Se excluirmos a
questão sobre o dinheiro e trabalho, parece que nossa mente apenas vive
focalizando dois pólos opostos: seja na fantasia e devaneio de uma
satisfação qualquer; ou no mais completo pensamento de medo. O objetivo
deste estudo é a formulação de um teste psicológico prático para a
aferição do grau de medo presente na personalidade do sujeito; devendo
ser aprofundado entre o psicólogo e paciente durante a psicoterapia. A
primeira questão seria:
- Quantos
pensamentos de medo e fantasia têm aproximadamente durante o dia?
Quais são os mesmos e sua temática central? A fantasia embora tenha
a função de entretenimento, não deixa de ser um pesado fardo por
revelar toda a carência da pessoa. As imagens mentais do medo não são
necessariamente o vício sobre determinada antecipação de algo
catastrófico, mas assim como a fantasia reforça o tédio e amargura
perante o distanciamento daquilo que elegemos como sonho. O
preenchimento de uma ausência quase sempre se completa com a mais
pura agonia ou caos psíquico. Pensemos em certas fobias do tipo:
verificar várias vezes se a porta está fechada ou a chave do gás. O
significado inconsciente de tal conduta não é apenas o medo do
acidente ou um dever e obrigação imposta pela mente. Sua raiz remete
a uma disciplina internalizada que visa a fuga a qualquer custo da crítica
ou rejeição. A mente de uma forma constante almeja o distanciamento
de um passado ou uma situação que foi humilhante para a pessoa;
desenvolvendo um trabalho extra como compensação e defesa contra
novos ataques. A psicanálise no decorrer da história imputou conteúdos
sexualizados para quase todo o tipo de fobia. Torna-se um tanto hilário
se pensarmos no medo de dirigir como protagonista de algum conflito de
ordem sexual; pode até ser que exista de alguma maneira, mas temos de
tomar cuidado para não perdermos o foco da situação.
A
estrutura social nos coloca não apenas o dilema da sobrevivência econômica,
mas qual valor temos perante os outros. O cerne de várias fobias passa
pela questão do poder do sujeito perante o meio e como o manipula. No
caso citado do medo de dirigir, quase sempre encontramos uma pessoa que
historicamente apresentou grandes dificuldades com a crítica e
agressividade. O medo de ser atacada e lhe tomarem seu espaço ou ego
pessoal é transportado para a esfera do dirigir onde todos esses
elementos são testados incessantemente. A segunda questão seria:
- Em
que época da vida lembra que começaram a se desenvolver tais
pensamentos onde o núcleo é o medo? Confia plenamente que os traumas
vividos representam fielmente sua condição atual? Gostaria apenas de
fazer um parêntese sobre o que está sendo desenvolvido neste estudo.
É óbvio que ninguém jamais conseguirá viver sem o medo ou se
abster de sonhar ou desejar algo. Ambas as coisas são parte intrínseca
da condição humana. O que cabe é a conscientização sobre nossa
deficiência na obtenção da parte prática de viver bem. Sobre a
questão acima levantada é interessante notar como quase todos têm
um perfil traçado exatamente acerca da origem de sua insatisfação
ou infelicidade, como se a mente respondesse de forma lógica aos
desafios apresentados. A própria natureza do trauma ou conflito é a
arte da dissimulação visando a manutenção constante de determinado
estado afetivo. A cognição e pensamento do ser humano visam a
constante repetição dos eventos, na esperança de poder os controlar
algum dia. Nenhuma pessoa seria estúpida o suficiente para se
acostumar ao sofrimento, mas o que a mesma não percebe são seus
esforços internos para se deter em determinado hábito. Mas neste
ponto já podemos formular a pergunta central do texto e que desafia a
psicologia desde seu princípio:
- Por
que tememos tão intensamente as mudanças?
Quando ocorre uma mudança
no indivíduo para algo melhor ou mais produtivo, o primeiro desafio do
mesmo é estar atento e saber lidar com a mais pura inveja. Esta traz
temores inconscientes de toda ordem, não exatamente de perder o que foi
conquistado, mas o terrível sentimento de culpa por estar em uma situação
diferenciada. Podemos afirmar que tanto os elementos construtivos ou
destrutivos do ser humano sempre irão permanecer intactos no substrato
inconsciente. Se o esquema econômico e social fez com que, por exemplo, a
solidariedade se tornasse supérflua no rol da sobrevivência, a mesma irá
se deslocar para outra esfera; na identificação e solidarização com a
infelicidade absoluta do outro e obrigação de seguir o mesmo traçado.
Todos sabemos da dificuldade e dor de ver o outro muito melhor do que nós
mesmos, e quando alguém consegue destaque ou detém determinado
potencial, fatalmente o travará perante esta torcida consciente e
inconsciente da negatividade. Precisamos treinar muito para acreditarmos
em nossa auto estima. JEAN PAUL SARTRE dizia que o “inferno é o
outro”; tal afirmativa encerra um contra-senso; por um lado realmente o
outro é o inferno no tocante a inveja perante algo que temos ou detemos;
mas também sempre precisaremos de uma platéia, seja por nossos anseios
narcisistas e agressivos, ou por um desejo genuíno de tentarmos nos
integrar na coletividade. ALFRED ADLER, contemporâneo de FREUD e criador
da psicologia social, achava que o senso de uma real comunidade, no
sentido profundo de amparar o outro era a meta máxima do desenvolvimento
emocional da pessoa. O ser humano não é nem bom ou mal por natureza, mas
carrega todos os potencias de energias ou afetos que se cristalizarão em
conformidade com o meio e subjetividade de quem reage ao mesmo.
·
Outra
pergunta fundamental é: Qual o receio ou medo de proporcionar prazer a
alguém? Este é mais um dos dilemas de nossa era no tocante a
relacionamentos. O pavor de dar o melhor de si e não obter retorno ou
impacto sobre o outro permeia toda a esfera afetiva. O lacônico
“ficar”, é o produto mais fiel desse processo. Na verdade o
contraponto do consumismo é a total economia psíquica e sentimental de
prover o que se possui de melhor para alguém.
·
Sobre
as fobias em si; qual sua origem?
Como exemplos: medo de elevador ou lugares fechados, qual o significado?
Um dos mais antigos e primeiros colaboradores de FREUD chamado OTTO RANK,
elaborou uma teoria que denominou “trauma do nascimento”. A própria
condição biológica de como a criança vinha ao mundo já era por si só
um fator do mais puro stress. Se sentir confinado remeteria a esta antiga
imagem mnêmica, seguindo tal postulado. Embora não possamos desprezar
tal tese, creio que a mesma é correta, mas se encontra de certa forma
invertida do ponto de vista psicológico. Não é bem a imagem do
nascimento que se agrega ao medo, mas seu correlato, a morte. O medo do
confinamento representa a emissão simbólica de flashes acerca do destino
inevitável da humanidade; achando que o sufocamento é seu elemento
central, obviamente por uma associação biopsíquica ao elemento ar;
prova disto é o antigo medo de ser enterrado vivo. Mas não é apenas a
questão do confinamento ou ausência do elemento vital do ar que dão a
dimensão do medo que estamos analisando. Pensemos no medo do elevador;
seria um tanto simplista o associar também a morte ou sufocamento. A
psicanálise também sempre fez relação deste distúrbio novamente com a
questão da sexualidade. Simbolicamente estar diante de outras pessoas
representaria uma falha narcísica, como se seu “pênis” ou atributo
pessoal estivesse sendo testado ou comparado. Notem que por mais
surrealista que possa parecer tal interpretação, não deixa de ser uma
relativa verdade; prova disso é a fantasia sexual de efetuar relações
sexuais dentro do elevador, que seria uma reação a tal medo citado. O
que ficou de fora nessa análise toda é o elemento social da questão. O
medo do elevador denota também uma personalidade tímida e refratária ao
contato social; ou uma grande dificuldade de se sentir natural perante
estranhos. A fobia social é o embate final sobre a aferição de
sua mais profunda intimidade em relação ao meio.
ADLER brilhantemente classificou determinadas fobias como a “fuga da
situação de prova”, e como a pessoa se recusava a fazer qualquer tipo
de teste, sairia “vitoriosa” no plano mental simplesmente pela não
participação.
·
Como fica a síndrome do pânico
dentro do que foi citado até agora?
Pensemos num dos sintomas da referida moléstia-o medo de sair na rua.
Qualquer psicólogo um pouco experiente já percebeu fazendo um
levantamento pregresso da história do sujeito, que antes da afecção
acometer o mesmo, sua personalidade era exatamente oposta; mostrava
coragem, espírito empreendedor, liderança acima de tudo. Porém, em
determinado momento começou a ocorrer o processo inverso. Isto é o que
ADLER denominava como “arranjo psíquico”, um protesto mental contra
as tarefas ou responsabilidades que o sujeito não desejava mais carregar.
O desejo de sair, encontrar pessoas e tudo o mais ainda persistiria, só
que agora a perspectiva mudava radicalmente; a doença seria uma forma prática
de forçar o ambiente a lhe proporcionar todas as suas necessidades de
modo que desaparecessem suas obrigações ou esforços pessoais. Não é
muito mais simples e eficiente estar paralisado a espera de que alguém
nos acuda ou venha em socorro dos nossos anseios? Não se trata de negar a
doença, mas perceber sua mais profunda raiz na dimensão psíquica e
sociológica. É uma tarefa das mais ingratas nos posicionarmos
diariamente, sendo que quando descobrimos um atalho, vale de tudo, até
suportar um sofrimento alto para evitarmos novos constrangimentos, embora
contraditoriamente a doença traga talvez o pior de todos. A medicina e
psiquiatria ostensivamente negam tal núcleo, em função da massificação
e banalização dos medicamentos. O conforto da pílula pelo menos
deveria acompanhar uma frase ou palavra do médico com o intuito de
resgatar a potência perdida do sujeito.
·
Será
realmente importante discutir determinados medos de insetos ou
animais?(baratas, ratos, cobras, como exemplos); não seriam estes um
disfarce para encobrir questões mais amplas e difíceis para a
personalidade? Sem nenhuma sombra de dúvida; embora tais medos citados
remontem aos primórdios do ser humano quando ainda vivia em cavernas, e
estava sujeito a ataques dos mais variados animais ou insetos, se tornando
componentes atávicos ou até mesmo genéticos. Nos dias atuais tais
fobias relacionadas dizem muito mais da fuga dos verdadeiros problemas do
sujeito como foi citado, do que qualquer outra coisa. O que estou tentando
dizer como centro deste texto é que a fobia não passa de uma denúncia
ou instrumento que a pessoa utiliza para expor seu sofrimento de forma
disfarçada, por vergonha ou temor de passar a mensagem direta. A
fobia é a timidez de revelar a infelicidade de forma real e prática, o
desgosto profundo de uma alma que sente que não têm apoio e consideração
em relação ao meio.
·
Medo da crítica; falar
em público; comer (anorexia nervosa e bulimia); perder o emprego ou
insegurança econômica. Todos eles são os reais medos sem nenhum atalho
ou maquiagem. Notem que se observarmos atentamente, além do temor a crítica
citada possuem a mesma base central; o lidar com a autoridade. Pensemos na
insegurança de perder o emprego. O que aconteceu com essa pessoa no
passado? Teve conflitos de trabalho ou com determinadas regras, temendo a
repetição? Por que não poderia colocar suas habilidades em outro lugar?
O receio da idade ou do preconceito do sistema vigente? Não é a mesma
coisa da obsessão por um corpo perfeito, que dará a ilusão de ser
apreciada ou desejada continuadamente; fugindo do mais terrível pesadelo
que é a rejeição? O medo de falar não é a mesma coisa? Como
estruturamos nossa relação com a autoridade seja real ou simbólica (um
valor conferido pelo sistema), dará a dimensão de todo o nosso caráter:
submisso ou passivo; desafiador; cooperativo, e por fim retraído. O ser
humano procura obviamente sempre um patamar de segurança e estabilidade,
detestando mudanças bruscas que o obriguem a nova labuta pelo recomeço
do que julga serem suas necessidades. Mas então neste ponto não poderíamos
falar tanto sobre o medo como centro da questão, e sim de como todos de
tornam acomodados e indolentes para novos desafios. Descobrir que tipo de
autoridade está internalizada no inconsciente da pessoa e de que forma
sempre reagirá perante a mesma é tarefa profilática que o psicólogo
deverá exercer.
·
Ninguém pode contestar que
a opinião alheia é quase que um deus absoluto em nossa era, e que milhões
de pessoas permutam suas mais profundas convicções e talentos pessoais
para se evadirem da crítica e agressividade do meio. Restam apenas alguns
tipos que se tornaram até “excêntricos”, por não temerem a
estrutura social. A própria psicologia durante décadas reforçou a terrível
mentira de que o ideal da pessoa era estar bem com ela mesma; se
esquecendo de que diariamente todos os esforços são para chamar a atenção
de alguém para uma personalidade totalmente carente. A carência além de
também ser temida, traz à tona sua irmã gêmea que é sem dúvida o
maior medo de todos: a solidão.
·
Qual o grau de solidão que
sentiu no decorrer da vida e como lidou com o mesmo? A solidão além
de nos mostrar de forma imediata à privação de nossas necessidades,
agrega também o elemento da inveja, pois começamos a pensar que apenas
nosso ser não conseguiu comungar daquilo que é vital ou prazeroso. Há uma base histórica familiar que originou tão dolorosa sensação
de desamparo, devendo o psicólogo a refazer, sob o risco da pessoa nunca
sentir confiança em seu íntimo. A gênese da solidão além da falta ou
carência é um sentimento absoluto de derrota, fazendo com que a pessoa
desesperadamente tente mostrar algo de si que seja valioso, para não ser
riscada em absoluto do mapa das relações sociais. Tal esforço
infelizmente acaba sendo em vão, pois sua sensação de inferioridade não
permite que cative as pessoas ao seu redor. Pensemos nos atuais “ORKUTS”,
“*”SITES DE NAMORO” e coisas do gênero. O sistema social além de
criar toda a solidão consegue uma forma de lucrar com a mesma”. Em
nossa era a expressão: “antes só do que mal acompanhado”, é pura
escusa ou racionalização; os instrumentos virtuais de busca de parceiros
citados provam o grau enorme de miserabilidade afetiva e social; num
quadro destes é muito difícil discriminar quando a solidão seria até
saudável para se fazer uma reflexão pessoal, sendo que a sensação de
perda do potencial é muito mais forte, pela ausência de testemunhas
sobre seu valor próprio; coisa que a solidão provoca.
·
Como ficam os transtornos
obsessivos-compulsivos(tocs)? Geralmente o tipo de transtorno e incidência
remete a uma personalidade que passou por grave crise pessoal e tenta se
recuperar. A obsessão está ligada diretamente a uma espécie de
pensamento mágico ou superstição, numa forma simbólica de ritual ou
proteção contra a repetição do evento traumático. O problema é que
tal proteção acaba custando caríssima, pois produz uma constante
escravização sobre imagens ou comportamentos cotidianos e rotineiros que
absorvem a energia do sujeito. A tarefa do psicólogo é sistematizar
minuciosamente o tipo de ato obsessivo e fazer junto ao paciente o
levantamento em que situações o mesmo ocorre e sua significação. A pessoa
deve perceber que o medo não deixa de ser um ato solitário; sua raiz e
potência se reforçam no anonimato. O medo teme compartilhar sua essência,
assim como o status ou dinheiro, segue a estrutura social vigente de egoísmo
e apenas pensar e trabalhar por si mesmo. O medo sempre lembrará ao
sujeito de que o mesmo é infeliz e não terá chance de superação de
seu dilema, impossibilitando a catarse
pessoal para uma vida plena. Uma terapia bem sucedida é a que despertou
um mínimo de motivação e felicidade no paciente. Enfim, a grande arma
do medo é a associação com a solidão, para não apenas isolar o indivíduo,
mas, também subtrair seus recursos. Inteligência é a capacidade de
pedir e agregar ajuda ao seu redor, sendo que ninguém necessitaria de
status ou fama para tal finalidade. Se a história da psicologia provou
que não temos nenhum poder sobre os processos inconscientes; que pelo
menos possamos efetivar a potência da reação; isto representa a
coletividade psíquica da humanidade. A caixa preta do sofrimento só será
aberta quando traçarmos um caminho paralelo de criatividade e constante
sabedoria perante nossos dilemas não resolvidos.
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BIBLIOGRAFIA:
ADLER, ALFRED. O CARÁTER NEURÓTICO. BUENOS
AIRES: EDITORA PAIDÓS, 1912.
·
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COLABORADORES: IRINEU FRANCISCO BARRETO JÚNIOR E
SIMONE JORGE(SOCIÓLOGOS).