PSICÓLOGO E TUDO SOBRE COMO FUNCIONA UMA TERAPIA Seria de extrema utilidade uma reflexão profunda acerca da missão e papel do psicólogo nos dias atuais, e perante todos os desafios e conflitos que nossa era nos coloca. Como todos sabem, nos primórdios da psicanálise de SIGMUND FREUD a questão da sexualidade era total primazia, devido a enorme repressão sexual da era vitoriana. FREUD elaborou vários conceitos da personalidade a partir da observação das pacientes histéricas (que classificou como transtornos oriundos das repressões dos afetos; uma espécie de psicosomatização da época.) As coisas mudaram bastante, e hoje assistimos outros elementos que substituem as neuroses sexuais, tais como: solidão, ansiedade, depressão e tédio como exemplos. Há também a questão grave que boa parte das pessoas já não desejam analisar as causas de seu sofrimento psicológico, mas tão somente almejam sedar o mesmo. Não estou dizendo que não sejam fundamentais as descobertas da farmacologia no tratamento das desordens psiquiátricas e psicológicas, mas infelizmente assistimos uma banalização da medicação, com conseqüências graves no quadro da neurose. Sedar apenas o conflito é mantê-lo vivo permanentemente. Os interesses econômicos falam alto, e como todos tem pressa de se desvencilharem de suas mazelas emocionais, a tendência é que tudo isso se agrave a cada dia.O psicólogo tem como tarefa primordial saber manipular com eficiência determinadas emoções ou sentimentos que estimule a reflexão, crítica e busca do paciente. Citando alguns exemplos destacaria a receptividade, disponibilidade e o uso correto da agressividade. Esta última se tornou um tabu na psicologia, pois se teima em vestir o psicólogo num papel cândido, de ternura absoluta, se esquecendo que boa parte da angústia do paciente advém de sua incapacidade para lidar com emoções negativas. Obviamente estou dizendo de uma agressividade que nada tem a ver com violência, mas com o uso preciso do poder do terapeuta, que sempre deve personificar tal papel para atingir as estruturas arcaicas ou reprimidas do paciente. Jamais o psicólogo deveria se preocupar em tentar ser alguém mais resolvido do que a maioria; mas já daria um bom passo para o desenvolvimento de sua arte se aceitasse que seu trabalho é uma constante luta e contradição com o paciente.O sofrimento psicológico é um tipo de inventário consciente e inconsciente de emoções contidas. O mais estranho é que a pessoa encara tal núcleo como uma espécie de poupança ou acervo pessoal que não pode ser mexido. Isto seria o correlato do processo de resistência na terapia que FREUD salientava; sendo uma luta entre o material reprimido que tentava vir à tona e as barreiras impostas pelo próprio sujeito ou moralidade. O desejo de não se curar para FREUD tinha como meta abastecer o material reprimido infantil eternamente. Embora esse inconformismo histórico de desejos ou vivências não efetuadas seja bastante presente na análise, o que a psicanálise suprimiu de tal estrutura é seu cunho social. Não são apenas os afetos reprimidos que sustentam uma estrutura neurótica, mas o próprio paciente os encara como uma posse íntima e pessoal que não lhe pode ser roubada, como observei acima, sendo a extensão de seus bens materiais; assim sendo, o núcleo máximo do desespero é se sentir “vazio”, assim como a sociedade exclui quem não possui bens materiais; o que importa é a posse, mesmo que seja do mais puro sofrimento. A estrutura mental embora seja extremamente criativa, na maioria das vezes é mera cópia do modelo social.Outro fato extremamente complicado é a percepção do paciente acerca de sua condição. Devido à falta de contatos sociais profundos, quase todos infelizmente têm a macabra sensação de que seu problema é totalmente descomunal perante seus pares. Isto pode ser interpretado como uma tentativa narcisista de obter poder e atenção através do sofrimento pessoal. Porém, quanto mais se explora a atenção através de determinada neurose, maior será o domínio da mesma na personalidade do sujeito, adiando indefinidamente sua solução. O sofrimento apenas diminui quando ousamos não sacralizar seu caminho ou conteúdo. A origem deste tormento remonta ao sentimento de culpa oriunda das históricas contendas familiares. É impressionante como as pessoas se queixam da angústia mas preservam sua origem. A função primordial do psicólogo é conscientizar o paciente de que construiu uma espécie de altar ou devoção para com suas mágoas; sendo que a própria neurose nada mais é do que uma micro religião mental perniciosa que reclama cuidado extremo o tempo todo. A neurose não se desmonta com qualquer tipo de interpretação fenomenal, mas quando o psicólogo diminui o patamar da “vergonha” do paciente, sendo este o núcleo do sofrimento afetivo que a psicologia ainda não alcançou com uma abordagem mais prática. A mesma sempre irá incorrer em erro se apenas a função central é a eliminação do conflito ou angústia, pois os distúrbios psíquicos têm a qualidade da mutação muito mais do que qualquer vírus estudado pela medicina. O que temos de fazer é mapear todas as pequenas vergonhas ou pudores do paciente, que irão nos fornecer um sólido caminho para sabermos o por que de ainda não ter encarado seu dilema. Reforçando o que disse anteriormente, vergonha é sinônimo de poupar, guardar e manter, tendo a característica única de uma espécie de egoísmo que atinge inicialmente seu próprio possuidor.Faz-se necessária uma distinção entre timidez e vergonha. A primeira como reforcei em diversos outros estudos é um transtorno de caráter onde a pessoa simplesmente odeia trocar algo íntimo, pretendendo apenas seguir os papéis sociais impostos. O tímido deseja obter lucro social se isentando da obrigação de sua participação pessoal. Mantém sempre um ar de mistério seja sobre seu lado material ou pessoal, se tornando uma espécie de estelionatário social. A vergonha diz muito mais de um retraimento, sendo que a pessoa não deseja repetir experiências passadas de humilhação ou exclusão. O núcleo central desse sentimento é a preservação da dor. Alguns perguntariam neste ponto se tal processo se assemelharia ao masoquismo. A resposta seria amplamente incorreta, pois o paciente em questão não está buscando reproduzir os traumas passados, mas o que teme é em essência uma “acareação” com as reais figuras que produziram seu sofrimento, sejam os pais ou cônjuges. Na vergonha não há espaço para qualquer tipo de conteúdo desconhecido, o principal é fugir da tarefa que causa horror à pessoa.O que proponho não é uma racionalização infundada sobre a natureza do conflito, mas que o paciente perceba que insiste em exacerbar seu sentimento numa direção única. A mente possui o intelecto, cognição e reflexão, então não podemos aceitar a unicidade ou primazia de determinada sensação. Esta se alastra numa mente que não soube adotar as medidas profiláticas que salvaguardem a auto-estima. Um dos aspectos mais importantes de uma psicoterapia é a imposição de uma trégua ao paciente na sua certeza de derrota no contexto coletivo e pessoal, e que tal encontro a dois restaure ou agilize o núcleo citado do amor próprio que não obteve na história de suas batalhas internas. Embora muitos possam fazer a crítica de que a reestruturação da personalidade se dá mediante um determinado pagamento, não cabe nem a defesa de que o serviço é profissional e o psicólogo merece receber, mas que psicologicamente isto se torna necessário pelo fato de que o sujeito tropeçou em seus contatos anteriores justamente por não conseguir estabelecer um patamar de troca ou retorno. Toda frustração emotiva se assemelha a qualquer ambição material não concretizada.Entraremos agora na difícil questão da arte de
mudar. Pensando mesmo na esfera biológica concluiremos que sempre uma mudança
gera um desconforto inicial para o ser humano, que tem sempre como meta à
adaptação. O problema maior é tentar “demitir” um sujeito de sua influência
perante si mesmo ou terceiros do sofrimento que utiliza como centro de seu
poder, como sempre pontuou ALFRED ADLER, inicialmente colaborador de FREUD, e
que desenvolveu os conceitos de complexo de inferioridade e superioridade. O
que mais surpreende é a desistência de um futuro de bem estar e desenvolvimento
perante a continuidade de algo doloroso. A resposta é simples e objetiva; o
ódio que quase sempre aparece dissimulado, seja através de uma saudade ou
tentativa da pessoa ainda receber o que sempre achou que merecia. O culto as
épocas remotas representa toda a libido não no sentido sexualizado, mas que o
potencial do sujeito travou literalmente devido a todo o ódio que não pode
expressar ou atuar. Isto se agrava mais quando a pessoa tem uma
característica pacífica ou desenvolveu uma polidez acentuada de caráter; todo o
processo acima se torna um conflito mortal entre ter de perdoar o tempo todo e
ao mesmo tempo arcar com todo o prejuízo em vista do retorno do ódio contra a
própria pessoa.
Mas como
realmente aprender a se gostar? Se fosse apenas uma questão de estética com
toda a certeza não haveria a anorexia nervosa em pessoas com alto padrão de
beleza. Em primeiro lugar a pessoa tem de desenvolver um poder em certa área,
seja na estética citada, intelectualidade ou relacionamento afetivo. Obviamente
isso se torna um estereótipo, que em determinada altura não funciona mais,
devido à corrosão causada pela comparação e competição. Nenhum talento
individual escapa da agonia da aprovação alheia ou dos ditames sociais
impostos. Então a questão crucial não é o desenvolvimento de alguma habilidade
especial, mas tão somente sua influência e durabilidade, não se tratando logicamente
da ilusão de uma eternidade, mas por quanto tempo à própria pessoa se sustenta
perante o potencial que acha que possui. O que conseguiu conquistar; quanto
consegue dividir e quanto o caminho percorrido em sua vida apagou os entraves
ou complexos do passado; estas são as perguntas centrais no processo
terapêutico. Saber ou aprender realmente a viver é aceitar o completo
dinamismo da vida; carregando o passado muitas vezes de sofrimento ou prazer,
devendo refletir e raciocinar sobre o mesmo, e saber simultaneamente o apagar
quando este ameaça macular o crescimento ou desenvolvimento da pessoa.
O papel do psicólogo é forçar num primeiro momento a diminuição do medo do paciente em conhecer não somente suas fraquezas, mas principalmente seu potencial destrutivo que atua de forma inconsciente, seja através da depressão, ansiedade, atos ou transtornos obsessivos dentre outros. O corpo treina indefinidamente a frustração que jamais pode ser expressa. Devemos escutar atentamente todas nossas queixas internas, analisando quais são procedentes e às que apenas teimam em atrapalhar nossa vida, por isso novamente condeno o uso da medicação desenfreada. O grande erro de muitas terapias ou assistência psiquiátrica é apenas se deparar com os sintomas trazidos pelo paciente, se esquecendo que por trás dos mesmos há uma histórica incompletude em determinada área (trabalho, casamento ou família). O sintoma na maioria das vezes serve para cegar tal fato. Vamos analisar a partir de tais considerações os diferentes tipos de personalidade que procuram a psicoterapia:· A pessoa que não conseguiu efetuar um compromisso em determinada área (carência ou frustração econômica e profissional; dificuldade de relacionamento e solidão)· A pessoa que no transcurso da vida não soube administrar o que obteve (conflitos conjugais; profissionais; ansiedade e insatisfação)· Pessoas que insistem em não efetuar seu potencial, ou que abdicam plenamente de sues talentos (crises de angústia; choro compulsivo, negação da auto-estima). Num primeiro olhar parece que
o primeiro tipo citado é o mais problemático por justamente não ter vivenciado
determinada etapa ou conquista, embora isto seja bastante relativo. Mas é a
partir desses dados que o psicólogo deve começar a atuar em diferentes papéis,
de conformidade com o caso, seja através de uma palavra que abrande o
sofrimento, ou usando um tom enérgico que estimule o paciente a lutar com
dignidade perante a certeza histórica de sua infelicidade. Outro conflito
histórico se dá na análise da ética pessoal. Infelizmente o ser humano pensa
quase que exclusivamente na “adição”, ou em algum ganho pessoal, por se sentir
merecedor único e exclusivo. Porém, a própria essência da felicidade é
exatamente o desprendimento de não temer compartilhar, doando algo na certeza
de que não somente seu ego jamais poderá ser comprometido, mas também tendo a
convicção da inviolabilidade de seu fluxo pessoal de energia e criatividade.
Sempre iremos ganhar se colocarmos nosso potencial a serviço de alguém
plenamente comprometido e responsável por uma mudança ou crescimento.
É fato notório na psicologia que reproduzimos quase que fielmente
todos os fantasmas ou “entidades” de nosso passado; o que fica difícil corrigir
é exatamente qual conduta tomar para que tais acontecimentos não se alastrem na
personalidade do sujeito. Será que realmente podemos ter um destino diferente
de nossos antepassados? O grande empecilho para tal meta talvez seja a culpa
negativa que todos carregam desde a infância, sendo que a tônica de tal
sentimento é lembrar sempre que estamos em dívida e abafar concomitantemente o
prazer. O ódio surge como conseqüência inevitável desse mecanismo, e a seguir
se trava a luta entre os direitos naturais que uma pessoa deve ter e a culpa
resultante de investir em seu ego. O problema é que o próprio ódio não deixa de
ser um mecanismo de defesa para um sentimento tão tenebroso quanto ele; a
mesquinhez, que delata que a pessoa se tornou sórdida, usando talvez o direito
a algo para esconder sua tentativa de avareza ou insensibilidade. Quase nenhum
outro sentimento humano tem a qualidade de provocar uma reação tão traumática
quanto o citado. A verdade é que não há cláusulas definitivas ou contratos
sérios quando se trata de sentimentos. Determinada problemática inevitavelmente
arrasta a pessoa para algo mais doloroso. A mesquinhez é se sentir desditoso,
quase corroborando a tese de que alguém será infeliz pelo resto da vida. O
conflito surge na certeza pessoal de que a pessoa está sendo explorada e quando
almeja a reação advém a culpa intolerável, ou a crença de que cometerá uma
injustiça irreparável. A
impermanência da existência sempre irá gerar conflito com o sentimento de
posse; revelando a equação máxima do sentido da vida. Historicamente se
pensarmos na excentricidade dos egípcios de enterrarem seus mortos com bens
materiais, assistimos na atualidade o correlato das pessoas buscarem fama e
poder para satisfazer seu desejo de imortalidade.
Seria interessante analisarmos a questão da escuta em terapia. A mesma se tornou uma espécie de utopia no tratamento, pois se pensa que em determinado momento o paciente irá se trair e revelar o núcleo do material reprimido. O que se esquece é o que disse anteriormente da preservação neurótica de algo doloroso, mas que se mantém pelo desejo da posse. Logicamente o processo terapêutico demanda a necessidade de um espaço para um sujeito ser realmente escutado, sem ser interrompido pelo desinteresse ou impaciência de outra pessoa. infelizmente a sociedade nos ensina que nada se ganha pelo fato de escutar ou dedicar um tempo a alguém; todos almejam apenas o despejo de sua dor. O papel do terapeuta é intervir e arquitetar determinada ação que o paciente jamais ousou. A espera da escuta deve ser trocada pela espera da ação em certos casos. É absolutamente um mito a questão das pessoas temerem o psicólogo por acharem que o mesmo é sinal de loucura. O ponto exato da dificuldade de aceitar o tratamento é a revelação da covardia ou inaptidão para se fazer o que há muito o sujeito sabe que seria a definição. A “eternidade” do sofrimento representa uma intrincada defesa psicológica de substituir a essência da vida que é a finitude, pela imortalidade da dor. Não importa o tempo que leve, mas a função da terapia é mostrar o conflito, não impondo a mudança para não aumentar o mesmo, mas desenvolvendo no paciente a certeza de sua probabilidade de ação.O paciente que nos procura clama para se livrar da dor sem desejar pagar determinado “preço” afora o valor da consulta, esta é a mais pura verdade e o primeiro elo neurótico que devemos investigar a fundo. Como alguém em nossa sociedade busca ajuda? Extrema humildade; raiva ou incômodo; intenso sofrimento; racionalizando o problema. Todas essas categorias fornecerão pistas seguras acerca do centro do caráter do indivíduo e suas reais metas terapêuticas. Como salientei a pouco, devemos analisar o que e por que a pessoa não conseguiu efetuar algo, mas não na esfera única de um desejo irreal ou inflado, e sim refletindo sobre um prazer possível que não consegue colocar em prática. Devemos ajudar o paciente a se conscientizar de que muitas vezes sua dor psíquica é a mais pura prova do desperdício, sendo a ansiedade o alerta máximo dessa condição neurotizada. Um projeto de psicologia profunda deve penetrar no centro da prisão do indivíduo, seja em seus aspectos sexuais não realizados, passando por sua fala contida com medo da crítica e rejeição, ou o temor de ser abandonado. Fica em aberta a questão de como trabalhar algo psíquico quando a sociedade só invoca os valores supremos: dinheiro e beleza, aliás, ambos quase sempre caminham juntos. A verdade sempre foi que as pessoas descobrem que os mesmos são efêmeros quando se deparam com a extrema solidão, ou a torturante sensação de ser escravizado por simplesmente representar um troféu; no caso da beleza. É bem estranho como todos acabam correndo atrás de algo que certamente escravizará o psiquismo. Jamais saberemos o tempo que nos resta, este é o mistério da vida, apenas podemos atuar no que desejamos preencher em relação ao dilema proposto, que também é extremamente subjetivo.O problema do amor em terapia praticamente é a tônica da mesma, e quase todas as escolas de psicologia se dedicam amplamente à esfera afetiva. Do ponto de vista histórico, o amor já foi sacralizado, castrado, romantizado e tantas outras coisas. FREUD acreditava que a origem do amor era uma espécie de renúncia ou sublimação do desejo sexual. Outro autor da psicanálise OTTO FENICHEL, dizia que a origem do amor é a preocupação maior com a satisfação do outro do que com seus desejos pessoais. Penso que é complicado imputar uma descrição eterna a algo tão volátil, pois o amor espelha sempre o drama da época. O amor em nossa era diz da extrema agonia da solidão; esta é o espelho mais fiel da certeza da perda ou morte pessoal. Quase ninguém agüenta ficar sozinho, nem por um curto espaço de tempo necessário à reflexão pessoal, sendo assim o amor é compensação para este drama. Podemos também agregar diversos sentimentos ao problema do amor: prazer, ciúme, dor, angústia e tédio. Notem como o romantismo hipócrita sobre o tema cede ao primeiro sinal de uma análise mais pormenorizada. Refletindo um pouco mais sobre o amor nos dias atuais, diria que quem não o vivencia é obrigado a carregar uma tristeza de não ter sido poupado da agonia de ver certos processos de forma “bruta”, sem lapidações, pois o amor também não deixa de ser uma certa distração contra a dor existencial. O amor é sinônimo de potência para o enfrentamento de adversidades cotidianas, tais como: tédio, rotina, cansaço, amargura e insegurança. Que todos precisamos nos escorar em algo ou alguém é fato notório, a questão é a qualidade do poder de troca que conseguimos efetuar. Claro que todo o conceito citado não pode de forma alguma ser generalizado, até porque conheço felizmente casais que conseguem viver quase que a plenitude do sentimento descrito, o que desejo enfatizar é que a estrutura social de posse e competição empurra o amor para ser uma espécie de suborno contra a solidão.Por fim, gostaria de falar de um tema pouco estudado na psicologia, mas que afeta em demasia o profissional da referida área. No começo do estudo citei a questão da resistência em terapia e os mecanismos envolvidos na mesma. Tudo isso é muito claro para a pessoa que resiste em mudar. Mas o que dizer de alguém que teve a prova do êxito da terapia e mesmo assim a abandona subitamente? ADLER abordou este problema de forma primorosa em sua obra, pois enfatizava que a disputa de poder social adentra completamente o ambiente terapêutico. A inveja de alguém supostamente mais equilibrado, a raiva de admitir precisar da ajuda, quebrando a mentalidade cristã da fé interior como elemento que tudo supera, o incômodo de conversar abertamente sobre sentimentos negados, anulando a formalidade hipócrita, tudo isso forma o cenário da sabotagem que o paciente poderá produzir, este é sem dúvida o dilema central de todo psicólogo realmente comprometido com a transformação psicológica. A atitude máxima de um infantilismo ou imaturidade é punir o outro através da ausência, fugindo da troca de idéias salutar para o desenvolvimento da personalidade. Compete obviamente a cada um a reflexão e escolha do que pretende atuar, reter ou proteger, seja a possibilidade de desenvolvimento ou o lado mais sombrio de seu ser; afinal de contas quem pode afirmar que todo ser humano irá efetuar a tarefa da evolução psicológica?No atendimento de casais já presenciei diversas desistências de um dos cônjuges, apenas pela percepção do mesmo que caso seu parceiro também fizesse terapia, talvez tivesse maior êxito, se perdendo o objeto no qual coloca sua raiva ou a desculpa para continuar em seu núcleo de sofrimento. A própria mudança parece que também é algo elitista e para poucos; fazendo um paralelo com os ditames econômicos, essa é a mais pura verdade em nossa profissão, embora reafirme sempre que ao contrário da questão material todos tem a chance, por se tratar de algo que apenas depende do indivíduo, e não da capacidade de competir. Se a verdade se torna veneno ou sinônimo da dor, o resultado já é conhecido; a permanência e conservação do caos pessoal. Um grande colaborador de meus textos, o doutor em sociologia IRINEU FRANCISCO, sempre pontuou que ao término de uma sessão de psicoterapia, o paciente recebe uma grande carga de energia que o deixa excitado tanto positiva quanto negativamente; se não ocorre uma mudança comportamental por parte do sujeito, a tendência é a dissipação dessa força no transcorrer da semana, tornando o processo terapêutico uma espécie de ritual meramente religioso, se perdendo a chance da emoção realmente cristalina e transformadora.BIBLIOGRAFIA: ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. 2ª
EDIÇÃO, BUENOS AIRES: EDITORA PAIDÓS, 1912. FREUD, SIGMUND. TEORIA GERAL
DAS NEUROSES, 1916-1917. OBRAS COMPLETAS. MADRID (ESPANHA): BIBLIOTECA NUEVA,
1981. FENICHEL, OTTO. TERAPIA
PSICANALÍTICA DAS NEUROSES. EDITORA ATHENEU, 2004. AGRADECIMENTOS: IRINEU FRANCISCO BARRETO
JÚNIOR: DOUTOR EM SOCIOLOGIA. SIMONE JORGE: SOCIÓLOGA. QUALQUER REPRODUÇÃO SOMENTE
MEDIANTE AUTORIZAÇÃO DO AUTOR. SÃO PAULO, 17 DE AGOSTO DE
2005. |