Thrash, o Megadeth lançava álbuns de extremo agrado de seu público thrasher, mas a fama internacional definitiva veio em 1992, com Countdown to Extinction (Contagem Regressiva para a Extinção), premiado com o Grammy e listado na Billboard por várias semanas entre os 100 discos mais vendidos. Em 2002 Mustaine dissolveu a banda por problemas gravíssimos no braço esquerdo. Inicialmente, os médicos consultados pelo músico o condenaram à inaptidão para tocar guitarra em nível profissional, sem volta. Depois de intensa terapia, Dave Mustaine, contrariando o diagnóstico dos doutores, se restabeleceu e reativou o Megadeth, com novos parceiros, em novembro de 2004. Foram alguns meses no estúdio até que saísse o décimo trabalho inédito da banda, The System Has Failed (O Sistema Faliu). Era para ser a despedida oficial da banda, mas, como a recepção foi além da esperada, Dave Mustaine decidiu mantê-la. Como é possível verificar pela nomenclatura de três de seus álbuns (logo acima), são recorrentes as letras do Megadeth de cunho político e social. Essa característica será abordada no tópico seguinte e durante a apresentação dos clipes e slides.

Em termos sonoros, a banda se destaca pelos solos – executados alternadamente pelos dois guitarristas –, velozes até para os padrões do Thrash, pelas intrincadas combinações entre os instrumentos (forte influência ao Metal Progressivo), pela força dos refrões e pelo canto ventríloquo de seu líder.

Contexto Social – Origens do Discurso

Fase 1

Década de 80, os últimos anos da Guerra Fria. Na sociedade, começa a aparecer o conceito de yuppie, o novo modelo humano, pragmático, que não luta por grandes causas (geralmente seus pais e avós lutaram), mas trata de seguir os protocolos estritamente necessários para uma carreira estável, o que lhe permite um consumo cultural altamente segmentado. Pode-se dizer que o yuppie é a confirmação da classe média como protagonista na civilização ocidental. É ela que populariza a demanda por bens e serviços de qualidade. Nunca tantas pessoas viveram com tamanho conforto.

A década de 80 também encerra o embrião das preocupações com o meio ambiente. Minorias como os gays, idosos e deficientes recebem os primeiros pacotes de leis de inclusão social. Mulheres e negros, grupos que já tinham razoável histórico de reivindicações atendidas pelo Estado, se reafirmam de vez. Na saúde, o vírus da AIDS se expande.

No campo bélico, a União Soviética, enfraquecida, retira suas tropas do Afeganistão. É o primeiro país que se liberta das amarras comunistas após a adesão ao plano stalinista. Nos outros Estados do Leste Europeu, todos com dificuldades econômicas, insurgências são mal e mal contidas pelas tropas vermelhas. O surgimento de vítimas fatais faz se acirrar a demanda pela democracia nessas nações. O desastre de Chernobyl em 1986 provoca inúmeros manifestos anti-energia nuclear. É de consenso que o maior problema de Estados Unidos e União Soviética doravante consista em se livrar de seus arsenais gigantescos que, se usados, causariam o fim da humanidade.

O desenvolvimento tecnológico e a melhoria na qualidade de vida do cidadão médio nos países capitalistas não escondem as contradições do próprio modelo de capitais, que a despeito de vitorioso não é perfeito: a crise da vida nas cidades, os limbos ideológico, moral e artístico geram pesadas implicações a todos os seres humanos. Filmes como Blade Runner retratam o conceito da Entropia. Segundo esta, todo sistema tende ao à perda contínua e irreversível de energia, que resulta em níveis cada vez mais alarmantes de desordem. As participações nas eleições não-compulsórias se tornam patéticas. Cada vez mais os candidatos são escolhidos pela forma como aparecem na televisão em detrimento de por suas propostas (que aliás são cada vez mais parecidas).

O assassinato de John Lennon, aos moldes de John Kennedy no auge da Guerra Fria, aumentam a tensão quanto à segurança de personalidades internacionais como o então presidente estadunidense Reagan e o Papa João Paulo II, que inclusive é baleado em pleno Vaticano, mas sobrevive. Crimes hediondos como o massacre em escolas começam a surgir em série.

Em suma, como em todas as épocas, os progressos sociais estão intimamente ligados aos novos problemas. As respostas de ontem nada tem a ver com as perguntas de hoje, diz um velho ditado. Quem sabe ele não surgiu nos anos 80? O Megadeth aborda seu tempo criticamente. No CD inaugural, Killing is My Business... ...And Business is Good! (Matar é Meu Negócio... ...E O Negócio é Bom!), Mustaine lembra o matador de aluguel, sujeito que se rende ao capital e ao hedonismo: "It brings me great pleasure / to say my next job is you", ou "Me dá um prazer imenso / dizer que meu próximo trabalho é você". Na música The Skull Beneath The Skin (A Caveira por Trás da Pele) há a descrição do papel contemporâneo da religião: "Religion has been lost", "A religião foi perdida".

O segundo CD da banda, o primeiro engajado politicamente, chama-se Peace Sells... But Who's Buying? (Vende-se Paz... Mas Quem Compra?). No tema-título, Mustaine não fala das guerras de fora, mas da guerra interna cotidiana entre os americanos: os impostos massacrantes, a exploração no trabalho, o individualismo exacerbado, o desrespeito às crenças religiosas e políticas de cada qual, a carência do velho "We the people" de Martin Luther King, a frustração do apego a vias alternativas, o niilismo.

No trabalho seguinte, So Far, So Good... So What! (um trocadilho da Língua Inglesa – a civilização chegou longe mas, até onde se sabe, isso pode não ser tão bom quanto pensávamos), um continuísmo. Em Set The World Afire (Deixando o Mundo em Chamas), Mustaine se mostra atônito com o poder de destruição nuclear: "Red flesh cloud's choking out the morning sky / They said it'd never come, we knew it was a lie" – "Nuvens em vermelho vivo tomam conta do céu diurno / Eles disseram que jamais viriam, sabíamos que era mentira". Já em Anarchy in The U.S.A., o Megadeth faz uma divertida paródia de Anarchy in The UK dos Sex Pistols. Na última faixa, Hook In Mouth (Gancho na Boca), somos comparados a peixes fisgados quando dentro de Estados que controlam a mídia.

FASE 2

Rust in Peace (Apodreça em Paz) é o grande marco que separa Megadeth do Thrash Metal mediano. A maturidade das letras e a consciência política da banda chamam a atenção de todo o mundo. Ajuda muito nesse ganho de status o fato de Dave Mustaine ter parado de beber após considerável período de consumo crônico, além de pela primeira vez a banda não ter demitido nenhum produtor durante as gravações de um CD!

Os tempos já são outros, em alguns aspectos: a década de 90 contempla a aceleração do processo de Globalização, após a confirmação do colapso comunista, a reincidência dos Estados Unidos em infiltrações unilaterais em outros países, momentos tensos no custo do barril de petróleo, o acirramento das discussões sobre a fonte de energia ideal para suceder o petróleo, entre outros acontecimentos.

Maioria das nações obtém promissor crescimento econômico na primeira metade da década, cenário frustrado pela crise que afeta os países emergentes em 1997. A questão israel-palestina se mantém insolúvel. Embaixadas norte-americanas na África são bombardeadas. O terrorismo cresce como nova ameaça ao capitalismo. Dá-se o pontapé inicial aos mega-blocos, responsáveis por integrar economias de continentes inteiros. A moeda Euro é a primeira séria ameaça à hegemonia do dólar. Estados inchados diminuem de tamanho com reformas, chatas porém necessárias. Na Alemanha, a parte oriental, ex-socialista, recebe bilhões de investimento em infra-estrutura. O Japão estagna. Ao mesmo tempo, a China atinge taxas de crescimento da ordem de 10% ao ano. Cuba continua fechada para o mundo. Em muitas realidades subdesenvolvidas a inflação consistiu no grande desafio da década, superado em quase todas. Ocorre o fim do Apartheid na África do Sul. Espalhada geograficamente, uma onda separatista: declaração de independência por parte de porções de países multiétnicos. No México o número de pessoas que cruzam ilegalmente a fronteira com os EUA cresce de maneira assustadora.

Conflitos notórios: a Guerra dos Bálcãs, o Massacre Étnico de Ruanda, a Batalha de Mogadishu (Somália), a Guerra do Golfo, as independências de Kosovo e do Timor Leste. Interessante observar que o tabu da não-agressividade entre dois países democráticos se mantém.

No trabalho, o microcomputador revoluciona a produtividade, reestruturando a rotina do indivíduo dentro e fora do escritório. Na Ciência, formula-se a Teoria das Supercordas, tornando a compreensão do universo algo ainda mais distante do cidadão comum. Ainda na Astronomia e na Física, primeiros planetas extra-solares detectados, projeto da vela solar, lançamento de sondas para mapear planetas do Sistema Solar, acirramento da busca por água, formas de vida primitiva e vida inteligente fora da Terra. Na Biologia, o mapeamento do genoma humano ganha destaque – assim como a decorrente questão da clonagem. A África subsaariana vislumbra índices insuportáveis de infectados pelo HIV, o que reduz a expectativa de vida nesses lugares a níveis inumanos. No campo social, as primeiras uniões civis entre pessoas do mesmo sexo.

No setor midiático, popularização dos reality shows, crise dos quadrinhos americanos, culminando na Morte do Super-Homem e em crossovers, misturas de universos de heróis que tentam prolongar seu sucesso comercial, sem criatividade.

Nessas circunstâncias é que chegam Rust in Peace e mais 4 trabalhos de estúdio do Megadeth. Rust é o CD favorito de 4 em cada 5 fãs de Mustaine e companhia.

Holy Wars... The Punishment Due (Guerras Sagradas... A Punição Devida) é a faixa de abertura de Apodreça em Paz e aborda a Questão Palestina: "The end is near, it's crystal clear / Part of the masterplan / Don't look now to Israel / It might be in your homelands" – "O fim se aproxima, já está óbvio / Parte do nosso destino / Não olhe agora para Israel / Porque pode ser o futuro de sua terra". Dave Mustaine utiliza, na segunda parte da canção, uma perspectiva individual, o que vai repetir muito em músicas que denunciam a atrocidade das guerras. Dawn Patrol é uma referência a um filme de 1930 sobre a Primeira Guerra Mundial e desenha um cenário nefasto para o ser humano: em plena virada do século XX, vivendo entrincheirado. Aficionado pela questão da "amnésia histórica" dos governos, em Hangar 18 Mustaine retoma a problemática de Hook in Mouth, faixa que encerra So Far, So Good (...).

Take No Prisoners é a história de um soldado que foi para o front defender seu país, voltou na cadeira de rodas e não recebeu nenhum reconhecimento do Estado. Rust in Peace... Polaris é o golpe de misericórdia (Polaris é uma ogiva nuclear). "Launch the Polaris, the end doesn't scare us / When will this cease / The warheads will all rust in peace" – "Lance a Polaris, não tememos o fim / Quando isso termina? / Os projéteis vão apodrecer em paz".

O álbum Countdown to Extinction (Contagem Regressiva para a Extinção), de 1992, reflete a preocupação com a extinção sumária de espécies animais e a agressão ao meio ambiente (este foi o ano, também, dos seminários da Eco no Rio de Janeiro). A faixa homônima traz o dado assustador de que a cada hora uma nova espécie é extinta, e o ritmo só aumenta.

Symphony of Destruction (Sinfonia da Destruição) se tornaria, nos anos vindouros, o ícone máximo da banda, por causa de seu videoclipe em preto e branco em que só a bandeira dos Estados Unidos e as chamas são coloridas. Nas letras, o Flautista de Hamelin é evocado. Trata-se de uma alegoria para a sociedade americana atual. Hamelin, no folclore alemão, é uma cidade de repente infestada por ratos na Idade Média. Um músico que tem o dom de hipnotizar os outros ao tocar sua flauta aparece pedindo uma recompensa de uma moeda por cada cabeça de rato que retirar da cidade. O homem atrai todos os roedores para se afogarem no rio. Como não havia podido conservar as cabeças como provas, os habitantes de Hamelin se revelam ingratos e decidem não pagar o acordado. Como vingança, o flautista espera todos os adultos se reunirem na igreja e lança seu feitiço sonoro sobre todas as crianças, trancando-as numa caverna. Ao tomar conhecimento do fato, com medo da flauta mágica, os adultos se mobilizam para erguer quatro grandes muralhas que vedam completamente o acesso à cidade, calculando suprimentos suficientes para jamais precisarem sair de novo. Os maus pagadores e péssimos pais viverão para sempre expiando seus pecados. Para Dave Mustaine, um homem corrompido pelo poder se torna um Flautista de Hamelin, e nós somos seus ratos.

Architecture of Agression vem com uma proposta parecida. Dessa vez é um arquiteto, e não um flautista, que leva uma nação à suposta glória em consonância com a letargia da população, por meio do sangue de outros povos.

Captive Honour (Prisioneiro Digno) simula um julgamento e a condenação do réu à prisão perpétua, cuja eficácia é posta em dúvida. Também se trata de um alerta para a intransigência de países como os EUA na condenação dos ditadores que derruba, ao não permitir que outros países opinem. Ademais, nos versos paira a idéia de que os governantes americanos possuem uma lista e vão se livrando de um nome após o outro, como num jogo, sem escrúpulos. Ressalta-se que um prisioneiro de guerra não tem direito às mesmas condições de confinamento que um preso civil. Não tem nenhum direito, em verdade. As autoridades estadunidenses já promoveram milhões de mortes e nunca sentaram no banco dos réus. Foreclosure of a Dream (O Confisco de um Sonho) é a continuação conceitual de Captive.

Em 1994, o Megadeth lança Youthanasia (palavra inexistente – a junção de "youth", juventude, e "thanasia", que designa morte, ou seja, a eutanásia dos jovens, patrocinada pelo Estado), seu álbum mais longo. A capa do CD é uma dona de casa pendurando bebês no varal com pregadores como se fossem roupas úmidas. A primeira polêmica é A Tout Le Monde (A Todo o Mundo), com estrofe em Francês, cujo clipe é banido do canal MTV sob alegação de "promover o suicídio". Há um novo manifesto contra as armas nucleares, em Black Curtains (Cortinas Negras). Millenium of the Blind (Milênio dos Cegos) é uma pesada crítica ao Cristianismo. Curiosamente, em New World Order (Nova Ordem Mundial), Mustaine trata pejorativamente a era laica, em que a Constituição é a nova Bíblia do indivíduo e o cinismo impera nas relações. Os versos de Victory (Vitória) são uma aula de criatividade: todas as palavras empregadas fazem parte dos títulos das músicas dos CDs passados. Por fim, o principal assunto do CD: Family Tree (Árvore Genealógica) e Youthanasia se debruçam sobre a questão da violência sexual dentro da família e das drogas, que segundo os versos da música que dá nome ao CD movimentam muito mais dinheiro que a educação e, claro, arruínam principalmente os jovens.

Três anos depois, o sétimo CD de estúdio da banda, Cryptic Writings (Entrelinhas), na mesma veia comercial dos dois anteriores, com a exceção de duas ou três faixas. Dessa vez não há nenhuma execução que ataque diretamente as autoridades. O foco continua a ser os jovens: Use The Man (Usa o Homem) fala do abuso de drogas e Have Cool, Will Travel (Não esquenta) do bullying, prática comum de sabotagem de estudantes por outros estudantes, que é encarada como "normal" por pais e educadores. "There's no recess and no rules in the school of life / If you listen very closely you'll see what it's like" – "Não há recesso ou regras na escola da vida / Se ouvisse bem de perto você saberia do que se trata". Estão presentes, ainda, convocações abstratas à revolução, mas entende-se que sejam de ambientação épica e, portanto, não constituem crítica do momento vigente.

Grupos musicais de larga trajetória dificilmente deixam de executar experimentações e de divulgar trabalhos alternativos, por mais que em time que esteja ganhando não se mexa. A razão desse tipo de mudança de rumo – que pode ser temporária ou irreversível, dependendo da banda – não será dissecada aqui. O que é necessário dizer é que o Megadeth se inclui entre tais grupos. Em 1999 chegou ao mercado o CD menos comercial do grupo de Thrash Metal. Risk (Risco) mistura o Heavy Metal ao country rock e a batidas eletrônicas. E despolitiza-se bastante. O disco é, quando muito, filosófico e existencial. Desliga-se do contexto social, talvez porque a própria sociedade tenha se tornado tão complexa e seu estudo tão pesado que um escapismo ocasional é até recomendável. O próprio nome da empreitada, Risk, assumia as chances de o projeto não vingar. Foi uma decepção para o público fanático. Desacreditado já antes da lesão no braço de Dave Mustaine, o Megadeth saía de cena em baixa nos anos 90.

FASE 3

Anos 2000. O terceiro milênio abre, extra-oficialmente, com os atentados do 11 de Setembro nos EUA. O país volta a intervir militarmente em território estrangeiro sem esperar aval das Nações Unidas. Acontecem os resultados eleitorais mais apertados da História. Por falar nisso, nos EUA, o sistema de votação é posto em xeque após falhas na contagem de voto e nos critérios de seleção do presidente (Bush é eleito com menos votos absolutos por ter vencido em mais estados). A América Latina vê ao mesmo tempo ditaduras baratas e socialismo responsável florescerem (Venezuela x Chile). Paralelamente, China e Índia, monstros populacionais e futuras potências econômicas, apresentam as maiores taxas de crescimento do período.

Em 2001, os Estados Unidos da América iniciam sua ofensiva no Afeganistão, contra a Al Qaeda de Bin Laden. Sua morte nunca foi comprovada, mas a operação militar é tida como um sucesso. Em 2003, a Guerra do Iraque é iniciada pelos americanos e intensos debates se seguem na mídia. A verdadeira razão por trás da invasão do Iraque de Saddam Hussein é ocultada sob pífias justificativas por vários anos, até que relatório da ONU divulga que o ditador não escondia as armas químicas alegadas pelo governo americano, mas, claro, poços de petróleo abundam na região. Apesar da divulgação do relatório, a Organização das Nações Unidas, criada para lutar pela paz mundial e igualdade na distribuição de renda dos povos, foi negligente durante todo o conflito, sem contar outros vexames internacionais.

O Tratado de Não-Proliferação Nuclear ganha papel central. A Coréia do Norte e o Irã desenvolvem programas nucleares e sofrem represálias internacionais. Israel e Palestina ainda vivem situação tensa. O Líbano declara independência da Síria e sofre reveses quando terroristas são eleitos neste país. A União Européia acolhe vários novos membros de economias menos vigorosas, não obstante a Turquia é rejeitada. O Islamismo é apontado como a principal causa da recusa. Charges sobre os muçulmanos em um jornal dinamarquês estremecem as relações diplomáticas entre a nação européia e embaixadas islâmicas e reavivam a dicotomia Ocidente X Islamismo.

A curiosidade acerca dos homens-bomba ganha as livrarias dos Estados secularizados. A morte do papa reacende debates reformistas na Igreja Católica. Crenças sem expressão ganham adeptos, o maior exemplo é a Cientologia de Tom Cruise. Superproduções como Senhor dos Anéis e Matrix elevam os efeitos especiais ao nível do sublime, justificando cada vez mais a Sociedade do Espetáculo de Guy Debord, a massa guiada por imagens convincentes de mundos que não existem. Filmes niilistas viram sucesso (Clube da Luta, de 1999, que reverbera nesta década).

Estoura a bolha da Internet em 2000, gerando pânico na Nasdaq, a bolsa das novas tecnologias. O mundo consegue se recuperar do baque e volta a crescer com estabilidade. No entanto, uma nova bolha ameaça a Economia global no fim da década: a dos imóveis estadunidenses. Adquirir a casa própria anda muito fácil para os americanos. A dívida pública do país é a maior do mundo. Esses dois dados, juntos, indicam que a bonança das casas e apartamentos abaixo do preço não durará por muito tempo. E quando os EUA tremem, o mundo inteiro sente as conseqüências. O desenrolar dessa história ainda será verificado.

Várias barreiras alfandegárias vão para o espaço, todavia certas nações de Primeiro Mundo persistem no protecionismo, prática contraditória no fenômeno da Globalização. Os próprios Estados Unidos são acusados de unilateralidade em suas transações comerciais.

Ocorre a legalização de drogas e a proibição do fumo tradicional em vários países, onda principiada no Velho Mundo.

É influenciado, consciente ou inconscientemente, por essa ordem de acontecimentos que o Megadeth entra em nova fase, retoma seu êxito comercial e produz mais 4 CDs. Dave Mustaine rompe contrato com a Capitol Records e não lança o último álbum de inéditas acordado. Após entendimento verbal decide-se pelo lançamento de Capitol Punishment: Megadeth Years (A Punição da Capitol: Os Anos Megadeth), disco com duas faixas inéditas e vários clássicos da banda remasterizados. Dread and The Fugitive Mind (O Pavor e A Mente em Fuga) e Kill The King (Mate o Rei) retomam as temáticas e a sonoridade metálica que precedem o álbum Risk.

No décimo CD, The World Needs a Hero (O Mundo Precisa de um Herói), o niilismo das primeiras letras volta com carga total: "Turn off your conscience / Leave the world outside / Nothing at all can ever make you feel / That anything's so real, so you just disconnect", ou "Abandona a consciência / Deixa o mundo na sua / Nada o faz sentir / Que algo é tão real, então você só se desconecta" (Disconnect, Desconecta-se). "Goodbye a thousand times, goodbye / The thought never crossed my mind / That this would be my last goodbye", ou "Adeus, mil vezes adeus / Pensamento que nunca cruzou minha cabeça / De que esse seria meu último adeus" (1000 Times Goodbye). "And I come from a place where they / Drag your hopes through the mud / Because their own dreams are all dying", ou "E eu venho de um lugar onde eles / Soterram nossas esperanças / Porque seus próprios sonhos estão todos fenecendo" (Promises, Promessas). "We watch as the living all die / Contemplating if we should / Ever open our eyes / If all that we touch / Keeps turning to sand", ou "Assistimos todos morrerem / Contemplando se deveríamos alguma vez / Ter aberto nossos olhos / Se tudo que tocamos / Vira pó" (Losing My Senses, Perdendo Meu Juízo).

À política devolve-se espaço, como na faixa-título, que lembra Dawn Patrol e Symphony of Destruction: "Phantom rule, the hidden jewel, who's really in control? / On puppet strings, a nation swings undermined by moles", ou "O espectro que comanda, o judeu anônimo, quem está realmente no controle? / Em fios de marionete, uma nação dança manipulada por espertalhões". É um questionamento sobre se os israelenses devem mesmo deixar os Estados Unidos definirem sua sorte. Em Retorno ao Hangar 18, Dave afirma que "(...) military intelligence is / Still two words that can't make sense", ou seja, "Inteligência militar / Ainda são duas palavras incoerentes".

The System Has Failed (O Sistema Faliu), de 2004, prioriza a maledicência acerca do sistema judicial norte-americano, acusado de maus-tratos a prisioneiros em Guantánamo e Abu Graib. Blackmail The Universe (Chantagear o Universo) começa o CD com socos no estômago de qualquer ouvinte indiferente aos abusos militares da superpotência mundial: "Betrayal, I peel away the days / Medals are useless. Uncle Sam's forgotten me / I'm not important, no one will ever come / I'll never be found, god get me out of this hell". "Traição, eu perco a conta dos dias / Medalhas são inúteis. O Tio Sam me esqueceu / Eu não sou importante, ninguém jamais virá / Nunca serei achado, Deus me tire desse inferno". E também o fragmento irônico: "The stage is set / Who will be the first to blink? / We can go to war / Remember that 'Vietnam thing'" – "O cenário está pronto / Quem será o primeiro a ignorar? / Nós podemos ir à guerra / É só lembrar aquela história de Vietnã". Mustaine assegura: "The will of good men cannot counter the terrible strain of war", "A vontade dos homens de bem não pode com a terrível tensão da Guerra".

Em Kick The Chair (Chute o Banco dos Réus), a corte americana é tratada como um grande picadeiro, ou melhor, comércio por atacado, com sentenças sempre mentirosas: "Justice means nothing today / Now that the courts are for sale / Pick a crime from the menu, pick a sentence and defend you" – "Justiça não é nada hoje em dia / Agora que as cortes estão à venda / Ache o crime no menu, compre a sentença e se defenda".

Em Truth Be Told (Verdade Seja Dita), todos os seres humanos são vistos como culpados e irremediavelmente condenados pelo caos e violência em que redundou a civilização calcada na razão. Do primeiro crime bíblico (Abel que mata Caim) a Bin Laden e Saddam Hussein, passando por Hitler, o homem sempre ditou verdades tão arrogantes quanto improcedentes.

No mês de maio de 2007 é contado o epílogo (provisório) do Megadeth, chamado United Abominations (Abominações Unidas). Em três anos Mustaine compôs mais uma sorte de letras corrosivas, dessa vez jogando holofotes sobre a passividade do conselho de nações (ricas) que deveria lutar com afinco pela paz e prosperidade mundiais. Washington's Next! (Washington é a Próxima!) não fala da ONU, mas da guerra biológica e do perigo potencial de novos atentados no baluarte da civilização ocidental. Gears of War (Marchas da Guerra) é uma denúncia das limpezas éticas recentes, além de nova bordoada na questão do serviço de inteligência militar (que é uma burrice causadora de mortes): "Smart bombs, precision guided armament / A more sophisticated way to end up dead / Still we search and invent such intelligent weapons / That kill each other like the Gears of War", "Bombas pensantes, arsenal teleguiado de alta precisão / Um jeito mais sofisticado de terminar no caixão / Até hoje pesquisamos e inventamos armas tão inteligentes / Que só servem para uns e outros se matarem, são as Marchas da Guerra".

A principal faixa do CD dispensa maiores apresentações. Em teor de discurso, no prólogo e no desfecho da própria composição, Mustaine injeta vários dados sobre a inoperância das Nações Unidas, tais quais: membros da organização são acusados de crimes sexuais, e a ela nada faz a esse respeito; os cidadãos americanos pagam 22% das taxas de manutenção da ONU de seus bolsos e não recebem melhorias de volta no dia-a-dia; embaixadores em nações paupérrimas vivem como verddeiros ricaços de Manhattan e usufruem imunidade parlamentar enquanto seus concidadãos estão condenados ao mais franco descaso; a OTAN invadiu a Iugoslávia para fazer uma limpeza étnica, a ONU não interveio; os EUA invadiram o Afeganistão após o 11/9, a ONU não participou da invasão nem a condenou; Saddam Hussein violou 17 resoluções de Direitos Humanos, a entidade optou por não enviar seus homens; a mesma ONU deixou os Estados Unidos enviarem suas tropas para o Iraque – qual é a lógica?; a Líbia explodiu uma discoteca em Berlim, matando americanos – onde estava a ONU?

Na mesma música, há uma brincadeira com uma repórter entrando com um furo de reportagem no meio da programação, relatando o fechamento das portas da Organização das Nações Unidas em definitivo. O âncora do jornal solta um risinho e comenta: "Não sei por que todo esse bafafá, afinal de contas eles não faziam nada de portas abertas, faziam?".

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