Quando abri os olhos apenas vi um grande vão azul turquesa, com manchas brancas retocando a imagem. Ficava horas, todos os dias que tinha tempo, observando o movimento das nuvens e o formato que cada mecha tomava. Como era bom sentir o ar puro das montanhas no horizonte que, sempre após a hora mais quente do dia, soprava na direção de lá para o meu rosto sedento desta sensação. Queria ficar sentindo um pouco mais da liberdade, mas de longe ouvi uma voz familiar.
“Venha logo! Está ficando tarde, algum animal selvagem poderá pegá-lo!”.
Por que será que os familiares, principalmente as mães, dizem coisas ameaçadoras como se fossem comuns? Nunca havia visto um animal selvagem grande o suficiente para me machucar em todos os meus 17 anos de vida. De cima da pequena colina onde estava via a minha vila, dourada com o pôr-do-sol que queimava as minhas costas. Alguns flocos de fumaça negra já apareciam, indicando as primeiras lareiras que se acendiam para a noite vindoura. A pequena figra de minha mãe, depois de dar as costas para mim, caminhava em direção à vila. Como amanhã será belo, pensava eu, pois iria começar o festival da colheita.
Todos os anos, no sétimo mês de nosso Senhor, a vila realizava uma grande festa para comemorar a colheita e para desejarem sorte uns aos outros no próximo ano. Entretanto, a maioria, como eu, apenas ia para comer, se divertir e comer mais um pouco. Apesar das reclamações de minha mãe, tentaria não jantasr muito essa noite. A expectativa dentro de mim era imensa.
Depois de enrolar divagando em minha mente, desci vagarosamente a colina, olhando ocasionalmente para trás, despedindo-me do sol que já deitava nas montanhas. Aliás, como serão aquelas montanhas? Nunca tinha ido muito além de minha vila. Às vezes caminhava pela relva que nos cercava, ou então pelas pequenas colinas que ficavam a oeste de Arlut. Na noite anterior, eu e meus amigos saímos escondidos em plena madrugada para aventurarmos nas florestas ao norte. Nossos pais sempre diziam para não irmos lá, pois era cheio de animais e com um relevo bem perigo. Entretanto, como de costume, parece que quanto mais eles falavam para nós não irmos, mais tínhamos vontade de nos embrenharmos naquelas matas e darmos uma de exploradores. A noite da sonhada expedição havia chegado. Eu, Ken e Sarah pegamos nossas bolsas e cada um saiu pela janela de sua pequena casa sem que nossos pais e irmãos percebessem. Encontramo-nos já na entrada da floresta, onde seria o marco inicial de nossa empreitada. A nossa idéia era ir montando um mapa e a cada exploração ir um pouco mais além. Estávamos saindo já de madrugada, na segunda hora do dia e queríamos voltar antes do nascer do sol.
De início foi fácil. Parecia que já existia uma trilha formada por moradores da vila que de vez em quando se aventuravam nessas matas. Porém, nosso objetivo era explorar terras novas. Por isso, saímos da trilha onde passava um pequeno riacho e seguimos em direção sul, sempre com o riacho à nossa esquerda. A mata começou a ficar fechada, e nossas bolsas prendiam na vegetação. Comecei a ficar com medo, com como Sarah estava lá não demonstrei isso. Sempre queria impressioná-la, não sabia o porquê. Algo me atraia para aquela minha amiga. Talvez naquela noite tenha sido a primeira vez que percebi que alguma coisa estava diferente entre nós. Ela olhava de relance todas as vezes que tremia de frio, e aquilo me aquecia. Ken, sempre o mais esperto de nós três resolveu que era melhor pararmos por ali e desenharmos o que já havíamos andado. Todos concordamos e paramos ali. A luz da lua cheia entrava por entre as copas das árvores, dando uma sensação de paz e harmonia com a natureza. O rosto de Sarah brilhava da forma mais linda que já havia visto. Como de costume, sonhava acordado. Com muita dificuldade, voltei com a minha mente para aquela noite sombria. Algo me dizia que, algum dia, aquele mapa seria útil. Não sei porque tive essa sensação naquele momento, mas era como meus pensamentos que adiantavam o futuro a curto prazo. De vez em quando, tinha a sensação de poder prever coisas que aconteceriam dois, três segundos depois. Sempre achei que isso era impressão minha. Nesse exato momento, esta minha impressão veio de maneira avassaladora sobre mim. Senti que algo me atingiria na cabeça e me protegi com os braços. Ken e Sarah me olharam sem saber o que acontecia. Até eu mesmo não entendi, pois nada tinha acontecido. Fiquei com raiva de mim mesmo por ter feito aquilo, especialmente na frente de Sarah. Devia me achar maluco, pensei. Ken ouviu um arbusto se mexendo e ficamos com medo de algum animal. Sarah tinha acabado o desenho e todos nós resolvemos que era hora de voltar. Na volta, novamente tive a sensação de ter algo atingindo minha cabeça e virei-me para trás. Novamente, nada aconteceu. A exploração tinha sido um sucesso, mas isso me deixou horrivelmente sonolento no dia seguinte. Esse era um dos motivos pelo qual fiquei na colina, descansando e recuperando as energias na colina.
Chegando na vila, percebi que a arrumação para o festival já tinha adiantado bastante enquanto estava na colina. Era uma pequena vila, onde todos se conheciam e, na medida do possível, todos viviam felizes. Vi Sarah de relance arrumando as barracas e não queria mais tirar os olhos dela. Fiquei mais de um minuto com minha visão totalmente ocupada pela imagem daquele ser que possuía minha mente cada vez mais. Tudo estava maravilhosamente feliz. Apesar de não morar em um grande reino, nem em uma cidade grande, estava feliz com o que tinha. Indo para minha casa escutei o barulho de cascos de cavalos e relinchos vindo do oeste. Talvez fosse uma caravana, muito comum na estrada que era tangente à nossa vila. Porém, o barulho ia ficando cada vez mais alto e muitos, inclusive eu, viraram para observar qual era a origem de tamanho barulho. A nuvem de poeira que subiu foi algo que eu nunca tinha visto na minha vida. Os cavalos vinham a toda velocidade para a vila, que apenas ficou estática ao ver aquele movimento. Nos meus cálculos eram mais de 300 cavaleiros, que começaram a gritar ao se aproximarem da vila. Dessa vez, não foi apenas uma sensação. Foi uma certeza que nas próximas horas aconteceria um massacre.