DOIS PENSADORES ALEMÃES E UM FOSSO ENTRE ELES

Weber é mais completo que Marx. Marx era dedutivo. Weber indutivo. Para Max Weber, ao contrário de Karl Marx, o Capitalismo não é um inimigo. Ele estuda as relações capitalistas como um biólogo disseca os animais. Sem gosto nem desgosto. Percebeu, em suas investigações, que as economias mais fortes de seu tempo eram as três em que floresceu o Protestantismo: Estados Unidos da América, Alemanha e Inglaterra. Já Marx vê o Capitalismo como um monstro, aspecto desumanizador da existência humana que precisa urgentemente ser abolido. Ele e suas derivações naturais, como a propriedade privada, o desemprego, a competição.

Pensadores do século XX como George Orwell, após o Holocausto e a ascensão comunista, já eram capazes de perceber que havia algo de errado com o Marxismo-Leninismo-Stalinismo russo. Em suas obras 1984 (porque a escreveu em 1948) e Revolução dos Bichos, Orwell põe o Comunismo em pé de igualdade com regime totalitários como o Nazismo alemão e o Fascismo italiano, não sem razão.

Além disso, a obra de Marx mais parece um conto de fadas infantil, uma vez que não há uma preocupação muito grande com o fim (happy end), apenas com o método para atingi-lo (uma ditadura! E depois o Socialismo é dito como um "sistema igualitário"!!). As teorias de Karl Marx não abrangem este ponto: o que será do homem no final, no seu paraíso na Terra? Haverá mesmo a possibilidade de havê-lo? O sistema não colapsará? Não haverá assassinatos nem crises econômicas? Não havendo nada disso, ainda podemos chamar esse ser insosso e autômato pós-ditadura do proletariado de ser humano? Mas tudo não passa de especulação, porque esse fim se mostrou impossível durante a evolução política da humanidade.

Marx é pregresso a Freud. Desconhece as três tópicas que o austríaco inventor da Psicanálise traçou para o ser humano: Consciente (ou Superego, ou ainda Supereu), Inconsciente (Ego ou Eu) e Isso (ou Id). De acordo com a Psicanálise, o ser humano nunca esquece suas experiências. Como a vivência social é traumática, o ser passa por socializações, rituais de inclusão social, bastante sofríveis. Mesmo as informações de que não lembramos podem ser acessadas pelo sistema inconsciente, o ego, e vez ou outra são ejetadas para a superfície, ou seja, para nossa vida cotidiana, refletida no superego (nós, só que censurados, ou seja, apenas "capas" nossas, a metade artificial e polida, sem a qual seria impossível viver gregariamente). O homem é catártico, recalcado. Precisa da ocorrência de tragédias longe de si – mas que tenha a possibilidade de contemplar – para aliviar-se (já ouviu o ditado "Pimenta nos olhos dos outros é refresco"?) ou, se não for possível, de atos repentinos de fúria, de descarrego. Segundo os trabalhos de Freud, maturados no fim do século XIX, é impossível uma sociedade igualitária, pois o ser humano sempre quebrará censuras que lhe são impostas (sempre jogará um pouco das frustrações acumuladas no inconsciente para o plano consciente). Nem a auto-censura pode com o inconsciente! De vez em quando ele ataca. Um fim da história comunista e feliz seria impossível mediante esses parâmetros. Sempre haveria novos problemas, novas tramas, para se resolver. O ser humano é um ser noveleiro: a paz não lhe satisfaz. Ele é naturalmente belicoso, conflituoso. A Biologia e a Psicanálise refutam Karl Marx, como se ele já não o fosse pelas próprias contradições internas de sua obra! Max Weber, um sujeito menos materialista que quis apenas se debruçar sobre aquilo em que sempre vivemos, de uma forma ou de outra, a despeito das mudanças ao longo dos siglos, pôde elaborar tratados muito mais valiosos sobre o homem aqui na Terra. Sobre o Capitalismo, por que não? O Capitalismo é a realidade. É a vida. Marx escrevia para fãs de contos fantásticos, pois pouco do que veio a ditar se tornou factível.

Hoje é quase piada se referir aos conflitos sociais – inerentes ao pobre coitado do homem! – com termos anacrônicos como "luta de classes", "burguesia", "revolução nos meios de produção", "mais-valia". Mudanças sociais profundas implicam em distinções mais complexas entre os blocos sociais, impossibilitam uma "virada de mesa" a essa altura do campeonato e possibilitam ao homem contemporâneo trabalhar menos horas e tê-las cada vez mais regradas de lazer. Acabou a exploração naquele velho sentido. Isso não é dizer que seu chefe não tira aquela casquinha quando pode. Olhos abertos!

Pelo ideário marxista, se ainda se quiser criticá-lo mais, o motor do sistema capitalista é a desigualdade social. Ela seria mantida por meio da alienação, da supracitada mais-valia e da ideologia. Alienação e ideologia, para começo de conversa, podem ser fundidos para fins epistemológicos: os "donos dos meios de produção em geral, as cúpulas dos dirigentes das religiões monoteístas e o Estado", segundo o pensador alemão, manteriam as classes subalternas alijadas do direito de desestabilizar a nova ordem, propagando falseamentos da realidade através de mídia, sempre burguesa. Por isso a classe trabalhadora deveria se unir e derrubar, com o uso da força, toda essa estrutura montada de exploração. A mais-valia, a chance de lucrar cada vez mais pagando sempre a mesma coisa para o empregado, só aumentaria o abismo entre vilões no comando e revoltosos em busca da revolução. Mas, se são esses os três combustíveis do motor capitalista, algo não bate bem: qualquer massa, unida em prol de um ideal ou não, é alienada. No caso, os operários aliciados para combater os donos dos meios não passam de indivíduos alienados. Alienados por outras pessoas, para outros fins, o que não descaracteriza a alienação. Marx distorce a realidade. Põe a verdade do lado de um dos times. Todos os discursos são ideológicos. A linguagem, sabem os filósofos mais modernos, é uma construção por convenção do intelecto humano. Tudo que falamos são mentiras, pois "cadeira" é o mesmo que "chair", apesar de as grafias não terem similaridade alguma. É que aceitamos um contrato fictício para estipular que cadeira é cadeira. Que existe a propriedade privada, o dinheiro, as relações sociais. Não fosse assim seria impossível viver em sociedade. Quando o homem deu por si, já estava tudo formado. É impossível quebrar tudo o que já foi feito. Rousseau foi um filósofo apaixonado, que pregava o retrocesso do homem ao seu estado natural. Mas Marx ultrapassou todos os limites: usou de um método capcioso e da ciência para tentar anular o contrato social! Por causa dos livros deste homem, muito sangue jorrou. O século XX virou um Nilo ou Amazonas de sangue, escorrendo em alta velocidade e sempre reabastecido. O homem só parou quando não conseguia mais tirar o sangue de debaixo das unhas, não conseguia tirar aquele fedor, por mais que lavasse as mãos. Demorou duas Guerras Mundiais e quarenta anos num regime opressor que ocupou a metade geográfica da Terra para perceber que o Estado comunista é o pior de todos: suprime as liberdades mínima do indivíduo e se funda na manipulação histórica, ou seja, na alienação e ideologia mais vis.

A alienação e a ideologia são tão incrustados na alma humana quanto o recalque e a necessidade de diferenciação. E, como já dito, a mais-valia já deu lugar a uma nova sociedade, que não deixa de ser produtiva mas atinge altos níveis de hedonismo. E assim as coisas se mantêm: o motor, desde que entrou em ignição, não parou mais de roncar. Karl Marx passou como uma estrela cadente e não cumpriu seus desígnios. Max Weber, seu compatriota subvalorizado, foi e é muito mais útil sociologicamente. Fica, por fim, uma sugestão de leitura, já que não estamos aqui por acaso: A ÉTICA PROTESTANTE & O ESPÍRITO DO CAPITALISMO, do ditocujo. Bom proveito!

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