Autor(es): Alan Moore e David Lloyd
Capítulos: 3 Tomos
Uma poderosa e aterradora história sobre a perda de liberdade e cidadania, em um mundo totalitário bem possível, V de Vingança
Permanece como uma das maiores obras dos quadrinhos e o trabalho que revelou ao mundo seus criadores, Alna Moore e David Lloyd.
Encenada em uma Inglaterra de um futuro imaginário que se entregou ao fascismo, esta arrebatadora história captura a natureza sufocante da vida em um estado policial autoritário e a força redentora do espírito humano que se rebela contra essa situação. Obra de surpreendente clareza e inteligência, V de Vingança traz inigualável profundidade de caracterizações e verossimilhança a este audacioso conto de opressão e resistência.
Após um aparente hecatombe nuclear, a Inglaterra mergulha no caos. Depois de algum tempo, a ordem volta a se estabelecer, mas de forma ditatorial. Um governo fascista caça os direitos civis, impõe a censura e rechaça qualquer tentativa de oposição ao que impõe.
O medo profetizado no século XX, do estado vigiando o cidadão e tolhendo sua liberdade de expressão, se materializa nessa Inglaterra onde o estado tem olhos, ouvidos, nariz e dedos.
Como já ocorreu na história real do mundo, nessa ficção os ditadores também têm seus campos de concentração, nos quais os não adequados à nova ordem são interrogados, torturados, mortos e, algumas vezes, submetidos aos mais asquerosos experimentos. Eis que mesmo nesse regime totalitário/fascista uma voz se levanta e ousa proclamar a possibilidade de uma outra forma de vida, na qual não haja regras e leis arbitrárias, em que a liberdade e as individualidades sejam valorizadas e conduzam a um novo cenário, um personagem designado simplesmente "V" é o porta-voz dessa idéia.
Vitima de um dos abomináveis campos de concentração, "V" esteve no fundo do poço, e sem ter mais para onde cair, a única opção era se erguer. Aos poucos, se faz claro que "V", mais que uma pessoa, representa um conceito, uma idéia.
Um dos maiores clássicos das HQs. Todos os amantes dos quadrinhos já sentiram aquela sensação de "tomara que o próximo número chegue logo", pois, ela é a melhor forma de descrever V de Vingança, um texto denso, bem escrito e narrado, com firme construção do final. Uma revista para se ler, respirar fundo e pensar (às vezes em voz alta): caramba, que história...
Esta obra fabulosa já foi editada de três formas distintas: esta minissérie em cinco capítulos coloridos, pela Globo, uma versão encadernada da mesma editora e, pela Via Lettera em dois volumes em preto-e-branco. E, apesar da ausência das cores, esta última edição traz a vantagem de apresentar um material extra no qual são explicadas várias das referencias usadas por Alan Moore e David Lloyd para compor a história.
Concebida para publicação em preto-e-branco, quando de sua publicação nos Estados Unidos a série recebeu cores produzidas pelo próprio Lloyd e Siobhan Dodd. E o resultado ficou maravilhoso, muito melhor que o original. Usando tons pastéis de forma suave, os artistas conseguiram um resultado tão bom, que é difícil imaginar que a obra não tenha sido criada nesse formato.
"V" defende a anarquia pura, a necessidade de destruir o atual e daí se criar um novo. Obviamente, uma sociedade reprimida por um estado totalitário responde rapidamente, se apegando ao conceito como tábua de salvação. Assim, os ideais anarquistas se multiplicam e encontra eco.
Há na série várias seqüências dignas de nota, mas uma em especial merece comentários. Uma menina de aparência amedrontada, que provavelmente nasceu e cresceu vigiada e oprimida pelo sistema, se dá conta de que o sistema de vigilância não está funcionando. Num ato de rebeldia, expressa sua opinião pichando um muro, e a mudança no seu semblante, por se permitir expressar sua opinião, é deveras estimulante.
Mais do que uma mártir, um herói ou um revolucionário, "V" representa o ideal anarquista que prima pela ausência de domínio e pelo direito individual. Ao passear por um mundo fascista fictício, onde todos os aspectos da vida cotidiana são censurados, inclusive os culturais, como livros, músicas, teatro, cinema etc, Alan Moore ao mesmo tempo evidencia a importância da cultura para a manutenção das liberdades individuais e alfineta a ignorância dos detentores do poder. Num sistema em que o estado vigia a liberdade, a pergunta nasce espontaneamente: quem vigia os vigilantes?
Um texto com predições sombrias e visão política clara sobre o papel do estado na vida do cidadão, na mesma linha do livro 1984, de George Orwell. Moore mostra um mundo no qual o estado vigia e oprime o cidadão. Se o texto de Alan Moore é esplendido, o mesmo se pode dizer da arte de David Lloyd. O artista cria uma Londres noir, nostálgica e paradoxalmente futurista. O uso de luz e sombras em doses exatas proporciona ora a percepção do pessimismo reinante (e ai se vê uma cidade triste e sombria), ora um vislumbre da esperança observada, sobretudo, na face das pessoas.
Recomento para aqueles que querem ler uma história em quadrinhos séria, com conotações políticas e que mostra o mundo de sua forma mais vil onde um mascarado apenas conhecido como V tenta, utilizando até métodos terrosistas, o retorno à liberdade.
"LEMBREM, LEMBREM O CINCO DE NOVEMBRO. Que traição, que artimanha. Por isso, não há por que esquecer uma traição tamanha." (Adaptado dá própria HQ e universohq.com)