|
:: COMO CHIBIAR GAYETAS ::
As Gayetas, bolachas recheadas com doce de leite tinham mercado garantido nas cidades da região missioneira do Rio Grande do Sul (comi alguma gayeta de lanche na hora o recreio). Como o "chibo" (contrabando) se tornara enorme, as autoridades de fronteira intensificaram o controle. Do lado brasileiro, os fuzileiros navais (os temíveis botas marrom) triplicaram a guarda da fronteira e do lado argentino, os soldados da não menos temível "Gendarmeiria Nacional" quintuplicaram a segurança. Em poucos dias, "rareou o chibo". Barco atravessando o rio, depois das seis da tarde, levava chumbo com toda a certeza. Milhares de sacos de Gayeta foram cair na água em Porto Mauá e apareceram boiando lá no Passo, em São Borja. Os chibeiros estavam apavorados, pois sem o "trabalho aquático de repontar mercadorias", como poderiam viver? Estavam tomando mate na casa do Faustino, este, chibeiro velho lá do Porto de Vera Cruz e vários viventes ligados ao ofício, quando chegou o Joãozinho Rigoletto correndo, com a boca nas orelhas de alegria, pois tinha, após passar a noite em claro pensando, encontrado a grande solução. - Indiada. Já tá resolvida a questã. Todos olharam para o rigoletto, sem entenderem até que Faustino falou: - Que questã vivente? A risada foi geral, seguida dos mais diversos comentários: - Vai comprá um avião, Joãozinho?
Perguntou um. O Rigoletto ficou quieto; um pequeno riso, aguardando
o fim dos comentários. - Me admira muito tu, Rigoletto, que tá no mesmo
poblema vir aqui prá falá bobage. Vendo que não tratava-se de piada, os chibeiros pararam para escutar. - Bueno. A idéia é "munto" mais simples que parece: se nóis temo fudido, a castelhanada que vende prá nóis também tá. Conhecendo bem os paissano, tenho certeza que vão se entreverá com nóis na empreitada. - Pegô o Ramon, o correntino, não o manco, e fechô com ele o negócio que "conseste" do seguinte: - Montamo do lado castijo um florão de bodoque feito com um "furquião" de açoita cavalo dos crescido. De cada lado, ponhamo uma câmara inteira de pneu de jipe e uma badana de couro no fundo de por as pedra. - Bueno, um lado tá pronto. - Ponhamo elas levantada, na grimpa das arve na nossa barranca e de noite a indiada do Ramon se atracaa atirá pacote de gayeta por riba do rio e nóis só vamo tirando eles de dentro das rede. Quando terminou de expôr su estratégia, só teve tempo de pegar a boina missioneira que tinha tirado da cabeça e sair correndo com todo o bando de chibeiros de atrás. Corria tentando acalmar a xiruzada, dizendo: - Calma... calma, as câmara de jipe eu já arrumei na oficina do Valdir e se o rio é largo, os casteiano são forte.
|