Ética Rompida

Mãe, prepara meu café?
- Prepara você.
Mayra calçava os sapatos.
- Por favor, estou atrasada.
- Pra variar... Sempre está.
- O despertador tava desligado. Por isso.
Mayra foi até a cozinha e ajudou sua mãe a terminar de arrumar o leite.
- Hoje eu vou voltar tarde, ta? - Teresa, mãe de Mayra, disse.
- Tá bom.
- Vê aí o que você pode preparar pra janta. Qualquer coisa, você encomenda uma comida chinesa.
- Sem problemas.
Mayra tomou o leite todo em um gole só e pegou sua bolsa.
- Tenho que ir. Bye, mãe.
- Tchau, boa aula.
A sorte dela era que ela morava perto da escola. Foi correndo até ela, chegando lá viu que os últimos alunos entravam. Entrou correndo, só parando ao ver sua amiga Gisely no corredor.
- Gigi! O que houve?
- Eu que pergunto. Respira.
Mayra estava ofegante.
- É que eu corri muito. Não vai assistir à aula?
Não tem.
- Não tem?
- Não.
- Que isso, não acredito. - Ma encostou-se no armário - Corri a toa.
- Pois é.
- Qual a matéria?
- Sociologia.
- E por que não vai ter aula?
- Eles não têm professor.
- Nossa, é tão difícil conseguir professor dessa matéria?
- Pelo jeito, é. Ta a fim de ir à cantina?
- Claro.
As duas foram até a cantina do colégio. Gisely comprou um pacote de biscoitos e as duas se se sentaram à mesa. Ficaram conversando assuntos de amigas, até que Beth, a inspetora, se aproximou das duas.
- Estão matando aula, é?
- Não, Beth. A gente não tem.
- Não?? Que matéria?
- Sociologia.
- É mesmo, não encontraram professor ainda... Mas vocês vão assistir à próxima aula!
- Claro, Beth. Nós duas, tão estudiosas... - Ma disse debochada.
Beth torceu a cara e se afastou.
- A próxima aula é o que? - Ma perguntou.
- História, eu acho.
- Ah, você não quer assistir não, né?
Gi s fez careta.
- Então vamos ao shopping. Ver Minitory Report.
- Ah, aquele com o Tom Cruise, né?
- Aquele Deus do Tom Cruise!! O que eu daria pra ter um homem desses.
- Claro, ele velho pra caramba.
- Velho?? Ele tem só 40 anos!
- E você 17. São SÓ vinte e três anos de diferença.
- Po, mas um tesão daquele... Até se tivesse 60.
Gis riu.
- Vamos, então.
- Vamos.
As duas se levantaram e foram até o shopping.
Mayra estava saindo da sala quando esbarrou com Tom, um colega seu no meio do corredor.
- Olha por onde anda, garoto.
- Ih, me dá um chiclete?
Mayra estava abrindo um pacote e Tom percebeu, ela tirou outro do bolso.
- Toma.
- Valeu.
- Viu a Gi por aí? - Mayra perguntou.
- Acho que foi pra aula.
- Que aula? - mascando o chiclete - Não tem aula.
- Claro que tem. De Sociologia.
- Que? Mas tem professor?
Tom confirmou com a cabeça.
- Eles arranjaram ontem.
- Ah, que droga.
- Droga por que? A gente já estava há mais de um mês sem aula de Sociologia.
- E tava bom demais. Ai... Será que eu assisto?
- Assiste, deixa de ser vagabunda.
Tom segurou o braço de Mayra e levou-a até a sala.
- Ah, Tom, não quero ir, não.
- Ih, Mayra, vê se assiste pelo menos uma aula.
- Saco.
Os dois entraram na sala. Tinham poucos alunos nas carteiras e nenhum professor.
- Ele não veio, vou embora.
Mayra deu meia volta mas Tom a segurou de novo.
- Ele já ta vindo, vamos sentar.
Ela fez bico e deixou Tom carrega-la até o fundo da sala, sentando ao lado de Gisely.
- Até você Gis, virou nerd?!
- Po, eu vim assistir porque a gente já ta atrasadona nessa matéria.
- Fala sério, Sociologia é a matéria mais imbecil do mundo. Ficar estudando o comportamento da sociedade... olha só. Que coisa mais tosca.
- Mayra, pra você tudo é tosco.
- Escola é tosca!
Mayra riu de si própria. Ajeitou-se na carteira e começou a batucar baixinho.
- E cadê esse professor? Não aparece e tenho que esperar a criatura chegar?
- Já deve estar vindo. - Tom disse.
- Se não vier, eu vou embora. Olha, tem cinco minutos.
- Mayra, agüenta aí. Que fogo pra matar aula.
Enquanto Gisely e Tom trocavam palavras, Mayra olhava pro relógio ansiosa.
- Pronto, cinco minutos! - se levantou - Tchau pra todos.
- Ma, espera.
- Não, to indo.
Mayra pegou sua mochila e andou até a porta. Quando ia abrir, alguém a abriu primeiro e ela deu de cara com um homem alto, cabelos castanho claro e olhos castanhos.
- Estava indo embora? - ele disse.
- Depende, você é o professor?
- Sou.
- Então não, eu não estava.
Mayra voltou pra sua carteira de fininho, enquanto o professor colocava sua pasta em cima da mesa.
- Que fora, hein? - Gisely disse quando Mayra sentou ao seu lado.
- Ah, como eu ia adivinhar?
Depois do professor arrumar suas coisas na mesa, ele deu a volta, encostando-se na mesa de frente pros alunos. Esperou que eles se calassem e arranhou a garganta. Deu um último olhar na turma para confirmar que todos prestavam atenção.
- Bom dia. Meu nome é Leandro Scornavacca, sou o professor de Sociologia. Eu --
Leandro passou a encarar Mayra. Ela estranhou.
- Isso é chiclete?
- O que?
- Que você está mascando?
Mayra virou os olhos e ia se levantando para jogar o chiclete no lixo.
- Não, não precisa jogar fora. - Leandro disse, fazendo ela voltar ao lugar - É só mascar mais baixo. Deu pra ouvir daqui.
Tom soltou uma risadinha baixa e Mayra o fuzilou com os olhos. Leandro continuou.
- Eu sei que vocês estão há um mês sem aula, portando as coisas vão ter que ser corridas. 
Leandro foi até o quadro escrever algo, que depois de escrito os alunos não acreditaram.
- Teste??
- Isso. - Leandro confirmou.
- Mas isso é semana que vem! A gente nem tem matéria!
- Eu vou dar hoje.
- Cara maluco. - Mayra disse baixo.
Não baixo o suficiente porque Leandro ouviu, mas deixou passar.
- Vamos começar então falando de um tema muito comum nas nossas vidas que é a descriminação social. A descriminação é dividida em vários tipos, como discriminação por religião, por gênero, sexual, econômico...
Mayra estava com seu caderno aberto rabiscando qualquer porcaria, não prestando atenção na aula. Leandro não era bobo, professor há mais de dez anos ele conhecia todo o tipo de alunos. E sabia exatamente qual era o tipo dela.
- Mayra!
Mayra levou um susto quando Leandro soltou aquela voz grossa ecoando pela sala toda. Encarou-o.
- Sim, senhor?
- É professor.
- Sim, PROFESSOR?
Leandro começou a andar pela sala devagar, com as mãos no bolso.
- Poderia me dizer qual a diferença entre preconceito e discriminação?
Ela riu.
- Não tem.
- Não tem o que?
- Diferença entre os dois. Se você discrimina, você tem preconceito.
Leandro continuou a andar pela sala.
- Não... Se você estivesse prestando atenção na aula, saberia que sim, há uma diferença. Saberia que preconceito é quando você é contra algo, mas não age sobre isso. E discriminação quando você tem preconceito e age sobre isso. Por exemplo: se você tem preconceito com negro, vê um na rua e o xinga, isso é discriminação. Mas se você não gosta de negros, só que não faz nada contra eles, isso --
Leandro parou para olhar Mayra. Ela estava rabiscando no caderno de novo.
- Mayra!
De novo o susto.
- O que é?
- Qual a diferença entre preconceito e discriminação?
- Você já perguntou!
- Eu sei, mas você não respondeu.
Todos da sala começaram a rir baixinho. Mayra estava começando a ficar incomodada.
- Eu não sei!
- Acabei de explicar.
Mayra virou os olhos.
- Mas eu não sei...
- Por que?
Mayra deu um longo suspiro. Aquele professor estava enchendo o saco.
- Porque eu não estava prestando atenção. Isso que você queria ouvir?
- Aham. E se pudesse se chamar de idiota eu também agradeceria.
A turma inteira riu. Mayra fuzilou Leandro com o olhar, imaginando centenas de tipos de tortura que gostaria de usar nele. Leandro pediu que a turma ficasse em silêncio e voltou a explicação. Apesar de Mayra agora não tirar os olhos do professor, ela não prestava atenção na aula. Tava entupida de ódio por aquele homem.
O sinal bat eu e todos se levantamos.
- Não se esqueçam do teste. - Leandro avisou.
Mayra pegou suas coisas e tratou logo de sair dali. Não quis nem olhar mais pra cara de Leandro, já tinha olhado o suficiente. Esperou sair da sala para soltar o verbo.
- Mas que merda, você viu que professor escroto???
Gisely riu.
- Mas você também, né? 
- O que eu fiz?
- Po, o cara te explica de novo e você continua não prestando atenção.
- Prestar atenção nessa porra de matéria?? "Qual a diferença entre preconceito e discriminação?" - Mayra imitou numa voz grossa - Que estúpido.
- Me amarrei nele. - Tom disse.
- Então casa com ele, Tom.
- Mas ele é legal. - Gisely disse - Só é meio severo, mas --
- Vocês por acaso vão montar um fã-clube também? Não, porque se vão, me avisem que eu vou ser a primeira a me inscrever!!
- Ai Mayra... Vamos tomar um sorvete? Pra você relaxar?
- Vou pra casa, isso sim.
- Tem aula agora, de História.
- Problema.
Mayra saiu do colégio em direção à sua casa.
Mayra estava deitada em sua cama, dormindo. O despertador tocou e ela apenas levantou o braço, para desligar. Viu que horas eram: 7:50 AM
- Fala sério... Nem vou.
Mayra virou pro outro lado e voltou a dormir. Sentiu alguém cutuca-la.
- Mayra, ta na hora de ir pra escola.
- Ah, mãe, não tem aula hoje.
- Não tem?
- Não. Só mais tarde.
- Ta, então não se atrasa depois. Volto de noite.
- Ta bom, tchau.
Teresa saiu do quarto e Mayra voltou a dormir. Acordou só uma hora e meia,depois. Levantou-se, preparou seu leite e ligou a TV. Estava passando um desses programas de debates.
E o tema de hoje é: preconceito. Há vários tipos de preconceitos --
Mayra tomou mais um gole do leite e arregalou os olhos.
- Puta merda! O teste é hoje!
Ela colocou o copo na pia, correu pro seu quarto pra vestir qualquer roupa,e saiu correndo de casa. Entrou no colégio esbarrando em todos no corredor. Olhou no relógio e viu que o tempo já tinha acabado. Não desistiu, correu até a sala.
Ao entrar, viu a sala vazia, apenas o professor guardando suas coisas na mesa.
- Bom dia, senhora Susenko. Um pouco atrasada hein?!
- O teste já acabou?
- Há meia hora.
Mayra se aproximou da mesa.
- Não tem como eu fazer agora?
Leandro olhou Mayra com um sorriso discreto no rosto.
- Não.
- Por favor! Eu tava vindo no carro da minha mãe e o pneu furou, me atrasei toda!
- Sério? Que chato. Mas não pode.
- Pelo amor de Deus, professor!!! Não posso ficar com zero! Hoje é o último ano, eu tenho que passar com notas boas, senão não vou ser aceita em nenhuma universidade!
- Abaixe o tom de voz.
- POR FAVOR!!!
Leandro a fitou por uns segundos.
- Desculpe. - Mayra disse mais baixo - Por favor.
- Não tem como. Eu tenho outra aula agora.
- Mas eu faço rapidinho, quietinha no meu canto. Você nem precisa me vigiar.
- Esquece.
Leandro andou em direção à porta mas Mayra meteu-se na frente dele.
- Por favor, professor. Estou implorando. Você quer quanto? 50?
- Pare com a besteira. Não vou aceitar seu dinheiro.
- Pelo amor de Deus!!!
Mayra segurou Leandro pela camisa.
- Ta, primeiro você me solta. 
- Desculpe. - soltando.
Leandro deu um longo suspiro.
- Eu não sou de fazer isso, mas... Sabe, eu odeio alunos como vocês! Só fazem merda e depois ficam querendo arrumar tudo com essas caras de coitados.
Leandro suspirou novamente. Mayra estava impaciente.
- Você me entrega um trabalho, até semana que vem.
- Um trabalho?
- É. Sobre discriminação social. Você escolhe sobre qual.
- Sobre qual o que?
- Sobre qual discriminação você vai falar.
- Tem mais de uma?
Leandro virou os olhos.
- Esqueci que você não presta atenção na minha aula... Existe, discriminação de religião, raça, gênero...
- Ah sim, entendi.
- Então. Você me entregue isso até semana que vem. Completo. Senão é zero.
- Muito obrigado, professor!! Valeu mesmo! Até que você não é tão ruim. - Mayra riu para descontrair.
Leandro torceu os lábios e passou por ela. Essa respirou aliviada.
- Trabalho, moleza.
Mayra e Gisely estavam andando pelo corredor do colégio.
- Hoje não tem mais aula, a professora Newman dispensou a gente. - Gisely disse - Vai fazer o que?
- Bom, eu poderia ir ao shopping, cinema... Mas vou ter que ir à biblioteca.
- Pra que?
- Terminar o trabalho de Sociologia. Saco.
- Pois é, você não fez o teste. Deveria ter feito, tava muito fácil.
- Claro, imagino.
- Tava mesmo. E ele ajudou a gente pra caramba. Você perguntava e ele te dava todas as dicas, quase a resposta toda. Muito gente fina.
Mayra suspirou.
- Você amou mesmo esse professor.
- Po, ele é muito legal.
- Não vi nada de legal.
- É que você também, uma peste, né?! Além disso...
- O que?
- Nada.
- Fala!
- Nada não.
- Fala logo, coisa!
- Ah, é que... po, sei lá, ele... é meio bonitinho.
Mayra fez uma careta de impressionada.
- Bonitinho??
- Ah, é sim.
- Aquele cabelo anormal?? 
- Ih, Mayra, nada a ver. É bonitinho, sim. E nem parece ter a idade que tem.
- Quantos anos ele tem?
- Tem 31.
- Já tão íntima a ponto de saber a idade dele?
- O Tom que me disse.
- Mas de qualquer maneira, muito feio.
- Você quem tem mal gosto.
- Ta, deixa-me ir lá, terminar o trabalho do 'tesão de 31 anos'.
- Depois me liga.
- Pode deixar.
Mayra estava novamente correndo pelos corredores, atropelando todos. Quase tropeçou por causa da bota que usava e que só atrapalhava naquela situação. Entrou na sala de Sociologia. Estava vazia.
- Não acredito. Não, não pode ter acontecido.
Mayra correu pra outra sala, de matemática. Parou na janela e fez sinal para que Gisely fosse lá fora. Gisely pediu licença pro professor e saiu.
- Ma, onde você tava!
- Gis, o despertador não tocou!
Gisely fez cara de deboche.
- Essa desculpa ta ultrapassada.
- Eu juro que dessa vez foi verdade. Você acha que eu ia matar aula logo hoje?
- O que tem hoje??
Mayra mostrou o trabalho de Sociologia que ela segurava na mão.
- Meu Deus, você tinha que entregar...
- Eu sei! E ele não está na sala.
- Deve ter ido embora, já estamos no último tempo!!
- O que eu faço agora?? Tenho que entregar isso.
- Cara... Será que se você entregar amanhã...
- Ele não vai aceitar. Droga!
Mayra socou o armário do corredor.
- E se você entregar na casa dele?
- Como é?
- É, na casa dele. Ele deve morar aqui perto.
- Ir na casa do meu professor??
- Mayra, qual o problema?? Nesse desespero todo que você ta...
Mayra olhou pra parede, pensando um pouco.
- Ta, mas como vou saber onde ele mora?
- Pergunta na secretaria.
Ela deu uma olhada desconfiada pra Gisely.
- Isso não é boa idéia.
- Então fique com zero, Ma.
- Não, isso não. Ta, eu vou lá perguntar. Valeu.
- Não vai assistir matemática?
- O que você acha?!
Mayra andou pelo corredor, em direção à secretaria. Entrou e Tina, recepcionista, a atendeu.
- Posso ajuda-la?
- Sim, você poderia me informar o endereço do professor... - Mayra pensou um pouco - Leandro alguma coisa... de Sociologia.
Tina olhou uma lista de professores ao seu lado.
- Leandro Scornavacca?
- Esse mesmo.
- Você quer o endereço dele?
- Isso, da residência.
- Sinto muito, mas não podemos dar.
- Por que?
- Não podemos simplesmente dar o endereço de nossos professores para qualquer um. Sigilo profissional.
- Mas eu não sou qualquer uma. Sou uma aluna. Tenho que entregar esse trabalho a ele.
- Entregue amanhã.
- Não posso. - Mayra engrossou a voz - Tem que ser h-o-j-e!
Tina fechou a cara.
- Mas não p-o-d-e.
Mayra suspirou.
- Já vi que vai ser difícil. - ele disse pra ela mesmo - Poderia chamar a diretora, então?
- Não.
- Então eu falo pessoalmente.
Mayra deu a volta pelo balcão em direção à sala da diretora.
- Hei, você não pode entrar!
Ela estava na Alameda Flora.
- Número 75...
Mayra guardou o papel no bolso novamente e procurou a casa. Encontrou. Tinha dois andares, toda branca e com as portas de madeira escura. Subiu os degraus da varanda e tocou a campainha. Enquanto esperava, olhou no relógio.
- Nossa...já são 6 da tarde... Saco daquela Tina.
A porta se abriu. Leandro fez cara de surpreso.
- Mayra.
- Isso mesmo.
- O que está fazendo aqui?
- Vim lhe entregar meu trabalho.
Mayra estendeu o papel. Leandro olhou e depois olhou pra ela.
- Não vou aceitar.
- Por que não?
- Porque você não cumpriu o prazo.
- Claro que cumpri. Você disse até em uma semana. A partir de amanhã que acaba o prazo.
- Sinto muito.
Leandro ia fechar a porta mas Mayra colocou o pé, impedindo.
- Poderia tirar o pé?
- Não! Não porque eu me ralei pra fazer esse trabalho, tive que aturar uma tal gorda da recepção e ainda a diretora, tudo isso pra arranjar seu endereço para entregar esse maldito trabalho! Portanto, você vai pegar esse trabalho, vai ler e me dá os pontos que mereço. Entendeu ou quer que eu repita?
- Quero que você vá tomar no -- (proibido para menores de 18 anos! =P)!
Leandro fechou a porta e Mayra ficou com aquela cara de pasma, não acreditando no que ouviu. Voltou a tocar a campainha. Leandro abriu a porta.
- Você ainda ta aqui?
- Não saio enquanto você não pegar meu trabalho. Nem que eu tenha que dormir aqui, você vai aceitar esse trabalho!
Leandro suspirou.
- Mas você é teimosa.
- Muito.
Leandro olhou Mayra por uns segundos e estendeu a mão.
- Me dá logo isso.
- Toma. - ela entregou - E vê se corrige com carinho.
- Claro, pode deixar.
- MUITO OBRIGADO.
Mayra saiu de lá batendo o pé, xingando Leandro de tudo quanto é nome.
- Não acredito que ele falou isso!
- Falou.
Gisely caiu na cama de tanto rir.
- Ele te mandou tomar no...?? Meu Deus, que cara louco.
- Totalmente.
- E aí?
- E aí que enchi o saco dele e ele, aceitou meu trabalho!
- Ah, essa foi boa. Nunca vi um professor assim.
- Nem eu.
- Mas me diz... Você foi na casa dele, é? É bonita?
- Sei lá, não entrei. Por fora é normal.
- Tinha alguma namorada lá?
- Não vi!
- Ele não é casado, sabia?
- Não. Como você sabe?
- Ele não usa aliança.
- Você não perdoa, Gis.
- Ah, percebi sem querer...
- Claro...sem querer seus olhos pararam no dedo dele e você percebeu que não tinha aliança.
- Ele tava vestindo o que?
Mayra fez cara de confusa.
- Pra que você quer saber isso?
- Só to perguntando. Tava de cueca?
- Não. Tava de jeans e uma camisa normal.
- Ah, sem graça... Mas você viu como ele é fortinho?
Mayra virou os olhos, rindo da bobeira da amiga.
- Sério! Na aula passada ele foi com uma camisa ‘mamãe-sou-forte’ e realmente fazia jus à camisa.
- Não, Gisely. Juro que na próxima vez eu reparo.
- Você vai pra aula amanhã?
- Vou, né? Fazer o que. O primeiro tempo é Geografia?
- Aham.
- Blé, odeio aquela gorda fã de Elvis.
- Ah, ela é maneira.
- Gisely, o que você tem que gosta de todos os professores??
- E você que não gosta de nenhum?
- Acho que eles que não gostam de mim.
Mayra aproveitou que estava no intervalo e foi até a sala de Sociologia. Não tinha ninguém, exceto pelo professor que estava apagando o quadro. Ela bateu na porta, já aberta.
- Dá licença.
Leandro olhou e voltou a apagar o quadro.
- Você, Mayra.
- Bom dia, professor.
Leandro levantou as sobrancelhas enquanto batia uma mão na outra, limpando o giz da mão. Mayra se aproximou da mesa, conforme Leandro ajeitava uns papéis.
- Vim aqui pega r minha nota do trabalho.
Leandro a olhou rapidamente, arrumou uns papéis no canto da mesa e abriu sua pasta. Tirou o trabalho dela e colocou sobre a mesa. Pegou a pasta e passou a alça pelo corpo (aquelas pastas que a gente usa na lateral do corpo), já se arrumando pra ir embora. Mayra pegou o trabalho, com um "F" grandão bem na capa.
- O que é isso?
- Um F.
- De Foda? Fiz tão bem assim? - Mayra riu pra não chorar.
- Não. F porque você ta Fodida mesmo
Mayra ficou meio chocada com o vocábulo do professor mas já começou a se acostumar.
- Você ta brincando.
- Não estou.
Leandro pegou seus últimos papéis, segurando-os na mão e a olhou.
- Mais alguma coisa?
- Sim. Que tal uma explicação pra essa nota?
- Era a nota que você merecia.
- Como é?!
- Mayra, esse trabalho não tem nada a ver com o que eu pedi.
- Tem sim, discriminação social!!
Leandro balançou a cabeça.
- Não está completo.
- Ah, não? Você quer uma apresentação em retro-projetor também?
- Não, só quero conteúdo.
Mayra suspirou.
- Tá, eu vou fazer de novo e --
- Não.
- Não o que?
- Não vou aceitar mais seu trabalho.
- Por que não???
- Porque não vou!
Leandro saiu da sala, seguindo pelo corredor. Mayra foi atrás.
- Professor, por favor. Eu to pedindo, só mais uma chance.
- Já te dei muitas chances, Mayra.
- Mas você é um escroto mesmo.
Leandro parou e virou-se pra Mayra.
- A única pessoa escrota aqui é você. É uma desleixada que não dá a mínima pra escola, só mata aula, não presta atenção e espera conseguir tudo com essa cara de pidão e seus chiliques. Se continuar assim, vai ser uma vagabunda quando for mais velha.
Leandro virou-se e continuou andando pelo corredor. Mayra permaneceu parada, completamente chocada com as palavras de Leandro, não que ela fosse começar o chorar de como ele a afetou com aquilo, mas certas palavras, mesmo vindas de um estranho, ofendem seu orgulho.
Era terça-feira e, pra surpresa geral da nação, Mayra estava adiantada pra aula de Sociologia. Gisely e Tom não acreditaram quando entraram na sala e viram Mayra sentada no fundo, lendo um livro.
- Aquela é a Ma ou estou tendo alucinações?
Mayra fez careta. Tom sentou junto com os amigos e Gisely sentou ao lado dela.
- O que você está fazendo aqui?
- Vim assistir aula.
- Não, sério. O que você está fazendo aqui?
Mayra bateu com o livro, de leve, no braço dela.
- Que milagre.
- Pois é...
Leandro entrou na sala, sem olhar os alunos. Colocou sua pasta na mesa, tirou uns papéis dela.
- Bom, hoje nós --
Leandro finalmente olhou os alunos e se espantou.
- Ora, nós temos uma aluna nova.
Mayra virou os olhos. Ele já ia começar a provocar.
- Gostaria de se apresentar para o resto da classe?
Os alunos só riam. Mayra ficou séria, sem olhar para Leandro.
- Tímida, né? Só espero que seja estudiosa também. Bom, hoje nós vamos falar sobre sendo comum e atitude crítica...
Leandro começou a dar a matéria. E Mayra, por incrível que pareça, estava prestando atenção. A única hora que ia escrever no caderno, era pra anotar o que Leandro escrevia no quadro. E algumas vezes, quando Leandro via o interesse de Mayra, ele sorria satisfeito e surpreso com a atitude dela.
- Alguém poderia me dar um exemplo de senso comum?
A turma toda ficou quieta. Leandro sentou-se na cadeira.
- Qual é, pessoal, ninguém sabe?
Mayra vacilou um pouco mas acabou levantando o braço.
- Quer ir ao banheiro, Mayra?
Mayra ignorou a provocação.
- Sei de um senso comum.
- Sério? Diga, então.
- Masturbar-se demais cria pêlos na mão.
A turma inteira riu.
- Por isso que o Tom é tão peludo. - Um garoto berrou.
Tom só riu, como o resto da turma. Até Leandro deixou escapar um sorris o.
- Tá certo, isso mesmo. - Leandro disse - Conhece outro?
Mayra pensou um pouco.
- Se você cortar seu cabelo na lua crescente, ele cresce mais rápido.
- Isso, também outro bom exemplo.
- E aquilo de colocar um dente debaixo do travesseiro? - Gisely disse - Aí a fadinha vem, pega seu dente e deixa um dinheiro.
Todos zoaram pelo exemplo idiota.
- É... - Leandro disse - Isso seria mais pra fantasia do que senso comum... Mas sim, também serve.
- Viram?!? - Gisely deu a língua pra todos na sala.
Leandro continuou pedindo exemplos e saíram várias besteiras, do tipo "Mistura de manga com leite é veneno". O bom é que a turma era pequena, uns sete alunos no máximo, então ficava mais fácil fazer algo interativo. O sinal bateu, mas a turma ainda citava uns exemplos idiotas.
- Tá, pessoal, já tá bom. Podem sair.
Todos pegaram suas coisas e saíram ainda comentando e rindo. Gisely se aproximou de Mayra.
- Vou lá no xerox, tirar cópia da apostila de História p ra agora. Você vem?
- Ah, tira pra mim? Toma. - Mayra entregou o dinheiro a ela - Te encontro na sala.
- Vamos comigo.
- Não, vou falar uma coisa com o professor rapidinho, pode ir.
- Tá... Boa sorte.
- Valeu.
Gisely saiu da sala e Mayra juntou suas coisas, indo até a mesa do professor. Leandro estava sentado, escrevendo no diário.
- Ah-ham. - Mayra arranhou a garganta. - Professor...
Leandro levantou o rosto.
- Fale, Mayra. Gostou da aula?
- Gostei.
- Foi bom você ter participado.
- Pois é. Será que... eu poderia falar com você?
- Estou ouvindo.
Ela ficou impressionada com a calma que Leandro a tratava, depois de tudo que os dois passaram. Ela puxou uma cadeira pra junto da mesa, ficando em frente a ele, na mesma altura.
- Eu queria... me desculpa por ter feito aquela cena toda outro dia.
Leandro a olhou.
- Acho que exagerei. É que fiquei desesperada imaginando ganhar um zero. Sabe, eu quero muito entrar numa boa faculdade e preciso de um bom histórico.
- Você precisa também ser dedicada. Os professores de faculdade não dão tanta moleza como os daqui.
Mayra levantou as sobrancelhas. Quer dizer que os professores da faculdade seriam pior que ele?!
- É, eu sei. E você viu, hoje eu vim disposta a prestar atenção na sua aula, participar e tudo mais...
- Que bom.
- Aham. Portanto, eu... queria pedir para que você repensasse sobre a sua decisão de não me dar uma outra chance com o trabalho. Sabe, eu me dediquei tanto àquele trabalho...
- Ele tava uma porcaria.
- Eu sei. - Mayra sorriu meio desconfortada. - Mas se você me dessa outra chance...
- E depois? Você vai voltar a matar aulas, perder o teste e pedir mais chances?
- Não, professor. Claro que não, você viu que eu mudei.
- De uma hora pra outra?
- Eu sou uma boa aluna. Apesar de não assistir às aulas, eu sempre tiro nota boa.
- Eu sei, vi seu histórico.
- Então. Você não pode deixar um zero no meu boletim. Por favor , eu imploro. Prometo, só dessa vez. Se eu fizer alguma besteira, não te encho mais o saco.
Leandro olhou pra mesa, batucando com a caneta de leve, pensando. Mayra esperou, pacientemente. Não era uma boa hora para pressionar. Os alunos da outra turma começaram a entrar e se sentar, cumprimentando o professor. Leandro olhou para ela e falou baixinho.
- Olha, eu deixo você refazer o trabalho.
Mayra abriu um largo sorriso.
- Quero entregue na minha aula, semana que vem. Nenhum minuto depois.
- Muito obrigado, professor, você é demais.
- Vê se faz certo dessa vez.
- Prometo que vou fazer! Brigada.
Mayra se levantou e saiu da sala saltitando. 
Mayra e Gisely estavam saindo da última aula, da quarta-feira.
- Vamos ao shopping? - Gisely disse - Quero comprar uma blusa nova.
- Não posso. Vou à biblioteca fazer meu trabalho.
- Virou nerd, é?
- Gi, eu não posso vacilar, senão to ferrada. Tenho que fazer um trabalho bem completo.
- Ah, tá bom... Eu falo com a Ligia, então.
- Não se preocupe, depois da semana que vem a gente vai ao shopping ‘every fucking day’!
Mayra foi até a biblioteca do seu clube, por ser mais completa. Deixou seu material em uma das mesas e saiu à procura dos livros. Pegou todos relacionados à matéria. Levou uns sete livros até a mesa e começou a pesquisa-los, anotando tudo de importante que via.
Estava tão concentrada que não percebeu o tempo passar. Quando olhou no relógio, eram seis e meia. Olhou pela janela e viu que já começava a escurecer.
- Nossa, to esse tempo todo aqui.
Ela guardou os livros, pegou suas anotações e saiu. Estava voltando a pé mesmo quando viu a placa na entrada da rua: Alameda Flora. Parou e pensou. Acabou se decidindo e entrou na rua. Ao chegar no número 75, vacilou um pouco antes de tocar a campainha. Tocou, Já era, não dava pra sair correndo. Instantes depois, Leandro abriu a porta.
- Oi, Mayra.
- Oi, professor... é que eu queria lhe mostrar o que eu já consegui e tirar umas dúvidas.
- Agora?
- Se quiser eu falo contigo na escola. É que eu tava aqui perto e --
- Pode entrar.
Leandro abriu mais a porta. Ela hesitou um pouco mas acabou entrando, parando logo no hall. À sua direita estava a sala, a sua frente um corredor que dava até a cozinha e ao lado a escada.
- Quer beber alguma coisa?
- Não quero incomodar...
- Imagina, incomodo algum...
- Tem Pepsi?
- Tem.
- Por favor, então...
Leandro seguiu o corredor até a cozinha. Mayra olhou à sua esquerda e viu o que deveria ser o escritório. Leandro voltou com a latinha.
- Serve normal, né? Sei que vocês meninas adoram Coca Light.
- Não, tá bom.
- Vem por aqui.
Leandro seguiu até o escritório e Mayra foi atrás. Os dois entraram e Leandro acendeu a luz. Tinha um sofá, uma mesa com vários papéis e uma luminária e uma estante enorme, cheia de livros.
- Não repare a bagunça.
- Eu que peço desculpas por vir assim, sem mais nem menos.
- Realmente, é estranho.
Mayra tirou os papéis da bolsa e entregou para Leandro.
- Foi o que consegui hoje na biblioteca.
Leandro pegou os papéis e se sentou na cadeira, junto à mesa. Mayra sentou-se no sofá, de frente para ele, bebendo sua Pepsi e olhando ao redor conforme Leandro lia as anotações.
- Esses livros são todos de Sociologia?
- A maioria.
- Nossa, olha o tamanho daquele... Do Karl Marx. 
- Tem mil e quinhentas páginas. - Leandro respondeu enquanto lia - O primeiro de uma coleção de seis livros.
- E você já leu todos?
- Não. Nem o primeiro eu li! É muito complicado.
- Imagino.
Os dois ficaram em silêncio mais uns segundos enquanto Leandro terminava de ler. Ele colocou os papéis na mesa e olhou Mayra.
- Está bom?
- É... está.
- Isso não foi muito convincente.
- Não é o que eu quero.
Ela suspirou.
- O que você quer?
- Você tem que dar exemplos. E tem que mostrar como surgiu essas diferenças, de onde surgiu esses conceitos.
- E como vou fazer isso?
- Pesquisando. Há vários livros sobre isso.
- Claro, livros de mil e tantas páginas.
Leandro batucou os dedos rapidamente na mesa, suspirando.
- Vou fazer o seguinte. Deixo você fazer um trabalho mais superficial... Não tão aprofundado como eu queria.
- Sério?
- Aham. Mas você vai ter que pesquisar sobre mais de um tipo de discriminação. Você escolheu discriminação econômica, né? Quero mais duas, pelo menos.
- Professor, assim você me mata.
- Eu prolongo o prazo. Entregue daqui a duas semanas.
- Só?? Duas semanas?
- Acha pouco?
- Que tal um mês?
- De jeito nenhum.
- Tá, três semanas? Por favor, professor.
- Quantas vezes por dia você usa a palavra "por favor"?
- To falando sério, professor.
Leandro fechou um pouco os olhos, fazendo pela primeira vez uma cara engraçada pra ela.
- Você é uma pestinha, sabia?
- Sabia. Por isso que todos me adoram.
Leandro riu.
- Tá bom. Três semanas. Mas quero mais de dois exemplos de discriminação.
- Pode deixar. Valeu, teacher!!
- De nada.
- Será que você tem uns livros pra me emprestar?
- Pra que?
- Pra eu usar como bandeja! Duh, pra que você acha?
Leandro a olhou serio...
- Pensei que você fosse usar como bandeja.
Mayra riu.
- Não, pra ajudar no trabalho.
- Tem um do Karl Marx. Quer?
- Não, Deus me livre.
Leandro riu. Levantou-se e começou a procurar no meio dos livros. Tirou um, bem fino de capa verde e entregou a ela.
- Esse é bom. Não vai ter tudo que você precisa, mas já ajuda.
- Ah, legal. Só duzentas páginas, muito melhor.
- Toma conta dele. Nada de manchas de chocolate, entendeu?
- Claro, professor. Vai voltar melhor do que foi. Aí eu dou uma olhada hoje e te mostro o que consegui amanhã, tá bom?
- Tá ótimo.
- Valeu...
Mayra se levantou, pegando suas anotações na mesa.
- Deixa seus papéis aí. Vou ver se encontro algo que você possa utilizar.
- Tá. Valeu pela Pepsi, professo r. Tava deliciosa.
Leandro riu. Acompanhou ela até a porta.
- A gente se vê amanhã.
- Não vai matar aula, hein?
- Eu?! Matar aula? Que absurdo!!!
Gisely e Mayra estavam saindo da aula de Geografia.
- Você viu? Ela estava usando cinta.
- E ainda sim fica gorda igual uma baleia.
- Pois é. Gisely, vamos à sala do professor Leandro?
- Pra que?
- Tenho que mostrar uma coisa pra ele.
- Sua calcinha?
Mayra olhou confusa pra Gisely, depois começou a rir.
- Você é boba.
- Só to brincando.
- Vamos, rapidinho. Depois a gente vai ao shopping.
- Eba!
As duas entraram na sala. Estava só Leandro, guardando suas coisas.
- Oi, professor.
- Mayra. - abaixando os olhos novamente - Leu o livro?
- Não todo. Mas deu pra tirar algumas coisas. Fiz um resumo, ficou legal. Será que você poderia dar uma olhada?
- Agora não dá, to atrasado. Tenho que ir no banco.
- Ah... Tá bom.
- Faz o seguinte: passa lá em casa mais tarde, aí você mostra.
- Tá, tudo bem.
- Valeu. Tchau meninas.
Leandro saiu da sala. Gisely olhou Mayra com os olhos esbugalhados e a boca totalmente aberta.
- Que isso, parece um zumbi!
- Ma, o que foi aquilo?
- O que?
- Ele pediu pra você ir na casa dele?!
- Ah, é. Tava sem tempo agora, tadinho.
- Que isso... Na casa dele??
- Qual o problema?
- Sei lá, meio estranho, não acha?
- Já fui e não vi nada estranho nisso.
- Que?? Já foi na casa dele?? Quando??
- Ontem. De noite. Fui mostrar o que consegui na biblioteca.
- E aí? Conta, como foi?
- Ih, Gisely, nada demais. Mostrei o trabalho, ele disse que tava horrível. Vai me dar um prazo maior. E me emprestou um livro.
- Nossa... Que hottie.
- O que, Gisely???
- O professor e a aluna.
Mayra fez cara de espantada.
- Que horror, menina!! No, no way, never.
Mayra estava no escritório, sentada no mesmo sofá enquanto Leandro lia os papéis dela. Estava bem acomodado, com os pés na mesa e comendo uma maça. Deu uma mordida e falou com a boca cheia.
- Tá bom.
- Que?
Leandro mastigou a maça e repetiu.
- Tá bom.
- Sério?? - Mayra disse sorrindo.
- Aham. Mas não é só isso, certo?!
- Não, ainda tem mais algumas coisas.
- Tá bom, sim, parabéns.
- Viu? Já consigo algo bom assim em um dia. Sou muito boa mesmo.
Leandro riu.
- É sim. Não sei porque mata aulas. É tão esperta.
- Ah, é que algumas vezes da preguiça. Imagine, você deitada na cama ter que se levantar pra assistir aula.
- Faço isso todo dia. Só que não assisto, eu dou aulas.
- É...
Silêncio.
- Quer comer alguma coisa, Mayra?
- Ah, sei lá... - meio sem graça - Acho que vou pra casa.
- Tem horário?
- Não, é que... po... 
- Po... po... - sacaneando.
Mayra riu e Leandro se levantou.
- Vou preparar uma pizza congelada que tenho aí.
- Nossa, que banquete.
- É, esse é o estilo de vida de um homem que mora sozinho. Comida congelada todo dia.
Leandro foi até a cozinha e Mayra o seguiu.
- Mora sozinho mesmo?
- Aham.
- E seus pais?
- Estão do outro lado da cidade.
- Hum... E a namorada?
- Que namorada?
- Você tem?
Leandro negou com a cabeça.
- Por que? Ninguém te quer?
- É, acho que ninguém me atura.
- Também, chato desse jeito.
Leandro riu. Pegou a embalagem da pizza e começou a abrir.
- E você, Mayra?
- Ma...
- Que?
- Me chama de Ma.
- Tá. Ma... e você, seus namorados?
- Acho que fugiram todos porque não vi nenhum.
- Mesmo? Pensei que você tivesse algo com o Tom da sua sala.
- Não. Ele é meu amigo. Além disso, ele é a fim da Gisely, minha amiga. Nem rola.
- Certo...
Leandro colocou a pizza no fogão e virou-se pra Mayra.
- Daqui a uns vinte minutos está pronta. Não se importa em esperar?
- Não...
Os dois foram até a sala. No caminho, o celular de Mayra tocou.
- Dá licença.
Ela se afastou de Leandro e falou baixinho.
- Alo?
- Mayra, onde você está?
- Oi mãe. To na casa de uma amiga.
- Vem pra cá logo. Sabe que horas são?!
Ela olhou no relógio. Eram nove horas e estava bem longe de casa.
- Tá, to indo.
- To esperando.
Ela desligou e foi até a sala.
- Professor...
- Leandro.
- Que?
- Pode me chamar de Leandro.
- Ah, tá. Leandro, tenho que ir. Esqueci que tinha um compromisso...
- Tudo bem.
- A gente se esbarra no colégio.
- Aham.
Leandro a acompanhou até a porta.
No dia seguinte, Mayra e Gisely estavam andando pelo corredor do colégio.
- Sabe, e o Tom veio com um papo todo estranho de como seria você e eu juntos...
- Acho que seria lindo,vocês dois. Ele é bonito pra caramba.
- Ah, sei lá. Acho que até rolaria, eu --
Leandro passou pelas duas e bagunçou um pouco o cabelo de Mayra, afastando-se com um sorriso. Mayra riu sozinha.
- Não, perai - Gisely parou - Stop, rewind, play again! Será que eu vi?
- Viu o que?
- O professor... mexendo no seu cabelo.
- É inveja. 
Mayra ajeitava o cabelo enquanto Gisely a olhava fixa.
- Olha, você e o professor... Tá muito estranho.
- Estranho o que, Gi?
- O que rolou ontem na casa dele?
- Não rolou nada.
- Pó, há uma semana você estava xingando o cara de tudo quanto é nome, agora ele brinca com seu cabelo?!
- Ah, a gente se entendeu. Realmente, ele não é o monstro que eu pensava que fosse.
- Você não tá a fim dele, tá? - Gisely disse baixinho. 
- Que isso. - Mayra riu. - Você surge com cada idéias.
- Deixa eu adivinhar: hoje você vai na casa dele de novo?
- Não. Não preciso.
- Sei...
- Quer ir ao shopping?
- Aham.
Mayra estava na sala, guardando seu material para ir embora. Como sempre, deixava para guardar todo o material no último segundo, então era sempre a última a sair. Estava de costas pra porta e não viu quando Leandro entrou e se aproximou dela.
- Oi.
Mayra se virou.
- Que susto.
- Foi mal. Vim aqui te avisar pra... você passar lá em casa mais tarde.
Ela olhou confusa pra Leandro.
- Pra que?
- Quero saber como está o trabalho. Semana que vem é o final do prazo.
- Eu sei... Fiquei pesquisando a semana toda, tenho certeza que você vai gostar.
Mayra sorriu e Leandro ficou olhando o sorriso dela, também com uma expressão de alegria. Seu sorriso foi se desfazendo, desconfortável com a situação. Leandro não tirava os olhos da sua boca e não dizia nada.
- Dá licença.
Os dois olharam para a porta. Gisely estava ali.
- Desculpa, é que eu tava esperando a Ma.
- Tudo bem, Gisely. - Leandro disse - Até mais tarde, Ma.
- Tchau.
Leandro saiu da sala e Gisely foi até Mayra.
- Juro que pensei que vocês iam se beijar.
- Gisely! Pára, por favor! Cismou com isso!
- Po, eu entro, só vocês dois aqui... Vocês trocando esses olhares... Quer que eu pense o que?
- Nada! Não tem nada pra pensar.
- Você vai pra casa dele de novo?
- Vou, por que? Algum problema?
- Não, nenhum. Foi mal.
E Mayra foi. No final da tarde, estava lá na casa de Leandro. Ligou pra mãe dizendo que ia estudar na casa de uma amiga, para que ela não se preocupasse com o horário.
Leandro tornava a situação tão mais fácil que Mayra já estava completamente acomodada na casa dele. Estava no sofá da sala, de meias, deitada com a prancheta no colo. Leandro estava no outro sofá.
- Então, Lê - já estava íntima - me diz um exemplo de discriminação de gênero.
- Você que me diga.
- Não, você t em que me ajudar.
- Gênero? Uma mulher ganhar menos que um homem, sendo que os dois ocupam o mesmo cargo numa empresa.
- Nossa, você é bom mesmo nisso.
- Tenho que ser, eu sou professor.
- Também tem que... se uma menina fica com vários, ela é galinha. E se o menino fica com vários, ele é o --
- ...o fodão.
- Isso.
Mayra olhou Leandro por uns segundos.
- É estranho um professor falar essas palavras.
- Também sou humano.
- Mas é estranho. Aliás, você é todo estranho.
Ele levantou as sobrancelhas.
- Por que?
- Você não parece ter 31 anos. Não digo só fisicamente. Mentalmente. Você se comporta como se fosse mais novo.
- Antes se comportar como novo do que como velho.
- Isso é. 
- Você também não parecer ter 17, né?
- Isso. Mas por quê?
Mayra sentou-se no sofá, curiosa.
- Primeiro fisicamente. Seu rosto, seu corpo... é de uma mulher de vinte e poucos.
- Mulher de vinte e poucos sarada, né?!
- Claro.
Leandro riu.
- Tá, continua. Só isso?
- Não... Sua cabeça também. Sabe, primeiro pensei que você fosse uma dessas garotas mimadas, que chorasse caso não conseguisse alguma coisa. Mas depois do que você fez pra conseguir sua nota, me encheu tanto o saco - Mayra riu - eu vi que, na verdade, você é uma mulher com atitude, uma mulher determinada. 
- Nossa... Mulher?!
- É assim que te vejo. Uma mulher, não uma menina.
Ela sorriu.
- Que bom que a gente se entendeu. Deu pra ver o cara legal que você é.
- Bom mesmo.
Leandro sorriu e estendeu o último pedaço da pizza que eles comiam.
- Vai querer?
- Ah, não. To cheia.
Ela se deitou no sofá e ficou olhando pro teto.
- Adoro sua casa. É aconchegante.
- Pode vir sempre que quiser.
Mayra riu. Como estava deitada, sua risada saiu estranha, fazendo Leandro rir também.
- Qual a graça?
- Você acredita que a Gisely, minha amiga, tá louquinha pensando que a gente tem alguma coisa?!
- É mesmo?
- Nossa, todo dia e lá fala disso. 
- E o que você fala?
- Ué, que é só sexo.
Leandro riu, fazendo Mayra rir mais ainda.
- Não, to brincando... Eu digo que não tem nada, ora.
- Sei...
- Que horas são, Lê? 
- Dez horas.
- Oops.
Mayra se levantou.
- Tenho que vazar.
- Quer carona?
- Claro, vai ser lindo minha mãe me ver chegando com meu professor.
Leandro sorriu.
- Você quem sabe.
Mayra calçou os sapatos e pegou suas coisas.
- Amanhã é o último dia, né?
- Aham. Não aceito depois.
- Nossa, que homem mau.
Leandro sorriu.
- Pode deixar, você vai ter seu trabalho amanhã.
Ele a acompanhou até a porta a olhou até sumir na esquina.
Mayra chegou cedo na aula de Sociologia. Já nem estranhou muito, o pessoal se acostumou com a dedicação dela à aula nas três últimas semanas. Leandro entrou na sala, já largando suas coisas na mesa.
- Bom dia, alunos... Tenho duas notícias: uma boa e outra má. Qual querem ouvir primeiro?
- A boa!! - os alunos gritaram.
- Muito bem... Eu desisti de dar um teste surpresa hoje pra vocês.
A turma toda vibrou.
- E a má?
- A má é que... terá um prova semana que vem. Uma prova bem, bem, bem difícil.
- Ah, que vacilo, professor.
- Reclame com o bispo. Trouxeram a apostila? Quem não trouxe, perde ponto.
Leandro pegou uma folha e foi em direção aos alunos.
- Cara, eu não trouxe. - Tom disse baixinho.
- Nem eu. - Mayra falou. - To ferrada.
- Seus irresponsáveis, eu trouxe! - Gisely disse.
Leandro aproximou-se de Tom.
- Trouxe, Thomas?
- Po, professor... Meu cachorro comeu.
- Você podia fazer melhor que isso, Thomas.
Leandro anotou o nome de Tom. Passou pela mesa de Mayra sem falar nada e foi para o outro canto,a notar dos outros.
- Por que ele não anotou o seu nome? - Tom disse.
- Sei lá. Deixa assim, não vai chamar ele!
- Po, mas ele viu que você não trouxe. Sua mesa tá vazia.
- Tá, Tom, deixa de ser fofoqueiro.
- Não sou fofoqueiro.
- É sim.
- VAMOS COMEÇAR A AULA. - Leandro berrou junto ao quadro. 
Mais tarde, naquela noite, Mayra estava no escritório de Leandro. Ela estava sentada no sofá, Leandro bem a sua frente, encostado na mesa, lendo o trabalho dela. Ela roia as unhas de nervoso a cada vez que ele virara a página. Ele lia sem expressão, não tinha como ela dizer se ele estava gostando ou não. Quando Leandro terminou a última linha, fechou a pasta onde estava o trabalho.
- E então?
- É...
- É o que???????? - impaciente.
Leandro olhou Mayra por uns segundos e depois sorriu.
- Tirou A.
- AHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!
Mayra começou a pular no sofá.
- Não acredito!!! Também, depois de todo esse trabalho, você tinha mesmo que me dar um A!
- Tá bom, muito bom. Você explicou tudo direitinho, deu exemplos...
- Gostou? Eu gostei mais da parte de discriminação etária, sabe?!
Mayra se levantou.
- Ache i mais fácil.
Ela encostou-se à mesa, ao lado de Leandro. E agora foi ele quem se afastou.
- Você deu ótimos exemplos... As pessoas que tem preconceitos com pessoas mais velhas ou mais novas...
- Isso.
- Ou ainda...
Leandro colocou-se bem de frente pra ela.
- Ou ainda quando uma pessoa nova quer ter algum tipo de relação com uma pessoa mais velha. Tem gente que não aceita isso, e isso é um preconceito.
- Aham.
Leandro aproximou-se dela, olhando-a nos olhos. Ela sentiu um calor subir pelo seu corpo e não se manifestou, pois estava gostando dessa sensação.
- Isso ainda mistura discriminação profissional... - Leandro chegou mais perto ainda - Pessoas de cargo muito diferentes se relacionarem...
Ele estava quase que entrando nela de tão perto que ele estava. Sua perna direita estava entre as pernas dela e seu rosto muito perto do dela. Ele então olhou para a boca dela.
- Um exemplo disso é... - Leandro sussurrou - Professor e aluna.
Leandro tocou de leve o rosto de Mayra e ela fechou os olhos. Então, Mayra sentiu os lábios quentes de Leandro tocar levemente os dela. Ela não resistiu e segurou o rosto de Leandro, trazendo-o mais perto e abrindo a boca, deixando suas línguas se tocarem. As línguas dos dois se movimentaram com rapidez, Mayra descabelava um pouco o cabelo de Leandro e ele a apertava forte pela cintura, roçando mais ainda sua perna entre as pernas dela. O beijo foi intenso e duradouro. Quando os dois afastaram os lábios, tiveram que esperar um tempo para respirar.
- Isso... - Mayra sussurrou - Não é antiético?
- Dane-se a ética.
Mayra sorriu e os dois se beijaram novamente, agora num beijo mais devagar. A língua de Leandro explorava cada canto da boca de Mayra, sem pressa. Ela não estava acreditando como alguém podia ter um beijo assim tão bom. Talvez tivesse a ver com a idade, Leandro seria mais maduro. Mas a língua dele, quente e úmida, conhecia todos os movimentos certos, na velocidade certa e na situação certa. Mayra tava curtindo demais aquele beijo, ficando toda derretida e mole, quase caindo no chão se Leandro não estivesse segurando-a com força.
Ele percebeu que ela curtia muito o beijo e resolveu incrementar a situação. Ele viu também que Mayra o fazia roçar mais ainda sua perna entre as pernas dela. Mayra estava ficando excitada e Leandro tratou logo de ajuda-la. Suas mãos que estavam nas costas dela, deslizaram até a barriga, por dentro de sua blusa. Leandro ia esperar um pouco para subir as mãos até seus seios, mas Mayra agiu mais rápido e pressionou de leve a bunda dele, fazendo com que ele ficasse mais colado ainda a ela. Mayra sentiu o membro de Leandro bem abaixo do seu umbigo.
Nessa hora, o maldito celular dela tocou. Ela interrompeu o beijo, pegando o celular do bolso e olhando o visor.
- É minha mãe. Eu tenho que ir.
- Vai me lagar justo agora?
- Não estou te largando, só estou indo embora.
- Mas... agora?
Leandro olhou o próprio órgão e Mayra fez o mesmo. Ela sorriu.
- Desculpa, Lê...
- Pede desculpas pra ele, não pra mim.
- Desculpa, Junior. - falando para o órgão. - Juro que compenso depois.
Leandro sorriu e a beijou novamente, agora mais breve.
- Não quer mesmo uma carona?
- Não, Leandro. Eu disse pra minha mãe que tava com uma amiga.
- Você pode dizer que sou o pai da amiga.
- Não inventa. Vou lá, tá bom?
- Volta amanhã?
- Sure.
Leandro a acompanhou até a porta. Ela olhou a sua volta para ver se não tinha nenhum vizinho fofoqueiro e beijou Leandro.
- Brigada pelo A.
- Brigado pelo beijo.
- Ah, disponha.
Leandro sorriu e entrou em casa assim que ela virou a esquina.
No dia seguinte, Mayra chegou no colégio com um baita sorrisão. Gisely espantou-se quando a viu naquele estado.
- Ma, você sabe que tem aula de Geografia agora, não sabe?
- Sei.
- Então porque tá tão feliz assim?
- Nada. - num tom agudo.
- Me conta, aconteceu alguma coisa?
- Hum... tirei A no trabalho.
- De Sociologia?
- Aham.
- Que demais!
- Muuuuuito demais.
- Eu, hein... Tá maluca.
Mayra entrou na sala mas nem prestou atenção na aula. Tava querendo que aquilo acabasse logo para poder ir embora. Durante os intervalos, ela passeou pelos corredores, procurando Leandro. Encontrou-o na sua sala, dando uma prova. Apenas sorriu e ele retribuiu com outro sorriso.
No final da aula, correu até sua casa. Abriu o armário e deu uma olhada nas roupas que tinha. Queria ir bem bonita. Acabou optando por uma blusa colada preta, uma saia xadrez, vermelha e verde, até o joelho e bota de cano longo, preta. Caprichou no perfume, uma maquiagem leve para não assustar ninguém e estava pronta. Ligou pra sua mãe e deu graças a Deus que ela não estava lá. Imagine se ela a visse vestida daquele jeito pra ir na casa da amiga. Ela deixou o recado e foi até a casa de Leandro.
Já era final da tarde quando chegou, deixando o clima mais gostoso. Quando Leandro abriu a porta, nem acreditou.
- Quem é você?
Mayra riu.
- Bobo.
- Nossa, mas tá linda.
- Brigada.
- Linda demais. Entra. 
Leandro puxou-a, fazendo com que ela o beijasse.
- Que fogo, hein?!
- Você que provocou. Vamos comer?
- Claro.
Os dos foram até a cozinha. A mesa estava arrumada. Não tinha nenhuma vela, mas estava linda mesmo assim. Leandro tirou a lasanha do forno.
- Ah, eu amo lasanha!
- Vai adorar a lasanha do Leandro...
Ele serviu a lasanha e os dois comeram, conversando ao mesmo tempo. O bom da conversa foi que eles falaram assuntos variados, com aquelas indiretas no meio, mas nada tão explícito. 
- Adorei a comida. Tava uma delícia.
- Que bom. 
Por debaixo da mesa, ela acariciou a perna dele com a ponta do pé. Ele sorriu.
- Tem horário pra voltar hoje?
- Nah nah. Disse pra minha mãe que ia dormir na casa da minha amiga...
Ela agora passava o pé no joelho dele. Ele segurou sua mão.
- Você conhece meu escritório, minha cozinha... quer conhecer meu quarto?
- Adoraria.
Leandro sorriu e os dois se levantaram. Ele foi à frente, puxando ela pela mão. Conforme passava pelos cômodos, Leandro ia apagando a luz: cozinha, sala, corredor. Até chegarem na escada, completamente escura. Ele a levou devagar até o quarto, para que ela não tropeçasse nem nada. Ao entrar, Leandro fechou a porta e ia acender a luz, mas Mayra segurou a mão dele.
- Não acende. Não quero ver nada...
Ela colocou a mão dele dentro da sua blusa.
- Só sentir...
Foi tudo. Que homem resiste quando a mulher dá uma iniciativa dessas? Leandro foi com tudo e tascou um beijo nela, tão forte que a fez andar para trás até bater na cama e acabar caindo. Mayra ficou deitada entre os joelhos de Leandro conforme ele tirava a camisa e a tacava para longe. Ele deitou-se por cima dela, beijando na boca lentamente, lambendo-a pelo queixo, descendo até o pescoço até encontrar um obstáculo: a blusa. Sem problemas.
Leandro colocou as mãos dentro da blusa dela, acariciou seus seios levemente e então a tirou, arremessando na mesma direção de sua camisa. Tirou logo o sutiã e continuou com seu caminho, agora lambendo os seios dela. Mayra quis agilizar e enquanto ele a excitava com os carinhos nos seios, ela fazia seu contorcionismo e tirava as botas, jogando-as para fora da cama, fazendo a mesma coisa com a meia-calça.
Ela agora estava só com a saia, e calcinha por baixo, e Leandro a deixava toda arrepiada com seus movimentos que impediam-na de continuar a se despir. Leandro voltou a beija-la na boca, enquanto suas mãos desciam até a saia dela e a retirava, um tanto bruto que Mayra pôde até ouvir o elástico arrebentar, juntamente com o da calcinha. Não demorou muito para que Leandro tirasse suas calças e cueca. Pegou a camisinha que, já estava pronta ali na mesa ao lado e a colocou, com a ajuda dela.
Voltou a deitar sobre ela e assim começou a penetra-la. Mayra acompanhava o movimento de Leandro, fraco no começo e aumentando aos poucos. Ele estava se apoiando com os cotovelos ao lado do rosto dela e as mãos dela estavam nas costas dele, pressionando-o de leve, ajudando no movimento. Mayra dava leves mordidas no ombro e peitoral de Leandro, p deixando mais empolgado. Até que chegou num momento em que ele começou a gemer mais alto, aquela respiração rouca de homem, e ela o acompanhou com seu gemido mais agudo e mais alto. O ritmo dos dois foi diminuindo e os gemidos foram substituídos por suspiros ofegantes.
Leandro deitou seu corpo sobre o dela e apoiou sua cabeça no colo do seio dela. Mayra deslizou as mãos pelos cabelos de Leandro.
- Uau... Professor...
Leandro riu.
- Depois dessa, mudo sua nota pra A++.
Agora foi Mayra quem riu.
- Leandro, acho que você arrebentou o elástico da minha saia.
- Foi mal. Acho que você não vai poder voltar pra casa então.
Ele subiu um pouco, ficando na altura do rosto de Mayra. Apoiou os antebraços ao lado do rosto dela, olhando-a nos olhos.
- You're beautiful...
- Eu sei.
- E metida.
Mayra riu. Leandro a beijou.
Mayra acordou devagar, espreguiçando-se. Abriu os olhos e viu que não estava no seu quarto, debaixo de lençóis que não eram seus. Olhou para o lado e Leandro vestia sua calça, olhando pra ela.
- Bom dia.
Mayra se ajeitou na cama.
- Bom dia.
- Está na hora da escola, senhora Susenko.
- Ah, professor, sinto muito mas não posso ir.
Leandro deitou-se ao lado de Mayra.
- Vai matar aula, é?!
- Um homem mau me deixou exaurida ontem à noite.
Leandro riu e começou a beijar o pescoço dela.
- Mas bem que você gostou. - ele sussurrou.
- Adorei.
Leandro a beijou na boca.
- Tenho que ir. Você vai ficar?
- Posso?
- Desde que não faça bagunça.
- Claro que não vou, Lê...
Depois que Leandro saiu, Mayra enrolou alguns minutos para dar tempo de chegar em casa e sua mãe não estar lá. Ao chegar, correu para se u quarto, trocou de roupa e colocou o som alto, relembrando a noite anterior.
Já tinha acabado de almoçar. Tava quente e ela aproveitou para ficar mais à vontade, de camisetão e calcinha. Estava lavando a louça quando a campainha tocou.
- Já vai!
Ela largou as luvas e olhou pelo olho mágico.
- Não acredito.
Abriu a porta e mal teve tempo de falar nada, antes de Leandro abraça-la pela cintura.
- Sua mãe está em casa?
- Não.
- Ótimo.
Ele fechou a porta e beijou-a com força, levando-a até o sofá da sala. Deitou-a e, ainda beijando-a, deslizou suas mãos pelas pernas dela. A campainha tocou.
- Tenho que atender.
- Tem mesmo?!
- Ma, sou eu. - Gisely berrou do outro lado da porta.
- Rápido, vai pro meu quarto lá em cima.
- Saco...
- Em silêncio!
Leandro subiu as escadas rapidinho e Mayra foi abrir a porta.
- Oi, Gigi.
- O que aconteceu?!
- O que?
- Te liguei ontem, você não atendeu.
- Ah, eu saí com a minha mãe.
- E não foi hoje na escola por quê?
- Gisely, pergunta como se fosse a primeira vez que falto à aula.
- Sei lá, fiquei preocupada.
As duas ficaram em silêncio.
- Não vai me deixar entrar?
- Na verdade, eu to estudando.
- Por que? Tem teste?? - Gisely perguntou desesperada.
- Não, é que ainda não terminei o trabalho de Sociologia.
- Tem outro?!?
- Pois é... Ele tá me cobrando mesmo...
- Que cara maluco.
- Eu que o diga.
- Ah, então tá... A gente se fala amanhã.
- Tá bom. Bye bye.
- Bye.
Mayra fechou a porta e Leandro desceu as escadas.
- O professor de Sociologia tá te dando muito trabalho?
Mayra riu.
- Muito.
Leandro a abraçou com força, sentando-a na mesinha ao lado da escada. Ele tirou a camisa dela e ela começou a desabotoar a calça dele.
- Lê, só pra deixar claro... Isso que estamos fazendo... Não é nada sério, certo?!
Leandro sorriu.
- Não. Só estamos nos divertindo.
Mayra tirou as calças e cueca de Leandro e entrelaçou suas pernas na cintura dele.
Mayra estava guardando seu material, no final da aula de Português. Gisely se aproximou.
- Como está indo o trabalho?
- Que trabalho?
- De Sociologia.
- Ah, sim. Tá indo bem. Muito bem.
- Estranho ele te dar outra chance... Teve que implorar tanto pra ele deixar você fazer o trabalho.
- Que coisa, não?!
- Você vai assistir à próxima aula?
- Acho que não.
- Você vai acabar sendo reprovada por faltas.
- Nem vou... Você vai assistir?
- Aham.
Mayra a acompanhou até a outra sala. O professor chegou e Mayra caiu fora dali rapidinho. Estava andando pelo corredor, vazio pois era horário de aula. Avistou, bem à frente, Leandro cruzar o corredor. 
- Psiu!
Ele se virou e viu Mayra. Andou calmamente até o encontro dela. Olhou para os lados e atrás, garantindo que não tinha ninguém.
- Vai passar lá em casa depois da aula? - Leandro disse próximo a ela.
- Aham. Vem cá.
Mara também deu uma vigiada e segurou Leandro pelo pulso.
- Aonde você tá indo?
Mayra levou Leandro até o banheiro masculino. Olhou por debaixo de todas as cabines, para ter certeza que não tinha ninguém lá.
- Sua maluca, o que você está fazendo?
- Tava com saudades.
Ela segurou o rosto de Leandro e o beijou, prensando-o contra a porta de entrada do banheiro.
- Alguém pode descobrir.
- Prometo ser silenciosa.
Mayra trancou a porta e Leandro sorriu, beijando-a logo em seguida.
Alguns dias depois...
Mayra estava na cama de Leandro, ele deitado ao lado dela, nu, assistindo TV. Ela estava sentada, quase que de costas pra TV, concentrada em seus papéis. Leandro olhou Mayra e desligou a TV. Abraçou-a pelas costas, na altura da cintura, beijando seu pescoço.
- O que você tá fazendo?
- Estudando pra SUA prova, que é amanhã.
- Não dá pra estudar depois?
- Não vou ter tempo depois. Daqui a pouco tenho que estar em casa.
Leandro intensificou os beijos no pescoço, sugando sua pele.
- Te garanto que ela vai estar bem fácil. Não precisa estudar tanto.
Ele colocou as mãos sobre os seios dela e os acariciou devagar. Mayra acabou deixando os papéis de lado e virando-se para beijar Leandro.
No dia seguinte, Mayra chegou poucos minutos atrasados. Leandro não disse nada quando ela entrou; eles tentavam disfarçar o máximo possível. Leandro distribuiu as provas e sentou-se na sua cadeira, lendo um livro.
Mayra teve que admitir que a prova não estava tão fácil como Leandro disse que ia estar. Pra falar a verdade, estava super difícil. Ela não sabia a resposta da maioria e teve que enrolar muito na resposta. Faltando uns dez minutos para acabar a aula, Mayra entregou a prova. Leandro deu uma olhada e viu o bilhete.
"Tava difícil, hein professor? A gente se vê mais tarde. Beijos.” ·Leandro riu. Gisely olhou aquilo meio torto, imaginando porque ele iria dar aquele sorrisão ao ver a prova de Mayra. Ela escreveu tanta besteira assim? Mas Gisely voltou a se concentrar na prova, já que o tempo estava quase acabando.
Ma is tarde, de noite, Mayra entrou no escritório, vestindo seu roupão que cobria suas roupas íntimas. Estava com uma embalagem de iogurte que comia com a colher. Leandro estava sentado junto à mesa e Mayra sentou-se no sofá, logo em frente.
- Está fazendo o que?
- Corrigindo as provas.
- Sério?? Já corrigiu a minha?
- Não, acho que é a próxima.
- Nossa, tava muito difícil, Lê!
- Frescura sua. Nossa, escreveram cada besteira aqui...
Leandro deu a nota na prova e a colocou numa pilha de provas já corrigidas. Olhou pra Mayra sentada a sua frente, tomando o iogurte.
- Você tá bonita.
- Ãh?
- Eu disse que você está bonita.
- Não to usando nada demais.
- Não estou me referindo à roupa, Ma. Você toda. Está bonita.
Mayra fez cara de confusa.
- Tá, brigada.
Leandro pegou a próxima prova.
- Mayra Susenko... Vamos ver a prova de Mayra...
- Ih... ferrou!
Leandro começou a ler a prova, fazendo várias caras de incompreensão. 
- Tá tão ruim assim?
- Você viajou mesmo, Ma. Dava uma ótima escritora de ficção-científica.
- Ai, Lezitchu....
Leandro deu uma olhada na última folha e depois olhou Mayra.
- Olha, com essa prova você merece um E...
- Ah....
- Mas com seu desempenho fora da sala de aula - Mayra riu - Te dou um B+.
- B+???? Eu valho B+? Só isso???
- Não, Ma. Você vale A+, mas não posso exagerar tanto, né?!
- Ah, vacilo... Mas pelo menos consegui boa nota. Isso que é bom de dormir com o professor.
Leandro olhou Mayra.
- Como assim?
- Como assim o que?
- Tá dizendo que você tá transando comigo pra ganhar nota boa?
Mayra não respondeu, olhando a embalagem de iogurte.
- Pode falar, Ma. Eu sei que você quer muito um boletim alto no final do ano...
- Não, Lê...Não é só por isso.
- Não?
Mayra olhou Leandro.
- E você, Lê? Aposto que você tá comigo só pra suprir suas crises de meia-idade.
- Como é?!
- É, eu sei que vocês homens que passam dos trintas começam a se sentir rejeitados e é só uma menina novinha dar mole para vocês ficarem logo empolgadinhos.
- Claro que não. Não estou com você por causa disso.
- Tá por que então?
- Porque eu gosto de você.
Mayra arregalou os olhos.
- O que você disse?
- Nada não.
Leandro se levantou mas Mayra se meteu na frente, impedindo-o de sair do escritório.
- Diz de novo. Por favor.
Leandro suspirou e olhou Mayra.
- Eu gosto de você.
Leandro passou a mão pelo cabelo de Mayra.
- Gosto muito. Pra mim acabou de ser só sexo há muito tempo.
Mayra sorriu e o abraçou bem forte. Disse baixinho, no ouvido dele.
- Também gosto muito de você.
Leandro abraçou Mayra com mais força.
- E pra provar que não é só sexo... eu nem transo mais contigo por uma semana.
- Não!! - Leandro disse - Não precisa fazer isso, eu acredito em você!
Mayra riu. Olhou Leandro nos olhos.
- O problema é que... Você é quase quinze anos mais velho do que eu e... é meu professor.
- Não vejo problema nenhum nisso.
- Mas os outros vêem. Não posso simplesmente aparecer no colégio de mãos dadas com você!
Leandro suspirou e ela continuou.
- Acho que a gente vai ter que... esconder isso por mais um tempo. Até eu acabar o ano e entrar numa faculdade.
- Falta mais de um semestre pra você acabar o colegial. Acha que consegue esconder por esse tempo todo?
- Temos que conseguir.
Mayra o abraçou e Leandro começou a fazer carinho em seu cabelo.
Num dia desses, Mayra teve o azar de chegar em casa e sua mãe já estar lá.
- Mãe! - Mayra viu Teresa na sala - Chegou mais cedo?
- Mayra, onde você estava?!
- No colégio... estudando.
- O que está acontecendo que todo dia quando eu ligo pra cá de tarde você nunca está?!
- Ah, é que algumas vezes eu vou pra casa de uma amiga, vou pro shopping, ou fico no colégio.
Teresa a olhou com uma cara toda feia.
- A Gisely te ligou umas trezentas vezes.
- Tá. Vou tomar um banho. 
Naquela terça-feira Mayra não foi pra aula de Sociologia. Isso incomodou Leandro, e muito. Desde que os dois estavam juntos, ela nunca faltava às aulas de Sociologia. Ele olhava constantemente para a porta, na esperança que ela entrasse.
E ela entrou, só mais tarde, quando a turma toda já tinha saído. Leandro arrumava suas coisas na mesa e Mayra se aproximou.
- Hey baby.
- Onde você tava?
- O despertador não tocou.
Leandro a olhou com aquela cara de quem não acreditava.
- Sério. Algumas vezes esqueço de programa-lo.
- Vai hoje lá?
- Sempre pergunta e já sabe a resposta.
Leandro sorriu.
- Tava com saudades.
- Eu também.
Os dois se olharam.
- To com uma vontade louca de te dar um beijo mas vai que aparece alguém.
- Então nem tente, safadinha.
Mayra riu. Gisely bateu na porta.
- Dá licença.
- Oi, Gis. Tava aqui explicando pro Lê -- pro professor porque eu faltei.
- Aham... Vamos comer alguma coisa?
- Bora.
- Tchau professor.
Mayra sorriu para Leandro e saiu junto com Gisely. Minutos depois, Leandro tinha ido até a secretaria pegar uns papéis e quando voltava, reparou dentro da cantina, que era próxima à secretaria.
Estava quase que vazia e Leandro pôde ver em uma das mesas Mayra... e um menino. Viu os dois conversando, sozinhos, ela soltando altas gargalhadas. O sangue de Leandro ferveu e ele entrou no refeitório, logo se aproximando dos dois.
- O que estão fazendo aqui?
Os dois levantaram o rosto para Leandro, que olhava pra Mayra
- Estamos conversando. - o garoto falou.
- Não tem que assistir aula?
- Na verdade estamos em tempo vago.
Leandro olhou pra Mayra, com reprovação, e ela apenas olhou em outra direção.
- Sai daqui. - ele disse ao menino.
- Por que?
- Porque eu to mandando. Vai desobedecer?? E você, Mayra, fica.
O menino olhou pra Mayra e depois pra Leandro, não entendendo nada. Levantou-se e saiu de lá xingando Leandro de maluco, bem baixinho. Leandro olhava pra Mayra.
- O que foi? - ela disse - Fiz alguma coisa errada??
- Quero falar com você.
Ela olhou a sua volta. Tinha poucas pessoas na cantina, mas tinha.
- Todo mundo tá olhando.
- Vem cá, então.
Leandro segurou o pulso de Mayra e a levou até a sala dos professores que, por sorte, estava vazia.
- Pode me explicar o que foi aquilo?
- Acho melhor você explicar, Lê.
- O que tanto você falava com aquele garoto?
- Nada demais! Nada mesmo! Não sei porque você tá agindo assim. Esqueceu que temos que ser discretos??
- Mas isso não lhe dá o direito de paquerar qualquer garotinho que apareça.
- Eu não estava paquerando ninguém!
- Mentirosa.
Nesse exato momento, a professora de Geografia entra na sala.
- Leandro. O que Mayra está fazendo aqui?
- Estava dando uma bronca nela. - Leandro disse olhando pra ela. - Por mau comportamento.
- Seu babaca. 
Mayra saiu da sala, batendo a porta.
- Mayra, não pode falar assim! - a professora berrou pro corredor. Voltou pra sala - Professor, você quer que eu fale com a diretora?
- Não precisa.
- Essa menina é mesmo uma peste.
Mayra estava sentada no sofá, tentando estudar. Tentando, porque não conseguia. Aquela cena toda no colégio a deixou bolada. Estava rabiscando no caderno quando tocaram a campainha.
- To indo.
Ela se levantou e abriu a porta.
- Oi, Mayra.
- O que foi?
- Posso entrar?
- Não, minha mãe já vai chegar.
- Eu sei que ela só chega de noite. 
Mayra olhou Leandro por uns segundos e abriu mais a porta, permitindo que ele entrasse.
- Atrapalhei alguma coisa?
- Não, fala. O que é?
Mayra se sentou no sofá e Leandro permaneceu em pé.
- Eu queria me desculpar por hoje. Ter feito aquela cena toda. Eu errei, desculpe.
- Você não precisava ter reagido daquele jeito. Estávamos só conversando.
- Eu sei...
- E se alguém descobrisse, Lê? Tem noção como ia ser?
- Eu sei. Desculpe. Eu fiquei com ciúmes, eu go sto de você, é compreensível minha reação.
- Lele, não precisa disso. Você pode confiar em mim. Sabe, esses últimos dois meses em que estivemos juntos foram... os melhores dias da minha vida.
Leandro sorriu.
- Eu não daria em cima de mais ninguém... 
Mayra se aproximou de Leandro, que se ajoelhou na frente dela, ficando quase na mesma altura.
- I could never look to another guy... cause your beauty blinded my eyes...
Leandro sorriu e beijou Mayra, delicadamente.
- Eu te amo, Mayra.
- Eu também.
Os dois se beijaram novamente, um beijo mais profundo.
Um tempo depois...
Tom estava passeando com sua bicicleta pelas ruas, ouvindo o som alto no seu walkman. Fez a curva na esquina, cantando a música bem alta. Um pouco mais à frente, perto de uma das casas, ele reconheceu Mayra. Estranhou vê-la naquela rua. Ela estava encostada num carro escuro.
- Conheço esse carro... - Tom disse pra ele mesmo.
Tom aproximou-se mais um pouco para cumprimenta-la mas deu uma freada brusca ao ver Leandro saindo da casa onde Mayra estava próxima. Não ficou escondido, mas afastado observando tudo. E viu perfeitamente quando Leandro se aproximou dela, beijando-a intensamente de língua, envolvendo-a pela cintura.
- Taqueopariu...Não pode ser.
Tom não acreditava. Não mesmo. Tom viu os dois entrarem no carro,Mayra no carona. O carro seguiu a direção oposta onde Tom estava; e ele ficou lá, com aquela cara de quem viu um disco voador, sem acreditar.
No dia seguinte, como de costume, Mayra chegou atrasada no colégio. Foi até o bebedouro e, enquanto bebia a água, sentiu alguém empurra-la bruscamente.
- Ai! - Mayra viu quem foi - Gisely, tá doida?!?
- Ma, como você pôde fazer isso?
- Isso o que??
- Você tem um caso com o professor e não me contou?!
Mayra congelou. Ela sentiu suas pernas ficarem bambas, seu rosto ficou pálido e pensou que seu coração fosse parar de bater tamanho o choque.
- Do que você tá falando?
- O Tom viu você e o professor de Sociologia se agarrando em frente à casa dele!! Por que não me contou, Ma??
- Gisely, fala baixo. As pessoas vão ouvir.
- Todo mundo já sabe, Ma!!
- Como é?
- Tom já fez o favor de contar pra todos da turma. Eu se fosse você saía desse colégio antes que alguém anuncie pro colégio todo.
Mayra ficou desesperada. Não sabia o que pensar, não sabia o que falar. E começou a olhar pra todos no corredor, achando que eles a acusavam só com o olhar. Ela saiu correndo, deixando Gisely falar sozinha e correu em direção à sala de Sociologia. Leandro dava aula e ela bateu na porta igual a uma desesperada. Leandro viu Mayra pela janela da porta e abriu.
- O que houve?
- Preciso falar com você. Agora.
- Agora?
- AGORA!!!!
- Tá, calma. - Leandro virou-se pra dentro da sala - Quero que vocês terminem o questionário, vou na secretaria e já volto.
Ele fechou a porta.
- Diz, o que houve?
Mayra olhou ao redor. O corredor estava cheio
- Não podemos falar aqui. Vem.
Ela puxou Leandro pelo corredor, em direção à quadra, que naquele tempo estava vazia. Sentaram-se na arquibancada.
- Dá pra dizer o que é?
Mayra estava nervosa, suas mãos tremiam.
- Ma, o que houve?
- Eles sabem, Lê. Eles sabem.
- Eles quem? Sabem o que?
- Sabem sobre nós! O Tom viu a gente e contou pra todos da sala.
Agora foi Leandro quem gelou, mas manteve a calma.
- Como você sabe disso?
- A Gisely veio falar comigo! Disse que todo mundo já sabe. E agora, Lê? E agora?
- Eu... Eu não sei.
- Não quero te perder. Pelo amor de Deus, eles não vão fazer nada, né? 
- Ma, calma. 
- Não posso ficar calma. Meu coração tá batendo muito rápido, acho que vou ter um enfarte.
- Não, você não vai ter. Quero que você prometa que vai ficar calma, tá? E se alguém perguntar alguma coisa, você negue. Tá bom?
Mayra concordou com a cabeça.
- O que você vai fazer?
- Não posso fazer nada. Só espero que ninguém da diretoria saiba disso.
- Ai, Meu Deus... Nós não tivemos cuidado, Lê...
- Ma, isso ia acontecer mais cedo ou mais tarde. Não dava pra esconder por muito tempo.
- To com medo.
- Calma... Olha, tenho que voltar pra sala. E você também vá assistir suas aulas, haja como se nada tivesse acontecido. Vai ser pior se você ficar nervosa.
- Tá bom.
Leandro foi primeiro pra sua sala e Mayra deu um tempo antes de ir pra sua. Entrou na aula de Geografia e sentiu todos os olhares pesados caindo sobre ela.
- Mayra, está atrasada. - a professora disse.
- Ela tava estudando Sociologia... - algum garoto disse e a turma inteira riu. 
Pronto, era o que ela precisava pra entrar em desespero. Ela sentou-se na cadeira ao fundo, ao lado de Gisely. Suas mãos estavam frias e trêmulas, seus olhos arregalados. Sentiu Gisely cutuca-la e quando olhou, ela lhe estendia um bilhete:
“Há quanto tempo?” ·Mayra a olhou e respondeu o bilhete.
"Quatro meses” ·Gisely arregalou os olhos quando leu a resposta.
"Você gosta dele?"
"Muito"
"E o que você vai fazer agora?"
"Não sei."
Mayra realmente não sabia. Já passou essa hipótese pela cabeça dela, que talvez algum dia alguém descobrisse, mas ela não estava preparada. Quando a aula acabou e Mayra saiu da sala, ela percebeu que as pessoas a olhavam estranho e algumas até cochichavam. Ela se sentiu muito mal e disse pra Gisely que ia pra casa.
Só que não agüentou. No começo da tarde, ela foi até a casa de Leandro. Ela estava desesperada e o único que poderia ajuda-la era Leandro, que também sofria a mesma angústia que ela. Estavam os dois no sofá, ele abraçando-a e confortando-a com carícias e palavras.
- Lê... E se os diretores descobrirem? Vão me expulsar e vão te despedir.
Leandro ficou em silêncio.
- Não vão? - Mara repetiu.
- Provavelmente. Te expulsar não sei, mas... como você é menor, eles vão alegar exploração da minha parte...
- Não. - Mayra gemeu de agonia. - Você vai preso?
Leandro ficou em silêncio de novo. Mayra começou a chorar.
- Me diz, Lê. Você vai preso? - ela chorou mais ainda - Diz que não.
Leandro a abraçou bem forte. 
- Vai dar tudo certo. Vai sim.
- Lê, eu te amo. - Mayra levantou o rosto, olhando Leandro nos olhos - Você sabe disso, né? Você sabe que não importa o que aconteça, eu não vou te esquecer Lezinhu. 
- Também não, Ma. Fica calma, não vai acontecer nada, você vai ver.
- Promete nunca me esquecer? Nunca me abandonar?
- Prometo. Não abandonaria alguém que amo.
No dia seguinte, Mayra não queria ir pra escola. Tinha medo daqueles olhares de novo. Mas Leandro insistiu que ela fosse, seria melhor pois não levantaria suspeita. Depois de muita coragem para se levantar e fazer o caminho até a escola, Mayra entrou. O corredor não estava tão cheio pois a maioria já tinha entrado na sala.
Ela andou pelo corredor em silêncio, evitando olhar qualquer um que passasse. Mas algo a fez olhar pra frente e viu Leandro de pé, no fundo do corredor. Ele estava parado em frente à sala da diretora. Ele olhou Mayra com aquele tormento no rosto e ela não gostou nem um pouco daquilo.
Ela pensou em ir correndo falar com ele, não importando se alguém visse. Mas a diretora abriu a porta, pedindo para que ele entrasse. Ele olhou novamente pra Mara, dessa vez diferente. Olhou com um sorriso frouxo, mas sorriso como se dissesse "Vai dar tudo certo" e entrou na sala.
Mayra fez o mesmo, entrando na sala de química. Passou por Tom, não ousando olhar para ele. Não era raiva; era vergonha. Novamente se sentou no fundo e não conseguiu se concentrar na aula. Claro que não. Pela pressão toda que ela passasse, sua cabeça imaginava diversas situações. Ela estava com medo, estava com receio. Seu coração doía e ela tinha medo de acabar morrendo de amor. Será que era possível?
No intervalo, Mayra não tirou os olhos do corredor. Procurava Leandro desesperadamente. Mas as pessoas continuavam a fofocar, ela podia até ouvir umas piadinhas que eles falavam alto de propósito, para que ela ouvisse. Assistiu à próxima aula também isolada de todos, não falando nem com Gisely que queria muito ajudar a amiga de alguma forma. Estava olhando pela janela, pensando mil coisas, quando ouviu chamá-la.
- Mayra!
Ela olhou para a professora que apontou para uma inspetora que estava na porta.
- Guarde seu material. - a inspetora disse - Sua mãe está aqui, você vai pra casa.
Mayra não entendeu. Não entendeu mesmo porque sua mãe estava ali e porque ela iria pra casa no meio da manhã, arrumou seu material e foi até a secretaria. Assim que entrou pôde ver sua mãe sentada no banco. E também viu, dentro da sala da diretora que tinha um vidro, Leandro sentado na cadeira, em frente à mesa da diretora. Ele a olhou com a pior expressão que ela já viu. Uma expressão de extrema tristeza e fracasso.
Mayra queria entrar naquela sala para saber o que estava acontecendo mas sua mãe começou a empurra-la pra fora da secretaria.
- Vamos logo.
Mayra e sua mãe voltaram para casa em silêncio no carro. Ela não perguntou nada. Sabia que era algo grave e sua mãe falaria quando quisesse. Ou, melhor para ela, nem comentaria. Mas não foi isso. Quando Mayra entrou em casa, já indo até seu quarto, sua mãe a interrompeu.
- Sente-se no sofá da sala. - disse com firmeza na voz - Agora.
Mayra obedeceu , assustada com a atitude da mãe. Ela sentou-se e sua mãe permaneceu de pé na frente dela. Teresa respirou fundo e colocou a mão na cabeça.
- Será que eu errei como mãe? Será que... eu não sei ser uma boa mãe? Criei um monstro?!
Mayra ficou chocada. Sabia que sua referia-se a ela.
- Mãe, do que você tá falando.
- De você!!! De você e suas atitudes!! Me diz, Ma, o que eu fiz de errado pra você ser assim?!? Primeiro são as aulas! Matando aula direto. Eu sei quantas aulas você já matou! Milhares! E agora.. agora... isso...
Teresa teve que respirar. Estava em choque.
- Você tendo um caso com o professor.
Mayra sentiu sem mundo desabar. O tom da voz de sua mãe, dizendo isso como se fosse um pecado.
- Como isso aconteceu, Ma?! Como você pôde ser tão irresponsável??
- Mãe, não tem nada de errado.
- Como não??? Como não tem?? Ele é seu professor, mas velho que você!
- O papai tinha dezessete anos a mais que você!!
- Mas eu não tinha 17 quando o conheci!! Por quanto tempo que vocês estão juntos??
- Quatro meses.
Teresa deu uma espécie de pulo pra trás, espantada.
- E vocês transaram?
- Mãe...
- RESPONDE!!!
- Transamos.
Ela tapou a boca com a mão. Respirou fundo novamente.
- Eu olhei para aquele homem... Falei com aquele homem. A diretora me chamou e me fez encara-lo. Senti nojo ao imaginar vocês dois juntos.
- Não fale assim dele, mãe.
Ela olhou Mayra.
- Eu o amo.
Teresa tremeu os lábios, aproximou-se de Mayra e deu-lhe um tapa no rosto. Mayra não sentiu dor por não acreditar que sua mãe fez isso. Olhou-a com os olhos molhados, de tristeza com tudo que estava acontecendo.
- Vá para seu quarto. E não saia de lá até eu mandar.
Teresa também tinha os olhos molhados. Mas Mayra ainda sentia mais tristeza. Uma tristeza que agora se misturava com ódio e rebeldia. Ela subiu para seu quarto.
As duas não trocaram palavras por dias. Sua mãe nem se despedia quando ia ao trabalho. Saía de casa e trancava todas as portas, para que Mayra não saísse. Ela não ia pra escola fazia quase uma semana. Ficava em casa o dia inteiro, chorando de saudades de Leandro.
Era uma terça-feira quando Teresa entrou no quarto, acordando Mayra. Não disse nada além de:
- Se arruma, você vai pra escola hoje.
Mayra não reclamou da decisão de última hora de sua mãe. Ela queria muito ir à escola. Mesmo que não deixassem ela falar com Leandro, que colocassem uma grade de proteção na sala de Sociologia, ela queria ir. Apenas para vê-lo, ou saber que está debaixo do mesmo teto que Leandro.
Não entrou no colégio sorrindo. Apesar da esperança, não tinha o porquê dela estar feliz. Estava nervosa. Sabia que sua primeira aula era Sociologia, a melhor matéria que ela já teve. Não sabia o que ia falar quando entrasse por aquela porta. Só queria matar as saudades de Leandro.
Abriu a porta já sorrindo, imaginando ver Lê encostado na mesa como ele fazia, com as mãos no bolso sorrindo para cada resposta certa que Mayra dizia. Mas não. Entrou e viu toda sua turma, as mesmas pessoas - Gisely, Tom - exceto por uma: havia uma senhora, de uns cinqüenta e poucos, baixinha, junto ao quadro.
- Bom dia. É aluna nova?
Mayra piscou os olhos, como se aquilo fosse um sonho, uma miragem.
- Qual seu nome?
- Ma-ma-mayra.
- Bom dia, Mayra. Eu sou a senhora Truman, professora de Sociologia. Fique a vontade.
Mayra tremeu os lábios. Olhou a turma, olhou Gisely com o rosto de tristeza pela amiga e voltou a olhar a senhora Truman. Não era Leandro. Era apenas uma senhora. Os olhos dela ficaram encharcados e ela prendia o choro.
- Mayra, tudo bem?
Ela ia dizer algo, mas as palavras não saíam. Só as lágrimas. Senhora Truman não soube o que fazer ao ver Mayra chorar. Mas mês mo assim, não poderia fazer nada. Mayra saiu da sala, correndo pelo corredor desesperada, deixando seus livros caírem no chão sem se importar. Correu até a secretaria e se debruçou no balcão.
- A diretora. A diretora!
- Calma. - Tina disse ao ver o estado dela. - Calma, menina.
- Eu preciso falar com a diretora!!
- O que está acontecendo?
A diretora abriu a porta de sua sala, olhando aquela cena toda.
- Essa menina --
- Por favor, eu preciso falar com a senhora. - Mayra disse à diretora.
- Acalme-se. Entra na minha sala. Tina, pegue um copo d'água.
Mayra entrou na sala e a diretora fez o mesmo, fechando a porta. Ela sentou-se na sua cadeira e disse para Mayra fazer o mesmo. Ela sentou, ainda nervosa.
- Está tudo bem, Mayra?
- Não! Não esta!!
- Fica calma.
- Cadê ele?
- Ele quem??
- O Lê. O Lê, meu Lê. Cadê o Leandro??
Tina entrou na sala e entregou o copo a ela, retirando-se logo depois. Mayra tomou tudo num gole e voltou à pergunta.
- Onde ele está?
- Mayra, fica calma. Sua mãe não lhe contou?
- Não, o que? O que???
- O senhor Scornavacca, depois do ocorrido, perdeu sua licença.
- Que licença??
- De professor. Não pode mais dar aula.
Mayra continuava nervosa.
- E onde ele está? Na casa dele?
- Não. Indicamos ele para uma empresa... fora da cidade.
- Fora da cidade?
- Em Minas.
- Mi-minas?
Mayra pensou que fosse desmaiar. Via pontos pretos. E a diretora também pensou de tão pálida que ela estava. Tiveram que leva-la até a enfermaria e depois para casa.
- Mayra Susenko, turma de Publicidade.
Mayra se levantou e foi até o palco, receber seu diploma e cumprimentos dos professores. Juntou-se aos outros amigos que já tinham recebido seu diploma. O auditório estava cheio e depois da entrega de todos os diplomas, Mayra posou para fotos com o pessoal da sua turma.
E logo depois da formatura, vinha a festa. Agora sim, ia ser divertido. Ela vestiu seu vestido.longo azul-marinho com detalhes brancos, um penteado caprichado. O salão era enorme, iluminado e com o som bom. Mayra curtiu com todos os amigos, dançando até os pés começarem a reclamar.
- Vou pegar algo para beber! - ela disse pra amiga.
- Tá bom!
Mayra se afastou da pista e foi até a mesa onde serviam as bebidas.
- Vinho tinto, por favor. - ela pediu ao garçom.
- Aqui está.
Mayra pegou o copo.
- Parabéns pelo diploma.
- Ah, obri --
Mayra chego u pra trás com o susto, esbarrando na mesa de bebidas.
- Calma.
- Não acredito.
Leandro sorriu, do jeito que só ele sabe.
- Você... 
- Sou eu.
Leandro sorriu mais ainda. Mayra se lembrava daquele sorriso, mas agora estava diferente. Leandro estava diferente, de terno social.
- Você está bonita.
- Você... também. Não mudou o cabelo, é?
- Nunca mudarei.
Leandro sorriu de novo. Mayra não conseguia sorrir, não por estar triste ou algo assim é que a surpresa era tanta que não tinha espaço pra alegria.
- O que você está fazendo aqui?
- Minha sobrinha se formou. Sarah, conhece?
Mayra negou com a cabeça.
- Eu vim, então. Vejo que você conseguiu se formar numa boa faculdade.
- Graças as minhas notas... Nossa, faz tanto tempo...
- É mesmo.
- Seis anos. Nossa, sinto falta daquela época.
Leandro olhou sério, no fundo dos olhos dela.
- Ma... Gostaria de sair para jantar?
- Jantar?
- É... Podíamos relembrar os bons tempos e... conta r sobre nossas vidas presentes.
- Sua namorada não se importa?
Leandro sorriu.
- Não tenho namorada.
- Nem esposa?
Leandro negou com a cabeça.
- E você?
- Também estou sem ninguém.
- Que bom.
Mayra deixou o sorriso escapar.
- Bom, então... quer meu número?
- Não é o mesmo?
- Claro que não. Me mudei.
- Sério?
- Acha que ia aturar minha mãe?
Leandro riu.
- Anota aí.
Ele anotou o número e prometeu ligar. Mayra voltou para a festa e não viu mais Leandro, pois estava bem cheia.
No dia seguinte, Mayra ainda não acreditava. Por mais que quisesse, não acreditava. Ela sonhava com essa volta de Leandro durante todos esses anos, mas sempre achou impossível. Era só em filmes, ela pensava. Mas nunca desistiu...desanimou, mas nunca desistiu.
Vestia um vestido preto básico, elegante e sensual, do jeito que ela queria. Tinha que admitir que estava nervosa. E muito. Essa noite não seria qualquer noite, eles iriam vasculhar todo o passado deles. E que passado.
Ouviu a buzina do lado de fora. Deu uma última olhada no espelho e suspirou.
- You go, girl.
Mayra saiu de casa, trancou a porta e assim que se virou, o choque. Viu Leandro encostado no seu carro, aquele mesmo escuro de seis anos atrás. Encostado com as mãos no bolso, a camisa balançando com o vento fraco que batia. Mayra sentiu seu coração disparar. Que homem era aquele? Aproximou-se devagar, enquanto Leandro matava as saudades de cada curva do corpo dela, agora mais bonita ainda. Ele também não acreditava. Sorriu. Aquele sorriso discreto do Leandro. Mayra parou bem em frente a ele.
- Você está muito bonita. Linda.
- Lê... eu tentei, mas não consegui resistir.
Antes que Leandro pudesse perguntar porque ela falou aquilo, Mayra segurou o rosto de Leandro, puxando-o para junto do seu e fazendo os lábios dos dois se tocarem, encaixando-se direitinho, feitos sobre medida um para o outro. Leandro abraçou Mayra com força e com carinho. Muito carinho. Eles afastaram os lábios e Leandro olhou-a nos olhos.
- I missed those lips......

By: Mayra

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