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Desejos
Se eu soubesse que no mundo
Existia um coração,
Que só por mim palpitasse
De amor em terna expansão;
Do peito calara as mágoas,
Bem feliz eu era então!
Se essa mulher fôsse linda
Como os anjos lindos são,
Se tivesse quinze anos,
Se fôsse rosa em botão,
se inda brincasse inocente
Descuidosa no gazão;
Se tivesse a tez morena,
Os olhos com expressão,
Negros, negros, que matassem,
Que morressem de paixão,
Impondo sempre tiranos
Um jugo de sedução;
Se as tranças fôssem escuras,
Lá castanhas é que não,
E que caíssem formosas
Ao sôpro da viração,
Sôbre uns ombros torneados,
Em amável confusão;
Se a fronte pura e serena
Brilhasse d’inspiração,
Se o tronco fôsse flexível
Como a rama do chorão,
Se tivesse os lábios rubros,
Pé pequeno e linda mão;
Se a voz fôsse harmoniosa
Como d’harpa a vibração,
Suave como a da rôla
Que geme na solidão,
Apaixonada e sentida
Como do bardo a canção;
E se o peito lhe ondulasse
Em suave ondulação,
Ocultando em brancas vestes
Na mais branda comoção
Tesouro de seios virgens,
Dois pomos de tentação;
E se essa mulher formosa
Que me aparece em visão,
Possuísse uma alma ardente,
Fôsse de amor um vulcão:
Por ela tudo daria...
- A vida, o céu, a razão!
Casimiro de Abreu - Lisboa/1857
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