DITADURAS TÁCITAS

19 de março de 2008 – modificado em 6 de junho de 2009

Por Ocidental Obscuro
Em colaboração especial para o PortalSagas

Sociologicamente, eu sou produto de várias circunstâncias raras. Proveniente de uma economia periférica, cidade grande, o fato inicial a causar espanto é o pouco apreço por situações que envolvam o ganho de muito dinheiro. É impossível aferir a exatidão da sentença, uma vez que jamais houve contato real com grandes somas de capital sem que fossem estas concessões paternas ou verossimilhantes (é verdade que certa vez efetuei uma venda pela qual recebi em dinheiro vivo – até estremeci). O mercado de trabalho me causa asco. Pode ser que eu padeça de incapacidade de adaptação aos preceitos da concorrência e do individualismo. Ser de uma economia periférica e de uma cidade que excede 1 milhão de habitantes acentua o desejo por amealhar capital em boa quantia. Aparentemente, integro uma chamativa exceção. Não por este aspecto, com certeza, é que hoje me classificaram como “peculiar”, porém o juízo de valor acerca de minha pessoa e de meu comportamento na universidade pública é procedente.

Genericamente, há nos lares de classe média da cidade de Brasília um acentuado planejamento paterno e materno visando à futura independência financeira do filho. Os pré-requisitos incluem estudar em escolas caras e uma das seguintes possibilidades: 1) a insistência da inscrição em cursos pré-vestibular caso a aprovação no único exame de instituição superior pública da cidade não se suceda após o fim regular dos estudos do aluno (o chamado Ensino Médio, cuja idade recomendada de complemento é 17 anos); 2) o ingresso do estudante em faculdade terceirizada, em cursos vistosos como Direito, Administração, Medicina ou Relações Internacionais. Creio que a ocorrência das possibilidades 1 ou 2 dependa fundamentalmente das influências que recaem sobre a percepção do chefe de família (aqui fica patente a figura eminentemente tradicional, em detrimento da recente ascensão feminina), que pode acreditar em um retorno a longo prazo após grande esforço ou na eficiência do próprio mercado de trabalho para lapidar o indivíduo (se o filho concluir mais cedo seus estudos poderá ingressar em um emprego especializado primeiro, e ganhar um salário é sinônimo de força e amadurecimento). Outro fator que afeta a decisão a ser tomada (que pode, ainda, ser em conjunto, envolvendo a opinião do concluinte do Ensino Médio) é o nível intelectual do objeto em questão, o filho. Dizer nível educacional seria equiparar todos aqueles que cursaram boas escolas como igualmente capazes e descartar qualquer aprovação de egressos da rede pública de ensino. Está claro que há diferenças internas indisfarçáveis, e que não é a escola que pré-define a sorte do indivíduo (as melhores escolas sofrem de problemas infra-estruturais intensos que podem ser o tema de uma incursão póstuma neste tipo de instituição na cidade). Em outras palavras, demonstrando-se inteligente o suficiente, há uma maior disposição do pai e da mãe de permitir que o aluno se dedique por mais tempo, sem remuneração e em franca dependência financeira (que implica tantas outras), à tentativa de admissão na universidade pública, que leva o nome da cidade. Caso seja evidente o pouco talento do indivíduo, faz-se o sacrifício de cobrir os estudos daquele por algo em torno de meia década. Os preços cobrados pelas faculdades particulares excedem em muito, em proporcionalidade, o constatado em uma série de países desenvolvidos, o que permite concluir-se que mesmo as famílias de classe média de uma cidade grande em um país periférico perpassem prolongados períodos de escassez monetária.

Outra característica relevante que eu gostaria de enumerar ao lado do planejamento dos estudos e da carreira dos mais novos (o que determina, em última instância, o futuro do país) é o interesse do brasiliense por carros, ou talvez sua posição passiva diante de um mandamento que antecede minha jovem capacidade de análise. O mandamento é “ter um automotor para efetivar seu direito à livre circulação”, garantido pela Constituição, porém que exige o mérito (ou obrigação, de acordo com a vulgata) do indivíduo, que necessita chegar a uma estabilidade financeira suficiente para adquirir um veículo e mantê-lo abastecido. Tão inexorável ligação ajuda a entender um paradoxo da cidade grande do país periférico: pais usualmente apreciam – em realidade, causá-los-ia transtornos cavalares caso não houvesse – o êxito dos filhos nos testes que concedem a habilitação para conduzir carros aos que já tenham idade suficiente. Simultaneamente, é esta uma prática deveras onerosa para uma família da classe média típica. São pagos em torno de 500 reais até que o filho conclua o complexo processo de obtenção da licença de motorista. Os primeiros anos em que o jovem é agraciado com o documento são ainda mais dispendiosos para seu responsável (aquele que o remunera informalmente, até que possa ser considerado integrante do mercado). A aquisição de um carro exclusivo para uso do aprovado (novo ou usado), as multas obtidas em conduções imprudentes iniciais, os consertos das batidas, o combustível e outra cadeia de más-sortes respondem pela arrecadação, por parte do Estado, de um montante absurdo de dinheiro. Oficialmente, tais despesas não são consideradas impostos, sem embargo os governos prevêem com curiosa precisão a chegada de tais recursos a seus cofres.

Aprisionados pela vontade de ver seus filhos dirigindo (o que talvez seja um sinônimo de autonomia) antes mesmo de haver uma independência financeira usufruída pelos mesmos, ou quem sabe hipnotizados pelo pesado investimento em Publicidade das montadoras e concessionárias de carros, os pais incorrem no erro que queriam evitar: o custeio das ações (costumeiramente erros) dos rebentos. Significa que por uma razoável quantidade de anos aqueles que se tornarem pais terão de, adequando-se ao modo de vida da cidade, financiar integralmente os descendentes, arcando sozinhos com o ônus de movimentar a Economia e manter a subsistência (pouco acima do precário, em termos de bem-estar desejado, que está em um patamar incomensuravelmente mais elevado que o do bem-estar que seria estritamente necessário, ou que era há bastante tempo, de modo que agora já não faz mais sentido evocá-lo) de alguns membros da classe média do meio em questão (a cidade grande).

A Brasília de Niemeyer foi construída de modo que os lugares aonde se precisa ou se gostaria de ir fossem próximos uns dos outros, no caso do uso de carros, ou bastante distantes, à opção de locomoção a pé. O transporte público, teoricamente um substituto perfeito dos carros particulares, é ineficiente. Mais ineficiente do que em uma série de (senão todas as) cidades de menor e maior porte dentro do mesmo país. Há a premência do uso do carro próprio – dada uma falha na distribuição da arrecadação de impostos local, que não se reflete na melhoria ou no funcionamento eficaz da frota do Estado – em detrimento de um combate à anomalia do sistema. Todos esses fatores se conjugam de forma explosiva. Contudo, deixarei as conseqüências pouco palatáveis da postura passiva da massa fora de discussão, ao menos aquelas de proporções respeitáveis. Ou seja: não me interessa problematizar a faceta do transporte falimentar brasiliense que prejudica um grande número de pessoas, as mesmas que perpetuam o prejuízo, mas levantar considerações acerca de uma minoria, a dos que, além da consciência do problema, tendem a não ignorá-lo no cotidiano, pondo em prática atitudes que, normalmente, são malvistas.

Como membro da sociedade, acima auto-classificado como “exceção”, trato eu de – finalmente – explicar meu caso:

Ocupo vaga na universidade pública (uma nata, semi-independente, pois não dependo de exorbitantes recursos para obter o diploma – todavia, seria inadmissível, inaceitável, que eu não fosse aprovado nos exames da Auto-Escola!). Muitos indivíduos posicionados em meu lugar seriam agraciados com um carro zero kilômetro ao serem acometidos por essa estranha conjunção de fatores (aprovação na universidade federal + gasto de meia milha de reais em exames estapafúrdios que servem para ratificar seu status de ser humano, vulgo possuidor de alguma coordenação motora e inteligência espacial mínima que nos levou até onde nos encontramos – alguns diriam: lugar algum). É um costume difícil de ser alterado, mesmo que se tentasse, e não parece ser o caso. Sucede-se que abomino carros, por isso fiz questão de simular uma desaprovação na prova prática, auxiliada, no calendário, por adiamentos de aulas previamente marcadas, o que possibilitou a expiração de meu processo automotivo, que é anual. Consegui a enorme façanha de evitar que meu pai venha a custear novamente tamanhas insanidades, um ônus individual terrível (para mim, se bem-compreendido), que se torna também um peso para toda a sociedade (não preciso ser específico em termos de poluição ambiental, sonora, mortes e estresse crônico). Por mais que tenha tentado um jeito mais simples de escapar do dilema, quem passa pela minha experiência tem bastante noção de que pais inclinados ao amor incondicional por automotores têm a tendência de ignorar argumentos racionais provindos de cidadãos em postura ideológica antagônica a sua.

Por que pessoas como eu são espécies pós-modernas de Édipos-Reis, condenados perpetuamente ao volante, ao invés de furar os olhos? O formato da cidade, que permite o floreio de culturas hegemônicas, e o clima de poder onipresente (a localização próxima à esfera de onde são emitidas todas as decisões de relevância para o país, inclusive as que regulamentam o trânsito nacional) são duas respostas viáveis. A terceira é sem dúvida o golpe fatal na consciência dos que se encontram do meu lado: o fato de a juventude ser tão facilmente tragada pelos valores vigentes, pela coercitividade que não falha. Trata-se da conversão do filho no pai, ou seja, da transformação de uma individualidade libertária em uma adequada ao estado das coisas, vulgo “mundo dos detentores felizes de carros caros”. A ambição, ou simples aversão à idéia de tornarem-se custeadores de outras vidas, provinda dos já sistematizados pais acarreta que o filho oprimido, para se sentir melhor – em harmonia com a sociedade e a cidade –, prime pela identificação com a ética que tanto teme, pela qual nutre tanto ódio, presente simbolicamente nos progenitores: a do consumidor voraz. O filho-padrão candango quer se converter em um consumidor capaz de usufruir mercadorias por enquanto proibidas pelos pais e, principalmente, aquela que estes já puseram a sua disposição, como para estimular ainda mais o apetite, uma forma de castigo tácito com requintes de crueldade (“é isso e nada mais – se quiser ter direito a outras coisas, terá de se espelhar em nosso comportamento”). Chama-se, mais popular e sucintamente, coerção rumo ao mercado de trabalho, o que Guy Debord cita como a “proletarização do mundo inteiro”. O poder hodierno da Publicidade, capacitada que é de convencer por meio de imagens perfeitas criadas em laboratório, amplifica exponencialmente o binômio carro-dinheiro e torna a equação extremamente provável. Eu sou uma exceção que a matemática não está à altura de explicar.

Afora especulações impossíveis de quebras de paradigmas para as quais a humanidade não está preparada (o carro tornou-se um vício, uma extensão do corpo, assim como o trabalho é o mais recente narcótico do urbanóide), há uma conclusão banal nesta dissertação: a cidade de Brasília apresenta graves problemas estruturais que não dizem respeito à renda média de seus moradores. Correção a tempo: o dinheiro, no caso, não é capaz de solucionar tais problemas, apenas de agravá-los, no que está, sim, relacionado, embora de maneira invertida, com as falhas endêmicas. Eu, como grave exceção, sou tratado pejorativamente pelas classes mantenedoras do método de circulação de indivíduos mais empregado na atualidade (usualmente, um carro com 5 assentos, 4 dos quais desocupados). Associa-se, paradoxalmente, tal comportamento ao fato de eu integrar o corpo discente da Universidade de Brasília, o baluarte da “ditadura dos carros”, uma engrenagem essencial do sistema de “motorização continuada dos mais novos dentro da população”.

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