Como esperávamos por isso!

Reveillon, era quase uma tradição, eu e minha família passávamos sempre esta data no sítio em Paranapanema. Era o primeiro 31 de dezembro que eu passava com o meu namorado, havia comprado um vestido lindo e o branco da roupa contrastava com o meu bronzeado como eu imaginava. Eu tinha 16 anos, Felipe era meu primeiro namorado, já namorávamos a mais de 6 meses então imaginava que aquela seria a minha primeira noite de amor eu realmente gostava muito dele e já estava segura quanto a isso...

Havia acabado de me arrumar...

- Mãe, você sabe onde tá o Felipe?- disse entrando no quarto dela.

- Não filha, mas ele deve estar lá fora...

- Tô bonita?- disse dando uma voltinha.

- Mais linda impossível...

- Então vou procurá-lo!- dei um beijo em minha mãe e saí.

Acabei achando meu namorado, percebi que ele estava um pouco “animado demais”, mas não me importei muito, fui conversar com uns primos, quando de repente ele me puxa.

- Cris, vem aqui!- disse me puxando pelo braço.

- Dá licença gente... o que foi Felipe?

- Você acha que eu não tô percebendo não, é!

- O que???

- Você se insinuando com esse vestido curto e transparente...

- Insinuando? Mas pra quem? Aqui só tem praticamente minha família...

- E também tem isso você nunca passa Reveillon com a minha família, você nunca cede...

- Mas Felipe esse é o nosso primeiro Reveillon juntos!

- Não interessa...

Não adiantava, tudo que eu falava ele achava ruim, punha algum defeito ou me xingava, desde que ele havia me puxado pelo braço naquela noite já havia estragado o meu Reveillon, mas fui levando, tentando disfarçar, e para não piorar mais, evitava ficar no campo de visão dele...

Então mais ou menos há uma hora da meia-noite, fui buscar a máquina fotográfica no meu quarto, e sem eu perceber ele veio atrás de mim, parecia minha sombra.

- O que você veio fazer aqui?

(dei um suspiro, já estava com raiva)- Pegar a máquina!

- Pra que?

- Pra quê? Deve ser pra comer!- não olhava pra ele.

- Você não fala assim comigo!- ele se alterou.

- Ahh não... - disse irônica e fui saindo.

- Volta aqui!- ele me puxou.

- Ai, você tá me machucando.

Quando ele me puxou deu um tapa no meu rosto, eu cai na cama e ele no chão de tão bêbado.

- Você nunca mais faz e nem fala nada comigo.- disse com raiva e chorando.

Eu saí correndo, ele até tentou ir atrás de mim, mas como estava muito tonto não agüentou e caiu no portão do sítio, eu corria e chorava muito, até que não agüentei mais, me sentei no passeio da rua, não sabia o que fazer, mas não voltaria pra casa antes que ele saísse.

Enquanto isso bem perto de mim, apenas a algumas ruas de distância a família Scornavacca também esperava aqueles últimos minutos pra comemorar seu Reveillon.

- Franco, está faltando algumas coisas na nossa festa. Será que dá tempo de ir comprar?- Regina cuidava de tudo.

- Acho que sim... Leandro!!!- Franco chamava seu filho.

- Oi pai, o que é?

- Filho, sua mãe disse que está faltando algumas coisas, aqui está a lista, você pode ir lá?

- Claro pai!

- Filho não corre, hein!- alertava Regina.

A mercearia mais perto não era tão longe, mas devido o tempo Leandro realmente deveria ir rápido. Na volta das compras, passando por um outro caminho Leandro me vê.

- Nossa! O que será que essa menina está fazendo no meio da rua há essa hora sozinha?- ele pensava, hesitou um pouco em parar, mas acabou diminuindo a velocidade e parando.

- Oi!- disse ele abrindo o vidro do carro.

- eu só chorava de cabeça baixa e então ele saiu e se sentou ao meu lado.

- Oi! É Reveillon, porque está triste?

- então resolvi olhar pra ele.

- Você tem sítio aqui perto?- ele insistia...

- Como você sabe?- me assustei...

- Uma garota bem arrumada, não estaria tão longe de casa na noite de Reveillon!

(dei um sorriso por perceber que a minha pergunta era idiota!)- É verdade, eu tenho, mas não pretendo voltar pra lá... pelo menos por enquanto.

- Porque?

- eu o expliquei o que havia acontecido, precisava desabafar e também percebi que ele era uma boa pessoa... nós acabamos conversando mais do que devíamos, Leandro esqueceu de levar as coisas pra casa e quando menos percebemos alguns fogos de artifício iluminavam o céu. Foi aí então que nos lembramos da data.

- ainda estava triste com a cabeça baixa.

- E aí? Não fica assim, se anime! É ANO NOVO!!!- disse ele me levantando e abraçando.

- Feliz Ano Novo. - disse desanimada.

- Você quer ir pra minha casa?

- Sua casa? Eu acabei de te conhecer...

- Pra mim não tem problema. E você disse que não quer voltar pra casa.

- fiquei pensativa...

(ele deu a volta no carro e abriu a porta do passageiro)- Vamos?

Eu não tinha nada a perder e ainda era perto do meu sítio pelo menos eu me distraía.

No caminho fomos conversando...

- Quando chegar posso ligar pro meu sítio? Minha mãe deve estar preocupada.

- Claro!

Então chegamos, ele foi cumprimentar e desejar Feliz Ano Novo a toda sua família, eu fiquei “boiando”...

- Leandro, quem é essa gata?- Bruno cochichava.

- Ahhh, minha mais nova amiga! Vem cá...(disse Leandro me chamando)

- É... Cristiane! Nem te disse meu nome, né!

- É verdade, o meu é Leandro, esse é meu irmão mais novo Bruno!

- Prazer!

- O prazer é todo meu!- Bruno “receptivo”.

- É... Leandro! Posso ligar pra minha mãe?

- Claro, vem aqui.- ele me mostrava o caminho.

Ele me levou até o quarto dele.

- Aqui no meu quarto é mais tranqüilo, longe do barulho.

- Ahh, obrigada, prometo que é rápido.

- Fica a vontade.- ele saiu e encontrou Bruno na porta.

- E aí cara, quem é essa mina?

- Pô Bruno quando eu tava voltando vi ela sentada na calçada e resolvi parar, ai a gente conversou e ela me disse que tinha brigado com o namorado, íiii mó história!

- Tá a fim?

- Credo Bruno, só pensa nisso.

- Vai dizer que parou à toa?- Bruno não acreditava...

- Parei à toa, não sou que nem você!

- Porque se fosse estaria bem melhor!- Bruno provocava e ria.

- Idiota! Vai dar uma volta! - Leandro deu um cascudo e saiu empurrando o irmão.

Nisso Cris saia do quarto...

- Ligou?- ele disse preocupado.

- Liguei, estavam todos atrás de mim...

- Então você fica!

- Fico sim...

- Então vamos lá pra fora...

Ainda estava um pouco constrangida com a situação e também triste pelo acontecido com o meu namorado, mas a família do Leandro era muito legal, me receberam super bem, ele tinha um irmão muito alto, mas muito legal e todos o chamavam de Kiko, e o outro que eu já havia conhecido, o Bruno, era muito brincalhão, não tinha passado nem 10 minutos e ele me tinha feito esquecer e me deixado super à vontade. Seus pais eram uns amores...

Já era quase umas quatro da manhã, só os jovens ainda estavam acordados batendo papo em roda.

- Leandro, preciso ir embora, já está tarde!

- Que isso! Fica mais...

- Eu adorei, mas preciso mesmo ir...- disse me levantando.

- Então eu te levo!

- Não precisa... isso já é abuso, você me trouxe e ainda me leva, eu vou a pé mesmo.

- Nada disso, ficou doida de sair a essa hora sozinha!

Então acabei aceitando. Me despedi de todos que estavam acordados, eles pediram pra eu voltar no outro dia, respondia positivamente por educação mas nem sabia ao certo se ia vê-los de novo. Na porta do meu sítio...

- Então... gostou do Reveillon?

- Demais! Nossa Leandro, muito obrigada viu! Você foi um anjo...

- Vamos nos ver de novo?

- Agora você já sabe onde é meu sítio!

Um silêncio... ficamos nos olhando, minha carência se juntou ao extinto protetor dele, e um beijo foi inevitável! Na verdade, até aquele momento não tinha nem cogitado a hipótese de ficar com ele, e acho que ele também não, mas na ocasião faltava alguma coisa... e o beijo foi bom, muito bom... nos despedimos só com aquele beijo, a noite adormeci pensando nele. Meus sentimento se confundiam, mas depois percebi que aquele beijo foi apenas um beijo, e vi que o enorme carinho que eu sentia por ele continuaria sendo apenas um enorme carinho, que aquilo teria sido um engano devido as circunstâncias em que nos conhecemos, por ele ter me ajudado, me protegido.

No outro dia ele foi me buscar no meu sítio, meu ex-namorado já não estava mais lá, fiquei o resto das férias indo ao sítio do Leandro e ele no meu, as famílias se conhecendo, não ficamos mais, e assim, nasceu uma enorme amizade!

Passaram-se uns 5 anos, eu tinha 20 e ele 22, e nós conversávamos muito sobre a nossa amizade, e com isso ela foi ficando mais forte e mais especial... mas o engraçado é que nunca tivemos coragem de tocar no assunto do beijo, havia ficado por isso mesmo...

E um outro dia...

- Alô!

- Alô! Quem é?

- Ué, já se esqueceu de mim, Cris?

- Ahhh, Lê, desculpa é que eu tô fazendo um trabalho importante pra faculdade e nem prestei muita atenção na voz.

- Nossa que consideração...

- Quê isso, você sabe que eu te adoro... mas então o que te fez me ligar?

- É, eu queria te convidar pra assistir o Senhor dos Anéis comigo. Só você que vai ao cinema comigo... o Kiko não gosta, o Bruno fica só olhando as meninas...

- Mas são três horas e meia de filme, Lê!

- E daí, melhor ainda... Vâmo, vai?!?

- Olha... eu posso até ir, mas eu tenho que voltar cedo pra terminar meu trabalho, viu!

- Tudo bem, passo aí daqui a pouco porque a sessão é das seis da tarde...

- Tá jóia. Beijo, tchau!

- Outro pra você, tchau!

Assistimos ao filme e depois fomos fazer um lanche para irmos embora.

- Cris, eu vou escolher comida chinesa e você?

- Hummm, acho que vou querer te acompanhar! Tem tanto tempo que não como comida chinesa...

Ele sempre era muito observador, e enquanto eu praticamente “devorava” a comida ele me olhava.

- Lê, pára me olhar assim... eu ainda tenho um trabalho pra fazer, ou você se esqueceu?

- Você fica mais linda enquanto come!

- Você e suas teorias... - e não dava muita bola pras cantadas dele, pra mim era só brincadeira...

Era sempre assim, depois que eu e o Leandro nos conhecemos, ficamos muito grudados, amigos mesmo. No começo nossos pais achavam que íamos namorar pelo fato de termos nos conhecido de uma forma tão diferente. Mas aí fomos ficando tão amigos e acho que eles desistiram da idéia... Chegava até ser engraçado, outro dia eu resolvi passar um final de semana na casa dele (a convite dos pais dele! Não sou tão intrometida!) e estavam todos na sala: Eu, Leandro, os seus irmãos Kiko e Bruno e seus pais Regina e Franco, só que já estava tarde e decidi ir dormir. Quando já estava deitada na cama com os olhos fechados, quase pegando no sono... Leandro bate na porta e entra já me bombardeando com um monte de assuntos que eu nem prestava atenção, e só depois de ter falado muito...

- Cris... cê tá acordada!- ele disse parado na frente da cama com os braços cruzados.

- Ai Leandro, por favor, me deixa dormir!- disse me virando e tampando o rosto.

- Credo! Tudo bem já tô saindo...

Foi só eu escutar ele bater a porta do quarto dele que eu me lembrei de um assunto pra contar a ele. Lá ia eu correndo...

- Lê... posso entrar?- disse parada na porta.

- ele nem respondia se fazendo de chateado... - deitado mexendo no seu notebook.

- Ai Lê... me desculpa vai... é que eu lembrei de uma coisa pra te contar.

Sentava no chão encostada na cama (nem me preocupava se ele queria ouvir ou não, se estava ocupado ou não) e ele sempre largava o que estivesse fazendo, se sentava ao meu lado e então conversávamos sobre tudo. Já aconteceu de eu até dormir no quarto dele e acordar toda dolorida por ter ficado conversando a noite toda. Ou ele chegar de madrugada no quarto em que eu dormia na casa dele e...

- Cris... Cris acorda!- ele sentou na cama.

- Ai Leandro, o quê que é? São quase quatro horas da manhã.- dizia esfregando o olho...

- É que eu não consigo dormir, tô sem sono...

- E eu com isso? Vai contar carneirinhos...- disse me virando pro outro lado.

- É idiota... mas já tentei, não consegui. Vamos jogar vídeo-game?

- Vídeo-game?

- É, vamos!!!

Então ele insistia e eu acabava indo jogar vídeo-game com ele mesmo que fosse as quatro da manhã... Mas antes a gente sempre ia pra cozinha arranjar alguma coisa pra comer. Ele sempre fazia graça e colocava até chapéu de cozinheiro.

- O que vamos fazer hoje?- cochichava...

- Hoje vai ter três tipos de pipoca!

- Hummm, o cozinheiro esta inspirado hoje?

- Claro! Sempre estou inspirado...

- Mãos a obra!

Pegamos o milho (só pra fazer mais bagunça), e separamos os sabores, chocolate pra mim, salgada comum, e de manteiga pra ele.

- Pode deixar que eu faço a minha de chocolate viu cheff Leandro!

- Ahhh, não tá acreditando nos meus dotes culinários, é?!?

- Não, é isso, só não quero ficar passando mal depois...hahaha

- Tudo bem... mas também não deixo você comer da minha especialidade, pipoca de manteiga!

- Tudo bem... então pega o chocolate em pó.

Quando ele foi abrir o pote, derramou chocolate na cozinha toda, aí não pudemos nos conter e começamos a rir, só que tínhamos que rir baixo pra não acordar a casa toda e isso era praticamente impossível, mas com muita sorte ninguém acordou e nós fomos para o quarto dele e ficamos jogando video-game e comendo pipoca até amanhecer.

Nós morávamos no mesmo condomínio e essas nossas “aventuras” eram quase que constantes...

Outro dia ele chegou na minha casa foi até o meu quarto, eu estava estudando, ele apenas se sentou na cama, eu esperava que ele começasse a me atrapalhar, mas ele não disse nada, continuei algum tempo mexendo no computador, mas depois não resisti a aquele silêncio horrível entre nós e fui conversar com ele.

- Porque você está assim tristinho, hein?- disse parando de estudar e me sentando ao lado dele.

- Deixa pra lá... eu estou te atrapalhando, pode voltar a estudar.- ele disse se levantando.

- Deixa prá lá nada. - disse puxando ele.

Ele voltou e foi logo deitando no meu colo me pedindo um cafuné. Então ele desabafava enquanto eu mexia nos cabelos dele.

- Cris, porque as mulheres são tão difíceis, hein!

- Leandro não exagera, né! Mas pra quê você foi se meter com aquela Melissa também!

- Como você sabe que é dela que estou falando?

- Ahhh, até parece segredo e você sabe que ela já ficou com mais da metade do condomínio.

- É verdade, eu que acredito demais nas meninas... as vezes acho que a única em que eu posso confiar é em você!

- Até parece, seu bobo... um dia você acerta...

Era uma amizade tão legal, tão desencanada!

Até que em um dia que o Leandro e o Bruno estavam sozinhos eu resolvi ir até lá. Só me lembro que o Leandro também saiu e, quando eu estava na sala o Bruno chegou.

- Vim ficar com você pra você não ficar com medo.

- Ahhh, medo! Você está rindo de mim, né! Já conheço essa casa toda talvez até mais que você!

Então conversa vai, conversa vem... de repente quando eu estava distraída procurando um CD pra colocar no som, o Bruno chega e me abraça por trás...

- Ai, Bruno! Que susto!

- Já disse que te protejo.

Ele me largou um pouco, mas quando fui virar dei de cara com ele, ficamos nos olhando alguns segundos até que ele me beijou subitamente, aquilo pra mim era super estranho, eu nunca esperava que ele fosse fazer aquilo, mas até correspondi. O beijo estava muito bom, quando escuto a porta se abrir, era o Leandro chegando. Eu e Bruno paramos de nos beijar, Leandro ficou surpreso e foi pro quarto. Não sei porque, mas não tive coragem de ir lá falar com ele.

- Ai Bruno, me leva em casa! - disse envergonhada.

- Ahhh, mas porque agora?

- Tô cansada...- tinha sido tudo muito estranho, alguma coisa me deixava sufocada...

- Tudo bem.

Então ele me levou em casa, nos demos mais alguns beijos no portão de casa e a noite aquilo ficou martelando na minha cabeça. Eu era super amiga da família, muito amiga do Leandro, mas quando percebo tô ficando com o Bruno!

Não agüentei e liguei para o celular do Leandro. Ele viu pelo identificador de chamadas que era eu, hesitou um pouco mas acabou atendendo, totalmente frio.

- Oi!

- Credo Lê, fala alguma coisa...

- Você é que tem que falar, foi você que me ligou...

- O que você acha do que aconteceu hoje? (nem precisei entrar em detalhes)

- Você que sabe Cristhiane... (quando ele me chamava de Cristhiane eu já podia saber que ele não estava muito satisfeito...).

- Tá brigada! - a conversa não fluía normalmente, eu não estava nada confortável então decidi desligar.

- Tchau!- ele nem me mandou um beijo, me senti fraca.

Pelo Leandro ter visto a cena que viu, acho que o Bruno ficou achando que seria pressionado pelos nossos pais e me pediu em namoro. Eu também meio abobada com aquela situação toda aceitei... no começo era até desconfortável... eu já não ficava horas no quarto do Leandro conversando e sim no quarto do Bruno namorando... era legal eu fui percebendo que o Bruno não era só um moleque que brincava com tudo, fui conhecendo o jeito mais romântico dele. Fui levando... já se fazia quase um ano e meio que namorávamos e eu ainda não tinha mesmo certeza sobre meus sentimento, ao mesmo tempo que sabia que não era um amor tão forte, me pegava com ciúmes do Bruno... Minhas conversas com o Leandro foram voltando à normalidade.

Os irmãos Kiko, Leandro e Bruno planejavam montar uma banda e com isso precisariam de um corpo de ballet. Quando umas amigas das minhas amigas ficaram sabendo disso, vieram correndo atrás de mim como loucas atrás de uma vaga. Uma delas se chamava Paula, ela me infernizava tanto que acabei tendo que apresentá-la ao pai dos meninos. Franco então com todo o seu profissionalismo, fez uma bateria de testes e para minha surpresa a tal da Paula passou.

Bom, minha vida foi tomando um outro rumo, eu passei a dividir meu tempo com o Bruno pra ficar conversando com o Leandro. Então e Paulinha como ela já era chamada por todos ficava de cochichos e segredinhos com o Bruno. Eu fui levando, às vezes com ciúmes de alguns abusos dele e dela, mas ia levando, porque toda vez que eu ameaçava falar que não gostava de alguma coisa que ele fazia com ela, ele jogava na minha cara que eu ficava mais trancada no quarto do irmão do que com ele, algumas brigas já aconteciam entre nós.

Até que um dia quando chego na casa deles de surpresa lá estava a Paulinha conversando com o Bruno na varanda lateral da casa, escuto muitas risadas, resolvo ir andando de mansinho sem que eles me vissem.

- Bruno, você não gosta da Cris de verdade, né!

- Porque a pergunta Paulinha?

- Ahhh, se gostasse mesmo não deixaria ela ficar tanto tempo com seu irmão. - ela dizia se aproximando e se insinuando pra ele.

Foi quando eles ficaram próximos, juntos e se beijaram, eu saí correndo e deixei cair meu celular, entrei batendo algumas portas procurando pelo Leandro. Quando o Bruno percebeu que eu tinha visto tudo queria vir trás de mim só que ela o impediu o convencendo de que não era uma boa hora.

Entrei no quarto do Leandro, tranquei a porta, sentei atrás da porta chorando, ele escutou o barulho, saiu do closet só de short e despenteado e foi logo me ajudar a levantar.

- O que foi Cris?- disse preocupado.

- Ai Lê...- eu nem conseguia falar, só chorava.

Ele foi até o banheiro me trouxe um lenço me sentou na cama, puxou uma cadeira, se sentou na minha frente e me abraçou.

- Fica calma, depois você me conta.

Fiquei um tempo abraçada com ele, aquele abraço revigorava, acalmava e me acolhia...

Quando já estava mais calma, ele levantou meu rosto, limpou algumas lágrimas que insistiam em rolar, me olhou dentro dos olhos e disse:

- Seja o que for, não vale a pena chorar... pode me contar agora?

- Quando eu cheguei o seu irmão estava lá fora com a Paulinha...- contei tudo...

Depois daquele dia eu terminei com o Bruno e a situação ficou bem chata e eu bastante triste.

- Cris, vamos ao shopping? - Leandro tentava me animar, sabia que eu não perdia shopping por nada...

- Ah Lê, não tô com cabeça...

- Vamos, você se distrai...

- Tá bom...

Chegando no shopping tinha uma feira de esoterismo e eu adorava essas coisas.

- Lê, naquela tenda tem uma vidente. Vamos, lá comigo! Vamos...

- Ah Cris, eu não acredito nessas coisas... mas já que você insiste.

Leandro se sentou num sofá um pouco distante, fiz várias perguntas sobre família, saúde, profissão, mas quando perguntei sobre amor...

- Gostaria de saber sobre amor, já tive várias desilusões.

- Querida! Você já teve muitas desilusões porque seu amor, sempre esteve com você...

Saí um pouco preocupada, eu não conseguia enxergar quem era, pra mim o Leandro não se passava de um grande amigo e, com o Bruno eu já não queria mais nada... então não sabia quem era e resolvi não pensar muito no que a vidente havia me falado.

Passou um tempo e eu decidi me mudar do condomínio para que eu não me empolgasse e fosse toda hora a casa deles e corresse o risco de encontrar com a Paulinha e também com o Bruno.

- Alô, Cris?

- Oi Lê, como vai?

- Nada bem...

- Porquê?

- Você me abandonou...

- Ahhh Lê, deixa de ser chantagista vai! Você sabe que eu não te abandonei, eu só resolvi me mudar pra não correr o risco de ir aí toda hora e encontrar com aquela... você sabe quem.

Outro dia estava sozinha em casa quando o Leandro chegou. As horas foram passando, nós já tínhamos assistido a um filme, eu estava sentada no tapete da sala encostada no sofá, ele voltava da cozinha com mais pipoca quando eu encostei minha cabeça pra trás no sofá e fechei os olhos de cansada.

- Trouxe mais pipoca. - disse ele se sentando ao meu lado.

- eu apenas abri a boca pra que ele me desse pipoca na boca.

- ela já estava pegando uma pipoca pra colocar na minha boca quando desistiu... hesitou um pouco... e me deu um beijo.

Eu também não esperava mais aquele beijo me possuía, era muito bom, foi beijo safado, beijo guloso, beijo demorado, beijo carinhoso, beijo querendo mais beijo, beijo de não pára, no momento do beijo me lembrei como era bom sentir o que eu estava sentindo e não sabia bem ao certo o que era, até que paramos.

- fiquei olhando ele, o seu sorriso maravilhoso, seus olhos, nariz, esperando que dissesse alguma coisa...

- Eu sempre te amei, mas não sabia que era tanto, Cris!

- então ele me fez chorar só com aquelas palavras.

Lágrimas, primeiro de medo, um medo profundo de que nós pudéssemos nos machucar. Depois de alegria, uma alegria natural, que transbordava do meu coração, quando me senti amada. Eu demorei para perceber, mas naquele momento percebi que havia esperado por isto. Desejei ouvir. Várias vezes, quando pairava o silêncio em nossas conversas, meu coração ficava atento, esperando... E ele não dizia, mudava de assunto. Hoje, foi inesperado, talvez por isto melhor e mais especial. Por ele ter tido coragem para dizer, significa que já é um amor bem grande, senão ele não diria, como não disse este tempo todo, enquanto teve dúvida. Agora tudo se encaminhava, fazia toda a diferença. Então eu disse isso tudo que eu sentia a ele. Ficamos daquele jeito, somente nos beijando e deixando nossas mãos explorarem onde quisessem, fizessem o que bem entendessem pela casa toda.

Acordei no dia seguinte lembrando daquela noite. Estava ainda meio sonolenta quando ele chegou na porta do quarto, me olhou, eu o olhei, esfreguei os olhos, sentei na cama me cobrindo com o lençol, o olhei de novo...

- Sou a pessoa mais feliz por ter vivido isso com você. - eu disse radiante.

- ele sorriu magicamente, veio ao meu encontro, me deitou de novo na cama e nos beijamos mais e mais...
Agora já não guardava mais rancor de ninguém, poderiam vir quantas Paulas que fossem, que ao lado do Leandro me sentia totalmente segura, voltei a freqüentar a casa dele, até que em um dia de festa, na sala com muitas pessoas eu olhava alguns porta-retratos enquanto ele buscava alguma coisa... quando ele voltou, me abraçou por trás e disse:

- Canta pra mim!

- virei de frente pra ele: - mas o cantor aqui é você! Passei o dedo na ponta do nariz dele e saí andando. Ele me segurou pelo braço, eu o olhei e ele fez uma cara de criança pidona sem desistir do que queria, olhei pela sala tentando mostrá-lo que estava lotada e que seria ridículo. Ele não quis saber, não me soltou, então, eu toda tímida pela situação inesperada, mas com o peito explodindo, me “escondi” com ele em um cantinho, coloquei meus braços atrás da cabeça dele, ele me abraçou pela cintura e soltei...
" Entre por essa porta agora, e diga que me adora,
você tem meia hora, pra mudar a minha vida,
vem, vambora, porque o que você demora,
é o que o tempo leva...
Ainda tem o seu perfume pela casa,
ainda tem você na sala, porque meu coração dispara, quando tem o seu cheiro,
dentro de um livro..."

Ficamos com os olhos cheios de lágrimas, eu de frente a ele. Mas era delicioso entrar no ouvido e na alma dele através da minha voz. Já tivemos vários momentos musicais, deliciosos, mas, eu lembro desse com carinho, a primeira vez que EU cantei pra ele!

 

By: *Lili* Belo Horizonte

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