No sul do continente central havia uma pequena vila aparentemente alheia aos conflitos militares que destruíam milhares de vidas em outros reinos e países. A Vila de Amani. Era uma comunidade totalmente independente sem bandeira, sem rei e nem guerras. Tudo havia sido construído nas proximidades do Lago Amani e ao redor do Grande Templo, ambos considerados dádivas da Deusa, que concedia aos vilões tudo o que eles necessitavam desde a água, os peixes, a irrigação até o transporte e comércio com outros povos.
A construção mais bela e de maior porte na vila era, naturalmente, o templo em homenagem a Deusa. E a sacerdotisa responsável era Mira que cuidava do lugar desde muito antes do nascimento dos avós dos atuais moradores, mas ainda assim conservava a aparência de uma jovem adulta. Sua sabedoria e generosidade haviam lhe garantido não apenas a posição de líder religiosa, mas também política e esteio da comunidade, era unânime em respeito e carinho por parte dos habitantes.
A casa de Mira ficava nas margens do Lago Amani, era antiga, possuía apenas duas janelinhas, um teto de palha e uma portinha estreita. Ao lado da casa havia um pequeno quintal cercado, onde ela cuidava de alguns animais e tinha uma pequena horta. Sua rotina diária era rígida, ela sempre acordava bem cedo vestia seus trajes de cerimônia e passava toda a manhã no templo fosse em meditação ou fosse na árdua tarefa de palestrar para as crianças e adultos do vilarejo. As tardes após o almoço sempre saia em busca de pessoas que necessitassem de sua ajuda ou orientação, no fim do dia entrava em sua casa e só era vista na manhã seguinte. Junto dela, em sua casa, vivia o gentil Raquin, única pessoa tão idosa quanto ela na região e que também aparentava surpreendente juventude. E um terceiro morador, Fadi, um jovem órfão sorridente que sempre estava atrás de Mira ou perambulando a esmo pelos enormes campos que rodeavam a vila.
A vida de Fadi era muito tranqüila e feliz, mas os segredos que havia naquela casa sempre o aborreceram. Por exemplo, desde criança Mira insistia em treina-los nas artes bélicas. Porque seria? Em um vilarejo pacífico e sem guerra, que nem mesmo possuía exército. E o mais perturbador: ele era obrigado a manter tudo em segredo, nem mesmo seus melhores amigos podiam saber. No entanto, o mistério mais intrigante para todos na vila era o motivo pelo qual ninguém, além de seus moradores, jamais pode entrar ou ver o interior da humilde casa de Mira. Mesmo com todo o respeito das pessoas por Mira se espalhavam pelo vilarejo, e mesmo além dele, incontáveis boatos escabrosos a esse respeito.
Fadi sabia a resposta para esse mistério, mas desde criança Mira o havia proibido de sequer comentar esse assunto. A verdade é que aquele humilde casebre internamente se assemelhava a um castelo. Lá dentro existiam vários quartos e salões, além de uma enorme biblioteca com dezenas de milhares de livros, segundo Raquin era a maior coleção do continente. Esse passava a maior parte da vida diante de livros grossos, os estudando com afinco. Era deles que retirava todo o conhecimento lingüístico, geográfico, histórico e matemático que insistia em ensinar para Fadi. Isso era mais uma das interrogações que atormentava a mente do jovem. Mesmo que as aulas o agradassem de que serviriam para um pescador, caçador ou agricultor? Certamente seus amigos não estudavam tais disciplinas.
Aos 15 anos de Fadi, quando todo o vilarejo comemorava o aniversário do 215° inverno de existência da Vila, aproveitando-se da fartura que a colheita passada trouxe os vilões organizaram um enorme festejo para o qual foram convidadas pessoas de toda a região de Amani. Fadi nunca havia visto tanta gente, as fogueiras eram acesas por todos os cantos e ao redor de cada uma se sentavam dezenas de pessoas que bebiam e cantavam alto. Mira estava sentada numa delas e mesmo sem beber participava alegremente de todas as brincadeiras. Por outro lado, Raquin não saiu, nem mesmo por um instante, de sua biblioteca. Ele dizia não poder perder tempo com essas bobagens. Fadi se sentou ao redor de uma das fogueiras juntamente com seus amigos e se divertia contando piadas, comendo exageradamente e cantando.
Naquela mesma noite, ainda no clímax da festança Fadi se sentiu repentinamente sonolento. Ele havia se divertido muito durante a comemoração, mas agora havia se afastado do grupo de pessoas e estava sentado à beira do lago, olhava profundamente para a negritude no centro do lago e brincava displicentemente de jogar pedras na água. Sempre que podia o garoto fazia isso. Simplesmente parava tudo e refletia longamente. No entanto, sentiu uma presença que interrompeu seus pensamentos, ao se virar percebeu os ruídos da festa se distanciarem na medida em que dele se aproximava, lentamente, uma bela jovem de cabelos, olhos e trajes assustadoramente negros. A garota que deveria ter a mesma idade dele sentou-se a seu lado. Sem dizer nada, olhou fundo em seus olhos e friamente começou uma conversa. Quase sem perceber ele respondia o que ela perguntava, mas cada vez sentia-se menos presente. Ele viajava nos olhos dela como se fossem as águas do lago. Era uma sensação agradável que ele sentiu até quando se desligou completamente. Seu corpo tombou adormecido na beirada do lago.
Na manhã seguinte, ainda na margem a primeira imagem que Fadi viu foi o rosto de outra mulher de fisionomia familiar, olhos verdes e cabelos rosados. A julgar pela sujeira em suas roupas ela também devia ter dormido na rua. Olhando para ela a primeira lembrança que veio na cabeça de Fadi foi a estranha figura que o havia abordado na noite anterior. A enigmática jovem havia feito perguntas pessoais. Agora ele se lembrava. Eles falaram a respeito de muitas coisas, sobre a festa; sobre as guerras, e pior, sobre Raquin, Mira e sua misteriosa casa. Sua cabeça latejava como se estivesse com uma grande ressaca. Seria possível ele ter entregado seus amigos e a si próprio?
Sentindo-se terrivelmente culpado Fadi alimentava uma falsa esperança de ter apenas sonhado, mesmo sabendo que não era verdade. Entre todas as circunstâncias do acontecido o que mais o intrigava era a objetividade e frieza com que a garota o havia interrogado. O jovem resolveu não mencionar nada para Mira, afinal que diferença faria uma estrangeira saber desses segredos? De certo, nenhum boato chegaria a se espalhar e se ela contasse algo ririam dela por acreditar em um doido qualquer. Alguns dias depois, quando tudo já havia sido esquecido, Mira entrou séria no quarto do rapaz e disse:
- É hora de termos uma conversa. Quero lhe explicar tudo.