CAPÍTULO I - UM GRUPO DISTINTO

Lakshmi era o exemplo comum de qualquer grande cidade naqueles tempos remotos e sombrios. Uma das principais cidades do mundo de Asgardin, era cercada pela floresta que recebeu o mesmo nome da cidade que guardava, a Floresta de Lakshmi, onde os habitantes procuravam seus alimentos e os aventureiros mais jovens treinavam antes de iniciar suas jornadas. Apesar de ser habitada por humanos, em sua maioria, era uma cidade construída de forma tipicamente élfica, onde as construções em pedra e mármore, em vez de esconder, ornamentavam a natureza. Os animais andavam livremente pela cidade e era muito comum avistar pessoas acompanhadas de animais guardiões, como lobos e falcões.
. Era uma cidade muito conhecida por sua comida exótica e por seus exímios guerreiros humanos que manuseavam um arco como nenhum outro em toda Asgardin.

A noite estava fria como qualquer outra naquela época do ano, um inverno rigoroso assolava a cidade e as árvores, cobertas pelo manto de neve que se estendia até onde os olhos podiam ver, sacudiam embaladas pelo vento frio e cortante. As ruas estavam desertas, as pessoas estavam no aconchego de suas casas, aquecidas pelo fogo de suas lareiras. As poucas hospedarias da cidade estavam lotadas por viajantes que passavam por ali à procura de novas aventuras, mas que não se aventuravam a passar a noite aquecidos apenas pela roupa do próprio corpo.
. Nas hospedarias, pessoas se reuniam, amigos se reencontravam e viajantes descansavam.

Uma hospedaria em especial chamava a atenção dos viajantes que passavam por ali. Era um lugar aconchegante, construído de forma octogonal à beira do rio que cortava a cidade, com uma lareira acesa em cada uma de suas oito pontas, cujas chamas crepitavam e faíscas subiam aquecendo o recinto. Mesas estavam dispostas por todo o 1º andar da construção, onde as pessoas bebiam enquanto conversavam e se aqueciam. Os quartos ficavam no 2º andar.

Todos os tipos de pessoas eram vistos por ali, elfos, humanos, trolls, felunis, anões e até mesmo goblins, embora estes últimos ficassem num recinto à parte, para não espantarem os fregueses pelo fedor e por serem mal-vindos ao lugar. Goblins não eram confiáveis.

Magos, espadachins, caçadores, não importavam as classes, todos estavam na hospedaria. Os grandes clãs se reuniam para falar de suas descobertas e aventuras, itens raros conseguidos e novas técnicas adquiridas. Um grupo em especial chamou a atenção dos serventes e aventureiros presentes na hospedaria. Era pequeno, estava sentado em um canto próximo à lareira, todos conversavam e riam abertamente, mal haviam tocado na comida, eram jovens, não deviam ter mais de vinte anos, com exceção de um deles, um homem de aparência madura que os acompanhava, eram novos demais para serem aventureiros, apesar de todos estarem armados. Pareciam não se importar com os olhos observadores dos clientes, era impossível definir a qual clã pertenciam, ou até mesmo se pertenciam a algum, e não trajavam roupas típicas, emblemas ou mesmo armaduras.

Uma das meninas sentadas com o grupo levantou-se, recitou algumas palavras enquanto apontava na direção de um de seus amigos de aparência cansada, a face marcada por cortes e arranhões, quando, de repente suas mãos emitiram uma luz pálida de tom esverdeado e, imediatamente, os arranhões sumiram da face de seu companheiro, ficando agora límpida. A menina era uma druida.

- Com licença.
Bradou um homem distinto, levantando-se de sua cadeira e indo na direção da menina.

- Meu nome é Julian, sou o líder do clã Avaani, estive observando a senhorita e fiquei impressionado com suas habilidades de cura. Nós estamos à procura de druidas e sacerdotes curandeiros para integrar o nosso clã. A senhorita não gostaria de se juntar ao nosso clã? O homem terminou fazendo uma mesura para a pequena druida.

A balburdia começou, os líderes de clã presentes na hospedaria começaram a competir pela druida. Era algo raro em Asgardin, naquela época sombria, encontrar aventureiros a serviço dos deuses, principalmente com habilidades de cura. Era difícil de encontrar alguém disposto a sacrificar sua vida em prol de outras pessoas, dedicando-se às artes da cura. Para tal atitude ainda eram necessários um coração puro e muitos anos de árduo treinamento com as sacerdotisas do templo de Rasin, deusa da cura e das florestas. Ainda assim, o druida não tinha suas habilidades reconhecidas antes de sentir-se apto para passar pelos difíceis testes de aprovação impostos pelas mesmas sacerdotisas. Em minutos os guerreiros no salão tinham sacado suas espadas e arqueiros empunhavam seus arcos, prontos para um confronto pela menina druida. Serviçais da hospedaria entraram em pânico, uns corriam desesperados para fora, pretendendo escapulir da pequena guerrilha armada, outros escondiam-se embaixo de mesas, e os poucos corajosos o bastante, tentavam impedir, pedindo paciência aos guerreiros, embora sem obter grandes resultados.

- Já chega!!
Gritou uma das meninas que acompanhavam a druida.

- Vocês não têm o direito de competir como se ela fosse um troféu a ser conquistado!

Mas vendo que ninguém lhe dava atenção, a menina se enfureceu, começou a recitar palavras numa linguagem estranha e complicada. Seus amigos, ao ouvirem-na, logo empunharam escudos e afastaram-se. Era a linguagem mágica. Em segundos a grande maioria dos clãs que estavam em batalha no salão foi paralisada e apenas uns poucos conseguiam se mexer, ainda assim meio grogues.

- Agora vocês façam o favor de me ouvir. Bradou a menina com um sorriso sarcástico em seu rosto.

- Ela não é um prêmio a ser disputado, quemm decide com quem fica ou com quem vai é ela, não uma batalha ridícula como a que vocês estavam planejando. Safiryn, com quem você quer ficar?!
A menina perguntou a druida, embora já soubesse a resposta.

- Peço desculpas a todos, mas estou viajanddo com meus amigos e não pretendo deixá-los para trás.
Safiryn, a druida, respondeu de forma encabulada.

- Obrigada pela atenção que dispensaram às nossas palavras, mas se nos permitem vamos nos retirar agora!
Falou um garoto de sorriso traquinas que acompanhava as duas meninas, o mesmo que Safiryn havia curado antes de a balburdia começar.

Em meio a dentes cerrados, xingamentos e olhares raivosos e marcantes por parte dos que tinham se recuperado da paralisia, o grupo se retirou.

A hospedaria voltou à normalidade, os clãs recuperavam-se do ataque mágico repentino e voltavam às suas conversas enraivecidas. No segundo andar, o pequeno grupo gargalhava.

- Vocês viram a cara do cavaleiro quando a Minehah paralisou todos?! Nossa, foi impagável!

Bradava o menino de sorriso traquinas. Seu nome era Tymas, um felunis, uma das raças do mundo de Asgardin. Os felunis tinham baixa estatura e eram muito velozes, o que compensava sua pouca força física. Eram especialistas na arte da ladinagem, rasteiros como felinos enquanto caçam, apoderavam-se de qualquer coisa que lhes parecesse interessante, estando esta ao seu alcance, acumulando todos os tipos de tranqueiras possíveis e imagináveis. Qualquer pessoa em sã consciência evitaria a companhia de um felunis, sabendo que com ela poderia arrumar todos os tipos de confusão. Tymas não era diferente. Espirituoso, tinha um número incontável de tranqueiras, que iam desde mapas ou pontas de flechas de antigas civilizações Asgardinianas até os mais modernos objetos de alquimia, guardados nos diversos bolsos de suas vestimentas. Um mestre em arrumar confusões. Tymas poderia ser facilmente confundido com um humano, com seus 19 anos, não fossem as orelhas, rabo e olhos felinos, algumas das características marcantes dos felunis. Tinha a pele morena queimada pelo sol contrastando com o cabelo castanho claro que lhe caía sobre os olhos dourados de forma rebelde.

- Já é a terceira vez só neste mês... Minehhah até teve de usar a magia desta vez... Não gosto de causar essas confusões todas...

Safiryn, a druida, era uma garota humana, tinha 15 anos de idade, era tímida, sempre evitava entrar em brigas e confusões, o que era um pouco difícil com Tymas ao seu lado. Desde pequena dedicou-se a ajudar os outros com seus poderes curativos e, com o treinamento imposto pelo templo de Rasin, aperfeiçoou-os, decidindo seguir como sacerdotisa quando se sentisse apta para os difíceis testes de aprovação impostos pelos sacerdotes druidas do templo. Tinha cabelos negros, olhos acastanhados e o sorriso estampado em seu rosto em quase todas as ocasiões era sua marca registrada.

- Deixe de ser boba Safiryn, graças a você consegui adquirir algumas coisas diferentes hoje, enquanto aqueles idiotas se preparavam para a guerra, foi como tirar doce de criança. Tymas vangloriou-se enquanto remexia nos seus objetos “adquiridos”.

Os companheiros já não se importavam com os pequenos furtos de Tymas. Ao contrário, já estavam acostumados e às vezes até concordavam com eles. Quantas vezes as tranqueiras de Tymas os livraram das mais diversas enrascadas. Além disso, furtar era o seu trabalho desde antes de se juntar ao grupo, assim como o trabalho de Safiryn era curar seus amigos.

- Não fique assim Safiryn, a culpa não é suua. É difícil encontrar alguém que não esteja à procura de druidas nos dias de hoje. As pessoas não se importam mais com as outras, estão cada vez mais egoístas. Além disso, a magia que usei foi fraca e, se eles não estivessem preocupados demais com aquela guerrilha ridícula, teriam se defendido facilmente apenas com um levantar de escudos. Ali havia guerreiros bem mais fortes que eu.

A maga Minehah era uma meia-elfa, criada fora do reino élfico após a morte de seu pai elfo. Quando ainda jovem, aprendeu a utilizar a magia com um mago humano, seu mestre, magia negra ou branca, o que não lhe importava muito, pois sabia os dois tipos de magia. Os cabelos castanhos escuros, quase negros, longos, batiam em sua cintura e combinavam com os olhos verde azulados, herança de seu pai. Embora aparentasse possuir uns 18 anos humanos, sua idade élfica era um mistério para todos os seus companheiros, aos quais nunca revelou. O tempo para os elfos passa com os anos, as estações do ano são como rápidos dias, diferente dos humanos que envelhecem a cada dia.

- Mesmo assim não podemos nos dar ao luxo dde paralisar todos os clãs que encontramos pela frente... Estamos ganhando inimigos demais.

Advertiu Loggus, embora sorrisse ao lembrar da cara de espanto dos guerreiros ao serem paralisados com a magia de Minehah. Loggus era um rapaz com ar honrado e sábio, o mais velho dentre os companheiros, com seus 25 anos, que carregava um arco com uma aljava de flechas em suas costas e tinha uma expressão cansada, o que lhe dava uma idade aparente acima de sua verdadeira. Loggus tomava conta da turma, era o mais experiente dentre os companheiros e até tinha ajudado a treiná-los. Era, também, o único que sabia a verdade sobre a idade élfica de Minehah. Caçador experiente, Loggus tinha sido treinado por seu pai desde pequeno e, ao completar 15 anos, saiu de casa para se aventurar pelo vasto mundo de Asgardin. Apesar de sua pouca idade, os olhos castanhos mostravam a experiência e a sabedoria adquiridas com o passar do tempo e eram realçados por seus longos cabelos prateados. Visto como um irmão mais velho pela turma, Loggus era a voz da razão do grupo, sempre aconselhava os companheiros nas horas de dificuldade e era o mestre por trás das táticas de batalha utilizadas pelo grupo.

Um pouco mais atrás, seguindo o grupo, vinha Morgana, uma menina fria e calculista, calada, uma fascinada pelo uso da lógica, uma monge de sangue frio, com apenas 20 anos, cujos conhecimento, habilidade e inteligência causariam inveja a muitos sábios de Asgardin. De imediato, ao vê-la, era perceptível que tinha dedicado sua vida aos estudos e livros. Os olhos negros como carvão, misteriosos, com um ar cansado, davam-lhe um ar de sabedoria e mistério e era impossível prever o seu próximo passo apenas ao observar aqueles olhos. Os cabelos negros, com algumas mechas claras que existiam desde nascença, rebeldes e emaranhados, estavam amarrados em uma trança. A pele era de um moreno chocolate. Vestida com roupas largas e desbotadas, com as barras queimadas e mangas que lhe ultrapassavam as mãos, ninguém poderia saber que tipo de arma se escondia por baixo daquele traje.

Morgana apenas observava os companheiros que riam e gargalhavam à sua frente enquanto ficava calada, pouco se importava com o acontecido, ou mesmo se eles estavam certos ou errados. Ela ainda não se sentia à vontade para conversar abertamente com o grupo que havia integrado há pouco mais de 4 mudanças de lua. Nunca se sentiu bem em meio a outras pessoas, nunca confiou nelas pois jamais confiaram nela, mas encontrou, naquele pequeno grupo, pessoas que confiavam nela e não se importavam com seu jeito frio de ser, que a aceitavam do jeito que ela era. Naquele grupo ela encontrou pessoas muito diferentes dela, que acreditavam em coisas diferentes das dela, que tinham motivos para agir diferentes dos dela, pessoas que eram, em tudo, distintas dela, mas que, ela sabia, poderia confiar como em nenhum outro e, um dia, vir a chamar de amigos.

Enquanto caminhava ela relembrava as descobertas da viagem que antecedera àquela noite. Eles haviam viajado para o templo dedicado a Shamuro, deus do fogo e dos desertos quentes, que se localizava aos pés do vulcão Shamoo, um dos últimos vulcões que continuavam ativos no mundo de Asgardin. Era cercado por um imenso deserto arenoso e intransponível para viajantes despreparados. O sol era escaldante, a água escassa e o ar rarefeito. Procuravam por novos conhecimentos, aventuras e emoções mas, principalmente, buscavam o mesmo que todos em Asgardin naqueles tempos, uma explicação para os acontecimentos incomuns que se passavam. No entanto, ao chegarem lá apenas mais perguntas lhes vieram à cabeça. O deserto estava coberto por uma espessa camada de neve, continuava o mesmo deserto intransponível aos desavisados, porém o calor insuportável e a falta de água tinham sido substituídos pelo frio cortante e flocos de neve que derretiam ao entrar em contato com a pele, queimando-a de tão frios. Os animais do deserto que ainda sobreviviam abrigavam-se em tocas e cavernas e qualquer lugar onde pudessem se aquecer era bem-vindo. Porém, o que mais impressionou o grupo foi o vulcão Shamoo, totalmente congelado. O calor emitido pelo vulcão, que aquecia o templo, havia se dissipado e o templo estava completamente gelado, como um pálido castelo de gelo enfeitado com estátuas, antes vivas, de sacerdotes e sacerdotisas congelados num pânico eterno. Nunca os companheiros viram algo tão aterrorizante e ao mesmo tempo tão bonito, uma beleza triste. Vendo que nada poderiam fazer diante daquilo, o pequeno grupo resolveu retornar a Lakshmi após um pequeno descanso no templo, orando pelas almas daquelas pessoas. A visão horrenda ainda aterrorizava o sonho dos companheiros.

Como que para se juntar às lembranças do templo, no caminho de volta a Lakshmi, as epidemias assolavam as cidades, doenças surgiam do nada e causavam o terror dos moradores. Os companheiros conseguiram passar ilesos graças aos poderes curativos de Safiryn, que ainda encontrava forças para curar as pessoas em situação mais grave. A maioria do povo culpava os deuses de Asgardin pelas catástrofes e diziam que os deuses os estavam castigando e os abandonando.

- Qual é o motivo de toda essa bagunça em AAsgardin?!
Perguntou Morgana, mais para si do que para os outros.

Todos pararam de conversar e voltaram suas atenções para Morgana. Por mais que tentassem parecer despreocupados, era evidente que havia algo errado e que não podia ser ignorado. Eles não conseguiam aceitar, diferente da maioria de Asgardin, que a culpa era dos deuses.

- Eu também gostaria de ter a resposta paraa esta pergunta, Morgana...
Minehah falou com um ar de desconsolo.

Pensativos e calados, os companheiros seguiram para seus quartos tentando encontrar uma resposta em meio a devaneios e especulações mirabolantes que lhes surgiam à cabeça. Cada um com seus pensamentos e motivos, porém todos unidos. Eles eram, em todos os sentidos, um grupo distinto.

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