SOCIEDADE

Artigo: A Cultura de aparências

As gerações mais jovens têm sido muito criticadas pela busca do prazer imediato, por desejarem resultados rápidos, pela superficialidade de seus envolvimentos, pela prática de relacionamentos “descartáveis” e pela preocupação excessiva em “parecer” e “aparecer”, ao invés de ser. Estes comportamentos preocupam porque revelam a perda de valores importantes como solidariedade, afetividade, respeito à lei e à autoridade, consideração pelo outro, fazer sacrifícios para a conquista de seus objetivos, etc, que tanto foram referência para as gerações passadas e que agora parecem esquecidas pelas gerações atuais.

Os desapegos afetivos, a urgência do prazer e a pressa do sucesso levam com freqüência a caminhos perigosos e ilusórios. Em parte, isto contribui para o envolvimento dos jovens com drogas, violência e crimes de vários tipos.

Sempre espanta ver adolescentes e jovens adultos de classe média, que freqüentam bons colégios e universidades, envolvidos com tráfego de drogas, serviços ilícitos ou associados a quadrilhas. E isto não tem acontecido poucas vezes. Os pais e responsáveis, hoje mais do que nunca, precisam estar presentes e atentos, participando da vida dos filhos e dando exemplos.

O que ocorre é uma mudança de valores. Muitas vezes até a inversão desses. Mudanças na economia, descobertas na ciência, novas tecnologias sempre provocam alterações nos padrões de comportamento. A pílula anticoncepcional, comercializada na década de sessenta, é um dos exemplos recentes mais emblemáticos. Provocou uma verdadeira revolução nos costumes e, em especial, nas relações afetivas e sexuais. O que, originalmente deveria ser uma forma de diminuir o crescimento mundial acabou por ser uma espécie de "independência" da mulher, que acabou por virar, em alguns níveis, motivo de perda de valores, como se a liberdade fosse poder aproveitar a vida do jeito que bem entender.

Hoje vivemos o apogeu do consumo, com sofisticados produtos que a indústria, a tecnologia e o conhecimento colocam no mercado, fazendo tudo parecer velho em muito pouco tempo. O marketing se vale dos conhecimentos da psicologia social, da antropologia, das pesquisas de comportamento, para seduzir, instigar e criar necessidades constantes. As pessoas, parece para mim, não conseguem se satisfazer apenas com aquilo que têm, mas sempre anseiam mais, não por querer algo mais na vida ou por necessidade, mas simplesmente para mostrar ao mundo que ele "evolui" junto e que não deve ser esquecido pela sociedade. Por exemplo, imagine se as pessoas não pudessem mostrar o que compram, será que elas comprarim aquele produto mesmo assim? Sem poder exibi-lo?

Os orçamentos e ganhos parecem se pulverizar diante de tantas necessidades e obrigações, deixando os pais cada vez mais tempo fora de casa, trabalhando para ganhar mais dinheiro. Tudo isto afeta as famílias, as relações humanas e o comportamento de um modo geral.

Os relacionamentos se superficializaram com o crescimento da importância das coisas materiais. Falta tempo para o abraço, para a conversa, para enraizar as relações familiares e cultivar as amizades. Falta tempo para as coisas "pequenas" da vida que realmente fazem a vida ser o que ela é.

Por outro lado, há também as exigências com a aparência pessoal e com a própria imagem. Pais e filhos precisam parecer felizes, modernos, jovens e bem sucedidos. Os profissionais precisam aparentar competência, ousadia, eficiência...Assim o marketing adentrou a vida pessoal e familiar. É necessário apenas parecer, não precisa ser.

Vivemos em tempo de espetáculo, em que tudo é feito para ser visto pelas outras pessoas. Parecer é importante para quem precisa aparecer. Tudo sem compromisso com a autenticidade.

Na roda viva de tantos acontecimentos e exigências é fácil mergulhar num faz-de-conta. Casais com vidas paralelas e sem interesse em comum e sem tempo para os filhos, tornam-se modelos em grupos sociais; pais (mães) disputam com os(as) filhos(as) a juventude como se tivessem a mesma idade. Assim, “viram” amigos dos filhos e fogem do papel de educá-los, de dar limites, de usar de autoridade, de prepará-los para conviver com a realidade e amadurecer. Não afirmo que os pais devem ser apenas educadores e não devem aproveitar a vida, mas acredito que muitas responsabilidades que cabem aos pais estão sendo deixadas de lado, e cada vez mais vemos pais indo para festas e esquecendo de conversar com os seus filhos.

Para estas famílias, educar vira tarefa da escola e os problemas reais são empurrados com a barriga. Como as relações afetivas são inconsistentes, não servem de referência nem de apoio. Estes jovens imaturos e despreparados são atraídos pelas soluções aparentemente fáceis. E daí surgem muitos problemas que poderiam ser resolvidos dentro de casa, antes de ocorrerem. Muitas vezes, os pais se queixam dos filhos sem se dar conta de que entre o discurso e o exemplo é preciso haver coerência. E os filhos se queixam dos pais sem ouvi-los de maneira decente.

As mudanças são um processo e não invenção de uma geração. Elas apenas eclodem neste ou naquele tempo. Se hoje vivemos assim é porque há alguns anos já caminhamos, sem perceber, nesta direção. Contudo não se pode concluir que evoluir ou mudar seja ruim. O problema está mais na forma como nos adaptamos aos acontecimentos e à crítica que fazemos deles.

Sim, devemos aproveitar a vida, pois ela é única, mas não devemos nos esquecer que temos responsabilidades, que devemos mais ser a parecer. Não desejo falar mal ou bem do estilo de vida dos outros, apenas expressar uma opinião de que as coisas não estão como deveriam ser. Será que tudo tem que ser assim tão rápido? Ser consistência, sem espírito? Eu acho que não.(Mace-Windu, baseado em leituras)

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