"O homem n�o fala a linguagem, mas a linguagem fala o homem".
(Heidegger)

Todas as atividades humanas desde os prim�rdios at� os dias atuais foram poss�veis atrav�s de um �nico instrumento. Uma simples ferramenta que qualquer crian�a de dois anos sabe usar. Ela � respons�vel por todo conhecimento, emo��o, m�todo, enfim toda produ��o da sociedade e por ela propriamente dita. Refiro-me, simplesmente, a revolucion�ria linguagem humana.

�Um homem que s� conhece as coisas � um homem sem id�ias. � numa linguagem que se encontram as id�ias�.
(Humanit�s, Alain, p�g. 217, Paris)

Com o dom da comunica��o o ser humano se diferencia por completo dos animais. A simboliza��o que nossa linguagem tr�s nos permite transcender o momento em que vivemos. Diferentemente dos outros seres vivos n�s somos capazes de visitar o passado e antecipar o futuro em nossas mentes. Essa � a intelig�ncia abstrata.

Pensar, falar e trabalhar s�o a ess�ncia humana e � atrav�s dessas atividades que se produz � cultura. Essa pode ser definida como o conjunto dos valores, cren�as, conhecimentos ou teorias que uma sociedade produz ao longo de sua exist�ncia. Considerando que a base da nossa comunidade � a linguagem, que por sua vez � constitu�da de s�mbolos e esses s�o infinitos por defini��o, podemos concluir que as culturas s�o variadas e ilimitadas.

�Todos os meios do esp�rito est�o encerrados na l�ngua e quem n�o refletiu sobre a l�ngua simplesmente n�o refletiu�.
(Propos sur l'�ducation, Alain, LXVI, Paris)

Permanecendo na mesma linha de racioc�nio conclu�mos que o FALAR � o alicerce sobre o qual erguemos nossos conhecimentos, valores e forma de pensar, sendo assim, nossa pr�pria liberdade e individualidade. Nosso idioma � a base ao redor da qual, dialeticamente, nos igualamos e nos diferenciamos uns dos outros.

� tendo esses conceitos em mente que poderemos analisar mais profundamente o famoso 1984, de George Orwell, no qual em um mundo futuro o estado totalit�rio se manteria no poder atrav�s do controle do idioma e da hist�ria. A id�ia dos totalitaristas consistia na implementa��o de um novo idioma, a novil�ngua, que simplifica o idioma a tal ponto em que pensar, se expressar ou agir contra o estado e sua ideologia oficial torna-se imposs�vel.

"Nada favorece mais a escravid�o do que a perda da linguagem"
(Ivonne Bordelois)

Refletindo sobre tudo o que foi discutido at� aqui perceberemos que, de certa forma, a fic��o j� se torna realidade. Afinal, existe um idioma que est� rapidamente se impondo mundo afora. A verdade � que o predom�nio pol�tico da Inglaterra e posteriormente dos Estados Unidos no cen�rio global acarretou uma mundializa��o do idioma ingl�s. O uso da palavra �globaliza��o� seria inadequado tendo em vista a hierarquiza��o do uso da l�ngua. E � justamente nessa hierarquia que se encontra o car�ter mantenedor da atual ordem vigente nacionalmente e internacionalmente.

� importante lembrar que a submiss�o cultural, econ�mica e pol�tica de um povo sobre o outro, o imperialismo, n�o � exclusividade da idade contempor�nea, ainda que atualmente ocorra numa escala nunca vista antes. Pa�ses v�timas do neocolonialismo como China e �ndia viveram um per�odo de total submiss�o h� relativamente pouco tempo atr�s, no entanto, respectivamente, com Mao Tse Tung e Mahatima Gandhi se libertaram. E no �ltimo caso utilizando-se da pol�tica de n�o-viol�ncia o pa�s expulsou os invasores lhes excluindo de duas formas: n�o comprando seus produtos manufaturados e n�o FALANDO o seu idioma.

"As id�ias dominantes de uma �poca sempre foram as id�ias da classe dominante".
(Karl Marx e Fridrich Engels)

As elites globais que formam a gigantesca, e sem fronteiras, na��o estadunidense mundo afora trabalham incessantemente na aliena��o da classe m�dia e baixa no sentido de estabelecer o mito do idioma central. No entanto, a realidade � que as previs�es para o ano de 2025 s�o de que aja 1,561 bilh�o falante de chin�s, 1,3 bilh�o de falante de l�nguas latinas, 1,048 bilh�o falante de pa�ses de l�ngua inglesa. Sendo assim, da mesma forma que o franc�s foi no passado, e o ingl�s � hoje, � prov�vel que o chin�s seja nossa pr�xima �novil�ngua�.

Naturalmente seguindo uma lei de �a��o e rea��o� surgem pelo mundo rea��es entre as quais podemos citar o multiculturalismo, a ascens�o do esperanto (ser� mencionado mais � frente), a francofonia e pan-hispanismo. Esse �ltimo atinge o seio da sociedade estadunidense e est� entre os muitos problemas levados pelos imigrantes ilegais. No Brasil, um dos movimentos mais relevantes na defesa do idioma e da cultura nacional � o MNDLP (Movimento Nacional em Defesa da L�ngua Portuguesa).

�A L�ngua � a mais viva express�o da nacionalidade. Como havemos de querer que respeitem a nossa nacionalidade, se somos os primeiros a descuidar daquilo que exprime e representa o idioma p�trio?�.
(Napole�o Mendes de Almeida).

Al�m da autonomia, liberdade e prote��o que o idioma nacional tr�s a seus falantes tamb�m deve se destacar a import�ncia humana da preserva��o das diversas l�nguas tanto para preserva��o das culturas quanto para a preserva��o da hist�ria dos povos. A l�ngua portuguesa ter� 285 milh�es de falantes no ano de 2025 e se preserva como uma das l�nguas mais belas e expressivas no mundo.

Uma das mais significativas e nobres tentativas no auxilio aos diferentes povos, de diferentes culturas e idiomas a se relacionarem � o Esperanto. Idioma criado na Pol�nia h� mais de 100 anos e que desenvolveu uma vida pr�pria se tornando atual e t�o vivo quanto os idiomas nacionais. Mas ele tem uma grande vantagem em rela��o a qualquer outra pretensa �l�ngua internacional�: Ele � neutro. Portanto, n�o tr�s em si impl�citos valores de ordem religiosa, pol�tica ou cultural, sendo assim, uma grande esperan�a para os humanistas.

�Para as elites planet�rias, o ingl�s seria a l�ngua da �comunica��o internacional�. Contra essa miragem ideol�gica, � preciso construir um mundo poliglota�.
(Bernard Cassen).

Tamb�m � importante registrar que o esperanto n�o tem o objetivo de ser a l�ngua de todos os povos, mas sim de ser uma segunda l�ngua que ajude na comunica��o entre pessoas de todas as parte do mundo. A Cidadania que se ganha ao aprender o esperanto � um pr�mio que nem um outro idioma pode nos dar: � o de voluntariamente se tornar um cidad�o do mundo, consciente e participativo na contru��o de um mundo multicultural e livre.

"As rela��es existentes entre as palavras s�o, ao mesmo tempo, espelho e modelo de nossas pr�prias rela��es com o universo".
(Ivonne Bordelois)

Sesshoumaru

Bibliografia:
(Maria L. A. Aranha e Maria H.P Martins, Filosofando- introdu��o � filosofia,S�o Paulo, 2002)
(Ivonne Bordelois,A palavra amea�ada, Editora Vieira & Lent, Rio de Janeiro, 2005)
(Yves Lacoste, A Geopol�tica do Ingl�s, Par�bola, S�o Paulo, 2005)
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